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“Eu, sem as Correntes d'Escritas, seria mais pobre.” Não é uma hipérbole: é a medida exata de uma relação construída ao longo de duas décadas. Aos 79 anos, o escritor açoriano, residente nos Estados Unidos há mais de cinquenta anos, revisita a história de um festival que ajudou a descentralizar a vida literária e a aproximar escritores e leitores.
Pelo caminho, o Prémio Vasco Graça Moura 2025 alarga o foco: a crise da democracia, a erosão da autoridade dos especialistas, o papel da universidade, a América em disputa e a urgência de resgatar a literatura ao ruído do presente.
Recorda-se das primeiras edições das Correntes d'Escritas? Que expectativas existiam, à época, quanto ao papel que o encontro poderia vir a desempenhar no panorama literário?
Recordo perfeitamente. Lembro-me sobretudo da primeira edição, em 2000. Caí nela sem pára-quedas, sem saber ao que ia, tal como quase todos os participantes, exceto o Luis Sepúlveda, pois fora com ele que o Francisco Guedes tinha combinado a iniciativa das Correntes. O Francisco tinha assistido a um dos eventos literários liderados pelo chileno em Gijón, Espanha, e ficara entusiasmado a ponto de querer replicá-lo em Portugal. O nosso primeiro encontro teve lugar na Biblioteca da Póvoa de Varzim. Começou com pouca assistência, mas ela foi crescendo porque a notícia foi passando de boca em boca e, no último dia, a sala já abarrotava de gente. Em vez de um evento literário pesado e chato, o público deparou-se com um punhado de comunicadores cativantes, como o brasileiro João Ubaldo Ribeiro, o angolano Manuel Rui, o cabo-verdiano Germano Almeida e, naturalmente, o Luís Sepúlveda, na altura muito conhecido por causa do seu popularíssimo romance O Velho que Lia Romances de Amor. Ninguém, nem sequer a organização, fazia ideia do que esperar nem do futuro rumo a seguir.
O festival consolidou-se enquanto espaço de referência no debate literário? Em que momentos essa consolidação se tornou mais evidente?
O evento foi ganhando público nos anos seguintes. Não tenho a certeza do ano, mas creio que na terceira ou quarta edição pude ficar mais um dia na Póvoa e, num jantar com o Luís Diamantino, a Manuela Ribeiro, o Francisco Guedes e eu, conversávamos sobre a importância de se atrair a comunicação social. Sugeri que o Casino da Póvoa, em vez de nos oferecer o jantar de encerramento que terminava com um espetáculo que nada tinha a ver com literatura, criasse um prémio literário a ser anunciado durante as Correntes. A ideia vingou e, no ano seguinte, a comunicação social começou a acorrer. Depois as editoras aperceberam-se do interesse de lançar livros nas Correntes e foi um tal ganhar de dimensão nacional e internacional, pelo menos no mundo lusófono. Tornou-se, de facto, um “espaço de referência no meio literário” com um alcance notável.
O que mudou na relação entre escritores e público no contexto das Correntes d'Escritas, desde o seu início?
Creio que nada, a não ser o crescimento da adesão do público mas também do número de escritores. Inicialmente ninguém fazia ideia de como um acontecimento literário poderia ser tão interessante. Mas isso ocorreu porque, desde o início, o plano era levar os escritores ao público, estabelecer a comunicação entre eles e os leitores, e isso não apenas dentro da sala, mas também nos intervalos das sessões e no próprio lobby do hotel onde todos ficavam instalados. O público apercebeu-se de os escritores serem pessoas acessíveis com quem se podia conversar amenamente. O crescimento em termos de presença de escritores e de público não alterou o espírito que desde o início marcou as Correntes. A organização, no intuito de o manter, decidiu convidar todos os anos a equipa inicial, mas nem precisava fazê-lo. A equipa organizadora era por si só teria sido capaz de conservar esse espírito; todos os anos ela é alvo de sinceros agradecimentos e elogios por parte de todos os participantes.
Acredita que eventos como as Correntes contribuem para descentralizar a vida literária face aos grandes centros editoriais?
Sim, sem dúvida. E, além da descentralização propriamente dita, há outras vantagens de um evento como este. Uma das componentes do segredo do êxito das Correntes reside no facto de os escritores estarem todos juntos no mesmo hotel, sentarem-se à mesa nos mesmos restaurantes e grande parte deles permanecer na Póvoa durante todos os dias das Correntes. Assim, têm muito tempo para conversar uns com os outros e com o público, e até para assistirem eles próprios às intervenções uns dos outros. Nos colóquios em grandes cidades, cada um faz a sua comunicação e depois desaparece porque tem sempre um programa pessoal. Na Póvoa, durante aqueles dias em convívio constante, gera-se um ambiente de grande familiaridade entre todos.
Olhando para trás, que momento ou edição considera particularmente decisivo na história das Correntes d'Escritas?
O da criação do prémio literário. Aí, houve um salto. Mas o crescimento foi gradual, exponencial, mesmo ao longo dos primeiros dez anos.
E que memórias ou momentos mais marcantes guarda? Uma que não esteja no Correntes D'Escritas & Correntes Descritas...
Creio que nesse livro contei o essencial. Como já vai em três edições, fui sempre acrescentando as novas experiências. Talvez não tenha frisado bastante que gostei deveras de ter conhecido tanta gente interessante, quer entre os escritores quer no público, quer ainda na comunicação social. As Correntes geram um tal ambiente que soltam nos participantes o seu lado melhor. Pode parecer uma ingenuidade dizer isto, mas esta impressão é partilhada pela generalidade das pessoas que lá vão. Quem vai pela primeira vez costuma dizer: Agora percebi que isto só mesmo cá vindo.
Mas posso acrescentar duas ocorridas este ano. Fui, com mais duas escritoras, falar a um grupo de alunos de uma escola de Rates, freguesia do concelho da Póvoa, pois a organização das Correntes faz questão de levar os escritores às escolas. Quando vou, procuro transmitir mensagens através de histórias e, sempre que vem a propósito, uso o humor. A garotada esteve atenta o tempo todo e fez perguntas muito interessantes. No dia seguinte, encontrei o grupo no Teatro Garrett, onde se realizam as sessões das Correntes. Tinha entrado num concurso literário organizado pelas Correntes e saiu vencedor. Entrei no átrio sem ter noção de que a pequenada (de 9 e 10 anos) estava lá para a sessão de entrega dos prémios, quando um dos miúdos gritou: Olha o Onésimo! E, de imediato, vieram todos ter comigo. Mas o que particularmente me tocou foi uma mocita, a Sofia, que trazia na mão um exemplar do meu livro O Século dos Prodígios. A ciência no Portugal da Expansão e me pediu para lhe escrever uma dedicatória. Surpreendido, disse-lhe: Mas isso vai ser muito chato para ti. Como conseguiste esse livro? E ela: Comprei-o. Atónito, acrescentei: Olha, eu ontem contei muitas histórias divertidas, mas esse livro não tem nenhuma. A mocita, com uma encantadora expressão de rosto, respondeu: Eu sei. É para eu ler quando for grande. Fiquei varado, confesso.
Mas nas Correntes estão sempre a acontecer momentos gostosos e também há muito humor. Se posso acrescentar mais uma deste ano, aqui vai: O homenageado foi o José Carlos de Vasconcelos, que foi tema da revista e, em vez da tradicional conferência de abertura, deu uma entrevista moderada pelo editor Manuel Valente e por mim. Colegas de Coimbra, os dois falaram bastante desses anos em que o José Carlos começou a envolver-se seriamente nas letras e na política. Mas também fez teatro e, numa peça, foi escolhido por Paulo Quintela para fazer o papel de Jesus Cristo. O José Carlos descreveu a complicada cena da ressurreição. Quase a terminar a entrevista, que durou uma hora e meia, veio à baila o assunto do Jornal de Letras, que ele fundou e dirigiu durante 45 anos, mas que está suspenso há meses. O José Carlos esboçou a complexidade da situação e as hipóteses de continuidade do JL, deixando uma esperança vaga sobre o seu futuro. De qualquer modo, deu a entender que, com a idade que tem sobre os ombros, não terá muitos anos para estar à frente dele. Então interrompi-o: Ouve lá! Isso não é problema nenhum. Tu és a única pessoa que conheço que já tem experiência de ressuscitar.
Por falar nesse livro, no prefácio, escreveu Luís Diamantino: “Há momentos difíceis de imaginar: as Correntes sem Onésimo”… A minha pergunta vai um pouco no sentido inverso, consegue imaginar-se sem as Correntes?
Começo por dizer que essa tirada do Diamantino é uma boca simpática, mas é só isso. As Correntes são um coletivo. E espero que sejam e possam manter-se assim agora sem ele, que com pena minha não é mais o Vereador da Cultura. Será sinal de que criou algo de sólido. Eu, sem as Correntes, seria mais pobre. Embora economizasse algum dinheiro, porque há anos que faço questão de ser eu a pagar a minha viagem. Acharia injusto ser beneficiado durante tantos anos.
Num contexto contemporâneo marcado pela mediatização e pela fragmentação do debate público, em que medida pode a literatura continuar a exercer uma função interventiva no espaço público? E de que forma iniciativas como as Correntes d'Escritas contribuem para a reconfiguração dessa capacidade de intervenção?
Não só pode como deve ajudar-nos a sair da leitura de tanto lixo nas redes sociais. É uma maneira de mergulharmos com mais profundidade no mundo, no universo das relações humanas e de fazê-lo através de um veículo que só por si nos eleva e nos refina a qualidade dos dias: a boa prosa.
As Correntes contribuem enquanto duram, mas os livros ali vendidos e os que são vendidos como resultado de serem referidos na comunicação social são uma garantia de que esse papel da literatura continua dinâmico.
O lugar da cultura no espaço público parece hoje mais vulnerável à lógica do imediatismo mediático. Que desafios coloca isso à escrita?
Faço sempre questão de dizer que “cultura” tem dois sentidos e esse seu é o antigo de “alta cultura”. Vivemos num mundo em que tudo está a ser nivelado por baixo. Parece que estamos todos ao mesmo nível de baixeza e que ninguém se safa ou salva. Tudo vil, tudo entulhado na lama e pilhado de misérias. A literatura e as artes são uma força que nos permite saltar do pântano e fazer-nos aspirar, imaginar, sonhar com uma vida menos superficial e menos reles. Tenho consciência de ter fugido um pouco à pergunta; todavia, achei importante frisar esse papel da literatura como escape ao imediatismo mediático.
A sua experiência prolongada no ensino superior norte-americano permitiu-lhe observar transformações profundas na universidade. Como avalia a evolução do papel da academia na formação de pensamento crítico nas últimas décadas?
Não presenciei nenhuma transformação profunda na universidade norte-americana. Eu é que fui profundamente transformado quando lá cheguei, no início da década de 70. Deparei com um estilo de universidade que me encheu as medidas. Foi mesmo esse fator o principal responsável pela minha decisão de ficar nos EUA. Naquela altura, em Portugal, os preconceitos contra os EUA, e mesmo contra as universidades americanas, eram imensos e profundamente enviesados. Apercebi-me rapidamente de que só quem não conhecia a realidade universitária americana poderia alimentar tais preconceitos. Duas décadas mais tarde, nos anos 90, em Portugal, convidaram-me a falar sobre a minha experiência universitária americana. Escrevi um texto que até hoje nunca publiquei. Foi imensamente mal recebido porque no público ninguém tinha contacto com os EUA e alguns presentes acharam que eu estava a vender banha de cobra. Foi sobretudo a partir dos finais dos anos 90 que, em Portugal, nas áreas das ciências sociais e humanidades, a atitude anti-americana começou a mudar. Nas ciências naturais, há muito isso já acontecia.
Ao escrever a última pergunta, escrevi americano e corrigi para norte-americano. Em mente tinha o espetáculo do intervalo da Super Bowl, com o músico porto-riquenho a trazer de volta a ideia de América como continente. A disputa em torno da designação “América” reflete tensões mais profundas entre centro e periferia no espaço cultural das Américas?
Creio que não se trata propriamente de tensões, muito embora no mandato de Trump as tensões existam particularmente em relação à emigração latino-americana. Nas Américas Central e do Sul, essa preocupação em diferenciar as Américas é muito antiga. Fazem questão de deixar claro que existe a América Latina e a Anglo-América. Mas também os canadianos têm lutado pela sua diferenciação identitária, pois consideram-se igualmente parte da América do Norte. Por isso, o correto é falar em “Estados Unidos” e “Canadá”. América do Norte refere-se aos dois países. Há muitos, muitos anos que deixei de usar o termo “América” aludindo aos EUA. Curiosamente, os hispano-americanos cometem idêntico erro esquecendo que o Brasil, sendo um país latino, pois é de fala portuguesa, não se considera latino-americano visto hoje nos EUA isso ser sinónimo de “hispânico”. Os brasileiros bem que tentam demarcar-se, todavia sem grande sucesso, porque nos EUA eles são uma minoria (cerca de um milhão e meio), enquanto os hispano-americanos são 68 milhões. Mas mesmo nos países da América Latina é muito comum obliterar a noção de que existe um enorme país não hispânico que é o Brasil.
Pode a cultura popular funcionar como veículo de revisão crítica de conceitos geopolíticos aparentemente estabilizados?
Esta pergunta abre para um tema que exigiria uma resposta em livro. À ideia de democracia subjaz a crença de que cada ser humano é racional, capaz de pensar e tomar decisões racionais. Portanto, o povo vota porque é composto de seres humanos capazes de decisões racionais. Mas fazia parte dessa crença a ideia de que cada ser humano seria capaz de reconhecer o seu lugar e aceitar que decisões em matéria complexa fossem tomadas por pessoas idóneas capazes de decidirem por ele; por isso nelas delegava o seu voto. O que está a acontecer hoje, porém, é a desautorização do poder dos especialistas e a vulgarização da ideia de que que qualquer ser humano tem o direito de opiniar sobre tudo. Atualmente, só conheço uma área em que as hierarquias não são discutíveis: a do desporto. As pessoas acham que um craque do futebol ou um treinador de qualidade merece estar no topo e ser pago milionariamente por ser melhor do que os seus pares. Em tudo o mais, está generalizada a ideia de que a opinião de um cientista sobre a sua área de especialização é tão válida como a de um barbeiro ou de qualquer outra pessoa. Pensando melhor, acho que deveria abrir mais uma exceção; a da medicina. As pessoas quando têm um problema de saúde acreditam que há médicos e médicos. É nessa medida que a cultura popular pode de facto desestabilizar práticas tradicionais, inclusivamente abalar instituições de tradição já secular.
A seu ver, estamos perante uma reconfiguração do imaginário político associado à ideia de América?
O que se está a passar nos EUA não se reduz a esse país. É uma malaise que toca nos fundilhos da conceção de democracia, que é algo ocidental (note-se que, política e culturalmente, a Austrália faz parte do Ocidente). Os EUA estiveram na vanguarda da criação do estado moderno. Foram mesmo o primeiro estado moderno pois, embora fruto de valores proclamados na revolução francesa, anteciparam-se na aplicação prática do seu ideário. Com as transformações surgidas com a revolução informática e com o poder adquirido por cada indivíduo, que até há pouco era apenas um consumidor da informação produzida por alguns canais, agora qualquer cidadão é capaz de criar ou inventar verdades e lançá-las no mercado, desestabilizando assim as estruturas tradicionais desenvolvidas ao longo de séculos. Gerou-se um universo onde não parece haver nem rei nem roque e cada opinião aparenta ser tão boa como as outras e é, aliás, imposta como verdade. Isso, que teve início nos EUA, é hoje um problema internacional. As constituições dos países democráticos não tinham previsto esta explosão criadora de uma atmosfera de descontrolo onde parece que ninguém sabe como agir. Reformularia assim a sua pergunta para: “estamos perante uma reconfiguração do imaginário político associado à ideia de democracia?”.
A universidade continua a ser um espaço central de produção de pensamento crítico?
Absolutamente. Mas o problema central reside no facto de as próprias universidades terem alimentando a crença moderna de que cada indivíduo deve pensar criticamente e expressar-se livre e civicamente. Então, as universidades formaram gente que pensa diferentemente, os seus corpos docentes também pensam diferentemente e os corpos dirigentes acabam não podendo tomar posições por estarem associados a um corpo diversificado que se estende aos antigos alunos (alumni e alumnae). Por isso, como instituição, as universidades se declaram apolíticas. Nada de novo, aliás, para quem conhece a obra de clássicos como o sociólogo Max Weber, um dos pais da Sociologia. Tudo isso só ajuda a espalhar a ideia de estarmos num mundo que legitima o antigo aforismo: cada cabeça sua sentença. A reação de países como a China, a Rússia e os MAGA com Trump à frente é a de a única maneira de se sair do impasse ser criar um estado com liderança poderosa que elimine ou controle a dissidência. Esse novo modelo totalitário tem sido mais facilmente posto em prática pela China, onde a liberdade individual nunca foi tão importante como no Ocidente, pois o sentido comunitário foi uma força mais básica na criação de uma consciência nacional. Ora, tudo isso vai contra 250 anos de experiência nos EUA, da modernidade à maneira ocidental.
Num ambiente de crescente desconfiança face às instituições, que lugar resta ao saber académico no debate público?
Continuar a investigar para se conhecer melhor a realidade e os problemas, e propor o que parece serem as melhores soluções. Um avião não é perfeito, mas só os melhores engenheiros aeronáuticos foram capazes de construir aviões cada vez mais seguros destinados a tornar rotineiras as viagens aéreas. Não é um mecânico de automóveis que constrói aviões. É preciso deixar que sejam os especialistas (obviamente há também que os manter sob observação para termos a certeza de seguirem as regras estabelecidas) a tratar das questões da sua competência. As universidades devem continuar a formar os melhores e a lançá-los depois no mercado onde cada qual procurará um ajustamento entre aquilo que sabe e as empresas que melhor podem aproveitar as suas capacidades.
A experiência acumulada permite-lhe identificar ciclos no debate cultural português? Estamos hoje num momento de rutura ou de repetição?
Nem uma coisa nem outra. Portugal tem evoluído imenso nas últimas décadas. Temos hoje gente capaz em inúmeros setores da vida pública. Somos um pequeno cadinho que reproduz à sua dimensão o que está a acontecer a nível internacional no Ocidente. E deixe-me dizer-lhe que, do meu ponto de vista, apesar de todos os problemas, estamos a aguentar-nos muito bem mantendo um comportamento moderado sem nos deixarmos atrair por extremos.
Se tivesse de sintetizar o maior desafio intelectual do presente, qual seria?
Descobrir uma maneira democrática de assegurar a preservação dos valores democráticos com instituições fortes capazes de intervir sancionando-os, pois a existência de leis democráticas só por si não constitui nenhuma garantia de elas serem cumpridas. Olhem para os EUA de hoje e vejam como as sólidas instituições criadas ao logo de dois séculos e meio de repente se sentem ameaçadas, não propriamente por pressão a partir de baixo, mas – imagine-se! – vinda das cúpulas. Inacreditável para quem acompanhou com entusiasmo o desenrolar da história ocidental ao longo destas últimas cinco décadas.
O que está a ler?
Estou sempre a ler muitos livros ao mesmo tempo. Tenho os livros de cabeceira, os de avião, os de serão, e sempre montes deles à minha volta que vou agarrando conforme as circunstâncias. Hoje ao almoço estive a avançar no Histórias da PIDE do José Pedro Castanheira. No avião entre Boston e Madrid, li Serendipidade, um livro de crónicas de José Paulo Santos, porque vou escrever um prefácio logo que termine esta entrevista. Reli Lembranças a Lápis, de Roberto Pereiro Rodrigues, que apresentei há poucos dias no Seixal. Em curtos intervalos, vou lendo Contra o Progresso, de Žižek. Acabei há dias Excellent Sheep: The Miseducation of the American Elite and the Way to a Meaningul Life, de William Deresiewicz e estou a meio de The Anxious Generation, de Jonathan Haidt. Isto para mencionar só alguns e para não falar dos manuscritos que tenho de ler a pedido de autores diversos, como por exemplo This Is My Home, romance de Emanuel Melo, um açoriano emigrado jovem para o Canadá, que merece ser traduzido e editado em Portugal. Estou, aliás, a tratar disso. Por sinal tem sido fácil. Pedi à minha Leonor que o lesse e ela não só gostou como decidiu atirar-se à tarefa. Vou propor a sua inclusão na série Comunidades Portuguesas, que co-dirijo na Imprensa Nacional.
Por Rita Sousa Vieira