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ITAMAR VIEIRA JUNIOR EM ENTREVISTA
NEWSLETTER 64 - 11 ABR 2026 - 1 - ITAMAR VIEIRA JUNIOR EM ENTREVISTANEWSLETTER 64 - 11 ABR 2026 - 1 - ITAMAR VIEIRA JUNIOR EM ENTREVISTA

“O primeiro território que habitamos é o nosso corpo”: literatura, violência e memória

 

Itamar Vieira Junior encerra com Coração sem Medo a Trilogia da Terra, iniciada com Torto Arado e continuada com Salvar o Fogo, obras que o projetaram internacionalmente. Nesta entrevista, o autor baiano reflete sobre a terra como direito vital, o corpo como território de violência e a dimensão política da literatura, num diálogo sobre memória, desigualdade e pertença.



O QUE TENS DE SABER:

  • Itamar Vieira Junior é um dos escritores mais lidos hoje no Brasil. 

  • Vencedor dos Prémios LeYa 2018, Oceanos, Jabuti e Montluc, foi o primeiro autor brasileiro a chegar à final do International Booker Prize.

  • É também autor de Doramar ou a Odisseia, livro de contos, e de Chupim, livro infantil em coautoria com a artista plástica Manuela Navas.

  • Esteve recentemente em Portugal, num périplo literário por várias cidades. Falou com a Cultura FNAC nas Correntes D’Escritas, na Póvoa do Varzim, onde apresentou Coração sem Medo.




Quando começaste a escrever Torto Arado, tinhas noção de que seria uma trilogia?

 

Quando eu comecei, não. Mas, antes de terminar, sim. Comecei a escrever Torto Arado com um sentimento — eu vou chamar de sentimento — que parecia muito simples. Queria escrever uma história que retratasse o amor que eu vi, durante muito tempo, camponeses declararem, de maneiras diversas, pela terra, falando de suas lutas, de suas esperanças, de suas conquistas. Essa foi a motivação.

 

Aí, eu comecei a escrever. Enquanto escrevia, percebia que não era bem aquilo que eu queria escrever. Não era sobre aquilo. Eu estava pensando a terra como uma experiência, como um elemento vital da nossa existência. E foi nesse momento que eu fui compreendendo que era algo maior, mais complexo, e percebi que aquele livro não daria conta.

 

Tanto que, antes de publicar Torto Arado, escrevi um e-mail para o editor e disse: “Olha, este é o começo de um projeto literário.” Ou seja, tem um desdobramento. Quando terminei Torto Arado, sabia, por exemplo, que as duas histórias seguintes trariam alguns personagens que a gente conhecia. E sabia quem eram esses personagens. Eu só não podia falar, porque uma coisa é você planejar, outra coisa é executar. Mas, quando lancei o segundo, já tinha o terceiro avançado.

 

É também por isso que esta trilogia tem vindo a ser designada como Trilogia da Terra? Essa ideia está ligada à terra enquanto espaço fundamental da existência?

Lugar vital da nossa existência. Porque não é uma questão que diz respeito apenas às personagens dessa história. Eu estou pensando a terra como um todo. Quando falo de terra, estou pensando no chão que nós pisamos.

 

É a terra com minúscula ou a Terra com maiúscula?

 

Pois é, a Terra, terra… Eu penso no planeta, mas penso também nessa fração mais imediata que nós pisamos, habitamos, vivemos. No caso dos camponeses, o campo. Porque essa terra, além de ser um espaço de vida, é um espaço de trabalho. Mas, para quem vive na cidade, no caso da Rita, Coração sem Medo, aqueles que foram desterrados, que não puderam lutar pela terra, a cidade é essa fração do mundo que me cabe e muitas vezes lhe é negada. E aí eu percebi que essa trilogia dizia respeito a este direito vital de todo e qualquer ser vivo.

 

O direito a um lugar.

 

Exatamente. Ao lugar que vivemos, habitamos. E que, se formos pensar na humanidade, na nossa história, na nossa trajetória, no nosso tempo hoje, muitos ainda têm esse direito negado. A questão palestina, por exemplo. Em escala maior ou menor, quantas pessoas ainda vivem esse conflito, ainda têm esse direito negado?

 


 


Que desafios encontraste na escrita destes três livros?

 

Acho que o maior desafio é sempre transformar aquilo que está vivo, antes da escrita, em nós. É traduzir essa experiência, esse sentimento, em um texto literário, narrativo, em palavras, o que é sempre uma redução. Eu digo que, antes de escrever, essa experiência acontece de uma maneira completa em nós. E a escrita é o meio que eu vou comunicar tudo isso, através da linguagem. E a linguagem tem suas limitações. Então, é sempre uma redução. A experiência acontece de forma plena, mas escrever é sempre reduzir.

 

Acho que esse é o desafio: transpor a experiência para a linguagem, para a escrita. E, não sei, acho que nós vamos ficando, com o tempo, mais exigentes connosco mesmos. Então, acho que somos os nossos maiores críticos. E aí, cada vez ficamos mais exigentes, mais perfeccionistas, nos debatemos mais com o texto.

 

Qual das obras foi mais difícil de escrever ou concluir: Coração Sem Medo ou Salvar o Fogo?

 

Coração Sem Medo, sem dúvida. Ele exigiu mais. Todos exigem, têm seus níveis de exigência. Mas Coração Sem Medo, acho que nessa prática, já com a palavra, exigiu mais de mim.

 

O facto de saberes que não voltarias a estas personagens tornou este livro mais difícil de escrever? Sabias que era uma despedida.

 

Sim, é verdade. Passei os últimos oito, nove anos debruçado sobre essas histórias, pensando a vida dessas personagens. E aí, acho que toda despedida demanda uma carga de energia, de emoção, de nós. Então, acho que também por isso pesou.

 

Eu sempre digo: escrever, para mim, é como viajar. Você vai para um lugar e você permanece. Porque você não escreve um romance em dois, três dias, uma semana — talvez haja quem escreva. Você passa muito tempo com essas personagens, com a história. É como se você vivesse entre eles, nessa comunidade. Quando você deixa aquilo, quando você termina, vai embora, vive uma espécie de luto, porque deixa aquilo para trás. Você viveu aquela experiência. E, claro, a gente sente saudade. Eu sabia que não voltaria a esta história; talvez por isso essa carga emocional, que tornou o processo mais difícil.

 

O livro marca uma deslocação do espaço rural para o urbano e retoma a história de Rita Preta. Tendo sido publicado no Brasil pouco antes da Operação Contenção no Complexo do Alemão, sentiste que esse contexto deu uma leitura mais urgente ao romance?

 

No dia daquele evento, daquela barbárie traumática, eu estava em Belo Horizonte, Minas Gerais. Era o dia do lançamento. Saí de casa pela manhã, no Rio de Janeiro e peguei o voo para Belo Horizonte. Quando saí, já tinha uma notícia de que havia uma operação naquele lugar, mas não dizia mais nada. E tive um dia de entrevistas, outras coisas, e, à noite, antes da sessão de lançamento, vi que a coisa era pior. E ali, naquela sessão, já tive que falar um pouco sobre isso.

 

Acho que o que aconteceu mostra, mais uma vez, que nós que escrevemos, independente do que a gente escreva, estamos, no fundo, registando, refletindo sobre o nosso tempo. Embora isso faça parte do nosso cotidiano, seja um dado da história do nosso tempo, eu penso também que essa história da Rita, dessa mãe que perde o filho, ou vive essa ausência, é algo que atravessa a história humana e já foi representado inúmeras vezes também na literatura, na dramaturgia.

 

O romance dialoga com figuras trágicas como Hécuba, de Eurípides, ou com Mãe Coragem e os Seus Filhos, de Bertolt Brecht. A Rita como uma personagem trágica moderna?

 

A Rita, de alguma maneira, representa essa personagem trágica do nosso tempo, que resgata histórias da dramaturgia grega, do teatro moderno, da literatura contemporânea, que se debruça sobre essas mulheres que vivem a perda da sua descendência. Então, não é só um drama do Brasil. É um drama particular do Brasil, da América Latina, atravessado por questões sociais e históricas que conhecemos. Mas também tem um componente humano, um componente universal muito forte nessa história. E ela estava acontecendo à minha volta. E tem uma coisa: quando essas coisas estão acontecendo à nossa volta, no mundo contemporâneo, muitas vezes não prestamos a devida atenção. Um jornal, por exemplo, nos dá a notícia sem grandes detalhes. É quase um relato do facto, do acontecido. Aquelas personagens, numa matéria jornalística, muitas vezes estão destituídas de sentimentos, de subjetividade, de humanidade.

 

Ainda menos quando o sujeito é um sujeito periférico.

 

Exatamente. Que vive à margem, que é mais vulnerável, que está ali na sociedade. Já vive uma desigualdade com um componente social e histórico muito forte, fragilizado, e corre o risco de virar apenas uma estatística, de entrar ali naquele número. “Olha, aconteceu tanto, tanto.” Pronto, ele é um número.

 

Mas a literatura não pensa a vida dessa maneira. Ela resgata, restitui a humanidade daquilo que perdeu a humanidade, às vezes no cotidiano, na experiência mais imediata.

 

Isso faz com que este romance tenha uma posição política? Ou têm os três?

 

Já me perguntei sobre isso, e também já me foi feita essa pergunta. Acho que é difícil dissociar a dimensão política da nossa vida, mesmo quando fazemos arte. Primeiro porque nós, humanos, somos seres essencialmente políticos, como dizia Hannah Arendt. E vivemos essa experiência cotidianamente. Como destituir a nossa vida da política?

 

Eu já me conformei, não tenho nenhum problema que me leiam e que pensem que ali há uma arte engajada. Eu acho que muitos autores, em vários tempos da história, em muitos lugares do mundo, devem ter se perguntado se o que faziam era político. Já não me preocupo com isso. O que importa é que eu expresse aquilo que precisa ser expressado.

 

 



Não estamos a viver um momento em que os agentes políticos parecem querer que sejamos cada vez menos cidadãos politicamente ativos?

 

Também acho isso. Nos ensinaram a odiar a política como se fosse algo nefasto. Criaram um grande rótulo de que todo político apenas atende aos seus próprios interesses, tem uma natureza corrupta. E isso tem afastado as pessoas da política, das eleições, do voto. E não há saída, não há atalho para os nossos problemas fora da política. Porque a política é um instrumento que nos permite viver em sociedade e corrigir as rotas, o caminho, corrigir as falhas que ainda vivemos, carregamos.

 

Eu tenho certeza de que vivemos num tempo em que nos ensinaram a odiar a política. E precisamos resgatar esse sentido da política como uma expressão humana. Assim como a arte é uma expressão humana, a política também é uma expressão humana. E diz respeito a todos nós.

 

Tem um livro da Hannah Arendt, de que eu gosto muito, A Condição Humana, em que ela pensa a vida ativa a partir de três pilares: o trabalho, a obra, a ação e o discurso. Ela diz que o homem é capaz de trabalhar sozinho, é capaz de realizar algo sozinho, no caso, uma obra. Mas a ação e o discurso — que são o sentido político — só existem entre humanos, não pertencem a um humano isoladamente. Ou seja, a vida numa família, numa comunidade, num bairro, numa cidade, num país, num mundo exige que a gente faça política.

 

O apagamento físico do território é uma extensão da violência que atinge os corpos?

 

Sim. É muito interessante porque, em Coração Sem Medo, diferente dos dois livros anteriores, esse era o volume destinado aos desterrados, àqueles que não tiveram mais terra para lutar. E a Rita migra para a cidade. Não é apenas ela. O pai do Sid, que já não vive com ela, também foi levado para a cidade. Nessas circunstâncias, alguns dos algozes do drama que ela vive também são filhos daqueles que foram levados para a cidade.

 

Essas personagens percebem que a cidade é um lugar fragmentado, que não pode ser vivido da mesma maneira por todos. É um lugar hierarquizado. Eles não podem habitar a cidade por inteiro. E vão descobrir que o primeiro território que habitamos é o nosso corpo. Antes de chegar ao chão, a gente chega às mãos da mãe de alguém. Aquilo que sustenta a nossa alma, o nosso espírito, é este corpo. E esse corpo também é alvo de disputa num país como o Brasil, que carrega marcas históricas muito fortes — ou mesmo na América Latina, ou nos Estados Unidos. Esse corpo, visto como menor, de menos valor, mais vulnerável, é um corpo-alvo da violência. E ela descobre isso da maneira mais dura.

 

Então, isso também é um chamado para que a gente pense nesse corpo. E o corpo da Rita, o corpo do Sid, não é apenas o corpo dessas personagens. É um corpo que carrega história, que carrega memória, inclusive daqueles que eles nem conheceram.

 

Apesar de tudo, há no final do livro uma mensagem de esperança.

 

Sim. Quando penso na trajetória dessa personagem, vejo que ela precisou viver tudo aquilo — descer literalmente ao inferno, como muitas mães vivem no Brasil — para refletir sobre a própria história, sobre o seu passado. E o que sustentou aquelas que vieram antes dela? A mãe, a avó, a bisavó, aquelas que viveram perdas semelhantes. O que fez com que essas pessoas continuassem a viver?

 

É nesse ponto que ela reflete. Não seriam os dias sucedendo à noite, os nascimentos renovando as esperanças daqueles que se foram? Eu precisava escrever essa história para chegar aí. Para dizer, de alguma maneira, para mim e para os leitores, que a vida pode ser algo bom, apesar de tudo. Que há um componente de esperança, de afeto, que a gente não perde.

 

Quantas histórias ouviste para escrever esta Rita?

 

Eu vivi num bairro periférico de Salvador. Desde a minha infância, mudava muito de casa, porque morávamos de aluguel. E durante muito tempo usei transporte público para ir para a faculdade, para trabalhar. Saía muito cedo e viajava com empregadas domésticas, com pessoas que trabalhavam em supermercado, em portarias, na construção civil. O ônibus ia sempre cheio. Eu nunca fui muito de conversar, mas sempre fui muito de escutar. E escutava essas histórias, me interessava profundamente por elas. Porque, para mim, elas traziam um sentido da vida mais imediato que nenhum livro, nenhum filme conseguia trazer. Foram muitas histórias que eu precisei escutar para construir essa Rita com essa carga de verdade, de humanidade.

 

São vidas anónimas.

 

São. Estão na paisagem, mas as pessoas não se interessam por elas. E, no entanto, carregam uma carga de experiência que não pode ser ignorada.

 

A gente nomeia ruas em homenagem a engenheiros, a figuras importantes, mas ninguém nomeia uma rua para aqueles que carregaram as pedras, que fizeram o trabalho. E essas pessoas são tão importantes quanto. Deram a sua vida, o seu trabalho.

Acho que essas três histórias são, de alguma maneira, uma homenagem a essas vidas anónimas, que carregam um sentido épico e também contam a história do nosso mundo.

 

Terminada esta trilogia, o que vem a seguir?

 

Tenho muitos projetos. Tenho um romance em andamento, outros projetos para executar. Talvez não volte, pelo menos num primeiro momento, a escrever sobre a terra. Me interessa agora pensar outros campos, a vida interior das pessoas, esses conflitos que às vezes são incontornáveis. Mas ainda não fechei isso. O livro acabou de sair e tenho estado a viajar, para promover. Mas a vontade de voltar para casa e escrever é grande. Pode ser que, daqui a algum tempo, venha coisa nova.

 

O que estás a ler?

 

Acabei de ler um livro muito poderoso, muito bonito, que no Brasil se chama A Trama das Árvores [Sobre o Céu - The Overstory, editado em Portugal pela Editorial Presença], do Richard Powers. É um romance que ganhou o Pulitzer, se não me engano, em 2019. E fiquei muito emocionado com a história. Faz-nos pensar nos seres não humanos que vivem connosco, e na forma como dependemos das árvores. Num mundo em que estamos vivendo um extermínio dessas espécies, é um livro que nos obriga a refletir. Gostei muito.

 

Por Rita Sousa Vieira

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