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O que te levou a participar nos Novos Talentos FNAC?
Já tinha esta música lançada há algum tempo e estava à procura de mais visibilidade. Quis promover esta música, mas também as outras músicas que tenho. Quando vi o anúncio, decidi candidatar-me. Como gosto muito do Samuel Úria e da Selma Uamusse, que faziam parte do júri, achei que seria muito bom receber o feedback deles. Foi basicamente isso que me levou a avançar.
Já te tinhas candidatado a edições anteriores?
Não, foi a primeira vez.
O que representa ser um Novo Talento FNAC?
Para mim, sendo um artista de Goa e estando em Portugal há seis anos, foi uma coisa muito especial. Senti que o meu trabalho tinha um valor artístico. Às vezes ficava a duvidar se as pessoas percebiam o meu objetivo musical, ou aquilo que estava a fazer. Quando ganhei, senti que havia alguém que percebia esse objetivo, a cultura de onde venho e a complexidade das minhas influências. Foi uma coisa que me encheu de esperança, humildade e gratidão.
Sendo uma pessoa que vem do outro lado do mundo, receber um reconhecimento destes foi algo completamente fora deste mundo. Fiquei mesmo a tremer. As minhas amigas ligaram-me a dizer que eu estava a tremer no palco quando o prémio foi anunciado. Foi um sonho realizado.
Que conselho darias a quem está a pensar candidatar-se numa próxima edição?
Diria para não pensar muito. Se a pessoa tiver confiança no seu trabalho e a convicção de que é uma coisa que as pessoas precisam de ouvir, deve candidatar-se sem pensar duas vezes. O que gostei muito neste prémio é que é um prémio de artistas. Não tem a ver com outras questões, tem a ver com a arte e com a qualidade do trabalho.
Noutros eventos do género, muitas vezes procuram perceber qual é o selling point do artista, se é uma música comercial, uma coisa de que o grande público vai gostar. Aqui é a arte que está a ser valorizada. Todas as pessoas que têm como objetivo fazer arte, criar uma coisa nova, que tem a ver com a música e não com o resto, devem candidatar-se sem pensar duas vezes. Esta iniciativa é mesmo incrível, na minha terra nem conseguia pensar numa iniciativa como esta.
Porque sentiste que The Nerve era a canção certa para apresentar aos Novos Talentos FNAC?
Achei que a música tinha todas as minhas influências dentro dela. Cresci num ambiente muito peculiar. Em Goa falávamos três línguas: inglês, português e concani. E este tema tem essas três línguas dentro dele. Também tem as influências sonoras e a complexidade sonora que existe em Goa. E, no vídeo, também está presente a dança. São duas vertentes muito importantes para mim, enquanto artista.
Quando lancei a música, percebi que as pessoas reagiram de forma muito positiva: mesmo tendo uma certa complexidade musical, conseguiram perceber a ideia da música, o estilo da música e também a ideia do tema. Tem a ver com a coragem que é preciso ter para enfrentar a vida e os desafios da vida moderna. Ainda por cima, sendo imigrante e vivendo neste país, tive de enfrentar vários desafios, e acho que os consegui expor na música.
A música ajudou-te a enfrentar esses desafios?
Creio que sim. Quando escrevi a música, estava numa fase de descobrir muitas coisas novas sobre mim próprio. Tive de ganhar coragem através da minha arte, de mostrar a mim mesmo que sou esta pessoa, que tenho coragem para enfrentar os desafios, que sou um artista com valor e que vou mostrar ao público quem sou. Foi quase um manifesto. E isso é interessante, porque o disco que lancei antes do single chama-se Manifesto 11. Já estava nessa fase de autodescobrimento enquanto artista. A música ajudou-me a ganhar esta coragem e confiança.
Referes uma dimensão espiritual na tua música. Que papel tem essa procura no teu processo criativo?
Para mim, a música vai muito além da linguagem, é uma coisa completamente espiritual. Quando toco música, sinto que estou noutra dimensão. Não digo isso por ser um cliché, mas porque faço música há muito tempo; comecei muito cedo, tanto na música como na dança. Sinto que a música é uma forma de ligação ao espírito e uma forma de expressão que vai muito além da linguagem. Há coisas que consigo dizer muito melhor através da minha música do que através das palavras.
Além disso, ajuda-me a entender o espírito. Sempre que toco música sinto-me completamente ligado a algo maior. Algumas pessoas chamam-lhe Deus; para mim, é uma energia com a qual me sinto ligado através da música e da dança. É difícil explicar essa sensação, mas ela está sempre presente. Sempre que estou a tocar, sinto que é um exercício espiritual, quase uma experiência religiosa.
O que mais te surpreendeu desde que começaste a partilhar as tuas canções com o público?
Foi perceber que as pessoas conseguem entender aquilo que estou a expressar, mesmo quando se trata de coisas que não consigo dizer através da linguagem. Perceberam isso desde o início. Até quando toco ao vivo, chegam a essa dimensão com facilidade.
A identidade goesa é uma identidade muito complexa e difícil de entender. Muitas vezes, as pessoas que compreendem melhor o meu trabalho são aquelas que já têm alguma noção da complexidade da identidade e das influências que recebemos ao longo da vida. Mas aquilo que mais me surpreende é que a maioria das pessoas consegue sentir essa ligação que tenho com o espírito. Dá para ver e dá para sentir.
Quais são as tuas principais influências?
Quando comecei a tocar e a fazer música, era completamente apaixonado pela música dos anos 60, adorava aquela sonoridade. Mais tarde, uma das minhas maiores influências passaram a ser os Steely Dan. E, também, Julian Lage, guitarrista de jazz norte-americano. Fui muito influenciado pelo jazz dos anos 60 e 70 e por bandas como Caravan e Blood, Sweat & Tears.
A música portuguesa teve também, e mais recentemente, uma influência enorme sobre mim: não só a música tradicional, mas músicos como Fausto, que é uma grande referência. Acho que ele fazia uma coisa um pouco parecida com aquilo que procuro fazer, que é falar sobre cultura e construir uma perspetiva muito específica da sua própria cultura. Consigo identificar-me muito com isso. Houve outras bandas portuguesas dessa época, como os Arte & Ofício, Filarmónica Fraude ou Sindicato, que também me influenciaram.
Se pudesses escolher um músico para entrar em estúdio contigo amanhã, quem seria e porquê?
Julian Lage, sem dúvida. É uma das minhas maiores referências enquanto guitarrista.
Há alguma expetativa ou rótulo dentro da indústria musical que gostasses de ver desaparecer?
Esta questão da Inteligência Artificial (IA) é uma coisa que temos de saber gerir muito bem. Sou muito otimista, e acredito que o perigo vai acabar por ser ultrapassado, mas é importante percebermos qual é o lugar da IA dentro da indústria. Vejo muitos artistas contemporâneos à procura de um som mais orgânico, as pessoas estão à procura de uma estética mais real e mais humana. Espero que isso continue a crescer.
Acho que a única maneira de ganhar esta batalha é dar mais valor à música ao vivo e voltar às raízes. É importante percebermos o passado e percebermos porque é que a música dos anos 60 e 70 nos influenciou tanto. Havia ali uma coisa muito humana, uma certa alma. Hoje em dia, é uma maravilha encontrar isso na música. A IA não consegue captar a alma, a criatividade pura e as influências que fazem parte da experiência humana. Essa ligação da música à alma é uma coisa que tem de permanecer viva.
Se pudesses mudar uma coisa na forma como o público consome cultura, o que mudarias?
Uma coisa muito importante é dar mais valor aos artistas locais. Tenho amigos que dizem que gostam da minha música, e outros artistas dizem exatamente o mesmo sobre os seus projetos. Mas, quando chega a altura de ouvir música regularmente, muitas pessoas acabam por escolher sempre artistas mais conhecidos. Acho que o público tem de receber mais educação sobre a forma como ouve e consome música. A música não é apenas entretenimento; as pessoas não deviam olhar apenas para o número de ouvintes no Spotify, ou para o número de seguidores nas redes sociais. Isso não é uma prova da qualidade da música.
Há muita gente a fazer arte incrível, até genial, que não recebe o reconhecimento que devia. Isso só muda quando o público percebe essa diferença e desenvolve um gosto mais informado.
Estás a trabalhar em novos projetos? O que podemos esperar nos próximos tempos?
Sim. Estou a trabalhar num novo disco, e é nisso que estou focado neste momento. Vou lançá-lo daqui a uns meses.
Onde podemos seguir o teu trabalho?
Toco regularmente em Lisboa e noutras cidades, e vou publicando tudo no Instagram. Também tenho um concerto marcado para setembro, no Museu de Arte Contemporânea, que vai ser muito especial; espero já ter o disco lançado nessa altura. A minha música está disponível no Spotify, Tidal, YouTube Music e nas restantes plataformas digitais.
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