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LAURA COUTINHO EM ENTREVISTA
ENTREVISTA- NTF 2026- ILUSTRAÇÃO- Laura Coutinho ENTREVISTA- NTF 2026- ILUSTRAÇÃO- Laura Coutinho

"Gostava que estivéssemos mais disponíveis para deixar que as imagens nos tocassem" 


 

Num tempo em que tudo parece passar depressa, Laura Coutinho procura criar espaço para a contemplação. Com Ciclos, uma série de ilustrações inspirada nos ritmos da natureza, venceu a categoria de Ilustração dos Novos Talentos FNAC 2026. 

 


O que te levou a participar nos Novos Talentos FNAC? 

 

Fui vendo informações sobre os Novos Talentos FNAC no Instagram e tinha um amigo que ganhou há alguns anos na categoria de Cinema que me incentivou a participar. Na verdade, eu ainda não tinha um projeto completamente desenvolvido, mas já tinha uma das ilustrações. A partir daí, tentei expandir a ideia e construir uma candidatura. 

 

O que representa ser um Novo Talento FNAC? 

 

Tem sido muito bom. Não estava à espera e, para além da validação e do reconhecimento, trouxe também algum alívio. Principalmente depois de ler o comentário do júri. Fez-me sentir vista e perceber que as minhas ilustrações estavam a ser recebidas e interpretadas da forma como eu as penso. Isso é muito importante para mim e tem sido realmente especial. 

 

Que conselho darias a quem está a pensar candidatar-se numa próxima edição? 

 

Acho que o mais importante é focarmo-nos naquilo que a ilustração, a escrita ou qualquer outra forma de expressão representa para nós. Se tivermos algo que seja verdadeiro e genuíno, essa é sempre a melhor forma de partir para uma candidatura. 

 

Porque é que decidiste concorrer com este projeto? 

 

Não tinha outro projeto para apresentar... Mas, acima de tudo, porque este trabalho é-me muito próximo. Os temas que abordo em Ciclos estão no centro da minha prática artística e surgiram de forma muito natural. Como não tinha outro tema ou outro projeto em desenvolvimento, foi este que fez sentido apresentar. 

 

Apresenta-nos Ciclos

 

Ciclos é um projeto sobre encontros entre corpos humanos e corpos de árvores. As árvores representadas são o zambujeiro, o amieiro e o sobreiro, três espécies autóctones de Portugal. Procurei entrelaçar os ciclos naturais destas árvores com gestos humanos e com gestos que se repetem desde tempos muito antigos. É um trabalho que reflete sobre a nossa presença e pertença a esses ciclos e aos elementos naturais, mas também sobre a forma como observamos e habitamos o mundo não humano — e como, de certa forma, também somos habitados por ele. 



 




O título Ciclos sugere repetição, regresso e transformação. Que ciclos tens observado no teu processo criativo nos últimos anos? 

 

Ultimamente têm estado muito associados a gestos. Gestos que se repetem, gestos de ternura, pequenos momentos especiais e a atenção que lhes damos no dia a dia. São essas repetições e esses momentos aparentemente simples que acabam por regressar com frequência ao meu trabalho. 

 

As imagens de Ciclos parecem encontrar beleza em pequenos fragmentos do quotidiano. Sempre tiveste esse olhar atento para os detalhes? 

 

Penso que sim. Acho que também foi um olhar que se foi treinando com o tempo e com a repetição, mas sempre foi aquilo que mais me chamou a atenção. Procuro que as minhas ilustrações ofereçam algum espaço e alguma pausa a quem as vê, para que também possam reparar nesses pequenos momentos. 

 

Que materiais e técnicas utilizaste? 


Atualmente trabalho em técnica mista. Começo por criar uma base em monotipia, uma técnica de impressão em que pinto numa chapa de zinco e depois passo uma folha humedecida por uma prensa para obter a impressão. Chama-se monotipia porque só é possível obter uma impressão original. Depois, trabalho digitalmente sobre essa base, para ajustar texturas, cores ou formas que não tenham resultado exatamente como pretendia. 

 

O que te atrai nesse diálogo entre processos tão diferentes? 

 

Acho que me ajuda a aproximar o resultado final da imagem que tenho na cabeça. O processo digital permite-me complementar o trabalho analógico e construir uma imagem mais próxima daquilo que imaginei desde o início, o que também torna o processo bastante gratificante. 

 

Quais são as tuas principais influências? 

 

Há uma influência muito forte do mundo natural, mas também vou buscar referências a muitos lugares diferentes. Há ilustradores que me influenciam bastante, assim como outras disciplinas. Ultimamente, tenho pensado muito no trabalho da pintora Georgia O’Keeffe. Vou também buscar referências ao cinema e à fotografia, que influenciam muito a forma como enquadro as imagens, e à escrita e à poesia – especialmente à poesia de Mary Oliver, cuja atenção à natureza sinto que está muito presente em Ciclos. 

 

Num momento em que as imagens são produzidas e consumidas a um ritmo cada vez maior, o que gostarias que mudasse na forma como olhamos para a ilustração? 

 

Gostava que estivéssemos mais disponíveis para deixar que as imagens nos tocassem. 

Nem todas as imagens nos vão dizer alguma coisa, e isso é normal. Mas, quando uma imagem nos interpela, não precisamos necessariamente de analisar ou justificar aquilo que estamos a sentir. Acho que basta estarmos abertos ao que ela nos desperta ou traz à memória. 

 

Se pudesses mudar uma coisa na forma como o público consome cultura, o que mudarias? 

 

Gostava que houvesse mais democratização. Apesar de as redes sociais terem ajudado nesse processo, ainda sinto que a cultura é muitas vezes vista como algo elitista. Gostava que deixássemos de sentir que precisamos de ser especialistas ou grandes conhecedores para a apreciar. Não é preciso saber tudo para poder desfrutar de uma obra. 

 

Estás a trabalhar em novos projetos? O que podemos esperar nos próximos tempos? 

 

Neste momento tenho estado muito focada no desenvolvimento do meu portefólio e na procura de novos projetos de ilustração freelance. Recentemente, ilustrei uma espécie de conto para a revista francesa Les Others. Foram 17 ilustrações produzidas em apenas 20 dias, um processo muito intenso, mas que correu muito bem. Espero continuar a desenvolver projetos semelhantes nos próximos tempos. 

 

Onde podemos seguir o teu trabalho? 

 

Podem acompanhar o meu trabalho através do Instagram, em @itslauracoutinho, e também no meu site, lauracoutinho.studio. Estou sempre disponível para receber mensagens ou contactos por e-mail através dessas plataformas. 

 

Fica a conhecer todos os premiados dos Novos Talentos FNAC 2026 nas categorias de Cinema, Escrita, Fotografia, Ilustração, Música e Videojogos. Descobre AQUI os seus trabalhos.  

ENTREVISTA- NTF 2026- ILUSTRAÇÃO- Laura Coutinho
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