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O que te levou a participar nos Novos Talentos FNAC?
Sou ilustradora freelancer a tempo inteiro e já conhecia o concurso há vários anos, através das redes sociais. No entanto, nunca me tinha candidatado porque sentia que havia ilustradores tão bons em Portugal que acabava por não acreditar muito em mim. Este ano, decidi que não tinha nada a perder e avancei com a candidatura. Acabou por ser uma prova de que, às vezes, tenho mesmo de acreditar mais em mim e no meu trabalho.
Já te tinhas candidatado a edições anteriores?
Não. Já conhecia o concurso, mas nunca tinha chegado a candidatar-me.
O que representa ser um Novo Talento FNAC?
Representa muito. Acho que, hoje em dia, muitos artistas vivem com alguma preocupação em relação ao futuro, sobretudo por causa da Inteligência Artificial (IA). Sinto que a IA está a apropriar-se de muitos trabalhos criativos e isso gera receio sobre o que poderá acontecer nos próximos anos. Ao mesmo tempo, acredito que continuará a existir espaço para quem valoriza uma arte feita por pessoas, com consciência e experiência humana por detrás. Por isso, este reconhecimento funciona como uma confirmação de que vale a pena continuar. É uma prova de que os artistas devem ser valorizados e de que não devemos desistir.
Que conselho darias a quem está a pensar candidatar-se numa próxima edição?
Diria para acreditarem em si próprios e tentarem. Eu própria passei anos sem me candidatar por achar que havia artistas melhores do que eu, mas a verdade é que não temos nada a perder. Pelo contrário: mesmo antes do resultado final já existe uma oportunidade de mostrar o nosso trabalho e de entrar em contacto com pessoas da área. No meu caso, para além da menção honrosa, tive a oportunidade de conversar com membros do júri e receber feedback muito valioso. Por isso, só vejo vantagens em tentar.
Apresenta-nos Além do Algoritmo.
Além do Algoritmo nasceu como um desabafo sobre a IA. Criei uma série de três ilustrações através das quais quis mostrar que há experiências humanas que a tecnologia nunca poderá replicar. A primeira ilustração fala do toque do vento e do sol na pele; a segunda, da sensação de entrar no mar e sentir a resistência da água; e a terceira fala da relação física com a natureza, com as plantas e com a terra. São experiências que dependem da vivência humana e da presença no mundo. Foi essa ideia que quis transmitir: a de que a arte nasce dessas experiências e dessa consciência humana.
Quando vi o tema desta edição dos Novos Talentos FNAC, senti imediatamente que fazia sentido apresentar este projeto, porque me permitia expressar preocupações que já vinham a acompanhar-me há algum tempo.

Que materiais e técnicas utilizaste?
O meu processo começa sempre de forma tradicional. Faço esboços rápidos em grafite sobre papel, e só depois passo para o digital. Trabalho no iPad, através do Procreate, onde desenvolvo e finalizo as ilustrações. Neste caso, as três peças apresentadas são ilustrações digitais, mas têm origem num desenho manual.
Dizes que a ilustração te ajuda a organizar memórias e perceções. Há alguma ideia ou memória que ainda não tenhas conseguido traduzir em imagem?
Acho que há muitas. Gosto muito de trabalhar a partir das minhas memórias, mas as memórias trazem sempre emoções e sensações associadas. Isso é muitas vezes mais difícil de representar do que a memória em si. Ainda há muitas experiências e sentimentos que gostava de conseguir transformar em imagens. É um processo que continua e que provavelmente vai acompanhar todo o meu percurso artístico.
Ao longo do teu percurso tens trabalhado como artista, ilustradora e curadora. O que aprendeste sobre o teu próprio trabalho ao olhar para o trabalho dos outros?
Aprende-se imenso. Neste último ano tenho trabalhado como curadora numa galeria, e uma das coisas mais importantes que descobri foi que não estou sozinha. Há muitas pessoas a tentar fazer o mesmo: traduzir emoções, sensibilidades e experiências para uma obra visual. Ao mesmo tempo, isso também traz algumas inseguranças, porque somos muitos a querer seguir caminhos semelhantes. Às vezes, surge a dúvida sobre se haverá espaço para todos. Mas experiências como esta menção honrosa ajudam-me precisamente a acreditar que sim, que também há lugar para o meu trabalho.
Quais são as tuas principais referências?
Tenho muitas referências, mas algumas são particularmente importantes para mim. Na ilustração, sou uma grande admiradora do trabalho do João Fazenda. Gosto muito também da Mariana Malhão, com quem já tive oportunidade de colaborar. A nível internacional, acompanho bastante o trabalho da ilustradora valenciana Núria Tamarit. Ver o trabalho destes artistas inspira-me diariamente e lembra-me que ainda tenho muito para aprender e explorar.
Num momento em que as imagens são produzidas e consumidas a um ritmo cada vez maior, o que gostarias que mudasse na forma como olhamos para a ilustração?
Gostava que valorizássemos mais o trabalho humano por detrás das imagens. Hoje em dia, uma imagem gerada por IA pode surgir em segundos. No meu caso, cada uma destas ilustrações demorou cerca de uma semana a ser produzida. Por detrás desse tempo está também todo um percurso de formação, estudo e prática.
Não considero que uma imagem criada automaticamente tenha o mesmo significado ou o mesmo valor de uma obra construída por alguém que investiu anos a desenvolver uma linguagem própria. A IA pode ser útil em muitas áreas, mas acredito que devemos continuar a valorizar a ilustração feita por pessoas, observá-la com atenção e reconhecer o trabalho que existe por trás dela.
Se pudesses mudar uma coisa na forma como o público consome cultura, o que mudarias?
Gostava que as pessoas desacelerassem. Vivemos habituados a consumir imagens através de um scroll constante e, muitas vezes, acabamos por olhar para uma obra durante apenas alguns segundos. Mas, por detrás de cada ilustração, pintura ou trabalho artístico existe muito tempo, dedicação e intenção. Gostava que encontrássemos formas de olhar para as obras com mais atenção e de lhes dedicar mais tempo.
Estás a trabalhar em novos projetos? O que podemos esperar nos próximos tempos?
Neste momento, estou a ilustrar um livro que será publicado em setembro. Ainda não posso revelar muitos detalhes, mas é o projeto que atualmente ocupa grande parte do meu tempo. Estou muito entusiasmada com o resultado.
Onde podemos seguir o teu trabalho?
Podem acompanhar o meu trabalho através do Instagram, em @evacarolina.art, e também através do meu site, evacarolina.com.
Fica a conhecer todos os premiados dos Novos Talentos FNAC 2026 nas categorias de Cinema, Escrita, Fotografia, Ilustração, Música e Videojogos. Descobre AQUI os seus trabalhos.