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O que te levou a participar nos Novos Talentos FNAC?
A forma como os Novos Talentos FNAC valorizam a criação artística feita por pessoas, e dão espaço a projetos que refletem sobre questões atuais da sociedade, chamou-me a atenção. Senti que o meu trabalho dialogava com esse espírito, e pareceu-me o contexto certo para o apresentar.
Já te tinhas candidatado a edições anteriores?
Não, foi a primeira vez que me candidatei.
O que representa ser um Novo Talento FNAC?
Fiquei muito feliz por receber esta menção honrosa. Significa muito, para mim, ver um projeto que será publicado em breve na Alemanha receber reconhecimento internacional e alcançar novos públicos.
Que conselho darias a quem está a pensar candidatar-se numa próxima edição?
Diria para escolher um projeto que tenha um significado especial. Algo que nasça de um interesse genuíno, mas que também convide quem o vê a refletir e a entrar em diálogo com a obra. É importante pensar de que forma esse trabalho se relaciona com temas mais amplos da sociedade e o que queremos partilhar com os outros através dele.
Porque é que decidiste concorrer com este projeto?
Quando me candidatei estava na fase final de desenvolvimento do livro, que será publicado no outono de 2026. Estava completamente envolvida no projeto, tanto a nível criativo como conceptual. Além disso, os temas que aborda — a forma como nos relacionamos com o espaço público, a natureza e a cidade — pareciam enquadrar-se muito bem no espírito do concurso.
Apresenta-nos In the Park.
In the Park é um livro ilustrado de não-ficção que explora a história e a importância dos parques urbanos. Interessa-me perceber de que forma estes espaços verdes surgiram, como evoluíram ao longo do tempo e quais os desafios que enfrentam atualmente, sobretudo num contexto marcado pelas alterações climáticas. O projeto nasceu enquanto desenhava no Jenisch Park, em Hamburgo. Percebi que os lugares onde costumava parar para observar e desenhar eram muito mais do que simples espaços de lazer; guardavam histórias ligadas à democratização do espaço público, à cultura e à relação entre as pessoas e o ambiente. A partir daí, comecei a investigar essas questões e a transformá-las num livro que combina narrativa visual com informação histórica e social.

Em In the Park, as pessoas parecem quase visitantes de uma história que pertence ao próprio lugar. Sempre tiveste mais interesse nos cenários do que nos protagonistas?
Não necessariamente. Para mim, os lugares e as pessoas estão sempre ligados. Os espaços são moldados pelas pessoas que os habitam e utilizam, tal como as pessoas são influenciadas pelos lugares que frequentam. Em projetos anteriores já me interessava a ideia dos espaços como repositórios de memória, marcados por acontecimentos, experiências e associações pessoais. São lugares que conservam histórias, mas que também se transformam constantemente através da presença humana.
Existe algum parque, rua ou espaço público que tenha marcado a tua forma de desenhar?
Sim, sem dúvida. As cidades onde vivi e os lugares que visitei influenciaram muito a minha prática. Os parques urbanos de Hamburgo e do Porto, por exemplo, tiveram um papel importante na forma como observo e desenho as pessoas e os espaços. Gosto tanto de captar pequenos momentos e interações como de representar o contexto mais amplo em que acontecem. Além disso, as visitas à Escócia, onde tenho família, também marcaram muito o meu olhar. Sempre utilizei os desenhos para guardar memórias dessas viagens, desde passeios na praia a caminhadas pelas colinas. As cores, a luz e as texturas dessas paisagens continuam a inspirar-me bastante.
Os teus projetos começam frequentemente em cadernos de esboços. O que te dizem esses primeiros desenhos sobre aquilo que realmente te interessa observar?
Os cadernos de esboços funcionam quase como um arquivo de observações; permitem-me perceber que temas, lugares ou situações regressam repetidamente ao meu olhar. No caso de In the Park, comecei a reparar que desenhava constantemente pequenas interações entre pessoas e composições espaciais em parques urbanos. A certa altura, perguntei-me porque é que esses lugares me fascinavam tanto, e como tinham chegado a ser o que são hoje. É através do desenho que surgem, muitas vezes, as primeiras perguntas, e que começa a investigação para novos projetos.
Que materiais e técnicas utilizaste?
Ao longo do desenvolvimento do livro experimentei várias abordagens, desde óleo e pastel até diferentes técnicas mistas. Acabei por optar por uma combinação de processos que me permitisse transmitir a sensação de estar num parque: sentir-se simultaneamente pequeno e parte de algo maior. Utilizei sobretudo tinta acrílica para construir as texturas da vegetação e da paisagem natural, complementando-a com camadas mais suaves para representar a arquitetura envolvente. Os detalhes foram acrescentados com lápis de cor e, por vezes, com pastel, para preservar a espontaneidade e a fluidez dos primeiros esboços.
Quais são as tuas principais referências?
Admiro muito o trabalho da Beatrice Alemagna, sobretudo pela expressividade e pela forma como constrói as narrativas visuais. Também acompanho com grande interesse o trabalho da Carolina Celas, pela simplicidade e pela força das suas composições. Outras referências importantes são Inês Viégas Oliveira e Laura Carlin.
Num momento em que as imagens são produzidas e consumidas a um ritmo cada vez maior, o que gostarias que mudasse na forma como olhamos para a ilustração?
Gostava que as pessoas valorizassem mais o trabalho humano por detrás da ilustração e que não o encarassem como algo adquirido ou automático. Cada imagem resulta de muito tempo, reflexão e sensibilidade.
Se pudesses mudar uma coisa na forma como o público consome cultura, o que mudarias?
Gostava que existisse mais curiosidade e disponibilidade para explorar a cultura. Muitas vezes as pessoas sentem que determinados espaços ou manifestações culturais não são para elas, quando na realidade deveriam ser acessíveis a todos. Talvez fosse importante criar mais pontos de ligação entre a cultura e o quotidiano, aproximando os públicos dos temas e das experiências que a arte pode proporcionar. Isso poderia incentivar mais pessoas a participar em eventos culturais e a encontrar neles inspiração para a sua própria vida.
Estás a trabalhar em novos projetos? O que podemos esperar nos próximos tempos?
Vou iniciar em breve um programa interdisciplinar de bolsas de investigação e pretendo continuar a desenvolver projetos pessoais, bem como novos trabalhos ligados à publicação e à ilustração editorial.
Onde podemos seguir o teu trabalho?
Podem acompanhar o meu trabalho através do meu site e também no Instagram, através da conta @andrea.wandinger, onde vou partilhando novidades e projetos mais recentes.
Fica a conhecer todos os premiados dos Novos Talentos FNAC 2026 nas categorias de Cinema, Escrita, Fotografia, Ilustração, Música e Videojogos. Descobre AQUI os seus trabalhos.