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O que te levou a participar nos Novos Talentos FNAC?
Participei nos Novos Talentos FNAC porque é uma distinção que acompanho há vários anos e sempre me pareceu ter uma dimensão muito democrática. Gosto da ideia de um prémio que consegue aproximar a criação artística de públicos muito diferentes e que dá espaço a autores emergentes. Quando senti que THIS IS HEAVEN tinha atingido um nível de maturidade suficiente, pareceu-me fazer sentido apresentá-lo.
Já te tinhas candidatado a edições anteriores?
Sim, já me tinha candidatado anteriormente com outro trabalho e também com uma fase inicial deste projeto. Acho importante perceber que os projetos evoluem e que, muitas vezes, o tempo faz parte do próprio processo criativo.
O que representa ser um Novo Talento FNAC?
Na minha opinião, ser um Novo Talento FNAC é uma forma de dar visibilidade ao meu trabalho. A fotografia continua a ocupar um lugar muito particular em Portugal, especialmente a fotografia documental e os projetos de autor. Para quem desenvolve trabalho fora dos circuitos mais institucionais, oportunidades como esta são importantes porque permitem chegar a públicos muito diferentes.
Gosto especialmente da dimensão democrática deste prémio. Por um lado, ajuda fotógrafos que nem sempre têm acesso a espaços de exposição; por outro, aproxima a fotografia de pessoas que talvez não a procurassem enquanto consumidor e que acabam por se cruzar com ela nos espaços e comunicações da FNAC. Acho que isso tem muito valor.
Que conselho darias a quem está a pensar candidatar-se numa próxima edição?
Pensar na narrativa do trabalho. Muitas vezes preocupamo-nos demasiado com fotografias individualmente fortes e esquecemo-nos de pensar na relação entre elas. Uma série fotográfica não é apenas um conjunto de boas imagens, é uma construção. A seleção e a sequência devem contribuir para criar significado e conduzir o olhar de quem vê.
Porque é que decidiste concorrer com este projeto?
Apesar de trabalhar profissionalmente em fotografia há cerca de doze anos, este é o meu primeiro projeto de autor. Começou a ser desenvolvido durante a masterclass Narrativa, em 2023, onde tive mentoria do fotógrafo Mário Cruz. Sentia que tinha algumas lacunas na forma de pensar a fotografia em sequência e de a utilizar para refletir sobre temas que me interessavam. Foi através deste projeto que percebi que a fotografia podia ser mais do que uma ferramenta de registo, podia ser uma ferramenta de reflexão. Pela primeira vez, senti que estava a construir uma narrativa visual capaz de levantar perguntas, em vez de apenas documentar uma realidade. Por ser o primeiro trabalho em que senti verdadeiramente uma voz autoral, pareceu-me fazer sentido apresentá-lo aos Novos Talentos FNAC.
Faz-nos um retrato de THIS IS HEAVEN. Que reflexão propõe?
THIS IS HEAVEN é um projeto fotográfico desenvolvido ao longo de três anos, que investiga o universo funerário enquanto parte integrante do quotidiano. Através da observação de diferentes espaços, práticas e profissionais ligados ao setor, o trabalho aborda a presença contínua da morte, frequentemente escondida e regulada por convenções sociais, morais e religiosas. As fotografias observam gestos, rotinas e situações onde a morte se manifesta de forma indireta e, por vezes, irónica. Ao tornar visível aquilo que habitualmente permanece fora do campo de representação, o projeto questiona os mecanismos que condicionam a visibilidade da morte e propõe uma reflexão sobre a finitude enquanto condição estrutural da vida.

Passaste vários anos a olhar para a morte através da fotografia. O que mudou na forma como olhas para a vida?
A morte continua a ser um tema tabu, apesar de fazer parte da vida de todos nós. O próprio gesto de esconder um corpo sob um pano ou dentro de um caixão parece-me uma metáfora disso. Temos tendência para afastar a morte da nossa consciência e viver como se ela estivesse sempre algures longe. Ao longo deste projeto, comecei a pensar nela de outra forma. Percebi que a morte não é necessariamente má nem boa. Há formas mais duras de morrer do que outras, mas o ato em si é tão inevitável como o nascimento.
Estar próxima da morte durante estes anos tornou-me mais consciente da fragilidade das coisas, mas também da sua importância. É uma ideia simultaneamente perturbadora e libertadora: ajuda-me a relativizar problemas e a dar mais valor ao tempo.
O projeto fala daquilo que permanece fora do campo de representação. O que te atrai nos temas que tendemos a evitar ou esconder?
Neste caso, parte de uma experiência pessoal que me levou a pensar muito sobre a morte desde pequena. Sempre senti que era um tema pouco falado, muitas vezes escondido, apesar de ser uma das poucas coisas que todos temos em comum. Com o tempo, apercebi-me de que aquilo que evitamos olhar tende a ganhar mais peso na nossa vida. A morte, a doença, a saúde mental ou a solidão são temas que muitas vezes permanecem à margem da conversa pública, mas continuam presentes no quotidiano de toda a gente.
Interessa-me essa tensão entre aquilo que existe e aquilo que escolhemos não ver, talvez porque aquilo que escondemos diga tanto sobre nós como aquilo que mostramos. No caso da morte, parece-me particularmente curioso que algo tão inevitável seja simultaneamente tão invisível. Não acredito que falar mais sobre estes temas elimine o sofrimento, mas acredito que pode torná-los menos solitários. Talvez seja por isso que me atraem, porque são lugares onde a fotografia pode abrir espaço para olhar, pensar e conversar.
A tua formação começou no jornalismo e no fotojornalismo. Quando olhas para o teu percurso, sentes que continuas a procurar respostas para as mesmas perguntas, apenas através de linguagens diferentes?
Acho que continuo a tentar perceber o mundo através de diferentes linguagens. Vejo a fotografia, a escrita, a pintura ou a música como formas distintas de comunicação. Talvez a pergunta de fundo seja sempre a mesma: como é que damos sentido àquilo que vivemos? O jornalismo procura respostas através dos factos, a fotografia permite permanecer mais tempo dentro das perguntas. Hoje, interessa-me menos encontrar respostas definitivas, e mais criar espaço para a dúvida, para a observação e para a reflexão.
Como é que a fotografia surgiu na tua vida?
Sempre fui muito curiosa e sempre gostei de contar histórias. Quando era criança escrevia e desenhava bastante, mas só tive a minha primeira câmara fotográfica por volta dos 15 anos. Fiquei imediatamente fascinada pela possibilidade de observar o mundo através dela. Mais tarde, durante a licenciatura em Jornalismo, na área do fotojornalismo, percebi que a fotografia tinha uma capacidade de comunicação extraordinária. Uma fotografia pode ser compreendida por pessoas de diferentes línguas, culturas e geografias. Basta parar e olhar.
Que material usas?
Não sou particularmente fiel a uma marca ou a um equipamento específico. Ao longo dos anos trabalhei com diferentes câmaras e sistemas. Honestamente, acho que o equipamento é apenas uma ferramenta. É importante, claro, mas continua a ser o olhar, a intenção e a relação com o tema aquilo que faz uma fotografia.
Quais são as tuas principais influências?
Não consigo apontar uma influência principal. As influências são uma mistura de muitas coisas: livros, filmes, conversas, memórias, lugares, experiências pessoais e, claro, outras imagens. Acho que o nosso pensamento ou olhar é construído por acumulação. Por isso, tenho dificuldade em enumerar apenas algumas influências.
O que gostarias que mudasse na forma como olhamos para a fotografia hoje?
A velocidade. Vivemos rodeados de imagens e consumimo-las cada vez mais depressa. Fotografamos tudo, partilhamos tudo e esquecemos tudo muito rapidamente. Gostava que voltássemos a olhar para as fotografias com mais tempo e atenção, que as observássemos como observamos um texto: procurando detalhes, relações, significados. Talvez por isso me interesse tanto fotografar aquilo que normalmente passa despercebido. A fotografia tem a capacidade de devolver atenção ao que a rotina tornou invisível.
Se pudesses mudar uma coisa na forma como o público consome cultura, o que mudarias?
A educação. Acho que é fundamental rever e atualizar os programas escolares. Tenho a sensação de que as artes continuam muitas vezes a ser tratadas como algo secundário, quando são uma das principais formas de desenvolver pensamento crítico, criatividade e sensibilidade. Nem toda a gente aprende da mesma maneira, e os currículos continuam muito orientados para um tipo específico de funcionamento. Gostava que houvesse mais contacto com a cultura desde cedo (fotografia, cinema, literatura, música, teatro), não apenas como disciplinas, mas como experiências. Quanto mais cedo aprendermos a olhar, a interpretar e a questionar, mais rica se torna a relação que temos com a cultura ao longo da vida.
Estás a trabalhar em novos projetos? O que podemos esperar nos próximos tempos?
Gostava muito de concretizar a edição de THIS IS HEAVEN em livro e de continuar a sua circulação através de exposições e apresentações públicas. Ao mesmo tempo, estou a começar a investigar um novo tema, muito diferente daquele que tenho explorado nos últimos anos. Ainda está numa fase bastante inicial, mas passa precisamente por entrar num universo que desconheço e perceber o que ele pode revelar sobre a sociedade contemporânea.
Onde podemos seguir o teu trabalho?
Podem acompanhar o meu trabalho através do meu website e do Instagram, onde vou partilhando projetos, trabalhos recentes e o desenvolvimento dos projetos de longa duração em que estou a trabalhar.
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