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EDUARDO LIMA EM ENTREVISTA
ENTREVISTA- NTF 2026- ESCRITA- Eduardo Lima ENTREVISTA- NTF 2026- ESCRITA- Eduardo Lima

“Espero que da próxima vez que ouvirem falar de mim seja por causa de um livro” 

 


Depois de uma década afastado da escrita, Eduardo Lima regressou aos textos para lidar com a perda da mãe e reencontrar memórias da infância. Essa viagem deu origem a Luiz, o doido-santo, conto distinguido com uma Menção Honrosa na categoria de Escrita dos Novos Talentos FNAC 2026. 

 


O que te levou a participar nos Novos Talentos FNAC? 

 

Sempre gostei muito de me expressar através da escrita. No entanto, por causa de um episódio específico na adolescência, deixei de escrever durante muitos anos. Participar neste concurso foi uma forma de voltar a encontrar esse caminho. Foi uma tentativa de ser ouvido, de ser lido e de conseguir chegar às pessoas através dos textos. Senti que tinha muitas coisas dentro de mim e esta candidatura foi uma forma de voltar a expressá-las. 

 

Já te tinhas candidatado a edições anteriores? 

 

Não. Foi a primeira vez que me candidatei. Confesso que não costumo participar em concursos literários e até fiquei um pouco na dúvida sobre o processo. Mas fiquei muito feliz, sobretudo com o feedback que recebi do júri. 

 

O que representa ser um Novo Talento FNAC? 

 

Ainda estou a processar tudo isto. Fiquei muito feliz com o resultado e sinto que este reconhecimento funciona como uma validação. De alguma forma, mostra-me que aquilo que tenho para dizer pode chegar a outras pessoas e que consigo criar ligações através da escrita. Ser um Novo Talento FNAC representa precisamente essa possibilidade de comunicar e de me conectar com os outros através dos textos. 

 

Que conselho darias a quem está a pensar candidatar-se numa próxima edição? 

 

Aconselho sem qualquer hesitação. Eu próprio tinha alguma incredulidade. Perguntava-me se o meu texto seria realmente lido ou sequer considerado. Talvez por ingenuidade ou porque este universo dos concursos não me era familiar. Mas é um prémio muito inspirador. Por isso, diria a qualquer pessoa que tenha algo para dizer, seja através da escrita ou de qualquer outra forma de expressão artística, que avance e coloque cá fora aquilo que traz dentro de si. 

 

Porque é que decidiste concorrer com este conto? 

 

Este conto tem várias camadas. O Luiz existiu mesmo. Fez parte da minha infância e percorreu as ruas da cidade onde cresci, no interior do Ceará. Durante muito tempo ficou guardado na minha memória. 

 

No ano passado fiz 36 anos, a idade com que a minha mãe faleceu. Foi um ano muito difícil e a escrita tornou-se uma forma de reflexão e de reencontro com ela. Foi nesse contexto que comecei a escrever alguns contos e o Luiz reapareceu. Quis devolver-lhe alguma da dignidade que lhe foi negada em vida. Era uma figura marginalizada, muitas vezes excluída e reduzida a estereótipos. Tentei recuperar a sua complexidade, a sua humanidade e a sua história. Pareceu-me o conto certo para apresentar porque mistura lenda urbana, preconceito, afeto, esperança e dignidade. 

 

Qual é a história de Luiz, o doido-santo

 

O próprio título já carrega duas categorias muito fortes. Por um lado, o “doido”. Era assim que muitas pessoas o viam. Chamavam-lhe o doido, o maluco, o homem do saco, o presidiário. Eram rótulos que lhe eram atribuídos de forma preconceituosa. Por outro lado, o “santo”. Porque também gosto de brincar com esta fronteira entre o sagrado e o profano. Para algumas pessoas, o Luiz pode até ter representado uma forma de salvação. O conto procura precisamente mostrar que por detrás desses rótulos existia uma pessoa complexa, com uma vida e uma história próprias.  

 

Além disso, o Luiz também questionava as ideias tradicionais de género. Eu cresci nos anos 90, no interior do Ceará, onde estes temas praticamente não eram discutidos. Via um homem que usava unhas pintadas, batom, lápis nos olhos e roupa que não encaixava naquilo que me tinham ensinado ser o comportamento masculino. 

 

Hoje identifico-me como um homem gay e percebo que o Luiz foi uma das primeiras referências LGBT que tive na vida, embora só muitos anos depois tenha conseguido compreender isso. O conto mistura realidade e ficção, mas tentei ser o mais fiel possível às minhas memórias. 

 

Escreves sobre pessoas que muitas vezes são reduzidas a um rótulo. Achas que a literatura tem uma capacidade especial para contrariar esse impulso? 

 

Sem dúvida. Tenho percebido isso cada vez mais. A literatura permite-nos questionar aquilo que parece estar estabelecido.  

 

Na adolescência, sofri bullying depois de uma professora ler um texto meu em voz alta numa sala de aula. Era um texto muito sensível e isso acabou por me afastar da escrita durante muitos anos. Hoje sinto que a literatura pode precisamente confrontar esses padrões. Dá-nos espaço para abordar temas delicados, levantar questões e desafiar aquilo que é aceite como normal. Enquanto sociólogo, vejo também essa capacidade de questionamento como algo muito importante. A literatura permite fazê-lo de forma subtil, delicada até, mas sem perder força. 

 

Que reação esperas dos leitores ao lerem o conto? 

 

Espero gerar dúvidas. Gostava que as pessoas se interrogassem sobre o que aconteceu realmente, sobre quem era o Luiz e sobre aquilo que é verdade ou ficção na narrativa. Gosto de sugerir mais do que explicar. Quero que a leitura seja fluida e acessível, mas também inquietante. Sobretudo, espero que os leitores consigam encontrar pontos de contacto entre a minha história e as suas próprias experiências. O Luiz é uma personagem da minha vida, mas acredito que cada pessoa pode reconhecer ali algo da sua própria realidade. 

 

Quando e como surgiu a tua paixão pela escrita? 

 

A escrita sempre funcionou para mim como um dispositivo de reflexão. Uso-a para pensar, elaborar e compreender aquilo que me acontece. Mais recentemente, voltei a escrever quando completei 36 anos, a idade em que a minha mãe morreu. Foi um momento muito difícil porque senti que o meu tempo de vida se estava a cruzar com o dela. Tinha muitas questões dentro de mim e a escrita surgiu como forma de atravessar esse período. Mas a relação com a escrita vem de muito antes. Quando era adolescente, deixei de escrever durante cerca de dez anos depois da situação que vivi na escola. Na altura, ouvi muitas vezes que aquela sensibilidade “não era coisa de rapaz” e escondi essa parte de mim durante muito tempo. 

 

Voltei a escrever mais tarde, depois de uma separação conjugal. Mais uma vez, a escrita surgiu como uma ferramenta para atravessar um período difícil e compreender o que estava a viver. 

 

Já tens algum trabalho publicado? 

 

Na literatura, não. Tenho publicações académicas porque estou a fazer um doutoramento em Sociologia na Universidade de Lisboa. Os meus textos publicados pertencem sobretudo a esse universo.  

 

Qual é o teu livro favorito? 

 

Tenho dois livros muito especiais, ambos da escritora cearense Socorro Acioli. Um deles é Cabeça de Santo, que considero o meu livro de cabeceira. O outro é Oração para Desaparecer. São obras que me acompanham há muito tempo e a própria autora é uma das minhas grandes referências. 

 

Que ideia sobre o que faz um "bom livro" gostarias de ver posta em causa? 

 

Gostava de questionar o preconceito que muitas vezes existe em relação à autoficção e aos textos autobiográficos. Há uma ideia de que quem escreve sobre a própria vida está apenas a reproduzir aquilo que aconteceu e não é capaz de transformar essa experiência em literatura. Discordo totalmente. Escrever sobre a própria vida não significa limitar-se a relatar factos. É possível criar novas camadas, novas leituras e novas interpretações da realidade. O meu conto nasce precisamente desse lugar. Parte de experiências reais, mas procura ir além delas. 

 

Se pudesses mudar uma coisa na forma como o público consome cultura, o que mudarias? 

 

Vou responder a partir da leitura. Gostava que as pessoas tivessem mais consciência de que existe uma vida inteira por trás de cada texto. Hoje, estando do lado de quem escreve, percebo melhor todo o trabalho envolvido: pensar, escrever, rever, duvidar, reescrever e voltar a duvidar. Por vezes, um livro pode ser lido como algo simples ou passageiro, sem que se perceba a quantidade de intenção, trabalho e emoção que existe por trás dele. Gostava que os leitores tivessem isso mais presente. Não para valorizarem o autor, mas para valorizarem também o próprio texto. 

 

Estás a trabalhar em novos projetos? O que podemos esperar nos próximos tempos? 

 

Este prémio deu-me um estímulo enorme. Confesso que não estava à espera. Tanto que, quando recebi a notícia, estava em Malta, numa estadia académica, e quase tinha esquecido completamente a candidatura. Foi uma surpresa muito grande e uma validação importante. Tenho outros contos escritos e gostava de continuar a desenvolver esse trabalho. Talvez procurar uma editora em Portugal e tentar transformar estes textos num livro. Espero que da próxima vez que ouvirem falar de mim seja por causa de um livro. 

 

Onde podemos seguir o teu trabalho? 

 

Tenho partilhado alguns textos e reflexões no LinkedIn. É uma plataforma mais associada ao meu percurso académico e profissional, mas onde também tento introduzir poesia, literatura e escrita criativa. A partir daí é possível encontrar também as restantes redes sociais e acompanhar aquilo que vou escrevendo. 

 

Fica a conhecer todos os premiados dos Novos Talentos FNAC 2026 nas categorias de Cinema, Escrita, Fotografia, Ilustração, Música e Videojogos. Descobre AQUI os seus trabalhos.  

 

ENTREVISTA- NTF 2026- ESCRITA- Eduardo Lima
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