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DANIELA LEITÃO EM ENTREVISTA
ENTREVISTA- NTF 2026- ESCRITA- Daniela LeitãoENTREVISTA- NTF 2026- ESCRITA- Daniela Leitão

"Todos temos rachas sobre a nossa cabeça" 

 


Há medos que ganham forma e passam a ocupar espaço dentro de casa. Em Menos Pior, o conto vencedor da categoria de Escrita dos Novos Talentos FNAC 2026, Daniela Leitão transforma uma simples racha no teto numa poderosa metáfora para a ansiedade e a perda. 

 


O que te levou a participar nos Novos Talentos FNAC? 


Para ser absolutamente sincera, decidi participar de impulso! Já conhecia o concurso, mas nunca tinha pensado em concorrer. Este ano, senti que deveria arriscar e encarar a participação como uma oportunidade para experimentar um formato novo para mim (o conto). 

 

Já te tinhas candidatado a edições anteriores? 

 

Não, foi a primeira vez. 

 

O que representa ser um Novo Talento FNAC? 

 

Criar pode ser um exercício bastante solitário, principalmente na escrita. Muitas vezes, dou por mim a guardar ideias com receio de as pôr em prática, não só por duvidar da minha capacidade para as executar mas também por não saber como serão recebidas. Participar e ganhar um concurso como o Novos Talentos FNAC é uma validação importante, que acaba por nos dar confiança para prosseguir a concretização dessas ideias. 

 

Que conselho darias a quem está a pensar candidatar-se numa próxima edição? 

 

Diria para escreverem exatamente sobre o que quiserem e como quiserem. Para se divertirem e procurarem ir ao encontro de uma voz própria, sem pensarem no que o júri gostaria de ler ou no que os leitores vão achar. 

 

Porque é que decidiste concorrer com o conto? 

 

Nunca tinha escrito um conto antes, então foi uma primeira experiência-teste com a qual me diverti muito. É um desafio pensar numa situação que se possa apresentar, desenvolver e concluir em poucas páginas. Quando terminei de o escrever, senti que, mais do que um momento, o texto concretiza um sentimento muito específico mas, ao mesmo tempo, (gosto de acreditar) universal — esta sensação absurda de estar tudo absolutamente fora do nosso controlo. 

 

Qual é a história de Menos Pior

À superfície, Menos Pior conta a história de uma mulher que, depois de perder o cão, descobre uma racha no teto da casa onde vive sozinha. No entanto, é uma história sobre culpa, ansiedade e o peso da responsabilidade, das consequências das nossas decisões. A racha acaba por funcionar como uma manifestação física de tudo aquilo que a personagem tenta controlar e não consegue. Ao mesmo tempo, oferece-lhe um problema concreto, que exige resolução, como forma de evitar lidar com uma perda absoluta e irreparável. 

 

Que reação esperas dos leitores ao lerem o conto? 

 

Sempre que partilho um texto (pouquíssimas vezes!), gosto muito de saber como é que as leitoras e leitores se relacionam com ele. Mais do que perceber se gostaram (ou não), interessa-me perceber como se sentiram. Alguém compartilhou no outro dia que "todos temos rachas sobre a nossa cabeça" e, no fundo, é sobre isso: que catástrofe iminente, que medo, que perda te assombra a ti, agora? A minha amiga Inês apontou-me no outro dia uma música da Robyn que diz: "if you're scared, say you're scared". Scared

 

Quando e como surgiu a tua paixão pela escrita? 

 

Surgiu através da leitura. Tive a sorte de nascer para uma família que nutre um grande respeito pelos livros. Sempre li muito e, durante muitos anos, a minha relação com as histórias foi sobretudo através do papel de leitora. A escrita surge primeiro daí e, depois, de uma vontade de compreender, não só o que sinto mas também o que sentem os outros. 

 

Passaste muitos anos a ajudar outros projetos artísticos a acontecer. Como foi descobrir que também tinhas histórias tuas para contar? 

 

Trabalhar com os artistas com quem tenho tido oportunidade de partilhar experiências é um privilégio muito grande. São pessoas generosas com o seu talento, que me ensinam muito sobre criar, persistir, ser vulnerável. E mostram-me, sobretudo, como lidar com o medo. Naveguei (e ainda navego) por várias áreas de criação artística e, ao longo deste percurso, têm-me surgido várias ideias. Nem sempre foi imediato para mim que seria através da escrita que as concretizaria. Agora tem-se tornado cada vez mais claro que é por aqui e vou tentando, escrevendo. 

 

Tendo formação em cinema e televisão, sentes que pensas as histórias de forma visual quando escreves? 

 

Sim, sem dúvida. Penso muito em imagens, nos espaços, no ritmo. Perco muito tempo (talvez demasiado) no contexto. Preciso de visualizar primeiro onde e como decorre certa ação, como é o toque de um objeto ou a cadência de uma fala, para conseguir escrevê-la depois. Às vezes, fico demasiado presa nessa imagem e é um exercício divertido editá-la para lhe devolver a liberdade que a literatura ganha ao cinema. 

 

Já tens algum trabalho publicado? 

 

Sim. Em 2022, publiquei O Avô Minguante, vencedor do Prémio de Literatura Infantil do Pingo Doce. Foi a minha primeira experiência de publicação e o Avô ocupa um lugar muito especial no meu percurso. 

 

Qual é o teu livro favorito? 

 

É uma pergunta difícil, porque mudamos muito ao longo da vida e a forma como nos relacionamos com uma história também. Em determinado momento, li Just Kids, da Patti Smith, e marcou-me profundamente. É um livro ao qual tenho receio de regressar, porque não quero que perca a magia da primeira leitura. Por outro lado, abro constantemente As Malditas, da Camila Sosa Villada, só para ler um parágrafo e me fascinar, vezes sem conta, com a força daquela escrita. Acontece o mesmo com qualquer livro da Isabela Figueiredo. Por fim, estou agora mesmo a meio do No La Dejes Sola, da Desirée de Fez, e sinto que se vai tornar num favorito da vida adulta. Ainda não terminei mas já recomendo!  

 

Que ideia sobre o que faz um "bom livro" gostarias de ver posta em causa? 

 

Desconfio da ideia de que existe uma definição universal de "bom livro". Os livros que mais me marcaram nem sempre foram os que pertencem ao cânone, mas sim os que reclamam espaço para outras vozes e experiências. Aqueles que conquistam um lugar dentro da nossa casa, que têm de ser sublinhados, anotados, passados de mão em mão. 

 

Se pudesses mudar uma coisa na forma como o público consome cultura, o que mudarias? 

 

Gostava que houvesse mais tempo para a sua fruição, o que significaria, necessariamente, mudar a forma como nos é exigido que trabalhemos, as horas, os objetivos, a produtividade. A loucura de que somos alvo todos os dias.  

 

Estás a trabalhar em novos projetos? O que podemos esperar nos próximos tempos? 

 

Sim, tenho algumas ideias sobre as quais gostava de me debruçar. Espero poder desenvolvê-las e partilhá-las em breve 

 

Onde podemos seguir o teu trabalho? 

 

Ainda não tenho um lugar onde partilhar o meu trabalho como um todo, pelo que a melhor forma é através das minhas redes sociais. 

 

Fica a conhecer todos os premiados dos Novos Talentos FNAC 2026 nas categorias de Cinema, Escrita, Fotografia, Ilustração, Música e Videojogos. Descobre AQUI os seus trabalhos.  

ENTREVISTA- NTF 2026- ESCRITA- Daniela Leitão
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