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RITA SOUSA RÊGO EM ENTREVISTA
ENTREVISTA- NTF 2026- CINEMA- Rita Sousa RêgoENTREVISTA- NTF 2026- CINEMA- Rita Sousa Rêgo

“O cinema português não é apenas aquilo que chega às salas” 

 


Rita Sousa Rêgo fez Não Vai Embora como um presente para a mãe. A curta, construída a partir de imagens de arquivo e de uma revisitação às memórias familiares, recebeu uma Menção Honrosa na categoria de Cinema dos Novos Talentos FNAC 2026. 

 


O que te levou a participar nos Novos Talentos FNAC? 

 

Foi, sobretudo, a procura por iniciativas de promoção do cinema português e da cultura. 

 

Já te tinhas candidatado a edições anteriores? 

 

Não, nunca me tinha candidatado aos Novos Talentos FNAC. 

 

O que representa ser um Novo Talento FNAC? 

 

Fiquei muito agradada, porque não estava nada à espera que o meu filme fosse distinguido; não achava que fosse o tipo de obra que os Novos Talentos FNAC costumam procurar, embora isso nunca me tenha impedido de me candidatar. Ter este reconhecimento ajuda-me a olhar para o meu filme para além daquilo que eu própria penso sobre ele. Dá-me uma perspetiva exterior sobre o meu trabalho, o que é muito importante para o meu crescimento enquanto artista. 

 

Que conselho darias a quem está a pensar candidatar-se numa próxima edição? 

 

Candidatem-se. A candidatura é gratuita e acho que toda a gente, sobretudo quem está a começar a fazer as suas próprias obras, se deve candidatar a tudo e mais alguma coisa. O pior que pode acontecer é recebermos um não. Por isso, o meu conselho é mesmo: candidatem-se, candidatem-se, candidatem-se. 

 

Porque é que decidiste concorrer com este projeto? 

 

Não Vai Embora é a primeira curta-metragem totalmente minha, enquanto realizadora, fora do contexto escolar. Quando a fiz, não pensei em distribuição nem em festivais. Fiz o filme para oferecer à minha mãe. Era uma obra muito íntima e muito pessoal. No entanto, gostei muito do resultado e recebi um feedback muito positivo, por isso achei que fazia sentido perceber até onde poderia chegar. Desde o final do ano passado que tenho tentado explorar ao máximo a visibilidade que uma obra feita sem financiamento, sem apoios e sem grandes recursos pode alcançar. 

 

Como surgiu a ideia para a curta? 

 

A curta nasce da recuperação de um arquivo familiar filmado nos anos 80, durante a celebração da licenciatura da minha mãe. As imagens foram captadas numa casa de família, em Paradança, no concelho de Mondim de Basto, que durante muitos anos foi um importante ponto de encontro familiar. Quando vi aquelas imagens pela primeira vez, emocionei-me muito. Vi os meus avós de uma forma que nunca tinha visto, conheci familiares antes de eu nascer e observei relações familiares que só conhecia através das histórias que me contavam. 

 

Entretanto, essa casa deixou de estar na família e esteve vários anos sem ser utilizada. Quando descobri que estava à venda, senti uma enorme urgência de regressar lá. Contactei familiares que nem conhecia e consegui autorização para visitar o espaço. Fui até lá com uma câmara e um amigo, e filmei aquilo que viria a tornar-se a curta. O filme é uma tentativa de aproximação a memórias que não são verdadeiramente minhas, mas que também fazem parte de mim. É uma exploração da herança familiar, da memória e da identidade. 

 

Quais são as tuas principais influências? 

 

As minhas influências são muito multidisciplinares. Gosto muito de trabalhar a relação entre documentário e autorretrato e tenho tendência para filmar aquilo que conheço ou aquilo que procuro conhecer melhor. Neste filme em particular não parti de referências concretas; pensei sobretudo nas imagens, na forma como poderia reencontrar visualmente aquilo que tinha visto nos arquivos familiares. Acho que as minhas principais influências vêm do facto de sempre ter estado muito próxima das artes, e de ter tido muitos estímulos artísticos ao longo da vida. 

 

O que te atrai mais no formato da curta-metragem? Há alguma curta portuguesa que te tenha marcado particularmente enquanto espectadora? 

 

Há uma obra que me marcou bastante: A Balada de um Batráquio, da Leonor Teles. Gosto da forma como o filme aborda algo profundamente pessoal e, ao mesmo tempo, fala de identidade, pertença e memória. É um filme que me fez pensar muito sobre para que serve o cinema e sobre a forma como podemos relacionar-nos com o mundo através dele. Também gosto muito do trabalho da Chantal Akerman, sobretudo pela forma como utiliza o autorretrato e a presença da própria realizadora dentro dos seus filmes. 

 




Há alguma ideia feita sobre o cinema português que gostasses de desafiar? 

 

Acho que existe um preconceito muito forte em torno da ideia de que o cinema português é uma seca. Acho que há várias questões em volta desta ideia. 

  

Na minha opinião, há muito cinema português e há cinema português muito diverso. Nem tudo corresponde à imagem mais clássica que as pessoas costumam associar ao cinema nacional, nem tudo passa pelos mesmos autores, pelos mesmos temas ou pelas mesmas formas de fazer filmes. 

  

Acho também que o cinema português não é apenas aquilo que chega às salas ou aos grandes festivais. Há muitos filmes que não são conhecidos e que também fazem parte do cinema português. É importante olhar para essa diversidade. Para além de que se aprende a ver filmes, não é apenas entretenimento, é uma forma de olhar as coisas. 

  

Também sinto que é difícil para muitas pessoas imaginar-se a trabalhar na indústria do cinema. Eu não me imaginava. Embora o meu percurso tenha sido diferente, nunca trabalhei em Lisboa, consigo compreender. 

  

O cinema é uma área que exige muitos recursos e, muitas vezes, depende de estruturas já existentes, de redes de contactos e de determinados percursos. Quem não vem desses contextos pode sentir que tem menos oportunidades. Também acontece comigo. 

  

Em Portugal continua a ser muito difícil encontrar financiamento para as artes e isso também afeta o cinema. Muitas vezes, mesmo para projetos pequenos, os recursos são escassos. 

  

Eu trabalho e faço cinema a partir de Coimbra, fora dos circuitos mais centrais, e tenho conseguido encontrar a minha forma de fazer as coisas. Os festivais e os prémios que têm acolhido o meu trabalho ajudam-me a acreditar que também é possível construir um percurso de outra forma. 

  

Por isso, mais do que desafiar uma ideia feita específica, gostava que se reconhecesse a diversidade do cinema português e que existisse mais espaço para diferentes percursos, diferentes vozes e diferentes formas de fazer cinema, mais promoção e divulgação dos tantos trabalhos que se ficam pelos festivais, mostras e iniciativas de nicho. 

 

Se pudesses mudar uma coisa na forma como o público consome cultura, o que mudarias? 

 

Gostava que as pessoas consumissem menos cultura em casa e mais na rua. Não apenas nas salas de cinema, mas também nos cineclubes, nas mostras independentes, no cinema promovido por universidades, associações culturais ou autarquias. Acho que a experiência coletiva continua a ser muito importante. 

 

Estás a trabalhar em novos projetos? O que podemos esperar nos próximos tempos? 

 

Em termos de realização, ainda não tenho nada que possa anunciar. Mas há uma coisa que gostava de destacar: faço parte do Cineclube de Coimbra, o Fila K Cineclube, e dedicamo-nos muito à divulgação de cinema independente, cinema de autor e cinema português. Organizamos sessões gratuitas e promovemos conversas com realizadores e criadores. Para mim, isso também é fazer cinema. Falar sobre cinema, criar espaços de encontro e reflexão à volta dos filmes também faz parte do trabalho cinematográfico. 

 

Onde podemos seguir o teu trabalho? 

 

O melhor sítio é o Instagram da Largo Filmes, um projeto que partilho com o realizador Tiago Cravidão. É lá que reunimos e divulgamos o trabalho que fazemos em Coimbra e noutros contextos ligados ao cinema. Também podem acompanhar o Cineclube de Coimbra, onde desenvolvo grande parte da atividade ligada à programação e divulgação cinematográfica. 

 

Fica a conhecer todos os premiados dos Novos Talentos FNAC 2026 nas categorias de Cinema, Escrita, Fotografia, Ilustração, Música e Videojogos. Descobre AQUI os seus trabalhos.  

ENTREVISTA- NTF 2026- CINEMA- Rita Sousa Rêgo
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