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Vasco Rafael Carvalho: “Acredito que a fotografia deva levantar questões”
Menção honrosa na categoria de Fotografia nos Novos Talentos FNAC 2025, Vasco Rafael Carvalho rejeita fronteiras entre a vida pessoal e a prática artística. Com Elves Raven Thousand Sausages, um projeto sobre resistência, viajamos até aos Westfjords, na Islândia, onde trabalhou numa fishfarm.
O que te levou a participar nos Novos Talentos FNAC?
Normalmente estou atento a open calls em Fotografia e, sendo que os NTF são de inscrição gratuita, torna se ainda mais atrativo.
Já tinhas tentado a tua sorte noutras edições?
Sim. Já bombardeio este concurso há pelo menos cinco anos. Por fim, deu frutos.
O que representa ser um Novo Talento FNAC?
É uma boa oportunidade para me continuar a manter à tona, sem afundar no esquecimento. Sem dúvida uma excelente rampa de lançamento.
Faz-nos um retrato de Elves Raven Thousand Sausages.
Elves Raven Thousand Sausages surge da vontade em colecionar a rotina dos Westfjords (Islândia). Durante 6 meses trabalhei numa pequena fishfarm de truta do ártico. Decidi então usar uma toy camera que imprime em papel recibo. A própria estética revelou-se frágil e efémera, tornando se numa metáfora para o Eu naquele meio. O título fala de três forças essenciais: "Elves" sugere a magia do local, o "invisível"; "Raven", eu próprio tornei-me um corvo vigilante de mim mesmo, e do que me rodeava; Thousand Sausages por ser uma comida acessível e barata que remete para uma certa cadência temporal de repetição.
Quando é que este trabalho começou a ser desenvolvido?
Começou a ser desenvolvido em novembro de 2024. Surge como uma ramificação de um outro projeto que cruzará arquivo de outra temporada na Noruega e o arquivo mais recente da Islândia.
Que reflexão propõe?
Acaba por ser um projeto sobre resistência. Conseguir enfrentar a vida de frente e ver mais além na repetição do dia a dia. Descobrir também a importância do silêncio e a crueza do que é estar vivo.
Como é para ti fotografar num local tão remoto? Isso altera a tua relação com o sujeito?
Em parte, sim. Normalmente o meu modus operandi passa por fotografar e desaparecer com grande facilidade após ter o que procurava. Ali, sem dúvida que desaparecer era muito mais difícil, senão impossível até, pelo menos no imediato. A câmara ia por baixo do fato de neve que usava para trabalhar no exterior. Quando a oportunidade surgia, abria o fecho, fazia o registo e o trabalho continuava.
Como defines a tua relação com a memória e a identidade no teu trabalho?
Neste projeto, foi bastante direta a minha intenção ao usar uma ferramenta como esta. Tal como os cadáveres de ovelhas, cavalos e outros bichos deitados no musgo, estas imagens já estão a desaparecer. Sem dúvida que lugares como este é onde nos acabamos por desafiar e encontrar realmente, e por isso, o que penso e fotografo passa sempre por se resumir ao essencial, sem acessórios.
Como misturas o simbólico com o documental?
Mais do que oferecer respostas, acredito que a fotografia deva levantar questões. Ser provocadora. Ainda que se trate de um projeto aparentemente sério, tento incluir um sentido de humor, estranheza e até fantasia, oferecendo uma leitura mais aberta, mais subjetiva.
Como é que a fotografia surgiu na tua vida?
Surge naturalmente como uma ferramenta de expressão. Achava que street photography era uma cena, hoje acho que a fotografia não merece ser catalogada, mas sim livre de preconceito e rótulos que a limitem e banalizem.
Que material usas?
Uso o que tiver à mão. As imagens que considero mais importantes e que mais me ensinaram foram feitas com câmaras a cair aos pedaços ou câmaras emprestadas. Tenho uma atração pelo analógico e, sem dúvida, pelo que é mecânico. Gosto de saber fazer fogo sem precisar dele. Gosto de saber que se cair, o material pode cair comigo. De nada me adianta ter uma "L" se tenho medo de que a roubem numa rua qualquer e por isso não fazer a imagem. A fotografia não existe apenas na golden hour do fim de semana.
Que novos territórios ou temas gostavas de explorar no futuro?
O que me seduz é, sem dúvida, aquilo que ainda não conheço. Normalmente a receita é forçar-me a ir, mesmo que algo em mim diga o contrário. Sou masoquista nesse sentido. O que eu quero mesmo é um mecenas que me envie em "missões" e conseguir viver apenas disso. Seria feliz.
Se pudesses viajar no tempo, que conselho darias ao teu “eu” do início deste projeto? E o que achas que o teu “eu” do futuro te diria hoje?
Nenhum. Nada.
Se pudesses passar uma hora à conversa com alguém que admiras, quem seria? Qual era a primeira pergunta que lhe farias?
A minha mãe. Perguntar-lhe como se pode ser tão bom a fazer algo que não se gosta. Ela detesta cozinhar.
Estás a trabalhar noutros projetos? Que novidades podemos esperar para breve?
Existem três projetos em fila de espera para ser livro (Sudor, Sílex e Elves Raven Thousand Sausages). É muito dispendioso imprimir fotolivros sem apoios externos, daí a importância de um prémio como este. Neste momento, estou a trabalhar numa compilação sobre a minha experiência na Noruega e Islândia - VIND PA RYGGEN MIN (Wind On My Back).
Quem és quando não estás a criar?
Considero ter uma abordagem profundamente intuitiva. Rejeito fronteiras entre a vida pessoal e a prática artística, só assim faz sentido. Interessa me explorar a fragilidade e resiliência do mundo contemporâneo. Interessa-me o que ainda não está lá. Sou pescador.
Onde podemos seguir o teu trabalho (site, plataformas, redes sociais)?
No meu site, Instagram e no Vimeo.