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João Baptista: “Desde cedo associei a fotografia à criação de memória”
Para João Baptista, ser um Novo Talento FNAC é “a validação de um percurso e do esforço”. O vencedor na categoria de Fotografia espera agora ter mais meios e quem acredite no seu trabalho. Saison Floue, um projeto documental na região de Médoc, França, retrata condições de trabalho, a agricultura e a emigração sazonal.
O que te levou a participar nos Novos Talentos FNAC?
Bom, o concurso Novos Talentos FNAC já é um concurso conhecido no contexto da fotografia emergente. Pessoas como eu, em início de carreira ou que buscam uma rampa de lançamento, encontram no concurso da FNAC três fatores importantes: os prémios e a respetiva visibilidade, a simplicidade da candidatura, e o facto de ser gratuito. Estes elementos tornam este concurso extremamente apelativo e concorrido, imagino eu.
Já tinhas tentado a tua sorte noutras edições?
Se bem me recordo, fiz uma candidatura há uns três anos.
O que representa ser um Novo Talento FNAC?
Acima de tudo representa a validação de um percurso e do esforço. Já fotografo desde 2016, e até ao momento foi uma insistência totalmente auto-financiada e auto-gerida, mesmo em situações de exposições para instituições, festivais ou outras competições. Com mais ou menos sucessos. Ser um NTF é ter o foco no meu trabalho, expandir o meu público, ter mais meios e motivação para continuar, e acreditarem em mim e apostarem no trabalho. Não serei certamente o único fotógrafo ou artista que já considerou desistir consecutivas vezes.
Faz-nos um retrato de Saison Floue - Temporada turva.
Saison Floue mergulha num fenómeno recorrente do final do verão: a migração sazonal de pessoas de diferentes nacionalidades, origens, estilos de vida e extratos sociais para os terrenos vinícolas franceses. A vendange em França, pela sua relevância socioeconómica e histórica, é o ponto alto da temporada agrícola sazonal, atraindo milhares de trabalhadores que procuram ganhar o máximo dinheiro no menor tempo possível. Muitos seguem depois para outras colheitas — de frutas e hortícolas — integrando o setor dos chamados saisonniers agricoles, trabalhadores sazonais.
Este projeto fotográfico nasce da imersão direta nesse contexto de labor físico, exposto às intempéries, vivido em tendas, carrinhas, ocupações e, ocasionalmente, em casas partilhadas cedidas pelos empregadores, muitas vezes situadas nos próprios terrenos vizinhos ao local de trabalho. Um quotidiano onde o esforço exigido por esta atividade se mistura com o excesso, o tédio, o isolamento e o fácil acesso a álcool barato e a estupefacientes como o speed e a cetamina. Um ambiente à margem da “normalidade”, marcado por festas, raves, ocupas, música alta, piercings, cristas coloridas, animais de companhia e a reciclagem de comida. Um espaço onde se praticam modos de vida e de subsistência que combinam espírito de comunidade, entreajuda e o reaproveitamento com o anarquismo e o punk — um modo de viver que, em si, representa um ativismo político desafiador e, muitas vezes, transgressor.
Acontece um desfoque e um dissolver dos padrões sociais “normalizados”. Neste cruzamento de vidas e experiências, germina uma verdadeira subcultura já com raízes fortes, com os seus próprios rituais, códigos e expressões, que se sustenta e se reproduz.
Saison Floue ou Temporada Turva, em tradução literal, é um projeto de cariz documental, produzido a partir de uma experiência em primeira pessoa, captado na proximidade deste contexto, cujo foco não incide nas particularidades do trabalho objetivamente, mas naquilo que acontece na sua periferia.
Quando é que este trabalho começou a ser desenvolvido?
Este projeto não teve um início premeditado, ou seja, quando eu em setembro de 2023 fui para França trabalhar para a vindima na região do Médoc não fazia ideia do que me esperava, nem me passava pela cabeça fazer uma série fotográfica. Claro que, como noutras situações, tratei de levar uma câmara compacta e uma série de rolos comigo e fui fotografando.
Não me considero fotojornalista, nem fotógrafo documental. Fotografei, como sempre faço, seguindo um certo sentido de instinto e incidência sobre as cenas que se sucedem e me cativam. Fotografei então durante este período entre setembro e início de dezembro de 2023, voltei a Portugal e só agora no início de 2025 é que voltei a olhar para estas imagens. Este projeto ganhou verdadeiramente forma assim que o comecei a analisar e a montar; para isto tive ajuda de um amigo, o João Pinto Brandão, com quem lancei a sequência e que se revelou a essência do projeto.
Que reflexão propõe?
Diria que não é um projeto que proponha uma reflexão per se. Julgo que, segundo o meu posicionamento, será mais o abrir de um "mundo". Expõe uma série de circunstâncias de forma crua e imersiva sem a expectativa de se retirar conclusões redondas e absolutas. O assunto abordado dos saisonniers agricoles é demasiado abrangente e complexo para se resolver só nesta série fotográfica. A reflexão da minha parte e do meu lado está muito sobre o que é ser marginal, como se vive e onde se vive. Os preconceitos e os julgamentos associados. As condições de trabalho, a agricultura e a emigração sazonal. A dignidade, o prazer, o ócio e os valores que cada um segue na sua vida.
A série Saison Floue é feita num contexto de trabalho físico extremo. Como é que essa realidade influenciou a tua forma de fotografar?
Julgo que a influência passou muito pelo facto de praticamente não fotografar os momentos de trabalho em si. Quando se vê as minhas fotografias pode-se verificar que a maior parte das imagens são produzidas ou nos momentos fora do trabalho ou nas pausas entre o trabalho, e as pessoas estão em descanso. Estando eu a trabalhar também, obviamente também usufruía dessa pausa. Esta circunstância levou-me a ser muito mais discreto e furtivo na busca das imagens, tentando sempre não invadir os momentos com a minha presença e não revelando a câmara de modo que não se alterassem. Com a rotina, a repetição e o cansaço, a dado momento a câmara é mesmo irrelevante e deixa de ser notada - nem mesmo o flash é motivo de estranheza.
O teu trabalho mergulha em realidades temporárias e coletivas. O que te atrai nesse ambiente?
Este sítio atraiu-me simplesmente por uma necessidade financeira e uma expectativa de "aventura" — mal sabia eu os desafios que me esperavam. A reflexão e análise sobre a experiência e as fotografias veio depois. Agora, entendo que tenho uma atração pelos trabalhos temporários porque eu próprio me tenho orientado pessoalmente nesta direção, tenho trabalhado sempre em blocos com início e fim. O ser temporário permite saber exatamente quanto se vai ganhar e quando acaba, e há muita liberdade e alívio nestas condições dentro de um panorama precário generalizado. Interessa-me também o lado coletivo porque se trata realmente de uma grande massa de população que se movimenta neste contexto. E quando se consomem os produtos vindouros destes trabalhos tudo isto é invisível e ausente, não há relação.
O que muda numa imagem quando há confiança entre quem fotografa e quem é fotografado?
Acho isto difícil de explicar porque neste projeto não há nenhum retrato que assumidamente revele este intercâmbio. Julgo que a confiança / tolerância está muito mais em ter tido as condições para ir fotografando, por vezes mesmo transgredindo a própria intimidade e privacidade das pessoas. Acho que a confiança neste sentido está muito mais na utilização das imagens e na forma como exponho as pessoas. Mas dou o exemplo da ocupação em que vivi, representada nalgumas imagens; foi com grande desconfiança que me receberam no início da nossa convivência, as pessoas não queriam ser fotografadas, não queriam que as carrinhas fossem fotografadas, queriam estar à vontade e tinham receio do meu olhar e aproveitamento sobre situações de excessos. Precisei de algum tempo e muitas conversas para me introduzir e ajustar a estas condições legítimas. E houve um lado de sensibilidade que eu tive mesmo de aprender e reconhecer quando falhei ou incumpri.
Como é que a fotografia surgiu na tua vida?
A fotografia surgiu através da faculdade de Belas Artes. Eu formei-me em escultura, mas tive umas cadeiras de laboratório e fotografia. Interessou-me a parte analógica da fotografia por manter um contacto muito direto sobre os materiais e os resultados. Apesar disso, posso dizer que ainda sou do tempo de ir com o meu pai levar os rolos à Kodak e receber o envelope com os negativos e as impressões, e de ver os álbuns de família. Acho que desde cedo associei a fotografia à criação de memória.
Vieste das Belas Artes e da escultura. Como é que essas linguagens continuam a atravessar a tua prática fotográfica?
Acima de tudo, foi um percurso e um contexto que cultivou em mim um certo sentido de análise, crítica, gosto e contemplação. Obviamente, e para além disso, onde desenvolvi ferramentas de composição, estéticas e conceptuais. Julgo que o facto de vir deste percurso marcou a minha postura em relação ao tipo de fotografia que me interessa produzir e como gosto de a expor. No passado trabalhava muito as minhas impressões / ampliações em sais de prata como se fossem originais únicos, trabalhando a pincel e química a luz e os tons da imagem. Sobre isto remeto para o meu projeto abismo, de 2022.
O tema do trabalho sazonal implica repetição e fim. O teu trabalho como artista também tem ciclos?
Diria que a vida é feita de ciclos e, portanto, o trabalho do artista também o é, inevitavelmente. Esta série foi um ciclo ao qual, para já, não tenho intenção de retornar, tenho outras ideias que me interessam fazer. Pelo que agora será o ciclo de expor e montar o trabalho, fazê-lo circular e, possivelmente, fazer uma publicação.
Que material usas?
Uso exclusivamente máquinas analógicas variadas, de diferentes formatos e maioritariamente películas a preto e branco. Revelo tudo no meu laboratório no Porto, no atelier Caldeiras. Neste projeto usei exclusivamente uma point and shoot Samsung SlimZoom290ws, com película Rollei 400s.
Se pudesses viajar no tempo, que conselho darias ao teu “eu” do início deste projeto? E o que achas que o teu “eu” do futuro te diria hoje?
Teria dado o conselho de levar mais rolos. E julgo que o meu "eu" do futuro me diria para não desistir, e que os resultados do meu trabalho estão a começar a dar frutos.
Onde encontras inspiração quando te sentes bloqueado ou sem ideias?
Isto na verdade, na fotografia, acontece-me pouco. Nunca deixei de trabalhar por falta de ideias, e tendencialmente são sempre abundantes. Na verdade, sou condicionado principalmente pela falta de meios para as concretizar mais rapidamente ou de todo, ter tempo e disponibilidade para dedicar às ideias a rotina e o tempo de que necessitam, e acima de tudo ter um mecanismo mais ágil e eficaz para os meus projetos verem a luz do dia. Com isto, é de notar que em toda a minha carreira sempre trabalhei a tempo inteiro em situações muito variadas. Para terminar, quando estou bloqueado, sinto que é viajar a melhor forma de romper. Viajar a um sítio novo, ou a uma zona da cidade nova, coisa que me acontece muito aqui em Lisboa, por exemplo. Há sempre tanto para ver se se estiver aberto a isso.
Se pudesses passar uma hora à conversa com alguém que admiras, quem seria? Qual era a primeira pergunta que lhe farias?
Eu sou da opinião de que não se deve conhecer as pessoas que admiramos, correm o risco de perder o brilho.
Estás a trabalhar noutros projetos? Que novidades podemos esperar para breve?
Sim, vou sempre trabalhando em vários projetos em simultâneo que vão cozinhando e maturando em lume brando. Podem acompanhar os meus projetos no meu site. Tenho prevista a exposição do prémio FNAC na Narrativa, dia 13 de setembro, pelo outono tenho uma exposição no meu atelier no Porto e em 2026 terei uma exposição deste projeto num espaço / galeria no Porto também.
Quem és quando não estás a criar?
João Salgueiro Baptista (n. 1994). Artista, fotógrafo, operário. Vive e trabalha entre Lisboa e Porto. Começou a fazer filmes e a pintar. Quer fazer um livro. Licenciado em Belas Artes no ramo de Escultura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (2016). Tem um Master em Fotografia Artística pelo Instituto de Produção Cultural e Imagem (2021). Faz parte do Atelier Caldeiras, onde desenvolve o seu trabalho. É técnico de arte na galeria Madragoa.
Onde podemos seguir o teu trabalho?
No meu site e no Instagram.