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António Saldanha: “O tempo é fundamental para mim”
António Saldanha quis colocar-se à prova e, através dos Novos Talentos, submeter o seu trabalho à apreciação de um júri composto por fotógrafos que respeita. Para a menção honrosa na categoria de Fotografia, este é o reconhecimento “da vontade de fazer mais”. Quanto Pesa Um Segundo “é uma reflexão sobre a ocupação do tempo”, que pretende traduzir uma crítica ao tempo acelerado e à superficialidade numa linguagem visual.
O que te levou a participar nos Novos Talentos FNAC?
Frequentei a Masterclass da Narrativa 2024/2025 e este projeto foi o primeiro que fiz com princípio, meio e fim em fotografia. Sou relativamente novo nesta área, mas o feedback final foi bastante positivo. Decidi, então, que tinha um corpo de trabalho interessante e quis candidatar-me aos Novos Talentos, que é um prémio que traz bastante reconhecimento. Além disso, o prémio tem uma componente financeira significativa, o que é sempre bom. Quis também pôr-me à prova, submeter o meu trabalho à apreciação de um júri composto por fotógrafos que respeito e que são referências em Portugal. Essas foram as minhas maiores motivações.
Já tinhas tentado a tua sorte noutras edições?
Não, foi a primeira vez.
O que representa ser um Novo Talento FNAC?
Na verdade, ainda não sei muito bem. Candidatei-me para tentar ganhar, claro — ninguém se candidata só por se candidatar, queremos sempre ganhar. Mas para mim, que sou tão novo na fotografia — comecei a fotografar a sério em 2022, antes disso só brincava um pouco — é um bocado inacreditável chegar aqui tão rápido. Sinto que o meu trabalho foi apreciado de forma muito positiva, e isso é bom, dá vontade de fazer mais. Mas também sei que o trabalho artístico é sempre subjetivo. O júri identificou-se com o meu trabalho, e isso é ótimo, mas sei que houve outras excelentes candidaturas. Não me sinto especial só por ter sido escolhido, mas sinto-me muito bem com o reconhecimento.
Faz-nos um retrato de Quanto Pesa Um Segundo.
É uma reflexão sobre a ocupação do tempo e, na verdade, sobre o que é o nosso tempo livre. Parti de alguma base literária, de alguns livros que me marcaram muito, como O Direito à Preguiça. O termo fear of missing out [FOMO] irrita-me. E irrita-me porque também caio nessa ‘armadilha’ que nos obriga a querer fazer tudo, estar em todo o lado e cumprir métricas.
Vivemos numa corrida para sermos interessantes, baseados em números: ler muitos livros, ver muitos filmes, seguir milhares de páginas, participar em eventos mais para “ver e ser visto” do que para realmente vivê-los. Tudo isto acelera o tempo e torna impossível que exista um momento de silêncio ou ócio genuíno. E este conceito de tempo lento, calmo, até de ócio — essa ideia de “não fazer nada” — pode ser muito produtivo, até inspirador. Foi esta reflexão que me levou a criar o meu projeto. Foi um desafio tentar passar esta ideia toda para imagens, traduzir esta crítica ao tempo acelerado e à superficialidade numa linguagem visual.
O que gostarias que alguém sentisse ao ver o teu trabalho?
Gostava que as pessoas parassem para pensar, nem que fosse por um momento. Mesmo que não percebam completamente, que olhassem para as imagens e sentissem aquele efeito de desgaste, de aprisionamento, que sentissem o peso dessa sensação. Talvez que, em vez de passarem o tempo a ler reviews e seguir influencers, decidissem sair com amigos, explorar a cidade, viver a experiência sem filtros, como as crianças que brincam na rua. Acho que isso se tem perdido e é triste.
Que importância tem o tempo na tua forma de olhar e fotografar? Há alguma relação entre ritmo musical e composição visual no teu processo?
O tempo é fundamental para mim, talvez pela minha experiência como violinista. Na música, o tempo é obsessivo: as obras têm uma duração rigorosa, usamos metrónomos, e cada segundo conta. Passamos horas a praticar para depois tocar meia hora ao vivo, onde um segundo em falso pode comprometer tudo. Não há margem para erro nem para repetição no momento da performance.
Já na fotografia, é o oposto. Posso andar à vontade com a câmara, sem pressa. Tenho uma ideia na cabeça, mas posso sair e observar calmamente o mundo à minha volta. Se não encontrar a imagem certa de manhã, posso voltar mais tarde — não preciso saber exatamente onde ela estará. Posso experimentar vários enquadramentos, ajustar ângulos, tentar novas abordagens. Tenho tempo para voltar para casa, rever as imagens, brincar com elas e decidir o que funciona melhor.
Claro que, num projeto, há prazos para cumprir, mas a gestão do tempo na fotografia é muito diferente da gestão do tempo na música. Posso deixar que o inesperado aconteça e não estou tão preso à pressão do instante exato.
O que te levou da música para a fotografia?
Foi um bocado aleatório. Comecei a estudar música muito novo, com 10 anos. Fiz licenciatura em violino, mestrado em ensino, fui professor num conservatório e também trabalhei como músico freelance, tocando aqui e ali com Orquestras. Depois, tive uma lesão no ombro esquerdo e, a dada altura, a recuperação começou a ser muito chata. Já estava a ficar um pouco farto de estar a lutar contra mim mesmo. E, não sei porquê, o meu pai ofereceu-me uma máquina fotográfica. O meu pai sempre teve interesse em fotografia — antes de eu nascer, fotografava muito, embora eu não me recorde de o ver fotografar muito depois disso. Houve uma fase em que ele decidiu comprar uma câmara para ele e outra para mim, já em 2019.
Comecei a brincar com a máquina, a perceber como funcionava tecnicamente, mas sem grande regularidade. Se pegasse na câmara uma vez por mês era muito. Ainda assim, gostava, eram momentos que apreciava porque sentia um grande desfasamento da minha vida enquanto violinista. Só comecei a levar a fotografia a sério em 2022, quando estive na Ucrânia a fazer voluntariado, logo no início da guerra, e levei a minha câmara para o campo de refugiados.
Estiveste onde?
Estive duas vezes na Ucrânia. Na primeira vez, em Chernivtsi, perto da Roménia, e na segunda, em Lviv. Levar a câmara foi importante porque, mesmo sem falar ucraniano, conseguia criar alguma ligação com as pessoas. Mesmo que os retratos não fossem perfeitos, as pessoas gostavam de se ver. Acho que isso ajudou a criar uma ligação emocional e até a aliviar um pouco toda aquela tragédia. Quando voltei, já não tocava — o ombro esquerdo estava desfeito — e senti que queria investir na fotografia. Comecei a consumir livros sobre o tema a um ritmo frenético e a frequentar workshops, fazendo o máximo possível. E cá estamos, até agora não tem corrido nada mal.
Que material usas?
Tenho uma Canon 6D e o meu projeto é praticamente todo feito com uma lente 50mm, que é basicamente o que uso. Tenho também uma 28mm, que me dá jeito para filmar. Entretanto, comecei a fazer alguns trabalhos em vídeo — no ano passado, por exemplo, acabei de fazer um documentário em Cabo Verde para um projeto financiado pela União Europeia. Por causa desses trabalhos, comecei a colaborar com a Fundação Maio Biodiversidade [Cabo Verde], o que me levou a fotografar aves. Para isso, uso uma teleobjetiva.
Se pudesses viajar no tempo, que conselho darias ao teu “eu” do início deste projeto? E o que achas que o teu “eu” do futuro te diria hoje?
Diria para não perder a confiança, porque é normal haver crises durante o processo. Nem todos os dias correm bem e isso não significa que o projeto não vá funcionar. E ao meu “eu” do futuro diria para aprender com o passado e continuar motivado, porque um dia mau não define nada.
Se pudesses passar uma hora à conversa com alguém que admiras, quem seria? Qual era a primeira pergunta que lhe farias?
Gostava de estar uma hora à conversa com o Prince. A primeira coisa que lhe perguntava era: como é que se faz para conseguir fazer tantas coisas tão bem ao mesmo tempo? Como é que se aguenta? Ou então, não sei, até queria falar com o Da Vinci, mas a pergunta seria exatamente a mesma.
Estás a trabalhar noutros projetos? Que novidades podemos esperar para breve?
Já tenho ideias para novos projetos, felizmente, mas ainda não comecei a pôr nada em prática. Há aspetos deste projeto que ainda quero fechar. Quero explorar esta temática um pouco mais, mas também preciso de perceber quando é altura de largar o osso, porque não quero entrar numa obsessão exagerada por isto. Gostava de aprofundar um pouco mais, mas sei que o fim deste projeto está próximo. Ganhar uma menção honrosa ajuda a fechar este ciclo, mostra que o trabalho tem solidez e está bem estruturado. Já estou a rascunhar algumas ideias para os próximos projetos, mas só vou avançar quando tiver mais certezas, quando sentir que este está mesmo terminado.
Quem és quando não estás a criar?
Não sei, sinto-me quase uma espécie de reformado, a tentar aproveitar a vida um bocadinho. Tenho 32 anos, mas posso dizer que já trabalhei quase 20, porque comecei muito cedo. Aos 12 anos já dava concertos de violino. Gosto da ideia de a minha vida ter seguido assim, aos saltos: já fui violinista, professor, fiz voluntariado em cenários de guerra, trabalhei com ONGs em África. Tenho esse formato tipo canivete suíço, em que vou juntando uma funçãozinha aqui, outra ali. Mas, na verdade, quando não estou a criar, gosto é de aproveitar as oportunidades que aparecem e acumular experiências que posso viver intensamente, com tempo.
Onde podemos seguir o teu trabalho (site, plataformas, redes sociais)?
Tenho um Instagram que não está muito organizado, mas com este projeto e o prémio vou colocando algumas coisas, incluindo trabalhos antigos. Tento mostrar diversidade porque, para trabalhos comerciais ou documentais, preciso de uma montra do que faço no dia a dia. Agora estou a tentar dar um rumo mais autoral, como este projeto, que é o que realmente gosto de fazer.