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Ao explorar a identidade, o silêncio e um legado de vergonha, Ladivine traça um retrato profundo das suas personagens. Qual foi o ponto de partida para a construção desta narrativa?
A ideia foi-se concretizando ao longo do tempo, não houve um momento preciso em que eu tenha tido a ideia. O que eu queria, sobretudo, era trabalhar a relação entre uma mãe e a sua filha, mesmo que essa relação esteja doente desde o início.
Essa relação difícil entre mãe e filha está muito ligada a um momento específico da história de França. Hoje já não há vergonha em apresentar uma mãe negra. Pelo contrário, é algo de que os filhos se orgulham. Há cinquenta anos, não; não era orgulho, era vergonha.
Sendo filha de um pai senegalês e de uma mãe francesa, de que modo a tua herança atravessa Ladivine, ainda que de forma subtil, nomeadamente na reflexão sobre origem e pertença?
Eu não tive uma mãe negra, tive um pai negro. Não é o mesmo ter uma mãe negra ou um pai negro. O livro não é, de todo, representativo da minha própria história.
Este é, então, um romance enraizado no passado colonial francês, mais do que uma narrativa pessoal ou universal?
Uma história universal, não sei. Trata-se de uma narrativa profundamente ligada ao passado colonial de determinados países: Portugal com Angola, a França com o Senegal, o Mali, o Norte de África, a Argélia, Marrocos. Não é propriamente universal, porque há contextos, como o do Japão, que não têm esse passado e para os quais esta história não estabelece qualquer relação. O mesmo acontece com países como a Suécia, que não tem passado colonial, ou a Alemanha, que o teve de forma muito limitada. É uma história que diz respeito sobretudo à França, a Portugal, a Inglaterra, a Espanha, mas não ao resto do mundo, penso eu.
Reformulo, é uma narrativa familiar e uma forma de pensar a história de um país?
Penso que sim, que é as duas coisas. Interesso-me muito, enquanto leitora, por narrativas familiares, mas gosto quando esses universos íntimos encontram o seu lugar dentro da história de um país. Não tive consciência disso enquanto escrevia, foi algo que aconteceu de forma natural. Só me apercebi mais tarde, quando críticos literários ou jornalistas começaram a colocar-me essa questão.
No meu percurso enquanto leitora, os laços familiares são uma matéria narrativa constante. Tenho a sensação de que a maioria dos romances e das peças trabalha esse território. Hamlet é a história de um filho e, portanto, um drama familiar. O mesmo acontece em Proust. Em Anna Karenina, de Tolstói, fala-se de irmãs, de filhas, de pais. Essas dinâmicas atravessam grande parte da literatura.
Sinto-me mais livre quando escrevo romances. É o género que prefiro, precisamente por essa liberdade. Num romance, pode caber tudo. A extensão não é um problema: podem ser cem páginas, trezentas ou mil. É possível criar quantas personagens se quiser. No teatro, há limites e exigências próprias da cena; não posso colocar trinta, cinquenta ou cem atores em palco. Num romance, tudo é possível.
A atribuição de nomes, tal como a sua ausência, desempenha um papel central na tua obra. De que forma essa decisão intervém na construção da identidade das personagens?
Quando começo a escrever um romance, não penso em termos de tema ou de assunto. Não parto de conceitos nem de ideias abstratas. As únicas coisas que nomeio desde o início são as personagens e o lugar onde a história acontece. Dou-lhes um nome próprio e um apelido, inscrevo-as num espaço geográfico preciso, e é a partir daí que a escrita se desenvolve. Não sou filósofa nem penso a literatura em termos teóricos. Sou simplesmente uma romancista que procura criar personagens em que acredita, numa língua que tenta trabalhar com rigor.
Vês a tua escrita como um gesto político?
Não sei. E não quero saber, pois tenho a impressão de que isso influenciaria a minha escrita.
A leitura de Ladivine por leitores em África ou na diáspora poderá diferir significativamente da feita em França? Em que sentido?
O livro passa-se, mais uma vez, num tempo distante. Hoje, tenho a sensação de que a diáspora africana e magrebina em França já é um dado adquirido. Já não é algo que esteja em causa. Em muitas famílias francesas há pessoas vindas do Norte de África, da África subsaariana, e esse cruzamento fez-se, no geral, de forma bastante bem-sucedida, muito por causa da língua. O francês é a língua dos senegaleses, dos malianos, das pessoas da Costa do Marfim, mas também do Magrebe, de Marrocos, da Tunísia, da Argélia. Há aí um terreno comum. A língua francesa é fundamental: é o alicerce, o pilar de uma mistura que funcionou. É essa língua partilhada que sustenta esse encontro.
Foste a primeira mulher negra a vencer o Prémio Goncourt, o mais prestigiado prémio literário francês, em 2009. Que significado teve essa distinção e como lidaste com a dimensão simbólica que lhe foi atribuída?
Na verdade, eu fui apenas a décima primeira mulher a receber o prémio em mais de um século. Só onze mulheres o tinham ganho até então. Por isso, senti sobretudo orgulho enquanto mulher. Depois, claro que houve a consciência intelectual de estar a representar várias coisas ao mesmo tempo: mulher, negra... Mas não me vejo dessa forma. Posso reconhecer o significado simbólico desse momento, mas ele não define a forma como me penso enquanto escritora.
A literatura pode tornar visíveis histórias que, de outra forma, permaneceriam invisíveis?
Tenho acompanhado a questão da Faixa de Gaza... O trabalho dos jornalistas é tão importante quanto o da literatura. Todas as formas de dar a ver o que se passa no mundo, seja através de livros, artigos ou reportagens, são vitais.
A crítica considera-te uma das vozes mais singulares da literatura francesa contemporânea.
Não sabia, obrigada.
Não te reconheces nesse lugar?
Não me cabe a mim dizer se sou isto ou aquilo.
No panorama literário atual, quais são os maiores desafios para os escritores?
É difícil dizer. A literatura deve ter a força de dar conta do que se passa em Gaza. Peças ou romances, obras capazes de tornar real algo tão monstruoso que quase parece irreal.
Quem é que estás a ler?
Bernard-Marie Koltès, um grande dramaturgo que morreu aos cinquenta anos e escreveu textos notáveis, e Yasmina Reza. Soube que a peça Art está neste momento a ser encenada em Lisboa; é uma peça apontada como a obra contemporânea mais representada em todo o mundo. Acho muito bonito que seja de uma escritora francesa.
Por Rita Sousa Vieira