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Quando escreves, procuras dar forma ao que vês ou exorcizas o que te inquieta?
Escrevo sem planear muito. É algo mais espontâneo. Vou descobrindo o que estou a escrever na própria frase. Uma frase puxa a outra e, assim, o texto vai-se desenhando. Claro que às vezes tenho uma ideia mais clara, como aconteceu com A Árvore Mais Sozinha do Mundo, em que já sabia mais ou menos onde precisava de chegar. Mas, no geral, eu conheço a história à medida que ela nasce. Por isso, até me sinto um pouco leitora do que estou escrevendo. É uma sensação que só acontece no momento da escrita. Se fico apenas pensando no que vou escrever, nada acontece, nem a escrita, nem a ideia. Quanto à realidade, eu não vejo como uma criação, mas como uma reprodução redesenhada pela linguagem, sublimada, digamos assim. Isso produz uma sensação diferente do real. Acredito que a linguagem literária desestabiliza o leitor: torna-o mais vulnerável, mais frágil, e é nesse estado que ele recebe a realidade de outra forma.
Num podcast, contaste que, ainda criança, te divertias a “brincar de escrever”. Essa brincadeira evoluiu para uma escrita mais consciente e estruturada, ou ainda há espaço para o imprevisto e para o jogo entre a linguagem e a imaginação?
Acho que esse é o maior desafio: não parar de brincar. Quando aprendi a escrever, logo me encantei em inventar histórias. Senti que era como brincar com os brinquedos que eu tinha, mas com uma camada a mais, que era a linguagem. Um prazer duplo: a história e, em paralelo, a própria linguagem. A ideia é manter essa criatividade acesa. Cada vez que escrevo em adulta, preciso resgatar a criança em mim, para destravar, para não ficar engessada pelo olhar adulto. Isso me permite viajar mais.
Essa criança que mantém a chama acesa foi o que te levou a escolher vozes não humanas — um espelho, uma árvore, uma caminhonete, roupa de proteção — para narrar A Árvore Mais Sozinha do Mundo?
É a história de uma família de um lugar muito distante do meu, com uma linguagem muito diferente da minha. E eu queria manter a primeira pessoa, que uso nos outros livros, mas sem que a voz fosse inteiramente da linguagem deles. Também não queria que tivessem consciência plena do que estavam vivendo, porque na realidade não há essa consciência. É um contrato difícil de entender. Então, desde o início, decidi que a história seria narrada por espiões domésticos, por seres não humanos.
A escolha foi muito ligada ao espaço. Eu queria a sala, a cozinha… e logo me veio o espelho. No começo não era português, mas a ideia apareceu ainda no terceiro capítulo — acho que foi, até, sugestão do meu marido. Fez sentido que fosse um espelho antigo, com uma certa história, estrangeiro.
Para a árvore, quis uma natureza não cultivada pelo homem mas que, de algum modo, admira a humanidade. A caminhonete permitiu acompanhar os trajetos, observar a família fora de casa. E a roupa de proteção eu precisava muito incluir, porque queria mostrar como o equipamento vai envelhecendo, perdendo eficácia, até permitir a entrada do veneno. Então decidi que a voz da roupa mais nova teria uns oito anos, um tom mais infantil, contrastando justamente com o peso do agrotóxico.
Foi fácil dar uma voz portuguesa ao espelho? Surgiu de leituras que te influenciaram? Pergunto porque encontro traços de influências literárias, talvez de José Saramago.
Acredito que sim. Eu leio muitos portugueses. Gosto muito da Dulce Maria Cardoso, conheci recentemente o Davi Machado, adoro o José Luís Peixoto. Talvez eu até leia mais portugueses do que brasileiros... O espelho foi divertido de criar. Depois pedi para a Ruth, uma amiga portuguesa, fazer uma leitura final.
Por vezes, quando um brasileiro tenta imitar o português de Portugal, há quase um tom caricatural, mas aqui não se nota isso.
O que ela [Ruth] mais me ajudou foi nas inversões de frases. Existe esse hábito em Portugal, que é diferente do nosso. Ela foi sugerindo essas mudanças e aí, no texto, já se sente um aportuguesamento natural. Quanto ao vocabulário, eu já dominava várias diferenças, mas optei por não exagerar para não dificultar a leitura no Brasil. Algumas palavras deixei do nosso jeito.
A Árvore Mais Sozinha do Mundo lembra-nos de que não estamos sozinhos?
Pode ser. Há essa presença dos objetos, e também uma certa indiferenciação entre o humano e o seu entorno. Acho que vivemos um tempo em que precisamos dividir menos o mundo de nós mesmos e nos misturar mais ao planeta. Sermos essa árvore, essa caminhonete. Existe uma sensação planetária urgente.
Ao ler o livro, tive a sensação de que havia uma câmara apontada àquela família: conseguia ver tudo, mas eles ignoravam estar a ser observados. Era esse o efeito que pretendias criar?
Exatamente. Por isso falei em espiões domésticos: dá mesmo essa sensação. Mas é uma câmara afetiva, não nociva. Os narradores estão sozinhos, ninguém fala com eles, ninguém percebe a sua vida. Eles só têm aquela família, estão ali há muitos anos. Então, observam com afeto. Também existe essa ideia de câmaras diferentes: a árvore narra o que acontece lá fora, as crianças entram em casa e o espelho assume. Queria mesmo essa sensação de que estamos o tempo todo a ver aquela família — e eles, quase sempre, estão apenas a trabalhar.
Embora tenha sido escrito antes da catástrofe que atingiu o Rio Grande do Sul em maio de 2024, uma das maiores tragédias climáticas do Estado, o livro já tratava de questões ambientais. Como é que dialoga com acontecimentos tão dramáticos?
O livro foi publicado alguns meses antes. Eu já tinha entregado quando tudo aconteceu. Foi terrível.
O Brasil é o terceiro maior produtor de tabaco do mundo. Quando é que tiveste contacto com o mundo dos fumicultores?
Foi por uma matéria da BBC chamada Epidemia de suicídios no Rio Grande do Sul. Eu cheguei a ela por acaso, pesquisando suicídio para o livro Não fossem as Sílabas do Sábado. Aquela manchete me intrigou muito. Fui entender e descobri que havia uma contaminação, não de pessoa para pessoa, mas por agrotóxicos, por venenos. Isso me perturbou.
O sistema de produção criou em mim uma sensação literária: famílias hiper endividadas, presas numa bola de neve de juros. Desde então, percebi que talvez fosse meu próximo livro. Queria mergulhar num ofício, entender uma profissão diferente e retratar de perto essa experiência. Fui acumulando uma longa pesquisa. Li estudos académicos, teses de mestrado e doutoramento, notícias, mas também mergulhei nas redes sociais: vi publicações de fumicultores, de adolescentes da região, para sentir como falam, o que mostram, do que reclamam, até os alertas internos — como “não fala isso porque a fumadeira tá vendo” ou “fulano foi cortado na integração”. Passei muito tempo nessa imersão virtual e, depois, visitei uma lavoura por um ou dois dias.
Como paulista, que impacto teve para ti estar no terreno e confrontar aquilo que antes acompanhavas só academicamente, pelos media ou nas redes sociais?
Foi um alívio, porque eu já estava com o livro muito avançado e tinha medo de chegar lá e descobrir que tudo era diferente. Mas não, encaixou certinho. Até o maquinário, que eu já tinha estudado bastante, era como eu imaginava. A família que visitei não era endividada, mas vivia de forma simples, com estufas de lenha, máquinas rústicas, manuais. Era muito parecido com o que eu tinha escrito. O jeito de falar, o ritmo, tudo foi muito gostoso de ouvir e de encaixar com a minha pesquisa. Eles mostraram os animais, cada cantinho… Parecia mesmo que eu estava a ver o livro ganhar vida.
Este livro parece ter um ritmo mais lento, especialmente se comparado com Não fossem as Sílabas do Sábado. Concordas com essa perceção?
Sim. Principalmente porque o ritmo de vida ali é outro, não é urbano. É um livro que retrata o dia a dia de uma família. A primeira parte ainda não tem a correria da colheita, então, a leitura é mais lenta. Nos meus outros livros, as narradoras são muito velozes, verborrágicas. Até a pontuação faz o leitor correr. Aqui é diferente: o ritmo é o da lavoura. O início é mais lento e, no final, quando chega a colheita, tudo se agita.
Qual foi a reação dos leitores e da crítica brasileira a A Árvore Mais Sozinha do Mundo?
O Brasil é muito grande, e essa realidade do Sul é distante da maioria. Então, há dois tipos de receção. De um lado, os leitores urbanos, que não conheciam nada desse universo, e que me escrevem a dizer: “Meu Deus, nunca tinha ouvido falar disso”. Para eles, é uma descoberta. Do outro, os leitores do Sul. Já fui lá algumas vezes, presencial e online, e é completamente diferente. Quase todos conhecem alguém ligado ao tabaco. Muitos trabalharam em lavouras ou foram crianças a ajudar na colheita. Eles sentem uma emoção forte, porque não esperavam ver esse retrato artístico. Às vezes até encontram fotos antigas, lembranças esquecidas, e partilham comigo.
Uma professora de Canguçu, que é justamente a região que imaginei, escreveu-me a dizer que reconhecia as paisagens que descrevi — usei muito o Google Maps para isso. Ela contou como os alunos chegam exaustos na época da colheita e resolveu ler o livro em sala, numa leitura assistida. Enviei exemplares para a biblioteca deles. Lá, a troca é muito viva, muito direta.
A morte assume um papel central na tua obra. Qual é a origem desse interesse?
Talvez seja algo familiar. Eu gosto demais da vida e, por isso, tenho uma rejeição enorme ao fim dela. É como se o pavor da morte conduzisse o meu dia a dia. Inevitavelmente, isso acaba nos livros.
Foi uma constante desde a infância, adolescência, ou veio com a idade adulta?
Ficou mais forte na vida adulta, mas já estava lá na infância. Tive uma infância muito privilegiada, sem riscos reais, mas ainda assim pensava muito nisso. Retratei um pouco dessa sensação nos dois livros que também saíram em Portugal, por outra editora [Se Deus Me Chamar Não Vou e É Sempre a Hora da Nossa Morte Amém]. Acho que é um exercício de espiar o pavor. Faço ensaios mentais de luto; quando escrevo sobre a morte, não é a primeira vez que imagino aquela dor. Às vezes tento evitar, mas penso: fulano está num avião, ou alguém demora a avisar que chegou em casa… Os pensamentos vêm. É uma dor fictícia, mas muito real para mim. Não sei se já esgotei esse tema, talvez volte nos próximos livros. Mas a sensação é que, de algum modo, a nossa efemeridade sempre aparece.
É verdade que só escreves nos fins de semana e nas férias? Como consegues uma produção literária tão consistente apenas nesse período de descanso?
Eu sou muito rápida quando estou a escrever. E como sou funcionária pública em São Paulo, tenho férias anuais, inclusive o período de encerramento dos tribunais no Natal e Ano Novo, de cerca de 15 dias. Aproveito essas pausas mais longas para mergulhar na escrita. Escrevo quase tudo de uma vez, depois deixo o livro “dormir” alguns meses e retomo. Esse distanciamento ajuda-me a reler como leitora. A Árvore Mais Sozinha do Mundo, por exemplo, comecei na pandemia, depois parei, fui para outro projeto.
E nesse processo de revisão, reescreves e cortas muito? Ou tendes a manter as primeiras versões?
Rever é quase escrever de novo. Termino um capítulo, releio imediatamente e corto bastante. Normalmente corto mais do que acrescento. O caso mais radical foi a caminhonete de A Árvore Mais Sozinha do Mundo. Decidi no fim manter o sotaque colono, típico do interior do Sul, registado graficamente — sem o duplo R, por exemplo. Isso exigiu uma revisão total, algo novo para mim. Mas eu gosto da revisão, é prazerosa. Acho que tem um peso tão grande quanto a primeira escrita.
Do primeiro livro até A Árvore Mais Sozinha do Mundo, sentes que houve uma evolução tua na escrita ou nos temas abordados? Consegues fazer um retrato do teu percurso literário até aqui?
Os primeiros livros foram por editoras muito pequenas, sem distribuição. Isso foi em 2007 e 2017. Ali havia já um estilo, mas vejo hoje mais como um começo. Os quatro mais recentes, sinto-os equivalentes, vindos de um mesmo lugar. Mudo tudo com Se Deus me chamar não vou, quando vieram os leitores. Isso transforma completamente: clubes de leitura, debates... O livro ganha outra vida, trazendo também um certo medo e a consciência de que o que escrevo será lido. Antes era uma escrita muito livre. Mas, ao mesmo tempo, trouxe experiência, essa troca viva com os leitores.
Já aconteceu algum leitor oferecer uma leitura de um dos teus livros que te tenha surpreendido?
Sim, várias. Às vezes, metáforas batem no leitor de outra forma. Recebo análises psicanalíticas, por exemplo, que eu não teria feito. Já me emocionei em debates. Também houve quem lesse A Árvore Mais Sozinha do Mundo como se fosse um thriller, esperando um enredo de abuso infantil, o que não tem nada a ver. Isso mostra como cada leitor traz o seu repertório.
És defensora oficiosa. O que a Mariana jurista dá à Mariana escritora?
Acho que há uma semelhança entre os dois ofícios: a necessidade de se colocar no lugar do outro, de imaginar vidas que não são as suas, de cuidar delas. Ser leitora e escritora torna o trabalho jurídico mais delicado. E a defensoria trouxe-me um contacto constante com a miséria brasileira, com injustiças estruturais. Isso acaba nos livros, ainda que de forma indireta. É um exercício contínuo de empatia.
Alguma experiência no sistema de justiça poderá inspirar futuras histórias?
Sim. O próximo livro pretendo ambientá-lo inteiramente nesse universo, embora não seja baseado em casos reais. Quero explorar mais o humor, apesar de o tema inevitavelmente trazer drama. Tentarei incluir alguma quebra cómica nos livros, e quero arriscar mais nesse tom.
Qual é a tua área de atuação?
Há mais de dez anos que atuo no civil e família: divórcios, guardas, reintegração de posse, bancos, seguros de saúde. Mas passei três ou quatro anos no criminal e no infracional, com adolescentes em conflito com a lei. Foi uma fase muito dura. Tinha 24 anos quando entrei. Todos os dias via pessoas presas, condenadas. Por mais que conseguisse diminuir penas, elas voltavam para uma miséria sem saída. Escrevi muitos contos nessa época, mas saí correndo desse universo.
E a literatura, de que forma se torna um escape?
Mesmo quando os temas são pesados, a literatura oferece uma sublimação pela linguagem. Normalmente leio antes de dormir, e isso já me transporta para outro plano. Costumo dizer que, se me perguntam “para que serve a literatura?”, eu devolvo: “para que serve a vida, senão para termos literatura?”. É o que lembra que, apesar de tudo, a humanidade ainda produz livros maravilhosos.
Logo no início falávamos de influências. Que autores e obras mais marcaram a tua trajetória como escritora?
Quando tinha 14 ou 15 anos, uma professora deu-me a ler Lygia Fagundes Telles. Li As meninas na biblioteca e esse livro mudou tudo. Eu já escrevia, mas descobri ali uma forma de narrar a intimidade, o doméstico, sem grandes acontecimentos. Fascinou-me. Depois veio José Saramago, ainda jovem, e mais tarde António Lobo Antunes. Milan Kundera também marcou muito, com A insustentável leveza do ser ou A imortalidade. Mais tarde descobri Elvira Vigna, autora brasileira. Li tudo dela.
E o que estás a ler?
Vou lendo o que me indicam, o que recebo, o que surge nos eventos literários. Acabo por ler muito os meus contemporâneos. Entre os portugueses, gosto muito da Dulce Maria Cardoso. Entre os brasileiros, prefiro não citar nomes, porque pode ficar alguém de fora, mas leio bastante os meus contemporâneos.
Por Rita Sousa Vieira