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O que te inspirou a escrever este livro?
Na verdade, foi o medo. Nem sequer ia ser um livro. Sempre desenhei, para além do meu trabalho, por necessidade pessoal. Desde pequena que o faço quando preciso. Comecei a desenhar aquela mulher de cabelo grisalho de onde saíam monstros por várias partes do corpo. E percebi que o que estava a desenhar era o meu medo. Atravessava uma fase em que me sentia cansada, sem perceber bem porquê. Era o peso de não compreender o que vinha a arrastar há tantos anos. Então, quase por acaso, acabou por se transformar num livro. Desenhei o medo para compreendê-lo.
A minha editora em Espanha, quando lhe contei que estava a fazer estes desenhos e que talvez fizesse uma exposição, disse-me: “Acho que isso é um livro.” E tinha razão, porque eu via muitas imagens animadas na cabeça e comecei a desenvolver o projeto como se fosse uma banda desenhada. E pouco a pouco comecei a escrever, e assim nasceu O Medo.
No livro O Prazer exploraste a sexualidade feminina e a libertação de tabus, enquanto em O Medo abordas questões como o bullying, a autoestima e as relações tóxicas. De que forma é que estes temas se interligam na tua obra?
Há uma ligação, se incluirmos o Mulheres Más entre O Prazer e O Medo. Acho que O Prazer é um livro muito luminoso e talvez me tenha apanhado numa fase muito otimista da vida; em Mulheres Más já se nota um pouco mais de raiva. O Medo não é um livro reivindicativo, é um livro que fiz para mim. Já não havia a intenção de agradar, apenas de ser o que tinha de ser.
Esses dois livros, O Prazer e Mulheres Más, prepararam-te para enfrentar alguns temas mais difíceis?
Não sei. Acho que, mais do que os livros, foi mesmo uma fase muito importante da minha vida. Estava num momento em que precisava de compreender melhor o que sentia e quem era. Comecei a fazer terapia porque queria perceber como lidava com as minhas coisas, com a minha vida. Percebi que muitas dessas questões vinham de feridas antigas. Há feridas que nem sequer aparecem no livro. Afinal, é uma obra de autoficção, e escolhi partilhar apenas o que sentia vontade de mostrar ao público.
De que forma escrever sobre o medo pode ser uma maneira de o enfrentar — ou até de lhe dar um novo significado?
É uma forma de o entender. E, ao entender, talvez ganhe outro significado. Aconteceu o mesmo em O Prazer. Lembro-me de um livro que li há muitos anos, em que uma sexóloga sugeria escrever um diário com as primeiras memórias — foi o que fiz em O Prazer, e esse processo ajudou-me a compreender a minha sexualidade e a relacionar-me de outra forma comigo própria.
Com O Medo foi igual: desenhá-lo e pensá-lo ajudou-me. Há um exercício na psicologia chamado “linha da vida”, que consiste em marcar os momentos mais importantes da tua história — tanto os bons como os maus — para perceber quem és. O Medo faz exatamente isso. Claro que há medos no livro que ainda hoje me assustam, mas quando os compreendes, ganhas ferramentas para os relativizar. Alguns acabam por desaparecer; outros voltam, às vezes com mais força.
Os medos mudam com o tempo, ou apenas se disfarçam sob novas formas?
Os medos têm muito de contexto. Neste livro, pode haver pessoas que achem banal o que digo, e é legítimo, porque cada um vive realidades diferentes e tem as suas preocupações. O medo nasce do contexto sociocultural e das experiências pessoais. Não é o mesmo crescer numa classe humilde ou numa classe privilegiada.
Há medos que estão ligados à classe social, à raça e também à cultura — sobretudo à cultura patriarcal. Existem medos universais, como o da vida e da morte, mas um homem não tem os mesmos medos que uma mulher, e uma mulher branca não tem os mesmos medos que uma mulher racializada.
Sentiste, em algum momento, limitações ao escrever sobre o medo, por saberes que a tua perspetiva não representa todas as mulheres?
Ninguém representa tudo. Ninguém é assim tão universal. Acho que somos, ao mesmo tempo, mais parecidos e mais diferentes do que imaginamos. Quando estava a escrever O Medo, dizia muitas vezes ao meu companheiro: “Não percebo porque é que estou a fazer este livro. A quem é que isto pode interessar?” Parecia-me algo demasiado pessoal. E, no entanto, acabei por perceber que muitas pessoas se sentiram ligadas ao que escrevi.
Recentemente, fiz algo que nunca tinha feito: li comentários na plataforma Goodreads. E pensei: “Isto destrói a autoestima de qualquer um, não leio mais.” Li porque uma amiga escritora tinha ficado magoada com alguns comentários, e quis perceber. Havia quem dissesse que o livro falava a partir do privilégio. Mas, sinceramente, acho que quem escreve ali não tem muito menos privilégios do que eu. Sempre fiz o meu trabalho com respeito, deixando claro que sei de onde falo. E também é verdade que há pessoas com muitos mais privilégios do que eu.
Além disso, não acredito que seja preciso identificarmo-nos a cem por cento com cada livro que lemos. Se fosse assim, deixaríamos de ler milhões de livros. Porque é que eu leria Madame Bovary se não vivi nessa época nem fui uma mulher da classe alta? Se pensássemos dessa forma, deixaríamos de ler — ou de ver — obras maravilhosas que não representam a nossa realidade. E isso seria um pouco absurdo.
Qual foi o medo mais difícil de enfrentar e partilhar?
O do abuso. Era o que mais me preocupava que fosse bem compreendido, porque é um tipo de abuso muito subtil — não é físico nem mental de forma evidente. Mas queria falar a partir dessa subtileza, porque há muitas mulheres que vivem essa realidade e não conseguem identificar o que estão a sentir. Sabem apenas que não estão felizes, que não estão bem. Queria falar disso, mas tinha receio de que não se entendesse e que pensassem: “Ela está assim porque quer.” Acho que era o capítulo que mais me inquietava.
Como é que decidiste o que devia ser contado através das palavras e o que pertencia às imagens?
Para mim, podia ter sido um livro só de imagens. Era isso que eu via, e custou-me muito sentar-me a escrever. Aliás, é um livro em que, mesmo sem o texto, as imagens contam a história. E se não leres o texto, talvez o impacto seja ainda maior, porque as imagens são muito oníricas e abertas à interpretação de cada pessoa. Acho bonito que exista primeiro uma leitura visual e, só depois, uma leitura completa.
Há muitas referências à música e à poesia. Que papel têm outras formas artísticas, como a literatura, na dimensão emocional do livro?
Têm importância na minha própria construção emocional. Os poemas, as canções, até as referências a filmes — como uma frase de David Lynch ou de Marie Curie — são elementos que me acompanharam nessa fase. Ajudavam-me a sentir-me melhor, mais compreendida, menos sozinha. E acabei por visualizá-los como imagens. Pareceu-me importante incluí-los no livro, porque essas palavras expressavam melhor aquilo que eu queria representar. E sim, talvez com algum pudor, talvez com síndrome de impostora. Mas não me custa admitir que o meu maior valor está no desenho, e está tudo bem com isso. Às vezes falamos de “síndrome de impostora”, mas também é importante reconhecer onde somos mais fortes e onde somos menos fortes. Gosto muito de ler, e sei que há pessoas que escrevem melhor do que eu. Gostava de escrever como a Lara Moreno ou como a Anne Sexton, mas não escrevo. E está tudo bem.
Como escolhes os símbolos que utilizas e que significado procuras transmitir quando decides repeti-los em diferentes projetos?
São o que me move. É algo muito instintivo. Claro que penso bastante antes de começar a desenhar, passo muito tempo a imaginar antes de pegar no papel. Mas é a parte mais emocional, aquela em que tento não pensar demasiado. Em Mulheres Más, por exemplo, as flores tinham sempre um significado. Às vezes era algo meu; outras vezes, procurava o simbolismo e achava curioso ver como coincidiam. Na verdade, na Internet tudo pode estar relacionado.
Penso muito nas cores: este livro é muito azul, aquele é muito rosa, Mulheres Más é muito roxo. Os monstros também têm muito significado. Gosto que não seja apenas estético, mas que tenha um sentido, que leve a algum lugar.
Falar abertamente sobre o prazer ou sobre o medo pode ajudar a normalizar conversas que muitas vezes são evitadas?
Acho que sim. Eu, por exemplo, falo abertamente dessas questões com as minhas amigas, e isso ajuda-me muito. Às vezes é quase uma extensão da minha terapia. Sei que, noutros contextos, não se fala tanto. Já passou muito tempo desde O Prazer, e hoje vejo-o como algo distante — até com alguma preguiça, talvez, porque é um tema muito abordado. Mas, na altura, o livro gerou muitas conversas, sobretudo entre mães e filhas. Houve quem me dissesse que, graças ao livro, começou a falar sobre sexualidade. E isso é bonito. Com O Medo, aconteceu algo semelhante. Recebi mensagens de pessoas que, ao lerem o livro, conseguiram pôr nome ao abuso que viviam, e até o trabalharam depois com as suas psicólogas.
Esse diálogo em torno do livro estendeu-se a reflexões sobre a maternidade?
Também. Porque falar de maternidade, a partir de certas perspetivas, continua a ser um tabu — especialmente quando se fala da dúvida. Na verdade, a primeira parte sobre a maternidade escrevi-a antes de saber se queria mesmo ser mãe. Como demorei quatro anos a fazer o livro, passei por várias fases: agora quero, agora não quero. Se o tivesse terminado noutra altura, talvez hoje não tivesse um filho.
Não é um livro com respostas. Quis falar dessa dúvida que pode surgir mesmo depois da gravidez, porque parece que, uma vez tomada a decisão, tens de estar sempre feliz, sem poder voltar atrás, e isso não é justo. Quis abordar também a culpa, porque ouvir uma amiga falar da sua própria dúvida ajudou-me muito quando passei pelo mesmo. Fez-me sentir menos sozinha, menos culpada. Acho importante falar disso. E agora que sou mãe, quero continuar a falar da maternidade a partir de um espectro mais amplo, não apenas da ideia do “que bonito é ser mãe”.
Qual é a mensagem principal que gostarias que os leitores levassem consigo depois de ler o livro?
Não é um livro de autoajuda. Não há respostas. Acho que o que quero é que as pessoas se sintam menos sós e menos culpadas. Que percebam que, se estão numa relação abusiva, se têm dúvidas sobre a maternidade ou se decidem não ser mães, tudo isso é normal — e não há culpa nisso. É um livro de companhia. Quero que quem esteja a passar por isso se sinta acompanhado, e que quem não esteja possa, ainda assim, compreender melhor o que os outros vivem.
Tens vontade de continuar a explorar outras emoções que dialoguem ou complementem o medo?
Talvez. É possível que sim. Tenho uma ideia na cabeça, mas ainda estou a tentar perceber como lhe dar forma, e se faz sentido. Outra vez, com o meu medo, a tentar entender se vale a pena avançar. Mas sim, pode ser que surja algo.
O que estás a ler?
Comprei vários livros que ainda não comecei. Vou dizer o último da Lara Moreno, Ningún amor está vivo en el recuerdo. Chegou há pouco tempo e quero muito começar a lê-lo. Mas, graças ao meu filho, neste momento ando a ler sobretudo livros infantis.
Por Rita Sousa Vieira