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Juan Gabriel Vásquez em entrevista
ENTREVISTA - JUAN GABRIEL VÁSQUEZENTREVISTA - JUAN GABRIEL VÁSQUEZ

“Escrevi este livro para resgatar Feliza do esquecimento e da História”: Feliza Bursztyn, Colômbia e literatura 

 

Quase trinta anos depois de ter lido a frase que lhe ficou cravada na memória — “a escultora colombiana Feliza Bursztyn morreu de tristeza” — Juan Gabriel Vásquez regressou a Paris para escrever Os Nomes de Feliza.  

 

À Cultura FNAC, o escritor fala das coincidências biográficas que o aproximaram de Feliza Bursztyn, uma mulher que rompeu todas “as camisas de força impostas pela sociedade”, do tempo necessário para transformar uma vida em literatura e da escrita como espaço de memória contra o esquecimento. 

 

 

O QUE TENS DE SABER: 


 

 

Foste para Paris com 23 anos, a mesma idade que tinha Feliza Bursztyn quando chegou à cidade para estudar escultura. É uma bela coincidência... 

 

Essa coincidência é uma das muitas coincidências estranhas deste livro e pareceu-me especialmente importante, porque foi aos 23 anos que li aquela crónica do Gabriel García Márquez, o artigo que começava com a frase: “A escultora colombiana Feliza Bursztyn morreu de tristeza”. É essa a origem do livro, essas três palavras — “morreu de tristeza”. O livro é uma investigação sobre a possível verdade desse diagnóstico feito por García Márquez. 

 

O livro nasce aí, quando tentava perceber se seria possível ser romancista, se isso existia no meu futuro, se a minha vocação literária podia conduzir a algo real; mas a escrita, essa, aconteceu mais tarde, numa segunda Paris para mim, numa segunda estadia na cidade. 

 

Tal como Feliza, que morreu numa segunda vida em Paris. 

 

Exatamente. Tal como Feliza teve dois momentos em Paris — um na juventude, quando tentava tornar-se artista, e outro já perto dos 50 anos —, também eu tive uma Paris de juventude, em que procurava abrir caminho como escritor, e regressei à cidade perto dos 50 anos para escrever o livro sobre ela. As simetrias foram muitas, e isso fez da escrita um exercício sobre outra vida e, ao mesmo tempo, sobre a minha. 

 

Foste para Paris com o intuito de ser escritor? 

 

A Paris da minha juventude foi um destino caprichoso, quase arbitrário, que escolhi por duas razões: uma literária e outra de vida. A literária prendia-se com o facto de Paris representar, para mim, dois momentos fundamentais da literatura: o do boom latino-americano, com escritores como CortázarVargas Llosa e García Márquez, e da literatura anglófona do período entre guerras, com JoyceHemingway e Fitzgerald. Todos eles viveram e escreveram em Paris. Fui à procura dessa mitologia literária. 

 

Mas havia também outra razão: fugi da violência no meu país, de uma década marcada pelo narcoterrorismo, de um tempo de insegurança extrema numa Colômbia sufocada pela guerra que o cartel de Medellín declarara ao Estado, e também pela presença das guerrilhas, sobretudo das FARC, então num momento de grande poder e destruição. Essas duas circunstâncias — fugir da violência e chegar ao lugar que, para mim, significava acima de tudo literatura — estiveram na origem da minha chegada a Paris. 

 

Também te sentias um exilado, como Feliza? 

 

Não, não me sentia exilado, porque um exilado, por definição, não pode regressar ao seu país. Eu podia, e fi-lo várias vezes. Era antes um expatriado. Gosto muito de uma palavra que V. S. Naipaul usa, lembrando um significado antigo de “inquilino”: o animal que vive no lugar de outro. Eu era isso, um animal que vive no lugar de outro. Não me sentia exilado nem parte de uma diáspora, porque não tinha sido perseguido politicamente; o meu país não era uma ditadura. Era simplesmente alguém que não se sentia bem na sua cidade e procurava outros horizontes, entre outros animais. 

 

E já conhecias a Feliza? 

 

Quando cheguei a Paris, não. A primeira notícia que tive sobre a vida de Feliza Bursztyn foi o artigo de García Márquez, e a partir daí dediquei-me, durante vinte anos, a investigá-la, a tentar conhecer quem a tinha conhecido. 

 

Tornou-se uma obsessão? 

 

Sim, sem dúvida. Feliza começou, a certa altura, a aparecer nos meus sonhos; pensava nela várias vezes por dia, no meio de outros trabalhos, e percebi então que a curiosidade se tinha tornado obsessão e que não havia outro remédio senão escrever o livro. 

 

Houve um vazio depois de terminares o livro? 

 

Terminar o livro foi duas coisas: um vazio e uma fonte de nostalgia. Depois de passar mais de vinte anos a pensar numa pessoa e, de repente, já não ter de o fazer porque o livro está escrito e publicado, sente-se um vazio. Mas também um alívio: a sensação de missão cumprida, de que já não é preciso continuar a pensar nela, de que já fiz tudo o que podia fazer com a sua história. Isso traz paz e autoriza-nos a passar ao livro seguinte. 




 

 

Para quem não a conhecia, o livro dá-lhe uma nova vida; para quem, como tu, viveu tantos anos com ela na cabeça, é uma segunda despedida? 

 

Sim, é uma boa leitura. O que me interessa é, sobretudo, o que referes primeiro: a possibilidade de que uma mulher esquecida — não a sua obra, mas a sua vida — pudesse ser resgatada do esquecimento. Isso era essencial para mim. Escrevi este livro, entre outras razões, para resgatar Feliza do esquecimento colombiano e da História, que deixa tantas coisas para trás. E também para criar um espaço onde quem a conheceu pudesse recordá-la. Em particular, o marido, Pablo, que foi o meu principal testemunho, o meu informante mais próximo. Assistir ao modo como Feliza Bursztyn voltava a viver através da memória dele foi um privilégio. O livro tornou-se também um espaço onde ele pôde recuperar a lembrança da mulher que amou. 

 

E o que disse Pablo quando o leu? 

 

Essa era uma das minhas grandes inquietações: a possibilidade de que Pablo não aprovasse o resultado, de que sentisse que o romance não fazia justiça à verdade ou que falsificava algo. Felizmente, quando a leu, disse-me apenas: “Isto é verdade.” Ou seja, com as ferramentas da ficção consegui fazer um retrato verdadeiro de Feliza Bursztyn. Foi o maior elogio que poderia receber. 

 

Que leitura achas que Feliza faria deste retrato literário? 

 

Também me pergunto isso. Feliza Bursztyn era rebelde por natureza e nunca aceitava as definições que os outros faziam dela — nem como mãe, nem como artista, nem como mulher ou militante. Por isso, acredito que também não aceitaria este livro. Ter-lhe-ia parecido incompleto, ou talvez discordasse de algo, ainda que ela própria o tivesse dito antes. Ter-se-ia revoltado, de algum modo, contra o livro. Feliza rebelava-se contra todos os limites. 

 

Temos estado a falar dela, mas quem foi Feliza Bursztyn, a quem chamas “abre-caminhos”? 

 

Os leitores portugueses vão conhecer a vida de uma mulher que sempre quis ser livre. Feliza Bursztyn libertou-se de um primeiro casamento que procurava cercear a sua vocação artística; libertou-se de uma família que queria limitar a sua liberdade pessoal; libertou-se de um mundo artístico machista que não a levava a sério por ser mulher e por trabalhar com materiais heterogéneos. Toda a sua vida foi isso: um esforço constante para romper as camisas de força impostas pela sociedade. 

 

E na Colômbia, como é recordada? 

 

Creio que a sua vida e a sua personalidade tinham caído no esquecimento. Em termos gerais, ninguém sabia quem era Feliza Bursztyn. No mundo da arte, sim, a sua obra mantinha-se viva, mas não a sua vida. O que me interessava era trazer a trajetória dessa mulher para a literatura, para que voltasse a ser conhecida. 

 

Porque demoraste tantos anos a escrevê-la? Mais de duas décadas... 

 

Por duas razões. Precisava de aprender. Primeiro, no plano literário tive de escrever todos os livros anteriores para chegar a este. Em especial o último, Olhar para Trás, onde, pela primeira vez, usei a forma do romance para explorar a vida real de uma pessoa, o meu amigo e cineasta Sergio Cabrera. Precisava dessa experiência para saber como abordar este livro, que também parte de uma figura real e recorre à ficção para a imaginar de modo diferente da simples biografia. 

 

Depois, senti, de uma forma estranha e difícil de explicar, que precisava de atingir a idade que Feliza tinha quando morreu — 48 anos — antes de poder escrever sobre ela, como se precisasse de ter vivido certas experiências semelhantes às dela. Por isso, os muitos anos entre a ideia e a execução foram anos de aprendizagem. 

 

Esta pergunta ficou por fazer na primeira vez que conversámos: em que momento decidiste escrever sobre o teu país, a Colômbia? 

 

Sempre quis, mas demorei a descobrir como. Escrevi dois romances de juventude em que a Colômbia não existe, e o meu primeiro livro ‘maduro’, Los Amantes de Todos los Santos, também não fala dela. Durante muito tempo perguntava-me: “Como posso escrever sobre a Colômbia?”. Sempre soube que era o meu tema, mas acreditava — erradamente — que só se deve escrever sobre o que se entende. E eu não entendia o meu país. Com o tempo, e graças a descobertas como a obra de Joseph Conrad, percebi que a literatura não serve para explicar o que já compreendemos, mas para explorar o que ainda não entendemos. Quando percebi isso, comecei a escrever sobre a Colômbia. O primeiro romance foi Los Informantes, há já vinte e um anos, e desde então nunca mais deixei de explorar este lugar tão estranho que é o meu país. 

 

Depois de tantos anos fora, como é que a distância transforma a forma de escrever a Colômbia? 

 

Pergunto-me isso muitas vezes, mas a tradição está do meu lado. A tradição latino-americana é feita de escritores que saem dos seus países para escrever sobre eles. O grande romance colombiano do século XX, Cem Anos de Solidão [Gabriel García Márquez], foi escrito no México. O grande romance argentino, O Jogo do Mundo [Julio Cortázar], foi escrito em Paris. O mexicano Terra Nostra [Carlos Fuentes] nasceu entre Washington e Londres. Conversa n'A Catedral, de Vargas Llosa, foi escrito entre Londres e Paris. 

 

E continua a ser assim hoje. 

 

Sim, é verdade. 

 

Que papel tem Paris, como espaço real e simbólico, tanto para Feliza como para ti? 

 

Paris é uma personagem importante no romance, pelo papel que desempenha nas duas etapas da vida de Feliza Bursztyn: na juventude e nos dias que antecederam a sua morte. Em ambos os momentos, é um lugar de exílio, de refúgio. A Paris dos anos 50 era um abrigo para toda a América Latina. 

 

Também para os portugueses. 

 

Exatamente. Também para os portugueses, que viviam sob a ditadura. No fim da vida de Feliza, Paris voltava a ser destino de refugiados: havia as ditaduras de Augusto Pinochet, de Jorge Rafael Videla, a brasileira, ainda em vigor em 1981. Tudo isso muda a cidade e transforma Paris, no romance, num cenário que é mais personagem do que espaço. 

 

Pode morrer-se de tristeza? Já tens resposta para essa pergunta? 

 

Essa é a pergunta que atravessa o romance. E as perguntas dos romances só se respondem com o próprio romance. 

 

A resposta muda consoante a idade? 

 

Claro. Muda com a idade e com a experiência. O mesmo acontece com os romances: também eles mudam com o tempo. Espero que este, escrito aos 51 anos, mude para mim daqui a dez ou vinte anos — que seja outro romance e que Feliza Bursztyn seja outra pessoa. Espero o mesmo dos leitores. 

 

Alguma parte do livro foi particularmente difícil de escrever? 

 

Sim. Há um episódio em que o primeiro casamento de Feliza Bursztyn termina porque o marido lhe queria impedir a carreira artística. Ela inicia então uma relação com um homem casado, não judeu, e essa relação leva ao rompimento com os pais, que reprovam as suas decisões. Chegam mesmo a organizar um funeral judaico para declarar Feliza morta para a comunidade. Escrever essa cena foi terrivelmente difícil. 

 

Este é um livro que Gabriel García Márquez poderia ter escrito? 

 

Boa pergunta. Creio que não. Estava demasiado próximo da história. O romance precisa, por vezes, de distância em relação às suas personagens e aos seus temas. Gabriel García Márquez escreveu dois artigos extraordinários sobre Feliza Bursztyn, mas penso que nunca recorreria à ficção para escrever uma vida que lhe era tão próxima. 

 

O facto de o nome de Feliza ter sido sistematicamente escrito de forma errada é também um sinal de rejeição? 


Interpreto-o assim. O nome é uma das poucas certezas de uma pessoa. No caso de Feliza Bursztyn, nem isso lhe foi garantido. O apelido era constantemente grafado de forma errada pelos jornalistas; o nome próprio mudou — nasceu Felicia e, na adolescência, passou a Feliza. O amante chamava-lhe Betina. Até na lápide o nome está mal escrito. Rapidamente isso se tornou, para mim, um símbolo do seu lugar no mundo: um lugar instável, rejeitado, questionado pela sociedade. Por isso, claro, o livro chama-se assim. 

 

Dizes que a literatura é uma viagem ao desconhecido. Que bússola segue um escritor? 

 

Creio que um romancista — e talvez um poeta também — trabalha com uma ideia vaga do lugar a que se dirige. O que descobre pelo caminho é o próprio texto. Eu queria saber se Feliza Bursztyn tinha morrido de tristeza, mas não sabia o que ia encontrar. Fui descobrindo isso enquanto investigava e escrevia. A escrita é uma perseguição a um mistério, a um segredo. Nunca sabemos o que nos espera. 

 

O que é que estás a ler? 

 

Neste momento, um romance do escritor espanhol Jesús Ruiz Mantilla chamada Franco y yo. É uma reconstrução da vida do ditador Francisco Franco, paralelamente à do narrador, que traça pontes improváveis, mas muito reveladoras entre a vida do homem que marcou o século XX em Espanha e a de um jovem que chegou à adolescência quando Franco morria. O resultado é fascinante. 

 

Por Rita Sousa Vieira 

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