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FRANCISCO MOTA SARAIVA EM ENTREVISTA
ENTREVISTA FRANCISCO MOTA SARAIVAENTREVISTA FRANCISCO MOTA SARAIVA

“Partilho com Saramago o não ter medo de escrever”



Francisco Mota Saraiva já venceu dois dos maiores prémios literários em língua portuguesa: o Prémio Saramago e o Prémio Agustina Bessa-Luís. À Cultura FNAC, o autor de Morramos ao menos no porto falou sobre a sua relação com a escrita e a literatura. “Sem qualquer tipo de amarras”, como o Nobel.






Venceste o Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís com Aqui onde canto e arde. Agora, o Prémio Literário José Saramago com Morramos ao menos no porto. Dois livros, dois prémios. Qual o segredo?

 

Eu acho que não existe grande segredo. Já há algum tempo que tentava escrever e fazer alguma coisa com a minha escrita, e fui tentando. A certa altura, tentei fazer algo mais de fogo: experimentar escrever um romance. De certa forma, os romances foram-se atropelando uns aos outros. Acabei por me candidatar tanto ao Prémio Agustina como, mais tarde, ao Prémio Saramago. Tive a felicidade de vencer estes dois prémios. Não sei se existe segredo. Fico muito satisfeito e muito feliz, porque do outro lado também está um júri, tanto num caso como no outro, com académicos, pessoas do meio literário, escritores. Ter esse reconhecimento pelo meio literário deixa-me muito feliz e também um pouco mais seguro daquilo que estou a fazer em termos literários.

 

Porquê mais seguro?

 

Acho que somos sempre maus juízes em causa própria, não é? Estava numa fase em que era um perfeito anónimo na literatura. Só tinha alguns amigos e familiares que podiam ler o que eu escrevia. E, geralmente, essas pessoas também não são boas a avaliar e a fazer o juízo de alguém de quem gostam e que lhes é próximo.

 

Não são totalmente imparciais?

 

Sim.

 

Corrige-me, mas, pelo menos no caso do Prémio Saramago, os manuscritos são avaliados sem conhecimento do nome do autor.

 

Sim, tanto no Prémio Agustina como no Prémio Saramago. São feitos sob anonimato, com pseudónimo. No conjunto de centenas de candidatos — e, pelo menos no Prémio Saramago, havia a possibilidade de se candidatarem autores já com obra publicada —, sempre sob anonimato. Surgir como uma pequena luz no meio de todos esses manuscritos deixa-me, como dizia, mais seguro e confortável para fazer alguma coisa. Agora, ainda há um percurso a fazer. Estes livros saíram quase em simultâneo — o primeiro saiu em setembro, este saiu em março — e é agora que vou tendo o primeiro contacto com os leitores.

 

Qual foi o pseudónimo que utilizaste?

 

No Prémio Saramago foi “Alónimo”, que é sinónimo de pseudónimo. Apareceu-me. Eu queria que fosse algo que não sugerisse se quem estava por trás era mais masculino ou mais feminino. Sei que, muitas vezes, nestas coisas dos pseudónimos, há sempre alguma espécie de brincadeira, ou referências a escritores de quem se gosta ou com quem se identifica. Eu queria que fosse verdadeiramente anónimo, que não houvesse qualquer sugestão para quem estava do outro lado a avaliar.

 

Mas Morramos ao menos no porto foi escrito antes do livro que venceu o Prémio Agustina Bessa-Luís.

 

Sim, é verdade. Morramos ao menos no porto foi escrito primeiro. Tinha algumas dúvidas sobre candidatar o livro a um prémio. Aqui onde canto e arde foi um livro que escrevi com uma bolsa literária da Direção-Geral do Livro. O facto de estar tão mergulhado nele, quase viciado, tornou-o muito mais presente, e acabei por candidatá-lo ao Prémio Agustina. Morramos ao menos no porto ficou na gaveta. Quando decidi candidatá-lo ao Prémio Saramago já tinha passado, talvez, o tempo necessário para ele repousar e respirar. Revi o texto com mais profundidade e achei que poderia ter algum potencial.

 

O que é que está mais na gaveta? Só romance?

 

Sim, só romance. Comecei a escrever poesia quando era mais novo, tenho alguma poesia guardada, mas apenas para recordação, porque não creio que seja digna de ser publicada. Mas sim, tenho alguns romances, algumas coisas mais ou menos acabadas, outras ideias que ainda estão a maturar.

 

É fácil carregar o nome de José Saramago?

 

Obviamente que sinto uma grande responsabilidade, e não só pelo nome de José Saramago, que todos os que venceram o prémio tentam honrar de alguma forma. Há também o lastro de todos os outros vencedores... O Valter Hugo Mãe, o Gonçalo M. Tavares, o José Luís Peixoto, o Bruno Vieira Amaral, tantos outros, escritores de grande fogo, que são reconhecidos no panorama literário português. Eles venceram o prémio relativamente jovens e acabaram por se consolidar. E eu acho que esse lastro é o que nos dá, mais do que responsabilidade, a necessidade de ser mais honestos com a nossa literatura.

 

O facto de ser um prémio para novos autores tem também importância? No início, distinguia escritores até aos 35 anos, mas esse limite foi, entretanto, alargado para os 40.

 

Sim, acho que é uma das principais dimensões do prémio. Não apenas novos de idade, mas também novos no panorama literário. Tem funcionado como um prémio prospetivo. A maior parte dos prémios distingue escritores já consolidados. Este é uma aposta de quem está do outro lado e diz: 'Aqui está uma promessa'. Ou, pelo menos, um autor que vale a pena acompanhar, alguém que pode representar uma novidade no meio literário português e contribuir para a língua portuguesa no futuro. É quase uma pequena semente...

 

Sim, e essa dimensão é relevante não apenas para o meio literário português, uma vez que o prémio prevê também a publicação no Brasil.

 

E esse é um aspeto muito curioso. Tenho notado isso nas entrevistas, no meio literário, e nas conversas com outras pessoas. A maior parte dos autores que venceram o Prémio Saramago também são muito lidos no Brasil, um mercado literário muito maior do que o nosso. Temos tido vencedores do Prémio Saramago de toda a lusofonia, e isso tem dado uma força maior à língua portuguesa, mostrando que há grandes escritores não só em Portugal, mas também no Brasil, em Angola, Moçambique, e isso catapulta-nos a nós, enquanto autores, para uma dimensão maior.

 

Achas que o meio literário em Portugal está demasiado dependente dos prémios para legitimar novos autores?

 

Não creio que esteja. Em Portugal, existe outra dinâmica, que pode estar relacionada com os prémios. Pelo menos, na minha perceção, há muita tradução de autores consagrados lá fora. Se um escritor recebe um prémio ou se torna bestseller nos Estados Unidos, no Reino Unido ou em Itália, é muito mais fácil para o mercado editorial apostar nesses nomes, que já têm um selo de garantia internacional, do que investir em autores portugueses novos. Acho que essa é uma debilidade do meio literário português: olha mais para fora do que para dentro. Prefere trazer o que já foi certificado lá fora, em vez de apostar na produção literária nacional.

 

Qual é a tua ligação com a obra de Saramago? Qual o teu livro favorito do Nobel?

 

Gosto muito da obra de Saramago, e houve um livro que foi especialmente interessante para mim, talvez porque tenha sido até um dos primeiros, ou até o primeiro, que li. Falo de O Ano da Morte de Ricardo Reis. Na altura, devia ter uns 16 anos, estava no décimo ano, e nem sequer tinha lido Memorial do Convento, que era a leitura obrigatória. Estava a fazer a transição para leituras mais elaboradas, a deixar de lado os romances clássicos de formação, e aquele primeiro impacto com o livro fez-me pensar: “É possível fazer algo diferente com a literatura”.

 

O que é que partilhas com a escrita de Saramago?

 

Isso pode até parecer um pouco arrogante da minha parte, mas acho que o que partilho com Saramago é o não ter medo de escrever. Nunca tenho receio de escrever uma palavra a mais ou a menos, de ser honesto com a minha escrita. Acho que o Saramago era um escritor muito honesto com o seu trabalho. Nunca teve medo de dizer tudo o que queria, de construir as suas histórias sem se vergar a cânones ou críticos. Eu também tento fazer isso: deixar as coisas correr com a honestidade que devo à minha escrita, não necessariamente àquilo que devo aos leitores, mas à minha própria escrita. Vejo a literatura dessa forma: escrever sem qualquer tipo de amarras.

 

Qual foi o gatilho de Morramos ao menos no porto?

 

A história nasce de uma relação com uma casa onde vivi, com um chão de madeira típico das casas antigas, que têm muita vida. Imaginei o que seria se alguém vivesse debaixo desse chão e o que poderia surgir dessa ideia. A partir daí, fui criando as personagens. A ideia inicial era a de alguém que estivesse morto, mas vivesse debaixo desse chão, lutando para se unir à vida, enquanto a pessoa viva lutava para se unir à morte. A relação entre o António e a Silvina é, assim, uma perpetuação do amor de duas pessoas para além da vida, sem que haja um entendimento claro de quem quer estar vivo ou morto. O que importa é que ambos querem estar unidos numa única dimensão, seja de vida ou de morte.

 

Como defines o teu estilo literário? Bebe das tuas influências? Adriana Lisboa, vencedora do Prémio Saramago em 2003 e membro do júri, destacou uma "qualidade quase musical" e "um estilo muito próprio, quase um idioma particular".

 

Acho que é inevitável que qualquer escritor seja, de alguma forma, influenciado por certos autores. No meu caso, embora eu não saiba nada de música, gosto muito e tento estabelecer uma relação com a escrita como quem compõe uma peça musical. No processo de revisão, leio muito em voz alta, o que me permite encontrar um tom musical nas palavras. Gosto muito da forma como as palavras se relacionam entre si, dentro de uma frase, de um texto, através de ciclos quase obsessivos — ciclos de encontro, de voltar atrás e à frente, como se fossem referências ou ideias que se repetem. Essa musicalidade na construção do texto é fundamental para mim, e talvez seja por isso que algumas pessoas falem de um idioma particular, porque a minha escrita é um meio-termo entre a literatura e a música.

 

Se esta obra fosse um género musical, qual seria?

 

Para mim, seria sempre jazz, porque gosto muito de jazz e acho que ele influencia de certa forma a minha escrita. Mas, ao mesmo tempo, também tem muito de ópera. A ópera é, como costumo dizer, uma grande confusão: tem drama, representação, música, orquestra, cantores, áreas alegres, dramáticas, trágicas. Acho que Morramos ao menos no porto também tem muito disso, porque convoca muitos cenários, personagens e temas paralelos. No entanto, naquilo que escrevo geralmente, há também muita influência do jazz. Se tivermos um ouvido atento, conseguimos perceber que cada personagem está no tempo certo e ocupa o seu espaço dentro da música, embora o primeiro impacto possa ser confuso e até nos sobrecarregar.

 

E há espaço para o improviso?

 

Sim, há sempre espaço. É um improviso controlado, porque, tal como no jazz, parece improvisado, mas tem uma estrutura que o sustenta. Quando começo a escrever, não tenho um roteiro pré-estabelecido. Vou construindo as coisas em camadas, como se fosse uma composição musical em que há espaço para a criação espontânea, mas com um equilíbrio que se mantém ao longo do processo.

 

As personagens vão surgindo ou já convives com elas antes da escrita?

 

Elas vão surgindo. Costumo imaginar um espaço vazio na minha cabeça, como uma tela em branco, tal como um pintor que vai acrescentando cores. As personagens vão fazendo sentido à medida que preencho esse espaço. É como se esse vazio já existisse, e fosse sendo ocupado aos poucos por personagens, acontecimentos, lugares e palavras, sem que me aperceba de quando entram no texto. E, no final, se tudo correr bem, escreve-se um livro.

 

Onde entra a distopia nesta obra?

 

A ideia de distopia surge muito do facto de eu não convocar nenhum espaço ou lugar específico do nosso mundo. Mas, ao mesmo tempo, aparece um mundo onde os seres humanos entram e saem, muitas vezes, sem perceberem bem o que se passa. Criei um mundo na minha cabeça... Quase um mundo paralelo, onde crio coisas que talvez não façam sentido, mas que se transformam para o contexto da nossa realidade. Nessa construção, há pontos de contacto entre o real e a fantasia. Mas, ao mesmo tempo, há uma ausência temporal e de lugar. Algumas pessoas disseram que o texto poderia refletir um Portugal num determinado momento do tempo, mas essa nunca foi a minha intenção. Criei uma cidade fictícia, influenciada por Lisboa, onde vivo, mas isso não foi algo consciente. Queria, na verdade, criar um contexto anacrónico, um lugar vazio que poderia ser de um mundo ocidental, num tempo que poderia ser mais presente, futuro ou até passado. Isso, no entanto, é algo que cada leitor interpretará à sua maneira.

 

Já te sentes parte do meio literário ou ainda como um outsider? Isto porque, como se diz agora, continuas a ter um first job como consultor e jurista.

 

Olho para os meus trabalhos como sendo ambos first job. Não tenho aquela síndrome de impostor relacionado com a escrita. Agora, não sei se me qualifico para me chamar escritor. É um pouco como a ideia de um país: não basta chegar a uma ilha, levantar uma bandeira e dizer "isto é meu". Normalmente, é preciso o reconhecimento dos outros países para que esse país seja legítimo. Na escrita, vejo algo semelhante. Acabei de chegar ao mundo da publicação, mas já escrevo há muitos anos e, de muitas formas, já me comporto como um escritor. Mas é necessário que os leitores reconheçam o meu percurso...

 

E como é que um escritor se comporta?

 

Acho que a resposta a isso depende de cada um, mas, no meu caso, tudo o que faço está sempre orientado para a escrita. Eu gosto muito de ler, o que me faz um leitor, mas não necessariamente um escritor. Claro que será difícil ser um bom escritor sem ser um bom leitor, mas, para mim, tudo gira em torno da escrita. O tempo de que disponho é dedicado a escrever. O meu cérebro funciona muito por captação de ideias e, quando observo um determinado momento, uma pessoa ou até uma notícia no jornal, penso sempre na perspetiva literária. Sou muito atento às conversas das pessoas na rua. Não que deva ouvir as conversas alheias, mas tento perceber como posso transformar aquilo em literatura. Quando passo na rua e vejo casas com janelas abertas, pergunto-me que mundos existem ali dentro. Estou sempre a pensar assim, de uma perspetiva literária, a tentar aproveitar essas situações para a minha escrita. Acho que essa é, de certa forma, a atitude de um escritor.

 

O que será preciso para que um escritor que se está a estrear não morra próximo do porto?

 

Falo um pouco da ideia da honestidade. Eu sei fazer desta forma, foi assim que consegui publicar dois livros, mas esta é a maneira que conheço. Claro que a escrita de um autor vai maturando e crescendo com o tempo. Vemos isso, por exemplo, nas obras de grandes escritores que têm um longo percurso. Começam de uma maneira e vão evoluindo, por vezes para melhor, outras vezes para pior, mas há sempre um traço comum. É inevitável que alguém diga: “O livro anterior era melhor que este” ou “Este é pior que o outro”, mas para mim é simples: continuo a fazer o que sei. Se, de alguma forma, morrer no próximo livro, também morri neste, e no anterior.

 

O que estás a ler?

 

Acabei de ler A Família de Pascual Duarte, de Camilo José Cela, que foi agora reeditado pela Quetzal. É um livro muito interessante, de um autor que eu desconhecia por completo. Fiquei surpreendido, até porque encontrei uma espécie de lado mais violento, mais negro, que também, muitas vezes, se encontra na minha escrita. Recentemente, voltei a reler Castelos Perigosos de Céline, um autor que aprecio muito. Uma nova edição, porque tinha lido uma anterior há alguns anos. Também comecei a explorar as novas reedições dos livros de Georges Simenon, editados pela Cavalo de Ferro, que vai ser uma das próximas leituras.

 

Por Rita Sousa Vieira

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