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“O festival deve ser um ato de agitação”
Fernando Galrito gosta de dizer que há filmes que “começam quando a projeção acaba”. É esse o tipo de obras que procura para a MONSTRA, festival que dirige desde o início e que se tornou um dos eventos com mais espectadores em Lisboa. Nesta conversa com a CULTURA FNAC, fala da vitalidade da animação portuguesa — talvez a arte nacional mais premiada internacionalmente — e defende uma programação que desafie o público e prolongue o pensamento muito para lá da sala de cinema.
De quem é o cartaz desta edição da MONSTRA?
É de um amigo nosso, chamado Vladimir Leschiov, da Letónia, que é o país convidado.
E o que vos levou à Letónia?
A Letónia é um país da região báltica. Há uns anos já tínhamos feito uma retrospetiva dedicada à Estónia, e regressámos agora a esta região da Europa, que tem uma história relativamente grande no cinema de animação, nomeadamente no cinema de animação de autor. Tanto no caso da Estónia como no caso da Letónia, são também países com uma boa tradição na animação de marionetas.
No caso da Letónia, aquilo que nos levou a fazer esta escolha foi, por um lado, a vontade de dar a conhecer ao nosso público uma cinematografia menos conhecida, mas não menos interessante e rica. Por outro lado, este ano assinalam-se também os 60 anos da abertura do primeiro estúdio de animação na Letónia, ainda nos tempos da União Soviética, um estúdio dedicado à animação de marionetas.
Com a independência da Letónia, esse estúdio transformou-se no Animācijas Brigāde [Brigada de Animação]. É daí que vêm vários dos filmes apresentados na retrospetiva que dedicamos ao cinema de animação letão. Para além disso, temos também uma exposição com sets de 14 filmes diferentes e mais de 100 marionetas, patente no Museu da Marioneta.
O Museu da Marioneta é, aliás, um parceiro do festival já de longa data.

E por longa data... A MONSTRA é já um festival com uma longa história e vai para a sua 25.ª edição. A primeira realizou-se em 2000. A única edição que ficou por realizar foi a do primeiro ano da pandemia?
Não. Em 2020 aconteceu, ainda que em formato online. A única edição que infelizmente não se realizou foi a de 2003, logo no início do festival. Na altura houve uma quebra de apoio por parte do nosso principal financiador, que era a Câmara de Lisboa, e o festival acabou por não se realizar. Desde então, porém, o festival tem acontecido sempre, todos os anos, desde 2004. Mesmo durante a pandemia. Como já tínhamos tudo preparado, e como a situação também apanhou toda a gente de surpresa, o que acabou por acontecer foi que muitas empresas de streaming abriram, de alguma forma, as suas portas para que vários festivais se realizassem online. Aliás, apesar de nos últimos quatro ou cinco anos sermos o festival que mais público tem na cidade de Lisboa, esse foi, sem dúvida, um ano de recordes. Tivemos espectadores na Nova Zelândia, na Austrália, e em muitos outros países de onde normalmente é difícil virem ao festival, por uma questão de distância, de custos, etc. E nesse ano, pela primeira vez, tivemos muito público vindo dos cinco continentes, incluindo de lugares bastante distantes.
A MONSTRA é hoje o festival de cinema em Lisboa com mais espectadores?
Sim, eu não quero enganar, mas creio que nos últimos cinco anos — e isso pode confirmar-se no site do ICA — é o festival que tem tido mais público entre os festivais que acontecem na cidade de Lisboa.
E como é que explicam isso?
Há duas razões, diria. Por um lado, existe um interesse crescente pelo cinema de animação. Por outro, há uma vertente do festival, a MONSTRINHA, que trabalha muito com as escolas e que traz também uma quantidade significativa de espectadores.
Além disso, estamos a falar do público contabilizado na vertente cinematográfica, que é aquela que conta para o ICA. Mas, se olharmos para o conjunto mais alargado das atividades do festival, há ainda outro fator importante: A MONSTRA também tem muitas exposições e projetos paralelos. Para dar um exemplo recente, no ano passado fizemos uma exposição do universo da LAIKA no Museu da Marioneta que teve cerca de 15 mil visitantes. Também realizamos exposições regularmente na Sociedade Nacional de Belas Artes e na Cinemateca Portuguesa.
As exposições permitem às pessoas ver o making of, perceber aquilo que está por trás de cada filme, e também explorar a forma como a animação dialoga com outras áreas — as artes performativas, a arquitetura, o design ou as tecnologias digitais. Esse diálogo faz parte da programação do festival. Somos parceiros, por exemplo, há muitos anos, do Hot Clube, com quem organizamos anualmente um ou dois concertos em que os alunos da escola compõem novas bandas sonoras para os filmes que lhes propomos. Este ano, por exemplo, na abertura teremos a Orquestra de Sopros da Academia de Santa Cecília a interpretar ao vivo a banda sonora de Pedro e o Lobo, com música do Prokofiev. Ou seja, existe todo um enquadramento à volta do festival. E creio que essa diversidade de atividades também ajuda a atrair públicos muito diferentes. Talvez seja esse um dos segredos de termos um público tão variado, que vem de muitos sítios.
Tratando-se da 25.ª edição, houve a preocupação de assinalar esse número na programação deste ano?
Como foi no ano passado que assinalámos 25 anos de existência, foi nessa edição que trabalhámos mais o lado das efemérides. Fizemos uma retrospetiva dos países que já tinham sido nossos convidados e uma programação mais centrada nesse percurso.
Este ano, apesar de ser a 25.ª edição, o cartaz reflete sobretudo aquilo que é o nosso desejo de mostrar coisas diferentes, de experimentar e de correr riscos. Para nós, programar o festival tem muito desse lado de experimentação. Há uma canção do Chico Buarque que diz: “Aja duas vezes antes de pensar.” E, ao longo destas 25 edições, muitas vezes fizemos coisas mais pelo prazer de experimentar do que com os pés completamente assentes na terra. Mas estamos contentes por as ter feito. Trata-se essencialmente de manter esse lado da experimentação e da tentativa.
Nós temos também uma vantagem: só para a competição deste ano recebemos mais de 3.500 filmes, dos quais selecionámos cerca de 240. Ou seja, aquilo que fazemos é mostrar uma parte do todo que temos a oportunidade de ver antes das outras pessoas.
E aquilo que nos move é esse prazer de partilhar. Há uma máxima de que gosto muito: as pessoas sabem do que gostam, mas também podem gostar daquilo que ainda não conhecem. O nosso trabalho é precisamente mostrar coisas que o público talvez não estivesse à espera de ver.
Há um interesse renovado pelo cinema de animação?
Sim, em parte é verdade. Eu acho que os festivais de animação — especialmente os que acontecem em Portugal — tiveram um papel importante nesse processo. Dou dois exemplos: o festival de Espinho, que é o festival de cinema mais antigo do país e que completa este ano 50 anos, e A MONSTRA, que chega agora à sua 25.ª edição.
São festivais que ajudaram a abrir um horizonte diferente para o cinema de animação, algo que já tinha começado a acontecer quando o Vasco Granja, em 1974, começou a apresentar na televisão o seu programa dedicado à animação. Muitos de nós crescemos a ver ali outras formas de fazer cinema de animação, outras técnicas e outros autores.
Os festivais continuam, de certa forma, esse trabalho. Por outro lado, há também uma abertura maior por parte dos jovens. É verdade que existe hoje uma forte presença do anime, com uma estética muito ligada ao Japão e à animação oriental. Mas, mesmo sendo uma animação muito específica, muitas vezes ligada ao 2D ou ao desenho, isso acaba também por abrir portas para outros universos. Mesmo quando essa animação é feita digitalmente ou em 3D, essa estética pode levar o público a descobrir outras linguagens e outras formas de olhar para a animação que vão além dos grandes blockbusters americanos. E penso que isso também cria curiosidade. Pelo menos os jovens mais atentos procuram, durante o Festival A MONSTRA, descobrir novas técnicas, novas formas de animação e novas maneiras de representar o mundo, de contar histórias e de transmitir emoções.
O reconhecimento internacional, em particular com a nomeação de Ice Merchants para os Óscares de 2023, também ajudou a trazer um novo olhar sobre o cinema de animação português?
Sim, ajudou, sem dúvida. Mas também é importante dizer que o reconhecimento internacional do cinema de animação português não começou agora. Já vinha de trás, com autores como Regina Pessoa, José Miguel Ribeiro, Pedro Serrazina, Abi Feijó, João Gonzalez e muitos outros.
São realizadores com obras muito diferentes entre si — do ponto de vista técnico, estético e também da forma de contar histórias. Ainda assim, muitas dessas obras estão muito ligadas à nossa cultura. E isso é, aliás, um dos aspetos mais interessantes da nossa cinematografia: contamos as nossas histórias. E todos conhecemos aquela velha máxima — se queres falar do mundo, fala de ti, fala da tua aldeia.
Nesse sentido, o cinema de animação é talvez, embora muitas pessoas não tenham essa consciência, a arte portuguesa mais premiada em todo o mundo. E isso, naturalmente, também ajudou a abrir horizontes e a dar visibilidade ao que se faz cá.
Depois, claro, o facto de o João Gonzalez ter estado nomeado para os Óscares com Ice Merchants foi também um sopro de vitalidade muito importante. Mas antes disso já tínhamos tido, por exemplo, a Regina Pessoa a ganhar em Annecy — que é provavelmente o festival mais importante de cinema de animação do mundo — e a estar nomeada duas vezes para os Annie Awards, que são os prémios americanos da animação. O próprio João Gonzalez também ganhou um Annie.
Ou seja, nem sempre temos as manchetes que gostaríamos, mas o reconhecimento existe há bastante tempo. Ainda agora, por exemplo, uma coprodução entre Espanha e Portugal [Decorado] ganhou um prémio muito importante na Europa, um Goya.
Que é, de certa forma, o equivalente espanhol dos Óscares.
Exatamente. É um Óscar espanhol... Ou uns Sophia, para usarmos o nosso exemplo. Trata-se de um filme coproduzido entre Portugal e Espanha, chamado Decorado, e cuja estreia nacional vamos fazer n’A MONSTRA.
E, no entanto, foi uma coisa que passou completamente à parte. Não houve praticamente informação sobre isso — nem nos jornais, nem noutros meios. Mas é, sem dúvida, também um momento importante para a nossa animação, porque uma parte do filme não só é produzida como também é feita em Portugal. Isso deixa-nos, por um lado, contentes, mas por outro também um pouco tristes por não haver mais atenção às questões artísticas. Parece que há mais olhares para aquilo que corre mal. As coisas que nos dão alegrias acabam por ter menos manchetes, menos presença em jornais, televisões, etc. Ainda assim, é verdade que o cinema de animação português goza de boa saúde. E isso vê-se também naquilo que observamos todos os anos no festival — e este ano, mais uma vez. Temos nove filmes na competição portuguesa, dirigidos a vários escalões etários, seis filmes nas competições internacionais e, no conjunto das competições, 21 filmes. No total, dos cerca de 400 filmes que vamos apresentar, 47 são portugueses. Representa 10% da programação.
Essa também é uma preocupação quando constroem a programação?
Completamente. Eu vou dizer aqui uma coisa que talvez não devesse ser dita, mas o nosso cinema de animação, por um lado, deixa-nos orgulhosos em qualquer sítio do mundo onde o mostramos. E quando temos uma dúvida — dois filmes que estão em pé de igualdade — não temos dúvidas em escolher o filme português. Achamos que, por um lado, faz parte do nosso trabalho divulgar aquilo que é bom e aquilo que fazemos bem, e neste caso o cinema de animação.
E, por outro lado, acho que também nos cabe, digamos, esse papel de sermos os mensageiros, tanto em Portugal como fora de Portugal, de levarmos aquilo que fazemos bem. E o cinema de animação é um deles.
Lembro-me de, há relativamente pouco tempo, ter estado na Alemanha a apresentar uma retrospetiva de cinema português. Ao meu lado estava uma grande realizadora checa. E nós sabemos que a Chéquia é um dos países charneira do cinema de animação mundial há muitos anos. Quando acabou de ver a segunda sessão, virou-se para mim e disse: ‘Não sei se, se quisesse agora fazer uma sessão com filmes dos últimos dez anos da Chéquia, com esta qualidade que tu apresentaste, se conseguiria’.
Ou seja, ouvir isto de alguém que vem de um país com uma tradição tão grande no cinema de animação, dito sobre o nosso cinema de animação português, deixa-nos naturalmente muito contentes. E é também sinal de que aquilo que se faz em Portugal é muito bom.
De onde vem essa qualidade e a consistência que o cinema de animação português tem demonstrado nos últimos anos?
Acho que se deve a vários fatores. Por um lado, ao aparecimento de cada vez mais escolas. Por outro, a uma tradição que foi crescendo ao longo do tempo.
Há um momento importante que eu costumo referir: um filme do Abi Feijó, Oh Que Calma, feito no Canadá. É um pouco uma transição entre um período em que a animação em Portugal estava muito ligada à publicidade — onde, aliás, tivemos muito sucesso internacional — e o aparecimento do cinema de animação de autor, que começa a ter mais apoios depois do 25 de Abril. A partir daí começa a formar-se um ecossistema: o trabalho de pessoas como o Abi Feijó, a criação da Filmógrafo, o papel do Vasco Granja, o surgimento do Cinanima, em 1977, e também espaços de formação como o CITEN, na Fundação Calouste Gulbenkian. Tudo isso ajudou a formar várias gerações de realizadores.
Dessas estruturas saíram autores como Regina Pessoa, Pedro Serrazina ou José Miguel Ribeiro, que depois também passaram a ensinar e a influenciar novos criadores. Ao mesmo tempo começaram a surgir escolas de animação em Portugal. Hoje vemos já outra geração — realizadores como Vasco Sá, Laura Gonçalves, Alexandra Ramires, entre outros — muitos deles formados nesse contexto. Essa combinação entre ensino, tradição e experimentação tem permitido que a nova geração continue a surgir com qualidade e que o cinema de animação português mantenha uma base muito sólida.
Falava há pouco da competição. Este ano há uma novidade, com a inclusão das médias-metragens na competição. O que motivou essa decisão?
Quisemos aqui criar uma diferenciação entre aquilo que são filmes até aos 15 minutos. Entretanto começaram a aparecer cada vez mais — mesmo filmes feitos em escolas — filmes mais longos. E achámos que fazia sentido não só criar essa secção, mas também premiar esses filmes. Porque, quando estão metidos no meio das curtas-metragens, ou as curtas passam despercebidas do ponto de vista do júri, ou as médias. Então, por um lado, há essa questão da premiação. E, ao mesmo tempo, também a vontade de fazer uma diferenciação entre aquilo que é pensar um filme de uma forma mais concisa — e a animação tem essa capacidade de contar histórias em muito pouco espaço — e coisas que têm mais espaço, mais tempo para apresentar bem as personagens, para contextualizar de uma forma mais aprofundada e para contar as histórias ou as emoções com mais desenvolvimento.
Esta edição tem como lema Natureza e Sustentabilidade. O que é que isso representa?
É um tema que está sempre presente na nossa relação com o mundo. Há já algum tempo que deixámos de imprimir tanto em papel e tentamos, sempre que possível, que os nossos convidados viajem de transportes mais alternativos, como o comboio. Ou seja, procuramos ter uma atenção constante às questões ambientais.
Este ano achámos que era importante reforçar essa preocupação, numa altura em que se fala cada vez mais do tema — e em que, por coincidência, também estamos a sentir na pele muitas das transformações que estão a acontecer, apesar de algum negacionismo. Por isso trouxemos para a programação não só essa temática, mas também um conjunto de obras, de curtas e de longas-metragens, que a abordam através de filmes extraordinários, como O Homem que Plantava Árvores ou O Dente de Leão.
Além disso, vamos também, com uma associação ambiental, fazer uma visita àquilo a que eles chamam as grandes árvores da cidade de Lisboa — aquelas árvores que não conseguimos abraçar com os nossos braços. Vamos levar os nossos convidados internacionais a conhecer essas árvores que ainda existem na cidade e que, de alguma forma, foram sobrevivendo ao longo do tempo. Esperamos que continuem a manter-se durante muitos anos, e que nem as catástrofes nem os homens as deitem abaixo.

O festival apresenta a sessão Para Gaza com Amor: Uma Anijam Global, composta por dezenas de microfilmes solidários com a Palestina. Que papel pode ter a animação enquanto forma de expressão política ou de intervenção? Os festivais de cinema devem também posicionar-se perante questões sociais e humanitárias?
Para mim, e não posso falar por mais ninguém, fazer um festival é uma atitude política. E não fazer nada também é uma atitude política. Não devemos é confundir as questões políticas com as questões partidárias. Somos políticos porque agimos, porque fazemos coisas. E, no nosso caso, muitas das escolhas de filmes passam também pelo seu grau de intervenção. Para ser honesto, não gostamos muito de filmes que sejam exclusivamente entretenimento. Não temos nada contra eles, e também os passamos, mas gostamos sobretudo de filmes que, como eu costumo dizer, começam quando a projeção acaba. Filmes que ficam dentro da nossa cabeça e do nosso coração e que nos fazem continuar a pensar neles depois de terminarem.
Acreditamos que fazer um filme é também um ato de intervenção, uma forma de contar histórias. Aliás, vamos abrir o festival com a estreia mundial de um filme português, O Traidor da Classe Operária. É a história de vida de um homem, um produtor português que, especialmente depois do 25 de Abril, foi trotskista e que conta esse percurso — desde o seu envolvimento político na juventude até ao momento em que começa a questionar esse caminho. É um documentário, uma história de vida, e é também um filme profundamente político.
No meu entender, todos os filmes são políticos de alguma forma. Mas nós nunca deixamos de passar filmes por razões políticas. Temos as nossas opiniões, como é evidente, mas nunca deixámos de passar filmes russos, ucranianos, israelitas, iranianos, norte-americanos, alemães — podia dizer os 110 países que este ano enviaram filmes para a nossa competição.
Claro que não passamos filmes que sejam ideologicamente pró-fascistas, pró-nazis ou contra aquilo que entendemos como uma sociedade democrática. Mas muitos dos filmes que recebemos de países envolvidos em conflitos são, muitas vezes, críticos do próprio país e da forma como essas guerras acontecem. São filmes que acabam por ser também manifestos.
Por exemplo, no programa Para Gaza com Amor, temos a Joanna Quinn, uma realizadora inglesa — muito ligada ao País de Gales — que esteve duas vezes nos Óscares. Ela conheceu três mulheres que, apesar dos bombardeamentos israelitas, continuavam a fazer animação com crianças da rua em Gaza, crianças que fugiam às bombas e que eram convidadas a contar as suas histórias através da animação. A partir daí lançou um movimento internacional que chegou a mais de 50 países e reuniu cerca de 400 filmes. Participaram pessoas completamente desconhecidas e também realizadores muito conhecidos, alguns até vencedores de Óscares. Não são filmes panfletários, mas são filmes que chamam a atenção para uma realidade. Para nós faz todo o sentido mostrá-los.
De que forma a cooperação internacional se tornou essencial para muitos projetos e como é que Portugal entra nesse ecossistema?
Uma das vertentes interessantes e importantes do festival é também criar relações, conexões entre pessoas de vários países do mundo. Este ano — como já aconteceu noutros anos, mas talvez agora com mais força — vamos organizar um encontro internacional entre países da América Latina, Espanha, Portugal e os países bálticos: Estónia, Letónia e Lituânia.
A ideia é que comecem também a surgir mais coproduções. Percebemos que o mundo está cada vez mais a investir mais dinheiro em armas e menos na Cultura. E, se não formos mais, se não encontrarmos mais parceiros, se calhar teremos menos dinheiro para fazer os nossos filmes — nós e outros países da Europa ou até do mundo que são nossos parceiros.
Hoje, a coprodução é cada vez mais importante e já tem tido influência. Ainda há pouco falávamos do Goya, que resultou de uma coprodução entre Portugal e Espanha — aliás, é já o segundo Goya ganho por um filme ligado a Portugal, depois de The Monkey, também uma coprodução e uma corealização entre Portugal e Espanha. Há muitos exemplos. Lembro-me de quando a Regina Pessoa ganhou, com História Trágica com Final Feliz, em Annecy. A França dizia que era um filme francês, o Canadá dizia que era um filme canadiano e Portugal dizia que era um filme português. Ou seja, a coprodução já existe e nós queremos também aproveitar o festival para a impulsionar.
Ao longo do festival vamos ainda realizar vários workshops, para que os jovens entrem em contacto com novas formas de pensar e de fazer cinema de animação. Um deles está ligado à temática do festival: a utilização de lixo para fazer filmes de animação, com a Lea Vidakovic e a Radostina Neykova. Durante a semana teremos também 11 masterclasses com realizadores da Letónia, de França e de outros países. Vamos falar, por exemplo, do modern cartoon, que completa este ano 75 anos e que representa também um momento de viragem na animação: a passagem do estilo mais redondo da Disney para as linhas mais geométricas da UPA [United Productions of America], do Gerald McBoing-Boing, entre outros. Toda essa diversidade pretende também trazer algo de novo — ou de diferente — e, ao mesmo tempo, contribuir para a formação dos jovens que participam nestas atividades e dos estúdios envolvidos nestes encontros.
Depois destes 25 anos, como imagina o futuro da MONSTRA?
Acho que a arte tem esta vantagem: está quase sempre na vanguarda daquilo que acontece. Muitas vezes não percebemos bem certas transformações, mas, se olharmos para a história, vemos que muitas mudanças sociais já tinham acontecido antes no campo artístico, científico ou da experimentação.
Vamos fechar o festival com um filme que é uma homenagem extraordinária às mulheres, através da música criada por mulheres ao longo de muitos séculos. Chama-se Virgem Fandango e é um filme feito em 12 mil azulejos. Cada imagem foi desenhada em azulejos virgens, que foram ao forno, voltaram para ser retocados, levaram verniz, voltaram ao forno outra vez e depois foram filmados um a um. Ou seja, continuamos a poder ter audácia para criar de forma diferente, mesmo num tempo em que os computadores poderiam fazer algo parecido de forma aparentemente mais simples.
Quanto ao festival, não sei durante quanto tempo estarei à frente dele. Já tenho alguma idade. Mas acho que ele fará sentido enquanto tivermos coisas para dizer e, sobretudo, enquanto tivermos coisas de vanguarda para mostrar às pessoas. Dizer-lhes: isto é possível, vocês também podem pensar de outras maneiras. Para mim, o festival continuará a existir, não comigo, mas com outras pessoas. E farei muita questão de que seja assim: que o festival não esteja ligado a uma pessoa, mas a uma ideia, a uma filosofia.
Porque, como dizia o Zeca Afonso, o que faz falta é agitar a malta. E essa agitação é fundamental para continuarmos a ser seres pensantes e atuantes perante aquilo que acontece à nossa volta. Não podemos ficar inertes. A Cultura e a Arte servem precisamente para nos agitar, para nos fazer olhar para as coisas de outra forma. No início do século XX, por exemplo, alguém colocou um mictório numa galeria. Qualquer pessoa podia ter feito isso — mas aquele gesto mexeu com a nossa forma de pensar a arte e a identidade. E, nesse sentido, acho que o festival também deve ser isso: um ato de agitação.
A 25.ª edição da MONSTRA – Festival de Animação de Lisboa decorre de 12 a 22 de março. No total serão exibidos 491 filmes de animação, 47 deles portugueses, no Cinema São Jorge, Cinemateca Portuguesa e Cinema City Alvalade. Consulta a programação completa aqui.
Por Rita Sousa Vieira