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ENTREVISTA A CLARA USÓN
ENTREVISTA- CLARA USON ENTREVISTA- CLARA USON

“O nacionalismo alimenta-se do medo. E funciona” 

 

Entre a ETA, os GAL e uma sociedade dividida por nacionalismos, As Feras regressa à Espanha dos anos 80, um período que Clara Usón viveu e que agora revisita através da ficção. 

 

A escritora espanhola fala sobre violência, nacionalismo, fanatismo e sobre aquilo que acontece quando deixamos de olhar para a história como uma simples divisão entre bons e maus. 

 

O QUE TENS DE SABER 

  • As Feras recupera a história de Idoia López Riaño, antiga militante da ETA, conhecida pelo nome de Tigresa, e cruza-a com a de Miren, uma adolescente filha de um polícia ligado aos GAL.  

  • O romance decorre nos anos 80 e aborda a violência política, o nacionalismo e o fanatismo, mas também o olhar machista sobre mulheres que cometem crimes.  

 


 

 

O que te levou a escrever esta história? 

 

Foi um artigo. É a segunda vez que me acontece, porque com La Hija del Este também tudo começou com um artigo no The Times. Leio imprensa em inglês e leio sempre o Times, porque já me deu romances. Agora não sei o que vou ter de começar a ler se também me der o próximo. É melhor que haja por aí alguma história. 

 

O artigo dizia que o romancista que criou a série Killing Eve se tinha inspirado em Idoia López Riaño para criar Villanelle, aquela assassina psicopata lindíssima. E eu pensei: "Quem é esta mulher?" Não me lembrava dela. Somos contemporâneas, ela é apenas três anos mais nova do que eu. A ETA existiu durante muitos anos, mas os chamados anos de chumbo foram especialmente duros. Eu já era adulta. Como era possível não me lembrar dela? Comecei a investigar, e descobri uma coisa curiosa: quando falei com os meus amigos homens, todos se lembravam dela. Porque é que eu não me lembrava? 

 

O que me atraiu foram as suas contradições. Como terrorista, era muito eficaz: matava sem hesitar e não tinha qualquer problema em pôr bombas. Mas, ao mesmo tempo, era extremamente indisciplinada. Não lhe chegava a emoção de pertencer ao comando mais mortífero da ETA. Os comandos obedeciam a uma disciplina militar e, quando não estavam a cometer um atentado, tinham de ficar escondidos no apartamento clandestino. Ela fugia para ir às discotecas. Diz-se que também se envolveu com polícias e até com um membro dos GAL. Era uma mulher cheia de contradições, e era lindíssima. Sobretudo no caso das mulheres, a beleza foi sempre vista quase como o valor supremo. Se és bonita, já tens tudo, não precisas de mais nada. Acho curioso que hoje, ainda mais do que nos anos 80, com as redes sociais, a beleza continue a ser vista como o mais importante numa mulher. Para alguém da minha geração, é muito deprimente, mas é assim. E ninguém esperava que uma mulher tão bonita pudesse ser tão má. Quando uma mulher é bonita e, além disso, é má, transforma-se na femme fatale, na vampiresa. Foi isso que me levou a investigar. 

 

Chegaste a ponderar contactar Idoia López Riaño? 

 

Quando comecei a investigar sobre ela, já tinha saído da prisão, mas ninguém sabia onde estava. Tinha passado muito tempo como terrorista, estava treinada para se esconder e para não ser vista. Depois dos últimos atentados, esteve vários anos escondida em França, até ser detida. Portanto, não seria propriamente fácil encontrá-la. Outros terroristas que, como ela, supostamente se arrependeram, reintegraram-se na sociedade. Alguns fazem hoje trabalho de sensibilização sobre as consequências do terrorismo, vão a escolas e dão conferências para tentar evitar que aquilo volte a acontecer.  

 

Idoia nunca fez nada disso. Eu não sabia onde estava, mas também tinha algum receio de a encontrar. Tenho mais liberdade para escrever sobre alguém quando não conheço essa pessoa. Além disso, ela é uma sedutora. A única jornalista que a entrevistou foi à prisão decidida a perguntar-lhe porque é que matava e acabou por lhe perguntar apenas como era viver sem amor na prisão. Idoia é muito sedutora, como boa narcisista, e tem um discurso segundo o qual praticamente não fez nada: só matou dois homens muito maus.  

 

Se tivesse falado com ela, acho que sei exatamente o que me teria dito: "É tudo mentira, eu sou uma vítima." Agora já não gostaria de a conhecer. Ela sabe, seguramente, que o meu livro existe e é possível que até o tenha lido. Disseram-me que lê tudo o que se escreve sobre ela. Por isso, prefiro não a conhecer. Não acredito que tivesse coisas muito simpáticas para me dizer. 

 

Já tinhas trabalhado o nacionalismo armado em La Hija del Este. O que encontraste no caso basco que não estava na Bósnia? 

 

Boa pergunta. O nacionalismo é uma obsessão minha, um tema ao qual volto constantemente. Talvez porque nasci entre dois nacionalismos em confronto, o espanhol e o catalão. E obrigam-te a escolher: "De quem gostas mais, do pai ou da mãe?" Eu rejeito os dois. A minha identidade geográfica não é importante para mim. Não é isso que me define. Além disso, o nacionalismo é um dogma e eu não gosto de dogmas. Dedico o romance àqueles que duvidam, porque em nome de um dogma podem cometer-se as maiores atrocidades. Há um mandamento que diz "não matarás", mas, quando entra o dogma, tudo isso se torna relativo. 

 

No caso de Idoia, matar não era errado porque ela considerava-se um soldado, um gudari da pátria basca, que lutava pela libertação do seu povo contra o Estado espanhol opressor. Matava pela pátria. É assim que, em nome de uma ideia abstrata, se cometem atrocidades. E agora estamos a assistir novamente a uma explosão dos nacionalismos, já sem qualquer disfarce, do nacionalismo étnico. Vemo-lo na extrema-direita, em França, na Alemanha, em Inglaterra, nos Estados Unidos, por todo o lado. Para mim, o nacionalismo é como uma hidra: cortamos-lhe uma cabeça e nunca conseguimos acabar com ela. Neste caso, porém, estamos perante o nacionalismo daqueles que lutam pela libertação, dos independentistas, supostamente de esquerda. À partida, parece mais aceitável: o nacionalismo de libertação contra o Estado opressor. Mas, para mim, a questão é a mesma: não se pode matar. E, além disso, não serve de nada. 

 

Também me interessava a personagem. Uma pessoa que, noutras circunstâncias, provavelmente nunca teria matado ninguém. Se Idoia tivesse nascido em Valência, provavelmente teria sido bombeira, como queria, e fallera mayor [a principal representante das Fallas de Valência, escolhida anualmente para assumir o rosto oficial da festa], porque era lindíssima e gostava de dar nas vistas. Talvez até tivesse casado com um polícia. O que me interessa é o peso das circunstâncias. Cresceu num ambiente ligado à esquerda abertzale, aderiu àquilo e acabou por se transformar numa terrorista em nome da pátria basca. Interessa-me perceber como é que pessoas que, noutras circunstâncias, provavelmente não teriam feito nada daquilo, aderem a um dogma e se tornam capazes de cometer atos terríveis que, aos seus olhos, são perfeitamente justificáveis. E depois há outra questão: o que acontece quando o dogma começa a desmoronar-se? Se mataste em nome de uma ideia e deixas de acreditar nela, o que fazes com aquilo que fizeste? Como é que passas a viver com isso? É isso que me interessa. 


 

 

Ouvi e li várias entrevistas tuas e reparei que, em quase todas, citas Hannah Arendt. Foi uma influência importante neste livro? 

 

Muito. Hannah Arendt está muito na moda, não sou só eu, mas há uma razão para isso: falou destas questões antes de praticamente toda a gente. Era uma mulher judia que teve de fugir da Alemanha de Hitler e que estudou profundamente o totalitarismo e o nacionalismo. Ajudou judeus a fugir para a Palestina porque, naquela altura, ou fugiam ou eram mortos. Mas tinha uma relação ambivalente com a construção de um Estado-nação, porque não gostava da própria ideia de Estado-nação. Para ela, o Estado-nação deixava necessariamente muita gente de fora. Define-se pela fronteira, pela separação entre nós, os que nascemos aqui, e os outros, os que vêm de fora. E esses outros transformam-se no inimigo: vêm tirar-nos o que é nosso, contaminar as nossas tradições, alterar a nossa etnia, ameaçar-nos. Mais tarde, quando acompanhou o julgamento de Eichmann, atreveu-se a questionar a atitude de alguns judeus alemães e voltou a encontrar o mesmo dogma: os nossos fazem sempre tudo bem, os nossos não podem ser questionados. Um amigo seu, Gershom Scholem, escreveu-lhe: "Tu não amas o povo judeu". E ela respondeu com uma frase que incluí no livro: "Eu não amo nenhum povo, nenhum coletivo, nem o proletariado, nem os alemães, nem os judeus. Só sou capaz de um tipo de amor. Amo os meus amigos e é tudo". 

 

Identifico-me muito com isso. Quando me incluem nessa ideia de "povo", sinto-me até ofendida. Eu não sou "povo". Cidadã, talvez. Mas "povo", não. Mais tarde, quando Israel começou a seguir uma deriva etnonacionalista, Arendt também a criticou. Era uma mulher muito corajosa. E analisou extraordinariamente bem o totalitarismo, que estamos agora a ver ressurgir. Acho que é uma pensadora que ajuda a compreender muito do que está a acontecer hoje. Eu tinha todas estas reservas em relação ao Estado-nação e ao nacionalismo, e havia alguém que conseguia explicá-las muito melhor do que eu: Hannah Arendt. Portanto, sim, acompanhou-me muito. Foi uma das autoras que li enquanto escrevia. 

 

Achas que essa obsessão por estes conceitos se deve ao facto de seres catalã? Se tivesses nascido em Salamanca, seria diferente? 

 

É provável. Além disso, na Catalunha sou filha daqueles a quem chamavam imigrantes ou colonos. Os meus dois avôs tinham apelidos castelhanos e as minhas duas avós, apelidos catalães. Portanto, sou uma charnega [termo usado, sobretudo na Catalunha, para designar uma pessoa oriunda de outra região de Espanha, especialmente de famílias migrantes]. Não me sinto nem catalã nem espanhola. Os independentistas catalães, no fundo, não me consideram uma das suas porque a minha língua materna, embora fale catalão, é o castelhano. E escrevo em castelhano, coisa de que também não gostam nada. Mas isso não significa que me identifique com o nacionalismo espanhol. Para o nacionalismo espanhol, que predomina no resto de Espanha e, sobretudo, nos partidos de direita, todos os nacionalismos são maus menos o seu. O nacionalismo é sempre assim: o nacionalismo mau é sempre o do vizinho. 

 

Já dizia Danilo Kiš, o escritor jugoslavo, que também se considerava jugoslavo: "O nacionalismo é uma paranoia". Constrói-se sempre contra um inimigo. Sem inimigo, não há nacionalismo. O inimigo é aquele que não é como nós e que, supostamente, quer acabar connosco. Para o nacionalismo espanhol, portanto, os nacionalismos são péssimos. Mas quais? O catalão e o basco. O espanhol não, porque esse é simplesmente a ordem natural das coisas. E eu acabo por ficar no meio, sem pertencer verdadeiramente a nenhum dos lados. É uma posição incómoda, mas também me permite perceber até que ponto são semelhantes. Para mim, não há ninguém mais parecido com a senhora Ayuso do que o senhor Puigdemont. Quem está realmente longe dos dois é alguém que não acredita na pátria. 

 

Há uma observação muito interessante sobre a forma como os meios de comunicação construíram Idoia a partir de um olhar masculino: a beleza, a sexualidade, a “devoradora de homens”. A violência feminina continua a ser narrada de forma diferente da masculina? 

 

É uma boa observação. Para mim, era uma questão delicada porque tento ser objetiva. Em momento algum desculpo Idoia. O que fez é horrível. Mas tento separar os seus atos do olhar masculino e misógino que recai sobre ela. É delicado porque pode parecer que, ao fazer essa distinção, estou a justificá-la; não estou. Se Idoia fosse um homem lindíssimo, aventureiro, que se tivesse envolvido com mulheres polícias, provavelmente teria adquirido uma aura lendária, uma espécie de Don Juan. Ninguém o teria criticado por isso. Pelo contrário, provavelmente seria admirado até pelos inimigos. 

 

Provavelmente nem seria desconhecido. Haveria até uma série na Netflix sobre ele. 

 

Claro. Seria um mito. Mas, no caso de Idoia, entra imediatamente em funcionamento aquele olhar masculino que diz: se é bonita e é má, então é uma puta. É a velha divisão entre a santa e a puta, que continua muito presente. Se tinha relações com vários homens, como era mulher, então era uma puta, uma ninfomaníaca. Chegaram a dizer que Idoia se envolvia sexualmente com qualquer homem que lhe aparecesse à frente. 

 

O que eu queria era fazer aquilo que me parece justo: olhar para a violência praticada por mulheres da mesma forma que olhamos para a violência praticada por homens. Não me interessa se ela é bonita ou vaidosa. Também há homens vaidosos. Interessa-me aquilo que fez, não com quem se deitava. E foi isso que encontrei quando comecei a investigar Idoia. Há a exceção de Isabel Pisano, que fez a pior entrevista da história e foi completamente subjugada por ela. Decidiu entrevistá-la depois de ver uma fotografia de Idoia numa esquadra. Mais uma vez, foi a beleza de Idoia que funcionou como íman. 

 

De resto, encontrei sempre um olhar muito machista sobre ela. Há um livro de um antigo companheiro de comando, Soares Gamboa, que escreve bastante sobre Idoia porque a detestava. Li esse livro e a visão que tem dela é profundamente misógina. Chega a dizer que não percebia porque é que a ETA precisava de mulheres. Dizia, por exemplo, que as mulheres terroristas falavam muito mal e eram as que diziam mais palavrões. E isso também acontece quando és mulher. Para seres tratada como um homem, acabas, muitas vezes sem perceber, por exagerar determinados comportamentos masculinos. Se eles blasfemam, tu blasfemas ainda mais. Se são brutos, tentas ser mais bruta. Tudo para seres considerada uma igual. Ele dizia também que as mulheres não sabiam conduzir, nem montar uma arma. No fundo, estava a dizer que não serviam para nada. 

 

E aí surge um dilema: vou defender que as mulheres conseguem ser terroristas tão boas como os homens? Evidentemente que não. Mas posso mostrar o olhar misógino que existe sobre elas. Foi isso que tentei fazer no romance, permitir que Idoia apresentasse o seu próprio ponto de vista. Isso não significa que a apoie ou que a esteja a reivindicar. Até porque Idoia mente muito. Limito-me a mostrar a personagem como ela é. Não a julgo. 

 




Interessava-te também desmontar a romantização revolucionária de certos movimentos armados, como aconteceu com as Baader-Meinhof? 

 

Sim. Porque, naquela época, nada disto acontecia isoladamente. Há uma coisa nos nacionalismos que me diverte: apresentam-se sempre como movimentos profundamente autóctones, como se tivessem nascido espontaneamente de um determinado povo, mas depois surgem todos por vagas. No século XIX houve uma explosão de nacionalismos, começando pela Alemanha, e depois apareceram muitos outros. Há uma espécie de efeito de imitação. Naquela época havia as Baader-Meinhof, as Brigadas Vermelhas, as guerras de libertação na América Latina, a Nicarágua, a Argélia. Em determinados meios de esquerda, acreditava-se que era possível transformar a sociedade através da violência. 

 

Isso nunca funciona, mas é um caminho fácil. Há uma pergunta que faço constantemente: como é que chegamos à conclusão de que podemos construir alguma coisa destruindo? Destruindo não se constrói nada. Podemos apontar a Revolução dos Cravos como exceção, mas foi praticamente incruenta. A ETA matou mais de 800 pessoas ao longo da sua história e não conseguiu nada. A ideia de que se pode mudar a maneira de pensar das pessoas à força de bombas é nefasta. 

 

Incluis no final uma bibliografia e um apêndice que distingue cuidadosamente os factos documentados da ficção. Precisavas de marcar esse limite para proteger a liberdade romanesca ou para proteger a verdade histórica? 

 

Tive de o fazer porque os meus últimos romances misturam realidade e ficção, e tanto os acontecimentos como as pessoas reais que transformo em personagens são relativamente recentes. Portanto, tenho de ter muito cuidado. No caso de Idoia, estamos a falar de uma pessoa que está viva e que é até mais nova do que eu. Até onde posso ir? O que posso dizer? O que posso inventar? Como não há propriamente regras escritas para isto, estabeleço as minhas. Há um problema ético. 

 

Esse foi o único problema ético com que te debateste ao escrever este livro? 

 

Não, houve vários. Já te falei, por exemplo, da questão do olhar machista sobre Idoia. Ao questioná-lo, tinha de ter cuidado para que isso não fosse interpretado como uma tentativa de justificar aquilo que ela fez. Houve vários momentos assim. Mas gosto disso, gosto que os romances me coloquem dificuldades. 

 

Nunca pensei escrever sobre a ETA, tal como também nunca tinha pensado escrever sobre a Guerra da Bósnia. Não parto de ideias para escrever romances. Encontro uma personagem inserida num determinado contexto histórico que, nestes dois casos, é um contexto de violência, e percebo que, para compreender a personagem, tenho primeiro de compreender aquele momento histórico. Por isso, investiguei. E gosto muito de investigar, divirto-me imenso. Investiguei tudo o que consegui sobre Idoia e sobre o País Basco. Também fui lá e falei com pessoas. A proximidade ajuda, claro: tenho amigos bascos. Mas tinha de ter cuidado porque, se atribuir a Idoia alguma coisa que ela não fez e que seja difamatória, ela pode processar-me. Acabo sempre por me meter em desafios complicados, mas também é isso que torna o trabalho mais interessante. 

 

Há outra protagonista, Miren, uma adolescente filha de um polícia nacional. 

 

Sim, é a minha preferida. 

 

Porquê? 

 

Porque é completamente ficcional. Com ela sou livre. E, além disso, Miren não é tão má como Idoia, funciona como contraponto de Idoia, embora tenham muitos pontos em comum. As duas são filhas de imigrantes num País Basco onde o nacionalismo tinha uma componente étnica muito forte. Era uma sociedade que se orgulhava de não se ter misturado. Nem sequer tinha sido conquistada pelos romanos, e os muçulmanos também não chegaram lá. 

 

Miren é filha de Paco, um polícia desastroso, corrupto e nostálgico de Franco, que vai sendo transferido de esquadra em esquadra. Por isso, nunca chega a desenvolver um verdadeiro sentimento de pertença. Não fica tempo suficiente em lado nenhum para criar raízes. Até que o pai é enviado para o País Basco, um dos destinos para onde eram mandados muitos polícias como castigo. Naquela altura, a brutalidade policial também alimentava a ETA e a esquerda abertzale. Para o País Basco iam muitas vezes os polícias mais brutos ou os mais pobres, que precisavam do suplemento de risco. Viviam num estado de paranoia permanente, mas com motivos para isso. O pai de Miren não podia entrar no carro sem primeiro verificar se havia uma bomba por baixo. Ninguém podia saber que era polícia. E ser filha de um polícia era das piores coisas que se podia ser. 

 

Miren chega ali aos 15 anos, precisamente quando entra na adolescência. Em casa, o ambiente é horrível. Vão viver para Barakaldo, uma cidade-dormitório onde viviam muitos imigrantes que trabalhavam na indústria siderúrgica. Há aqui um paralelismo com Idoia, que viveu toda a vida em Errenteria, outra cidade que cresceu como cidade-dormitório e onde também havia muitos imigrantes. São duas mulheres que crescem em ambientes semelhantes, mas em polos políticos opostos. Idoia cresce num meio ligado à esquerda abertzale, com pais simpatizantes da ETA. Miren cresce no extremo oposto, num ambiente de extrema-direita espanhola. Considera-se apolítica, mas isso não existe. Quando diz que é apolítica, está realmente a dizer: "Não estou nem de um lado nem do outro. Não quero meter-me nisto porque é perigoso." No início está mais próxima da direita, naturalmente, e depois vai mudando. Mas aquilo que quer, acima de tudo, é escapar à opressão familiar e ter uma vida normal. Só que está a entrar na adolescência no meio de um inferno. O País Basco daquela época era um inferno. E eu também não facilito a vida a Miren. 

 

Além disso, apaixona-se por um rapaz de outra classe social. Os nacionalismos têm uma virtude, e acho que em parte foram inventados para isso: conseguem apagar as diferenças sociais e de classe. O patriota, seja empresário ou operário, une-se contra aquilo que vem de fora. Miren vem de uma classe social baixa, é de direita e apaixona-se por um rapaz ligado à esquerda abertzale. É mais uma das contradições da personagem. Esse amor por Julen, que não é propriamente correspondido, e as descobertas que vai fazendo com a amiga Irene acabam por levá-la para outro mundo.  


Nos anos 80, para além da violência da ETA e de tudo o que ainda acontecia durante a Transição, houve em Espanha uma enorme efervescência cultural e vital, também ela muito selvagem. A minha geração estreou praticamente ao mesmo tempo a juventude e a democracia. Tínhamos vivido como se estivéssemos fechados numa prisão durante o franquismo e, de repente, abriram-nos as portas. Rejeitávamos tudo o que estivesse associado aos nossos pais, porque nos pareciam antiquados. Queríamos ser europeus e achávamos que, para isso, tínhamos de sair à noite e consumir drogas. Em Madrid e Barcelona, essa festa era mais lúdica, era a Movida. No País Basco tinha um lado muito mais sombrio. Havia uma crise económica profunda, muito desemprego, a indústria siderúrgica estava a desaparecer e havia todo aquele ambiente de opressão e violência policial. Os jovens bascos viviam num mundo muito hostil e sentiam que não havia futuro. Por isso lançaram-se à festa quase de forma kamikaze. Surgiu o chamado rock radical basco, apareceram grupos punk muito selvagens e também as drogas. 

 

Miren aproxima-se desse mundo porque quer fugir à opressão que vive em casa. Tenta manter-se à margem, não se deixar contaminar por toda aquela polarização, mas não consegue. Os acontecimentos acabam por arrastá-la. Miren é alguém que tenta simplesmente ter uma vida normal, mas a quem calharam circunstâncias terríveis. Ao contrário de Idoia, que adere ao dogma e participa ativamente naquele inferno. 

 

O que resta hoje daquele País Basco dos anos 80? 

 

O País Basco sempre foi rico, mas hoje é uma das zonas mais prósperas de Espanha. Vive-se muito bem. E a ETA acabou. Os militantes da ETA diziam que eram presos políticos, mas isso não era verdade. Não eram presos por quererem a independência nem por a defenderem, porque isso era legal. Em Espanha podes ter um partido político que defenda a independência. Eram presos porque queriam impô-la a tiro. Enquanto a ETA esteve ativa e a matar, nunca teve um apoio popular muito significativo, porque, em geral, as pessoas não queriam aquilo. E convém lembrar que foi precisamente no País Basco que a ETA cometeu mais atentados. O paradoxo é que o nacionalismo e o independentismo bascos ganharam muito mais força depois do fim da ETA. A Bildu nunca teve a força que tem hoje. A ETA morreu. Mas continua a ser útil para uma parte da direita espanhola, para o nacionalismo espanhol. Porque os nacionalismos alimentam-se uns aos outros e precisam sempre de inimigos. O nacionalismo catalão precisa do "Estado espanhol" como inimigo. O nacionalismo do PP também precisa dos seus. E agora encontrou outros, como os imigrantes. 


O nacionalismo catalão também se está a aproximar disso. Temos agora na Catalunha um movimento independentista de extrema-direita assumidamente islamófobo. Para eles, eu também não sou catalã. Depois tens o Vox. No fundo, é a mesma coisa. Já te disse: são muito parecidos. A senhora Ayuso continua a falar da ETA como se ela ainda existisse, mas isso é cálculo político. A ETA acabou. E hoje vive-se muito bem no País Basco. Essa é a realidade. 

 

Em Portugal também tivemos movimentos armados de esquerda e de direita que, apesar de já não existirem há décadas, por vezes voltam a ser recuperados politicamente como arma propagandística.  

 

Porque é preciso haver um inimigo. O mecanismo do nacionalismo é simples: todos os nossos problemas vêm de fora ou são culpa de um inimigo. Se nos livrarmos dele, que até pode ser interno, todos os outros problemas desaparecem. A desigualdade deixa de interessar. Somos um povo ameaçado e temos de nos unir para derrotar o inimigo. 

 

Goebbels dizia qualquer coisa deste género: as pessoas não querem ir para a guerra. Para as convencer, é preciso dizer-lhes que há um inimigo que quer acabar com elas e que, para evitar isso, têm de acabar primeiro com ele. Quem não se juntar à causa passa a ser um traidor ou um cobarde. E funciona. Por isso, esta é a minha teoria: num momento de desigualdade brutal como aquele em que vivemos, quem não tem qualquer interesse em resolvê-la volta-se para o nacionalismo. Porque o nacionalismo não exige mudanças estruturais nem mais justiça social. Basta encontrar um inimigo, apontar-lhe o dedo e unir toda a gente contra ele. O nacionalismo alimenta-se do medo. E funciona. Eu cresci entre dois nacionalismos que apontavam constantemente um para o outro como inimigo. Talvez seja por isso que estou tão obcecada com este tema. 

 


 

E ainda não falámos dos GAL [Grupos Antiterroristas de Liberación]. 

 

Podemos falar dos GAL, porque eu gosto de falar dos GAL. 


Tal como há Miren e Idoia, também há a ETA e os GAL. 

 

Sim. Eu gosto de me meter em sarilhos. O maniqueísmo funciona muito bem. A partir do momento em que tentas fazer alguma coisa que levante dúvidas ou incomode, a receção é sempre pior. Em Espanha, não se fez assim tanta coisa sobre os GAL. E estamos a falar de um grupo terrorista organizado durante um governo socialista, o que é um assunto muito delicado para quem é de esquerda. 

 

Os GAL foram um desastre absoluto. O nível de corrupção era tal que José Amedo, o subcomissário que foi um dos principais responsáveis, gastava no casino de San Sebastián os milhões dos fundos reservados que recebia do Governo. O dinheiro que devia servir para pagar aos mercenários desaparecia porque ele o gastava. Os GAL surgem quando o Governo socialista chega à conclusão de que as limitações impostas pelo Estado de direito não lhe permitem combater a ETA como gostaria e que, para defender o Estado de direito, tem de violar o próprio Estado de direito. Essa era a lógica. Como Mitterrand tratava em França os militantes da ETA como refugiados políticos, decidiram levar o terrorismo para o sul de França: se os franceses também sentissem o caos, talvez passassem a querer livrar-se da sua origem. 

 

E até resultou, em certa medida. Mas a que preço? Os GAL mataram 27 pessoas e nove delas não tinham absolutamente nada que ver com a ETA. Isso fazia parte da estratégia: matar indiscriminadamente para espalhar o medo. Um Governo não pode comportar-se como um grupo terrorista e usar o terror para provocar medo. E mesmo aqueles que tinham ligações à ETA não podiam ser simplesmente executados. Num Estado de direito, as pessoas não são executadas sumariamente. Na verdade, aquilo que os GAL fizeram foi dar legitimidade ao discurso da ETA. A ETA dizia: "Nós não somos terroristas, somos um exército de libertação. Lutamos contra um Estado opressor. Isto é uma guerra." A partir do momento em que o próprio Estado cria um grupo terrorista e começa a agir da mesma maneira, está, de certa forma, a dar-lhes razão. Está a dizer: "Sim, isto é uma guerra." Pode ter contribuído para que os franceses começassem a extraditar membros da ETA, mas também levou novos militantes à organização. Muitos jovens bascos de esquerda, revoltados com os GAL, acabaram por entrar na ETA. Quando te colocas ao mesmo nível do adversário, acabas por legitimá-lo. 


E depois há a ligação portuguesa. Quando perceberam que recorrer diretamente a guardas civis e polícias era demasiado delicado, começaram a contratar mercenários franceses, argentinos, italianos. E Amedo veio a Lisboa contratar mercenários portugueses que tinham estado em Angola. Um deles, Paulo de Figueiredo, participou em alguns atentados dos GAL. Só que não lhe pagavam. Depois de um atentado, disseram-lhe para atirar a pistola ao rio, apanhar um táxi e ir para a estação de comboios. E ele pensou: "Não me pagaram, não vou gastar dinheiro num táxi e esta pistola é boa, portanto fico com ela." Foi de autocarro. Quando chegou à estação, estavam à espera dele. Foi detido e começou a falar. Era um grupo terrorista completamente trapalhão: gastavam o dinheiro no casino, não pagavam aos mercenários e depois os mercenários eram presos. E há uma coisa curiosa sobre Paulo de Figueiredo. Salomé Lamas fez um documentário muito interessante, Terra de Ninguém, e descobrimos que ele acaba a viver debaixo de uma ponte com angolanos. Um homem que tinha estado na guerra em Angola e tinha sido mercenário acaba a viver com pessoas do mesmo país onde tinha combatido. É uma daquelas grandes ironias da vida. Portanto, sim, há uma ligação portuguesa aos GAL. 

 

Miren tem um pai que se aproxima dos GAL. E há outra personagem muito importante no romance, Amedo, que é o chefe do pai. No fundo, é um romance construído a partir de vozes. Tentei criar uma espécie de prisma. Cada pessoa tem a sua versão. Eu não digo quem tem razão e quem não tem. Idoia tem a sua versão, María Ortega tem outra, e cada personagem vai construindo a sua própria versão dos acontecimentos. Depois há os capítulos de Miren, escritos na terceira pessoa, mas a partir do seu ponto de vista, e os capítulos de Amedo. Para Amedo, inspirei-me na própria maneira de ele falar, porque há conversas gravadas. A ideia era que conseguíssemos perceber quem é cada personagem apenas pela voz. Esse foi o desafio que me propus: escrever um romance de vozes. 

 

E depois aconteceu uma coisa curiosa. Quando dei entrevistas em Espanha, perguntaram-me pelos GAL? Nada. Parece haver a ideia de que, se falas dos GAL, estás a fazer o jogo da direita. E eu digo: não. Se um Governo socialista fez alguma coisa mal, tenho de o criticar. Voltamos sempre à mesma ideia: "Os meus não podem ser criticados". Claro que podem. E devem. Na verdade, acho que falar dos GAL até me prejudicou em Espanha. Não caiu bem. Sobretudo falar deles e dar nomes não agradou em determinados meios que, supostamente, seriam aqueles de que estou mais próxima. Mas eu gosto de ser uma voz incómoda. E os GAL existiram. Estavam lá. Não podemos fingir que não. 

 

Desde que o livro foi publicado, que reação dos leitores mais te surpreendeu? 

 

Aquilo que mais me surpreendeu foi precisamente aquilo que não esperava, porque tinha muito medo da reação dos leitores bascos. Eu não sou basca e receava que lessem o livro e dissessem: "Mas que disparate é este?". Havia outra vez uma questão de legitimidade, quase ética: que legitimidade tem uma catalã para escrever sobre o País Basco? Posso eu, sendo catalã, escrever sobre os bascos? Também é preciso lembrar que a ETA atuou em toda a Espanha. Na Catalunha, por exemplo, atuou muito. Conheci uma pessoa da minha agência literária, de uma geração mais nova, e disse-lhe: "Para ti, isto deve ser pré-história." E ele respondeu: "Não penses. Eu era criança e um dia tinha de ir ao supermercado com a minha mãe. Discutimos e atrasámo-nos. Quando chegámos, estava tudo cercado pela polícia." Tinha acabado de acontecer o atentado do Hipercor, em Barcelona, onde morreu muita gente. E ele disse-me: "Se não tivéssemos discutido, talvez eu tivesse morrido." 

 

Aquilo afetava-nos a todos. Acho que qualquer espanhol que tenha vivido naquela época tem o direito de falar sobre a ETA, não apenas os bascos. Mas, dito isto, o que mais me surpreendeu foi a reação dos leitores bascos. Diziam-me que o livro estava muito bem ambientado, que reconheciam aquele mundo, e não me apontaram os problemas que eu temia. Foi exatamente o contrário do que esperava. Tinha a certeza de que me iam dizer que havia coisas erradas, mas não aconteceu. Fiquei muito contente. 

 

O que estás a ler? 

 

Estou a ler Sempre Vivemos no Castelo, da Shirley Jackson. Trouxe ainda um livro de contos do David Means. Já o tinha em casa há algum tempo, mas ainda não o tinha lido, e estou a gostar muito. Faz-me lembrar um pouco a Flannery O'Connor, com aquele humor selvagem e aquele lado meio gótico.  

 

Por Rita Sousa Vieira 

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