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Do que tratam as três novelas que compõem esta Trilogia da Paixão?
Se tivesse de resumir… diria que são histórias de vidas falhadas. Estas três novelas não têm, para mim, um “tema” central. Aliás, não gosto da ideia de “temas” na literatura, parece-me redutor. Mas há, sim, um território comum: o das vidas fracassadas, das existências perdidas, da solidão e da exclusão. É isso que une estas personagens: a mulher de Mata-te, Amor, a mãe e a filha de A Atrasada Mental, ou ainda a mãe e o filho de Precoce. Todas carregam uma consciência dolorosa do seu próprio fracasso.
Há um detalhe curioso: aqui, a novela A Débil Mental foi traduzida como A Atrasada Mental. No Brasil mantiveram o original — débil — que soa mais suave, até mais politicamente correto. Atrasada é mais duro, mais cru, quase ofensivo. Hoje, há um certo pudor em usar essas palavras. Mas a escolha não é inocente. Na novela, há um momento em que a personagem se descreve como “uma atrasada mental” — e fá-lo sem piedade, em confronto direto com a sua própria fragilidade emocional. Está apaixonada por um homem alienado, ausente, e é nessa distância que se sente diminuída.
Começaste a escrevê-las há quase dez anos, ou até mais, mas são histórias que continuam atuais.
Foram escritas antes do Me Too, antes de muitas das polémicas ligadas à maternidade ou à literatura no feminino. Agora Virginie Despentes está na moda, Annie Ernaux também. Todo esse empoderamento, esse novo léxico, essa campanha a favor das mulheres, surgiu depois. E isso é curioso, visto sob essa luz. Estas obras são, digamos, anteriores a tudo isso.
O que ganham ao serem publicadas numa trilogia? Achas que, juntas, produzem efeitos que não teriam quando editadas ou lidas separadamente?
Bem, a essa pergunta posso — como dizemos em espanhol — chamullar. Ou seja, posso especular, fantasiar, mas, porque sou leitora das minhas próprias novelas, não tenho uma resposta definitiva. Mas a verdade é que a emoção da leitura, essa, não a consigo ter. Falo da experiência verdadeira, sensorial, de ler. No fundo, acho que as novelas têm o mesmo valor quer lidas separadamente, quer juntas. Mas eu recomendaria lê-las com algum intervalo, a não ser que gostem de uma leitura mais caótica, como eu, que às vezes pego numa página ao acaso, salto outra, começo pelo fim…
Trilogia da Paixão foi traduzido para vários idiomas. Sentes que a receção muda conforme a cultura e o país onde é editado?
Há um denominador comum, que resulta do contexto histórico, ideológico e cultural de uma determinada época. No entanto, cada cultura e cada língua acabam por se apropriar da obra de uma forma distinta.
De que forma, podes dar um exemplo?
Em países em guerra tudo é lido de forma literal. E pode ser insuportável ler as passagens relacionadas com as dificuldades da maternidade, porque estão a vivê-las. Pode ser insuportável para quem viu os filhos serem sequestrados e assassinados, ou as filhas violadas. Já em países mais conservadores, em que o tema da maternidade é tabu ou onde o aborto foi proibido durante muitos anos, como nos países do leste da Europa, essa realidade é difícil de compreender.
As reações dos leitores tocam os extremos, do amor ao ódio. Como é que lidas com essa polarização nas opiniões?
Se a minha escrita fosse mais clássica, talvez fosse mais fácil conquistar leitores. Mas, ao escrever assim, é natural que muitos se afastem. E isto não tem nada a ver com marketing, bem pelo contrário, é quase o oposto. Na literatura não há consensos, e eu não posso, nem quero, mudar a forma como escrevo. Haverá sempre quem não consiga entrar neste universo, mas também quem se sinta fascinado por ele. E são esses os que me interessam.
No prólogo, escreveste que cada uma destas novelas foi escrita com um certo desejo de vingança. O que é que a tua escrita procura vingar?
É uma boa pergunta. Há uma dimensão pessoal, ligada à minha própria vida, e outra mais abrangente, que tem a ver com o mundo. Há momentos em que se sente uma injustiça tão profunda que dá vontade de fazer justiça pelas próprias mãos. Apesar disso, não acredito numa escrita guiada por ideologias fechadas. Mas acredito, sim, que toda a literatura é uma forma de justiça, um ajuste de contas. Não escrevo personagens-vítima, mas vejo cada romance como um ato de justiça pessoal. Uma tentativa de repor algum equilíbrio.
Nas tuas obras, as mulheres parecem estar constantemente em confronto com os papéis que a sociedade lhes impõe. A literatura é um espaço de resistência?
Diria que sim, mas com uma condição: que essa resistência não se transforme exatamente naquilo que o mercado literário espera das mulheres. A literatura pode ser um espaço de resistência, mas só enquanto essa resistência não for profissionalizada, mecanizada, transformada num produto. Quero dizer com isto que há hoje muita literatura escrita por mulheres contra os papéis sociais, mas que começa a parecer artificial. Torna-se um produto moldado para agradar ao mercado — uma embalagem bem pensada — que, dentro de uma década, talvez já nem exista. A autoficção, por exemplo, ocupa largamente esse espaço de resistência profissionalizada.
A verdade é que há uma certa exploração do facto de as mulheres venderem mais. Hoje, há mais leitoras do que leitores, e as autoras vendem mais do que os autores. Não estou a dizer que nomes como García Márquez ou Fernando Pessoa tenham deixado de vender, mas, entre uma mulher e um homem contemporâneos, os editores tendem a escolher a mulher — porque vende mais. E isso, para mim, é excelente. Antigamente era o contrário. Mas essa vantagem acarreta também uma responsabilidade. Não podemos simplesmente ceder ao jogo do mercado. Caso contrário, corremos o risco de ser tratadas como idiotas úteis.
A primeira vaga de autores latino-americanos foi dominada por homens, agora fala-se de uma "segunda vaga" composta por mulheres escritoras. O que tens a dizer sobre isso?
Não gosto, deixa-me desconfortável. Essa ideia de juntar todas as mulheres num único grupo, apertadas, amontoadas… Não quero ser tratada como um homem, mas também não quero mais uma etiqueta. Há uma obsessão pela classificação. Quero fugir disso. Fugir, como Proust.
Quais são as tuas maiores influências literárias? Há quem compare a tua escrita à de escritoras como Sylvia Plath ou Clarice Lispector. Achas essas comparações justas?
A tua pergunta faz sentido, porque tendemos a comparar os escritores a outros que admiram. Gosto da Silvia Plath, da Clarice Lispector... Sinto uma grande proximidade com elas, como se fossem amigas. Mas não sei se elas me influenciaram mais do que, por exemplo, os pintores flamengos. Não estou a tentar ser diferente, mas é que muitas vezes se pensa: “Ah, ela foi influenciada pela [Alejandra] Pizarnik e pelas ‘poetas suicidas'”. Para ser honesta, o que mais me influenciou foi a poesia de [Rainer Maria] Rilke, a de [William Butler] Yeats, e também os filósofos, como Nietzsche ou Platão. Não é que tenha sido diretamente influenciada por eles, mas o impacto do seu pensamento na minha visão do mundo foi, sem dúvida, grande.
Vives em França há muito tempo, quase 15 anos.
Sim, um pouco mais. 17, na verdade.
Existe uma longa tradição de escritores argentinos a viver em França...
Bem visto, mas não há uma comunidade. Está cada um para o seu lado.
É quase obrigatório. Tenho de falar do Martin Scorsese, que comprou os direitos de adaptação de Mata-te, Amor.
Sim, das duas outras também. Comprou os direitos de adaptação das três novelas. Mata-te, Amor deve chegar ao cinema este ano. Pelo menos, nos Estados Unidos; não sei quando chegará à Europa.
Como foi receber essa chamada, saber que o Martin Scorsese leu o livro e queria adaptá-lo?
Bem, essa ideia da chamada telefónica é tua. Não aconteceu, mas adorava — Hi, Martin! (risos). Quem me dera que tivesse sido assim. Na verdade, foi um processo muito longo. Durante a pandemia, recebi a notícia, através do meu agente, que a produtora de Scorsese, em Los Angeles, estava interessada. Mas, entre o interesse e a concretização, vai uma distância enorme. É quase um milagre. Muitas vezes os direitos são comprados, mas depois a adaptação nunca avança. Fica por aí. No nosso caso, esperámos anos. 2021, 2022, 2023... Até que finalmente assinámos tudo. Mas mesmo com os contratos fechados, era preciso que o filme se fizesse. Que se filmasse, que os calendários se alinhassem, que o elenco estivesse disponível. E por falar em elenco, que sonho. Jennifer Lawrence, Robert Pattinson, Sissy Spacek, Nick Nolte.
Estudaste cinema, estiveste envolvida nesse processo?
Não participei na escrita do guião, mas adorava. É Hollywood. Mas o meu inglês não é grande coisa, sou uma humilde argentina. Estou feliz e ansiosa para ver o que fizeram. Dizem que tem um tom cómico, humorístico. Não sei, ainda não vi nada.
Como é a tua relação com os tradutores? Preferes manter distância?
Gosto muito de estar envolvida em todo o processo com os tradutores — ou melhor, com as tradutoras, porque a maioria são mulheres.
A tradução para português é de Guilherme Pires.
Sim, e é uma exceção. Escreveu-me por e-mail, mas nunca o conheci pessoalmente. Para ser honesta, nem sabia que era um homem. Só agora, ao ver o nome com atenção, percebo. Mas sim, acredito que a relação com os tradutores devia ser próxima. É uma dinâmica quase musical. Um baterista precisa de ouvir o guitarrista, um violinista precisa de confiar no maestro. Se dependesse de mim, passava uma tarde com cada tradutor — tomávamos café, conversávamos. É uma relação complexa. Alguns tradutores preferem não ter a intervenção do autor, acham que interfere, que faz “ruído”. Querem ouvir só o texto, porque o texto é soberano. E percebo. Não sei como seria se estivesse do outro lado, se fosse eu a tradutora. Mas, para mim, é importante estar presente. Como é que poderia ficar indiferente à forma como o meu texto vai soar noutra língua?
O que é que estás a ler?
Bem, estou sempre a ler... Tenho muito medo de voar, e os livros acalmam-me, são um ansiolítico natural. Agora estou a mudar um pouco o meu foco. Estou a ler sobre a Segunda Guerra Mundial, para tentar entender as guerras que vivemos hoje. Quero perceber como os intelectuais da época — Stefan Zweig, Joseph Roth... — pensavam a guerra e o pós-guerra, e comparar com o que estamos a viver agora, em 2025.
Por Rita Sousa Vieira