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“Não inventámos uma Vivian Maier”: fotografia, arquivo e uma antologia para ver no Porto
Já abriu ao público, no Centro Português de Fotografia, no Porto, a exposição Vivian Maier – Antologia, uma das mais completas dedicadas à obra de Vivian Maier. No ano do centenário do seu nascimento, a mostra reúne mais de 140 imagens e revisita o percurso de uma fotógrafa que viveu no anonimato até ser descoberta por acaso.
Em entrevista à Cultura FNAC, a curadora Anne Morin explica como se constrói uma narrativa a partir de um arquivo póstumo e porque continua Maier a marcar o olhar contemporâneo.
O QUE TENS DE SABER:
Mais de 140 fotografias revelam o universo de Vivian Maier (1926-2009), a ama que documentou durante décadas a vida urbana nos Estados Unidos, deixando um arquivo com mais de 120 mil negativos.
Patente até 30 de agosto no Centro Português de Fotografia, no Porto, a exposição Vivian Maier – Antologia destaca o impacto emocional e a atualidade do seu olhar, reforçando o seu lugar na história da fotografia.
A exposição inclui não só fotografia, mas também excertos de filmes Super 8, revelando o processo de olhar e de construção de imagem da autora.
O que explica que a obra de Vivian Maier, mantida no anonimato durante a sua vida, continue a despertar tanto interesse nos dias de hoje?
Há uma dimensão extremamente contemporânea na sua obra, sobretudo no autorretrato. O autorretrato fala diretamente connosco, porque toca numa questão muito atual, ligada à identidade e à forma como nos representamos.
Vivian Maier é provavelmente a fotógrafa que mais autorretratos fez. Estima-se que tenha feito cerca de 23 mil ao longo de 45 anos. Isso revela uma investigação contínua sobre si própria e sobre a imagem.
Existe ainda outro elemento importante. Durante grande parte da sua vida foi uma invisível, uma desconhecida, e em pouco tempo tornou-se um ícone. Era uma ama e hoje é uma figura central na história da fotografia. Essa transformação também contribui para a forma como a obra é hoje recebida.
Em 2007, um conjunto de negativos comprado por acaso num leilão — por pouco mais de 300 euros — viria a revelar o olhar até então desconhecido de Vivian Maier. Hoje, parte desse espólio está nesta exposição. Como se constrói uma narrativa coerente a partir de um arquivo tão vasto, fragmentado e descoberto postumamente?
É uma questão ética muito importante. A primeira pergunta é saber se Vivian Maier estaria de acordo com isto. Eu penso que provavelmente sim. Abandonou os seus arquivos num armazém e podia tê-los destruído, mas não o fez. Deixou-os ali, como algo em suspenso, como uma porta aberta.
Depois, há toda a questão da investigação. É evidente que existe sempre uma dimensão subjetiva, mas também houve um grande rigor. Não inventámos uma Vivian Maier que não tenha existido, nem fizemos uma interpretação forçada da sua obra. Trabalhámos diretamente sobre o arquivo, selecionando as fotografias e mantendo a arquitetura do seu trabalho. Foi assim que a exposição se construiu.
Quanto à narrativa, há também uma escolha clara. Não me interessa reconstruir a infância ou os aspetos mais íntimos da sua vida. Há uma parte enigmática que não nos pertence. Se nos focarmos na obra, ela está aqui, acessível. O resto não me interessa.
Como foi o processo de seleção das fotografias que vemos nas paredes do Centro Português de Fotografia?
Demorou muitos anos, porque estava a entrar num território completamente virgem. Ninguém tinha visto a obra, nenhum historiador se tinha pronunciado, não havia um discurso prévio. Isso obriga a um trabalho muito paciente e muito atento.
Sendo hoje a curadora da exposição e tendo acompanhado de perto este arquivo desde cedo, que impressão deixou o primeiro contacto com a obra?
Sim, desde 2011. Quando entras numa zona muito desconhecida, a primeira coisa a fazer é parar e escutar. Tens de te sentar e observar. A obra acaba por falar contigo, mas só se houver disponibilidade para isso.
E o que é que ela disse?
O que me disse, desde o início, foi que era necessário ter muito respeito e, sobretudo, não forçar nada. Esse princípio tornou-se essencial. O período da pandemia foi importante porque me permitiu rever tudo muitas vezes, voltar às imagens, compará-las, perceber melhor o conjunto. Foi nesse momento que comecei a identificar as grandes linhas da obra.
E o que se percebe é que, desde as primeiras fotografias, em 1948, feitas com a câmara da mãe, já existe uma qualidade muito forte. Não há uma evolução vertical, não há uma progressão no sentido clássico. O que existe é um movimento horizontal de temas que regressam constantemente. As crianças, a cor, o cinema, a rua, o autorretrato. Ao longo de 45 anos, há uma repetição desses motivos, quase como variações contínuas.
Trabalhar sobre este espólio mudou o teu olhar sobre a fotografia?
Sim, radicalmente. Percebi que, para ser um bom curador, é preciso desprender-se do conhecimento prévio e deixar espaço para a intuição. Quando entras num arquivo, não és tu que mandas. É o arquivo que impõe o seu ritmo. Pode demorar anos até se revelar.
O essencial é o respeito, a intuição e a capacidade de não forçar. É preciso estar disponível e deixar que as coisas aconteçam.
Como foi esse processo na prática? Houve momentos em que foi necessário parar e voltar mais tarde?
Sim, completamente. Trabalhei durante meses, muitas horas por dia, como um mineiro. É preciso descer, olhar, voltar a olhar, repetir o gesto. Sem tirar conclusões demasiado cedo. Continuar, avançar, insistir. Até que, a certa altura, algo se abre. E percebes. Mas isso só acontece depois de muito tempo e de muito trabalho.
Há alguma fotografia ou série que ajude a orientar o olhar do público e a compreender melhor a obra de Vivian Maier?
Para mim, o centro, o coração, está no autorretrato. É aí que encontramos mais singularidade, mais riqueza, mais particularidade. É também o espaço onde a obra se torna mais densa e mais complexa.
Na verdade, é provavelmente a única fotógrafa que desce tão profundamente nesta questão do autorretrato, explorando-a de forma sistemática ao longo de toda a sua vida.

Nesta exposição vê-se aquilo que Maier viu ou a forma como via?
É uma questão muito interessante, porque permite distinguir dois níveis. Nos filmes Super 8 vemos como Vivian Maier olha, como procura a imagem, como desloca o olhar e constrói o enquadramento. Há um processo em movimento, quase físico.
Estamos, de certa forma, dentro da sua retina. O que nos interessa aí não é tanto o objeto observado, mas o próprio ato de ver, a forma como esse olhar se constrói. Já nas fotografias vemos o ponto de chegada desse processo. É aí que se fixa aquilo que foi visto. São duas dimensões distintas, mas complementares, que ajudam a compreender a sua prática.
O que distingue o olhar de Maier de outros fotógrafos de rua, à época a grande maioria homens?
A sua singularidade vem de um cruzamento muito particular. Vivian Maier está entre a fotografia humanista francesa e a fotografia de rua americana. Consegue reunir essas duas tradições numa mesma prática.
Ao mesmo tempo, era autodidata, o que a coloca fora de qualquer escola formal. Isso dá-lhe uma liberdade muito própria. É simultaneamente uma caçadora, atenta ao instante, e uma observadora paciente, capaz de esperar e de se demorar.
Depois de passar por várias cidades — de Viena a Seul, passando por Berlim e São Paulo — que variações na receção do público têm marcado esta exposição?
O impacto tem sido extremamente forte e muito consistente entre diferentes contextos. Não é algo pontual. Há uma resposta emocional muito intensa. As pessoas comovem-se, choram, há quem desmaie, há quem espere horas para entrar. Em alguns casos, chegam a dormir na rua para conseguir visitar a exposição. Isso mostra até que ponto a obra toca algo muito profundo.
Existe uma dimensão humana muito forte que atravessa tudo isto e que cria uma ligação direta com o público. Porque Vivian Maier é universal, mas a experiência da exposição é sempre individual.
Até que ponto a obra de Maier é uma construção coletiva, também feita por curadores, instituições e pelo próprio público?
Cada pessoa que olha para as fotografias de Vivian Maier volta a dar-lhes vida. Cada um constrói a sua própria Vivian Maier. Não há uma única leitura. Ela funciona como um espelho. É uma figura sem uma identidade totalmente fixa, o que permite que cada um se projete nela. No fundo, há uma dimensão universal. Era uma invisível que se tornou um ícone, e esse percurso permite múltiplas identificações. Cada pessoa encontra ali algo diferente. É um fenómeno que se tornou global, com uma força muito grande.
E até que ponto a descoberta tardia condiciona ou romantiza a leitura da sua obra?
Há um elemento fascinante nisso. Vivian Maier morre em 2009 sem saber que a sua obra foi descoberta e começou a circular internacionalmente. Nunca teve a possibilidade de intervir na forma como a sua história seria contada. Isso mostra que a história não é fixa. Não é uma cristalização do passado. Há coisas que permanecem latentes e que, em determinado momento, voltam a emergir.
Ela regressa através de uma questão muito atual, ligada ao autorretrato e à identidade. Vivemos hoje uma necessidade constante de mostrar que existimos. Ela também tinha essa necessidade, mas expressava-a de outra forma. Hoje tiramos fotografias para as publicar. Ela fotografava sem intenção de mostrar. Isso muda completamente a leitura da sua obra. Ela fazia-o para si. Nós fazemos para os outros. E essa diferença é fundamental.
Faz falta hoje uma maior cultura visual?
Sem dúvida. Produzem-se mais imagens do que nunca, mas falta cultura visual. E não só visual, cultura em geral. Na obra de Vivian Maier encontramos referências ao cinema da Nouvelle Vague, à filosofia francesa, a textos antigos sobre a pobreza, a Charles Baudelaire, a Eugène Atget. Há uma densidade cultural muito grande. Não é apenas fotografia de rua. É muito mais do que isso.

Que questões levanta o seu trabalho sobre autoria, memória e o papel das mulheres na fotografia?
A obra de Vivian Maier ilustra bem uma ideia de Virginia Woolf. As mulheres estão ligadas entre si. Basta que uma avance um pouco mais para que a seguinte continue a partir daí. É um fenómeno coletivo. Não existe Vivian Maier sem Berenice Abbott ou Diane Arbus. Há uma continuidade, uma construção partilhada ao longo do tempo.
Quanto à autoria, abre um espaço importante. Mostra que também os amadores podem ter um lugar na história da fotografia, não apenas os profissionais ou quem pertence a determinados meios.
Na construção da exposição, como foi pensado o equilíbrio entre as diferentes fases da obra — do preto e branco à cor, passando pelo trabalho em filme?
O tronco principal da obra desenvolve-se na rua. Esse é o núcleo. Depois há ramificações, relativamente equilibradas em número. O trabalho a preto e branco ocupa cerca de 90% da exposição. Foram acrescentados dois momentos mais experimentais, ligados ao cinema e à cor. Mas o essencial continua a ser a rua e as grandes temáticas que atravessam toda a obra.
Que importância têm outros elementos expositivos além das fotografias?
A exposição não é apenas um conjunto de imagens. Há uma cenografia pensada, com objetos, câmaras, elementos que evocam o arquivo. São pistas, pequenos sinais que ajudam o visitante a entrar nesse universo material e a compreender melhor o contexto da obra.
O que poderia ter fascinado Maier nas ruas do Porto?
Provavelmente, a beleza da cidade. E, em particular, a dimensão arquitetónica. Há uma materialidade do tempo muito presente, que se sente nas ruas, nas casas, nas estruturas. Isso teria certamente despertado o seu interesse. E também os rostos, naturalmente. Mas sobretudo a arquitetura.
O que gostarias que o público português levasse desta exposição?
O legado de Vivian Maier pode resumir-se numa ideia simples: se tens um sonho, vai até ao fim, não desistas.
E o que pode descobrir aqui pela primeira vez?
Há muitas imagens que são apresentadas pela primeira vez em Portugal. Já houve uma exposição anterior, mas aqui acrescentámos cerca de 30 fotografias, bem como folhas de contacto e outros materiais inéditos.
Além disso, o próprio espaço cria uma leitura interessante. Estamos numa prisão, num antigo espaço de reclusão e, ainda assim, fala-se de liberdade. Ela encontrou a sua liberdade na fotografia, dentro de um contexto que a limitava.
Por Rita Sousa Vieira
Fotografias de Julia Lombao / Centro Português de Fotografia / Terra Esplêndida