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VITORINO EM ENTREVISTA
ENTREVISTA A VITORINO ENTREVISTA A VITORINO

“Já é raro haver um cantor com a minha idade e o meu descaramento”



Nome incontornável da canção portuguesa das últimas décadas, Vitorino tem disco novo. Não Sei Do Que É Que Se Trata, Mas Não Concordo recorda uma frase de “grande saber e liberdade” de um parente do Redondo. Sem fazer contas aos anos de carreira e sem “um sentido triunfal” da sua obra, o cantor alentejano mantém todo o descaramento.

 





Ia começar por perguntar a razão deste disco não ter uma edição física, mas já percebi que ela está prevista ainda para este ano.

 

Sim, sim.

 

Não achas que não ter essa edição física limita a audição a uma faixa etária que não chega às plataformas de streaming?

 

Suponho que sim. Reparo que nos meus concertos não há muita gente nova. É provável que sejam netos, mas também filhos. Há muita gente mais velha e pouca jovem, que se calhar até vai por influência familiar ou por curiosidade. Já é muito raro haver um cantor com a minha idade e o meu descaramento a cantar em Portugal.

 

Disseste numa entrevista recente que devias “ser o cantor português mais velho no ativo”. Tu e o José Cid.

 

E com grande vigor. O José Cid está vigorosíssimo.

 

Não só na música, mas também nas posições que toma.

 

Ele tem uma personalidade muito forte, tem esse vigor espalhado tanto pela alma como pelo corpo.

 

Ouvia-te dizer, antes desta conversa, que já ninguém compra discos. É essa a tua perceção?

 

Pelo menos, quando vou à FNAC, a zona de CD's já é muito diminuta.

 

Mas a de vinil tem crescido.

 

O vinil é um objeto eterno, já o CD não. O CD é um derivado do LP e, apesar de a escuta ser mais fácil, não acho que seja tão humanizada. É muito fria.

 

Perdeu-se um certo culto na escuta de um disco?

 

Perdeu-se completamente. Lembro-me de se fazerem reuniões só para ouvir discos. Até as capas eram devoradas, os créditos eram todos analisados. E não foi só isso que se perdeu: também se perdeu a qualidade da música. Hoje, ouve-se música em todo o lado, no elevador, no supermercado, nos restaurantes, e muitas vezes já não é música, é só ruído. A música hoje transformou-se num showbiz altamente desenvolvido.

 

Quando é que se perdeu, consegues encontrar uma data?

 

Depois da guerra do Vietname. A banda sonora contra a guerra do Vietname é a última grande música. Daí por diante começou a total decadência. A música anglo-saxónica está completamente decadente e esmagou as músicas dos outros países.

 

Voltando ao disco. Não Sei Do Que É Que Se Trata, Mas Não Concordo foi agora editado, mas já estava na gaveta há alguns anos. Foi a pandemia que o adiou?

 

A pandemia interrompeu o seu lançamento.

 

Estava pronto para ser lançado quando?

 

2019-2020. Já estava pronto por essa altura. Ainda fiz um concerto no São Luiz com o título deste disco, que também é o de um documentário. Ia começar a desenvolver essa ideia do Não Sei Do Que É Que Se Trata, Mas Não Concordo, mas depois...

 

Qual é a história dessa frase?

 

O título não é meu. O título é da autoria de um parente meu no Redondo, que era carpinteiro e bebia muito. O meu primo Zé Embirra, nome pelo qual era conhecido na minha terra... Na minha terra, as famílias não são conhecidas pelo nome verdadeiro, todos temos outro nome que é dado pela população que acha que somos muito mais esse nome do que o que trazemos dos nossos avós e dos nossos pais. O Zé Embirra entrou numa Assembleia Geral do Redondense Futebol Clube, já a Assembleia decorria há meia hora, e pediu a palavra. É-lhe dada a palavra e ele diz: Não Sei Do Que É Que Se Trata, Mas Não Concordo. Foi expulso e voltou ao balcão da recreativa onde bebeu o seu copo.

 

Quantos anos é que ela tem?

 

Tem seguramente 60 anos. Ficou na vila. Achei-a maravilhosa e nunca mais me esqueci, porque é uma frase de um grande saber e liberdade.

 

Era assim que era esse parente, um homem livre?

 

Era um homem muito livre. Bebia mas não incomodava ninguém. A liberdade dele acabava onde começava a dos outros. Sem saber era um anarquista. Usava sempre boina e fato de macaco, poucas vezes o vi em fato de domingo.

 

Antes, falávamos do interesse pelos créditos de um disco. De quem é a capa deste?

 

Esta capa é de um tipo genial, o José Cardoso, que além de ser produtor do disco faz o management. Eu não gosto de falar com termos anglo-saxónicos, ele faz o meu agenciamento. É o meu “manageiro”, que é mais regional. Um homem com muitos talentos, que se revelou um excelente pintor e ilustrador.

 

O que é que ela encerra? Já vi algumas interpretações que iam até à censura, mas vejo nela muita modernidade.

 

Muita modernidade e algum surrealismo, tem essas duas vertentes. E também algum descaramento.

 

Descaramento, teimosia... São qualidades ou são defeitos?

 

Depende da aplicação. As qualidades e os defeitos são coisas muito ambíguas. Há qualidades que se a gente as aplicar demais, ficam defeituosas, e vice-versa.

 

Neste disco a voltas a colaborar com o António Lobo AntunesNão É Meia Noite Quem Quer é uma canção que nasceu para o disco ou já a tinhas há mais tempo?

 

Já a tinha há algum tempo, o António escreveu-a para mim. Ele é muito produtivo; basta olhar para a obra dele, não é? O universo deu-lhe uma capacidade celestial para a escrita, inclusive para escrita de letras.

 

Tem sido feita justiça à obra do Lobo Antunes?

 

Não, Portugal não gosta dos seus, nunca gostou. Sempre se negou os seus. Ou se iam embora, ou ficavam aqui entalados entre Castela e além-mar. Só os corajosos ficaram.

 

Qual o teu livro favorito dele?

 

Os Cus de Judas é o meu favorito, mas também gosto muito do Memória de Elefante e do Explicação dos PássarosAquela forma de escrever, a agilidade e a beleza do discurso.... É muito, muito interessante. Depois, a cabeça começa a revolver-se e há momentos em que só os podia ler em voz alta. Cheguei a dizer-lhe isso. Como tenho memória musical, percebi que só assim encontrava aquelas personagens. À medida que perdes a memória, perdes a capacidade de ler aqueles livros, e eu comecei a perder memória cedo.

 

Foste perdendo a memória?

 

Até a memória do vocabulário perdi, mas hoje estou num dia em que me lembro das palavras que quero dizer.

 

A vossa parceria musical e amizade tem muitos anos. As aparições do António Lobo Antunes, nos últimos, são cada vez mais curtas. Como é que ele está?

 

Ele tem a minha idade, 81 anos. Aliás, é mais novo do que eu um ano. Mas teve mais maleitas que eu, coisas mais graves. Eu também tive, mas sobrevivi. Mas isso são os genes que ditam, e a natureza. Eu sou muito amigo da natureza e a natureza responde-me sempre. Gosto das árvores...

 

Gostas de burros... Ainda os tens?

 

Gosto muito dos burros. Agora devo ter uns 50. Quando for ao Redondo... Eles começam a nascer em maio... A natureza é tão generosa e tão inteligente que os animais de ar livre começam a ter filhos quando chega a primavera, porque há de comer e há sol. Durante o inverno, o pelo cresce muito para os proteger. Há um mês e tal que não vou lá, de maneira que quando voltar tenho burrinhos para batizar.

 

O que é que te levou aos burros? Porque é que gostas tanto destes animais?

 

É a minha homenagem aos almocreves, vendedores ambulantes que viviam na zona do Castelo do Redondo. Homens com um sentido de sobrevivência único, muito atentos a tudo. Analfabetos, mas com uma linguagem fantástica, e alguns grandes cantadores. Têm um cancioneiro fantástico, que felizmente está recolhido. Quase todos eram repentistas, chegavam a um monte e faziam logo uma quadra. Conheci muitos. Só saíam de lá na primavera para ir vender loiça do Redondo a outros pontos do país... Os animais passavam de pais para filhos, e quando os começaram a vender, comprei quatro. Hoje já lá estão 50...

 

Já tens nomes para batizar os recém-nascidos?

 

Ainda não sei, só quando lá chegar... Alguns amigos pedem-me para meter o seu nome a um burro.

 

Este disco conta com várias colaborações, como as de José Cid e do António Lobo Antunes, de quem já falámos, mas também ouvimos Cuca Roseta. Como é que surge Para Quando Eu Te Encontrar, um tema entre o fado e o cante?

 

Ela canta muito bem. É uma figura que enche um palco, é uma mulher com muito carisma. Ela vai para além do fado, muito mais além.

 

Já Moda Revolta é um tema para Abril.

 

É a minha marca de água.

 

Mas, a certa altura, cantas "Europa, essa figurona que olha para mim com arrogância". Em ano de eleições para o Parlamento Europeu, como é que olhas para a relação Portugal-UE?

 

É verdade, a Europa sempre olhou para nós com arrogância. É figurona e arrogante a Europa da senhora von der Leyen, que adora passear em Kiev com um colete anti-bala, mas por baixo veste um tailer alemão.

 

[Nestas eleições] Devíamos votar o mais possível para ter lá gente que cria alguma influência. Mas nós não temos dimensão para nada, portanto, não influenciamos nada. Nem ninguém. Mas quanto melhor votarmos, melhor as coisas se passarão.

 

Nestes 50 anos de liberdade, o que é que falta cumprir no teu Alentejo?

 

Quase tudo. O Alentejo já tem menos de um milhão de habitantes, e isso faz com que cada vez tenha menos força na Assembleia da República. E a pouca que tem, já está infiltrada por gente que nem sequer é alentejana e de certeza que nem gosta do Alentejo. O Alentejo vai ficar outra vez abandonado, mas isso tem sido uma tragédia secular.

 

Há uma tendência em olhar para o Alentejo só como destino de férias, ignorando tudo o resto?

 

Um bocado, de forma sobranceira e por cima da burra, como se fosse uma reserva de índios Apaches. O vinho é bom e a cozinha ainda está mais ou menos mantida...

 

Tens uma ligação a França, para onde emigraste no final dos anos 60. O que dizes do vídeo onde o presidente francês Emmanuel Macron assinala os 50 anos do 25 de Abril, mostrando orgulho de o país "ter acolhido no seu território centenas de milhares de portuguesas e portugueses", não esquecendo Zeca Afonso ou a Grândola?

 

Não vi, mas manda-me que quero ver. Tive uma ligação muito forte com França, Paris mudou a minha vida, aprendi muito com os franceses, um povo muito interessante. É escusado dourar com florzinhas, porque foram colonialistas brutais, mas no pós-guerra recebiam refugiados de todo o mundo, zangados com as suas pátrias. Hoje os franceses já são muito mais agressivos.

 

O género da canção de intervenção e do cante alentejano tem crescido nos últimos anos, em número de projetos e ouvintes, até entre os mais novos. O que tens a dizer sobre isso?

 

Há ciclos de altos e baixos, mas a história vai-se repetindo. Lembro-me perfeitamente de os filhos dos homens que ocuparam a terra na reforma agrária rejeitarem culturalmente os pais. Agora, se calhar, é o tempo de voltar às origens e às ideias que, afinal, não eram assim tão sonhadoras. É a ordem natural das coisas, que também é [o título de] um romance do António Lobo Antunes.

 

Fala-se numa nova música de intervenção, centrada em temas como a habitação ou a emigração.

 

Talvez seja a necessidade histórica de contestar. E, agora, há espaços de intervenção dessa rapaziada muito interessantes. Há um que eu conheço muito bem, já lá cantei muitas vezes com alguns deles, que se chama B.O.T.A. [Base Organizada da Toca das Artes, nos Anjos, em Lisboa]. Certamente haverá outros, o que é muito interessante. Os miúdos que querem cantar já recorrem a espaços que os apoiam. É pena não se atreverem na rua. Ando a espicaçar o meu sobrinho para ir para a rua, porque ele canta muito bem, toca muito bem guitarra. Meter a boina no chão e cantar. Só devia ser proibido levar amplificação, têm de treinar a capacidade vocal.

 

Semear Salsa ao Reguinho faz para o ano 50 anos. Estás a preparar alguma coisa especial para comemorar a data?

 

Não sei, ainda não me tinha lembrado, mas talvez. Se calhar uma reedição, qualquer coisa assim.

 

Então e a banda desenhada, ainda continuas um grande fã?

 

Deixei isso, mas ainda fiz uma edição de um livro juvenil com o António Lobo Antunes. A História do Hidroavião foi a minha última incursão na banda desenhada.

 

Essa experiência não é para repetir?

 

A música e a banda desenhada são coisas incompatíveis, tive de optar por uma e fui perdendo a mão. Se deixar de cantar perco a voz. Ainda tentei fazer coisas em Paris, eu e um grupo de portugueses já tínhamos uma exposição preparada em Bruxelas, mas veio 25 de Abril e largámos logo tudo.

 

No 25 de Abril já estavas em Portugal.

 

O 16 de Março foi premonitório. Aí estava em Madrid, com o Zeca. Ainda esperámos uns dias, que estávamos debaixo do olho da polícia espanhola, e voltámos.

 

E no dia 29 de março, juntamente com o Zeca e outros, cantaram a Grândola Vila Morena pela primeira vez em público, no Coliseu de Lisboa. O que é que te recordas dessa noite?

 

Isso é uma coisa deslumbrante. Cantá-la em coro para cinco mil pessoas. Foi único e inesperado. Aliás, foi nessa noite que o Otelo escolheu a Grândola. Era para ser o Traz outro Amigo Também, disse-me ele.

 

O que é que estás a ouvir?

 

Agora estou a tentar ouvir as coisas que fiz. Ainda não tenho um sentido crítico sobre o disco, acho que ainda não o ouvi todo seguido. Mas, com algum distanciamento, vou conseguir. Porque quando acabava de fazer os discos, odiava-os. Tenho uma obra... Não gosto de lhe chamar obra, tenho muitos discos. Não tenho um sentido triunfal da minha obra, são muitos discos e todos diferentes uns dos outros. Sou uma manta de retalhos. Vou ver se consigo ouvi-los a todos.

 

Por Rita Sousa Vieira

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