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O que te levou a participar nos Novos Talentos FNAC?
Uma simples razão: ter a oportunidade de expor esta série de fotografias para dar a conhecer alguns assuntos objeto de discórdia. Todas as vezes que vou tomar café, a qualquer das lojas FNAC, tenho sempre a oportunidade de ver trabalhos fotográficos de elevada qualidade e que por vezes conseguem, parafraseando Pedro Miguel Frade, criar espanto.
O que sentiste quando soubeste que tinhas vencido a menção honrosa?
Vou ser sincero. Só por volta das 19 horas de sábado é que me lembrei de ir ao livestream no Facebook da FNAC Portugal ver o espetáculo e, óbvio, se eu tinha sido um dos escolhidos. Cerca de 35 minutos depois desatei às gargalhadas com o comentário do Fernando Alvim. Fiquei agradecido com a FNAC por ter sido escolhido e o júri ter-me atribuído uma menção honrosa.
Contrarias a ideia de que os NFT são apenas para quem está a dar os primeiros passos ou para primeiros trabalhos. Achas importante o teu exemplo?
A minha opinião relativamente a novos talentos, e afirmo isto não por ser mais velho, é de que não há idade para mostrar "novos talentos". Uma abordagem que sobressai, que é diferenciada relativamente à forma de expressão artística usada já é, por si só, um novo talento. Tal como não há idade para se fazer e mostrar algo de que se gosta desde que haja virtuosismo (pela novidade e pelo assunto narrado), vontade e capacidade. E neste aspeto a FNAC é brilhante porque está aberta a qualquer participação. A frase "novos talentos" é muito abrangente.
Qual a história da série Janela com vista para o mar?
A série fotográfica Janela com vista para o mar foi um trabalho que começou a ser produzido pelo facto de ter ouvido, há já vários anos, falar sobre o desgoverno e a degradação do litoral português. Apesar de estarmos perfeitamente cientes da vulnerabilidade do litoral – nomeadamente perante as alterações climáticas –, a sua preservação continua a ser assaltada por projetos que usurpam dunas e falésias. Como resido em Vila Nova de Gaia, cidade com cerca de 15 km de costa litoral, sou confrontado com a passividade autárquica na resolução eficaz destes problemas.

Quando é que começaste a trabalhar nesse projeto?
Comecei a trabalhar neste projeto em 2019. Foi pela orla marítima de Gaia, pelos péssimos exemplos, que comecei a trabalhar e a cristalizar estes assuntos de discórdia.
Em Janela com vista para o mar usas uma técnica mista. Podes explicar o processo?
Inicialmente estava indeciso sobre o suporte a dar às imagens digitais que ia captando. As imagens podiam ser interpretadas como simples postais da beira-mar da costa litoral norte portuguesa caso eu usasse um suporte tipicamente fotográfico: o papel digital e a impressão a jato de tinta ou até mesmo o processo analógico C-print e toda a química RA4 envolvida no processo. Optei por uma aproximação estética mista que evidenciasse o assunto de uma forma diferente. As imagens digitais são impressas por jato de tinta preta em papel de aguarela. Seguidamente para destacar o assunto — como se fazia antes de existir a fotografia a cor em que se coloria quase toda a fotografia preto e branco —, sublinhei-o livremente com tinta de aguarela de cor vermelhão.
O que é que a aguarela “de cor vermelhão” pretende sublinhar?
Além da unicidade de cada fotografia, porque o assunto é destacado de uma forma singular, remete-nos para a discussão em volta do objeto de arte único e irrepetível. Esta discussão também é recorrente em torno da construção na orla marítima portuguesa. A fotografia, segundo Walter Benjamin, causou uma deterioração da aura fotográfica a partir do momento da sua reprodutibilidade em massa, deixando de ser um objeto artístico ao perder a sua unicidade, enfim a sua autenticidade. Com o uso da técnica mista, nomeadamente fotografia e pintura, criei um paralelismo antagónico entre a construção da obra artística como objeto único e irrepetível, visto que o realce manual com tinta de aguarela de cor vermelhão sobre a fotografia torna-a única e irrepetível e como oposto à construção desregrada sem "aura" e carregada negativamente devido à sua localização.
Estas imagens não são um postal da nossa bela costa, são um alerta. Como é que a fotografia pode ajudar a sensibilizar e a mobilizar para uma mudança de comportamentos?
Tal como foi mencionado na pergunta, o meu trabalho é um alerta. Tento, dentro das minhas possibilidades, ajudar a sensibilizar e a mobilizar para uma mudança de comportamentos. A fotografia é, antes de qualquer coisa, memória. Se isto bastar para que no futuro haja documentos que mostrem situações que correram mal e que não se repitam sinto que dei o meu contributo.
Consideras-te um documentarista?
Eu encaro a fotografia como uma forma de expressão artística. O uso que fazemos dela pode ser catalogado como acharem melhor. Mas é óbvio que para um concurso facilita criar gavetas para melhor selecionar os participantes.
Como é que a fotografia surge na tua vida?
Desde os 14/15 anos que faço fotografia. A utilização da fotografia deu-se porque como eu já me dedicava às artes visuais (desenhava e pintava com frequência) dei-me conta que seria mais rápido fotografar pois, na altura, era só necessário processar o filme fotográfico e imprimir as fotos. Daí até começar a fotografar profissionalmente e a encarar também a fotografia como forma de expressão artística passaram cerca de 15 anos. A Licenciatura em Fotografia, o Mestrado em Criação Artística Contemporânea, muitos workshops de fotografia e por adiante. E continua.
Que fotografia te arrependes de não ter tirado?
Quer na vertente profissional quer na vertente artística ainda não me arrependi de não ter tirado "aquela fotografia", mas sinto que me falta ver muita coisa e fotografar outra tanta.
Que material usas?
Na minha atividade como Artista Visual sou muito eclético. Como fotógrafo profissional o digital é fundamental e como professor de fotografia os processos analógicos e digitais fazem parte dos conteúdos que tento ensinar e mostrar aos meus formandos.
Quem são as tuas referências?
Tenho três referências ao nível da Fotografia de Autor que me marcaram desde muito cedo: Bill Brandt, Alexey Titarenko e Manuel Magalhães. No decorrer da vida sou influenciado por muitas e muitas outras referências.
Que outros projetos tens para o futuro, podes contar algum?
Neste momento estou a trabalhar num projeto de fotografia que questiona os "Limites". É um trabalho onde faço um mix entre processos fotográficos analógicos e digitais. É trabalho para dois anos.
Conta-nos uma coisa que mais ninguém saiba.
Para se conseguir boas fotografias não há segredos ... há muito trabalho.
Onde podemos seguir o teu trabalho?
Para verem o meu trabalho como fotógrafo profissional é só escreverem o meu nome nos motores de busca da internet. Já o meu trabalho de fotografia de autor vai aparecendo por aí... e no Instagram (@vitorbouraxavier.fine.art).
Vê AQUI o trabalho vencedor e as duas menções honrosas na categoria de Fotografia dos Novos Talentos FNAC 2023.