Escolhe a tua loja FNAC

Todas as Lojas

FNAC Alameda
FNAC Alfragide
FNAC AlgarveShopping
FNAC Almada
FNAC Amoreiras
FNAC Av Roma
FNAC Aveiro
FNAC Braga
FNAC CAMPO PEQUENO
FNAC Cascais
FNAC Castelo Branco
FNAC Chiado
FNAC Coimbra
FNAC Colombo
FNAC Évora
FNAC Faro
FNAC Gaia
FNAC Guimarães
FNAC IST
FNAC Leiria
FNAC Loulé
FNAC Madeira
FNAC Mar Shopping
FNAC Montijo
FNAC NorteShopping
FNAC NOVA SBE
FNAC Oeiras
FNAC Penafiel
FNAC Setúbal
FNAC Sintra
FNAC Torres Novas
FNAC UBBO
FNAC Vasco da Gama
FNAC Viana do Castelo
FNAC Vila Real
FNAC Viseu
VALTER HUGO MÃE EM ENTREVISTA
ENTREVISTA A VALTER HUGO MÃEENTREVISTA A VALTER HUGO MÃE

“Precisava desta história, do afeto que está dentro deste livro"



Valter Hugo Mãe está de regresso às temáticas portuguesas numa obra ambientada no lugar de Campanário, na ilha da Madeira, onde o autor conheceu e inspirou-se com as pessoas que ali vivem, com as suas histórias ou com o seu linguajar. Nesta conversa com a Cultura FNAC, explica o porquê de dizer que este é o seu romance mais profundo. Deus na escuridão “é o livro que precisava de escrever”.

 





Qual a tua relação com um livro recém-publicado?

 

É uma relação de aprendizagem, na verdade. Os livros acontecem, pelo menos no meu caso, com uma dose de revelação gigante e, por isso, são sempre uma certa surpresa. Nos primeiros tempos e com o embate com os primeiros leitores, estou, na verdade, a aprender alguma coisa sobre o livro. Por exemplo, são muito atrapalhantes as primeiras conversas, porque eu ainda não sei explicar o livro, ou pelo menos ainda não tenho estratégias para o explicar. Se alguma vez o puder explicar, não é?

 

É curioso, já não és a primeira pessoa que me diz isso nestas conversas.

 

É ao mesmo tempo muito gratificante que, finalmente, alguém possa ler o livro. Que o livro nos chegue do lado de lá, porque existe na escrita esse objetivo inerente. Eventualmente estaremos a escrever para nós próprios, mas não publicaríamos e não escreveríamos se não houvesse subjacente a ideia de um outro leitor que não nós. Agora, creio que com o tempo, vamo-nos viciando em alguns caminhos explicativos e em algumas fórmulas. E, sobretudo, vamo-nos convencendo: então, o meu livro é isto, é aquilo, é aqueloutro. De repente, pode haver alguém que nos escangalha um bocadinho as convicções. Mas, sobretudo nestas primeiras conversas, vamos sedimentando um pouco as ideias, as convicções, e também vamos entendendo coisas que, de facto, estão no livro, mas que são os outros que as explicitam. Atravessar a criação de um livro não se faz verdadeiramente às claras, muito pelo contrário, indo buscar um pouco o título do livro, escreve-se bastante à deriva e procurando sentidos. E julgo que nenhum livro será interessante se se esgotar nas suas capacidades. E por isso ele precisa necessariamente de superar o seu autor.

 

Quando entregas um livro, ainda sentes que ninguém se vai interessar ou querer lê-lo?

 

Tenho sempre a sensação de que escrevo para falhar, isso é verdade. E que as pessoas não vão entender o que é que eu quero, porque é que não escrevo A Máquina de Fazer Espanhóis parte 2, O remorso de Baltazar Serapião parte 2, O Filho de Mil Homens parte 2. As pessoas vão-me conhecendo por livros passados e, mediante as suas sensibilidades, umas esperam que eu reincida num sentido ou noutro. E eu tenho um pouco a convicção de que isto vale a pena se nós não reincidimos. Temos as nossas manias, as nossas obsessões, mas o aliciante mesmo é ter a impressão de que escrevemos um livro que não é nenhum dos anteriores, é uma outra coisa.

 

Que não é uma fórmula.

 

Que não é uma fórmula, que não correspondemos a nada. A intenção não é defraudar ninguém, mas é talvez surpreendermo-nos a nós mesmos e surpreendermos os leitores.

 

Anunciaste este livro logo em setembro, numa publicação no Instagram onde dizias que seria bom voltar ao contacto com os leitores, às bibliotecas e aos auditórios. Este romance acaba por ficar marcado pela perda de alguém que estaria numa destas apresentações, a Isabel Lhano. Como é que se lida com essa cadeira vazia, com a ausência de uma amiga?

 

A Isabel faleceu há cerca de um mês e eu ainda estou profundamente baralhado. A Isabel era intensa, das pessoas mais assíduas da minha vida, uma companheira de mais de 20, quase 30 anos. Era uma grande figura das minhas conspirações, a grande cúmplice de todos os meus projetos. A Isabel leu todos os meus livros, este é o primeiro livro que não chegará a ler.

 

Na noite anterior à Isabel falecer, nós estávamos em festa, estávamos no café, como estivemos milhares de vezes, e falámos sobre muita coisa. Parecia que estávamos a tratar e a fechar assuntos. É curioso como a vida tem estas coincidências estranhas que nos levam a pensar em coisas meio destinadas. Ela dizia-me que estava muito feliz por ir apresentar o meu livro à Cruz Vermelha, que era uma coisa que ela queria muito, muito fazer, e quis que eu lhe resumisse a história. Falei-lhe um pouco e ela comoveu-se diante das pessoas todas, na mesa do café.

 

O livro passa-se na ilha da Madeira, mas não tem nada que ver com a sua história, não tem nada que ver com a Isabel. Mas, de repente, a Isabel estava no livro inteiro. A Isabel que me falava do Luís, o seu filho, e da importância de cuidar do Luís. E o livro é tudo isso. [Fala sobre] A importância de cuidar de alguém, a importância de amar os filhos e os irmãos, a importância de se cuidar de alguém que se ama. E, de repente, o livro parece-me a Isabel de uma ponta à outra.

 

É por isso que, quando revelaste a capa e o título, disseste que o consideras o teu livro mais profundo?

 

Tem também isso. Regresso às temáticas portuguesas, porque eu escrevi sobre a Islândia, o Japão, o Brasil...

 

Este é o último da tetralogia Irmãos, Ilhas e Ausências.

 

Tinha a intenção de escrever quatro livros sobre ilhas e queria, depois de passar por três ilhas estrangeiras, digamos assim, regressar a Portugal. E o regresso, subitamente, parece um regresso a mim mesmo. Ainda vivo em Vila do Conde e esta história passa-se no Campanário, na ilha da Madeira. Mas senti o regresso à mundividência da portugalidade como um regresso a mim mesmo, um regresso às minhas necessidades, às minhas questões. Subitamente, é o livro que precisava de escrever. Talvez não tivesse a perceção prévia do quanto precisava desta história, do quanto precisava do afeto que está dentro deste livro, da tragédia que vai dentro deste livro, mas também da esperança de uma convicção de que alguma coisa vai ser possível. Não sei se exatamente dar certo, mas que alguma coisa vai ser possível.

 

Este livro está pensado há 12 anos. Como é que ele conviveu com os outros romances e crónicas que, entretanto, escreveste?

 

É muito confuso. Não sei explicar, é como ter alguém em casa que a gente adia, não se permite que nasça, mas já sabemos que a pessoa existe. O livro para mim já existe há muitos anos, mas eu não permiti que nascesse assim, a gestação de um livro leva bastante mais que nove meses e é muito esdrúxula. Fui definindo as personagens que entram nesta trama, mas dei prioridade a outras histórias. Nisso, o importante é não praticarmos a corrupção, porque os livros tentam corromper-se uns aos outros, confiscando personagens uns dos outros. Já aconteceu. Por exemplo, n’As Doenças do Brasil entra uma personagem que estava prevista para A Desumanização uns anos antes. N’ A Desumanização abdiquei dessa personagem porque achei que ela talvez fosse mais rentável noutra história, numa história com os povos originários do Brasil. É uma espécie de negociação que é feita, mas que se não houver ali um certo cuidado, é do foro do crime. Os livros agridem-se uns aos outros, exatamente porque há um tempo em que eles convivem de igual forma na minha cabeça, na imaginação. Por isso, essa espera, a demora até me entregar efetivamente à escrita de um texto, pode ser bastante violenta.

 

É por isso que não lês durante o período de escrita?

 

Sim, eu não consigo ler, sou demasiado obstinado no momento de escrita, quando o livro está a ser digitado. Sou tão obcecado que muitas das vezes não distingo a noite do dia, não tenho almoços, não tenho jantares.

 

Um processo saudável...

 

É, não tem rigorosamente nada de aconselhável. Se fosse de ser visto, tinha de ter aqueles avisos "não faça isto em casa". Até eu, a maior parte das vezes, não faço em casa, vou para longe.

 

Foste para o Brasil escrever sobre o Japão, em Paredes de Coura escreveste sobre o Brasil... E este, onde foi escrito?

 

Este, curiosamente, precisei de o escrever em casa. A minha mãe tem 83 anos, vai fazer 84 anos este mês, e não estava bem. Não esteve bem, mas, por acaso, agora está belissimamente. Não a quis deixar sozinha, então estive em casa dela, no meu quarto de solteiro, que na verdade é um quarto de encalhado. Escrevi ali, e até foi confortável, mais do que eu poderia pensar. É um pouco atazanante escrever e ter alguém que nos espera para almoçar ou para jantar, ou que fica mais aflita se nós não saímos durante 20 horas do quarto. Mas deu mais certo do que eu pensava.

 

Quando era mais novo, os meus primeiros romances foram escritos ali em casa, lembro-me de escrever O Romance de Baltazar Serapião e nem a porta podia fechar. Tinha os meus sobrinhos e as pessoas falavam comigo enquanto eu estava a digitar. Talvez por ser mais novo, as coisas não se perdiam, nem se perdiam nem eu enfurecia. Agora fico logo furioso. Qualquer barulho... Lembra-me dos cães quando estão zangados com a sua própria cauda, quando tentam morder a cauda porque pensam que é o inimigo, não têm noção que aquilo é o corpo deles... Eu estou assim, estou a digitar e às vezes até os pelos da barba, que vejo assim pelo canto dum olho, me estão a irritar. Há qualquer coisa, não sei... Tudo é ruído, eu próprio sou ruído.

 





Este livro era possível sem o contacto com a senhora Luísa Reis Abreu*?

 

Não. Assim como ele é, não seria possível. A senhora Luísa Reis Abreu é uma senhora amiga, tem a idade da minha mãe. Sou muito amigo da família. É com ela que eu sou exposto ao linguajar do Campanário, na ilha da Madeira. Por graça tenho dito que a senhora Luísa é o Shakespeare da Madeira. A forma como ela se expressa, com toda a naturalidade, ela não tem a mínima consciência poética ou literária, é uma natureza do seu linguajar, do seu lugar. Mas aquilo, nada do que diz é normal. Em certo sentido, não sendo anormal nem aberrante, mas nada é normal. Às vezes, quando eu escuto, penso: esta mulher não é capaz de dizer nada que seja igual a nada? Nem as horas, nem um bom dia.

 

Dá-me um exemplo.

 

Uma vez subimos ao Bom Jesus [do Monte, em Braga]. Tem aquela vista enorme, e não sei quê... E ela: "credo, tanto chão que Nosso Senhor aqui deitou". Sim, pode-se dizer uma coisa destas, mas ninguém diz. E ela não diz aquilo convicta de que está a dizer uma coisa para ser anotada: "vou agora aqui dizer uma coisa que este escritor até se vai arrepiar". É tudo assim. E não é só a forma como ela fala, a maravilha da linguagem em si, é a energia desta mulher. É uma pessoa muito gentil, muito educada. É uma pessoa com muita fé e que tem... Sabes aquela impressão de finalmente encontrar alguém que é cristão e que pratica a cristandade? Aquela coisa do é católico e é praticante? Eu tenho essa sensação com a senhora Luísa, ela é verdadeiramente católica, ela é verdadeiramente cristã. Age em todos os seus gestos, em todos os seus vocábulos, como quem acredita em Deus e como quem está ao serviço de uma convicção de fé.

 

Há mais personagens que sejam inspiradas, em parte ou na totalidade, em alguém?

 

Sim, há várias figuras. O Doutor Paulino era o médico da freguesia, o Nhanho e a Adélia Cristina são filhos da dona Luísa, são grandes amigos meus. A Adélia vive aqui em Lisboa, por exemplo, e é uma das moças mais lindas que eu conheço. Há assim várias figuras. A senhora Agostinha do Brinco existia, foi a ama deles. Na verdade, a família dos Pardieiros acaba por ser a família inventada. A maior parte das outras existem ou existiram de verdade. Claro que elas entram no livro e todas se portam belissimamente, porque não era a minha intenção levantar-lhes problemas nem criar má fama. Todas as pessoas que existem de verdade, entram no livro de uma forma muito bonita, é o modo de eu as cumprimentar e de as elogiar.

 

O livro resultou de várias idas à Madeira. Fizeste algum trabalho de pesquisa, guardaste escritos ou fotografias?

 

Eu não costumo pesquisar demasiado, porque tenho a sensação de que quando carrego demasiada informação, informação muito concreta, fico esmagado pela sensação de estar a fazer uma tese, uma espécie de ensaio, e isso retira-me o lastro da imaginação. É preciso colher e deixar que as coisas fiquem pela memória com alguma naturalidade, sem forçar demasiado. Agora, para memorizar tomo muitas notas. Sou fanático por cadernos e ao longo dos anos vou enchendo páginas com ideias, com propostas para os nomes das personagens, com os vocábulos que eu não quero esquecer, coisas às vezes... Por exemplo, como tratar as crianças por buzicos ou os túneis serem os furados. Há variações no linguajar madeirense que são muito bonitas.

 

Eu que tenho uma formação poética, digamos assim, que venho da poesia, tudo o que propenda para a elasticidade da língua, para novas formas de dizer, me fascina. Tenho uns cadernos com desenhos e com postais colados para me lembrar de algumas coisas, mas devo dizer que não os usei no momento da escrita do livro. Por isso é que digo que é muito importante fazer a recolha, mas permitir depois, com alguma naturalidade e com espontaneidade, que o livro exista à medida daquilo que verdadeiramente me impressionou, e não à medida do que eu pudesse buscar numa cábula. Se usasse demasiado uma cábula, talvez pudesse sentir o livro como algo postiço.

 

Depois de se fazer uma cábula, fixa-se porque ela faz uma edição das ideias, não é? E eu sou muito mau de memória, tenho uma memória muito fraca, sempre fui assim. Memorizo normalmente coisas pelas quais me apaixono, mas aquilo que é da pragmática da vida, que faria jeito saber, normalmente passa-me ao lado, apago tudo. Fixo instantes de intensidade emotiva, visões, paisagens que me impressionaram, coisas que as pessoas dizem.

 

Música?

 

Música, quadros, filmes. Tem de ter uma relevância emocional, sentimental.

 

Voltando às personagens, este romance centra-se na relação entre dois irmãos ou é sobre as mães?

 

Fico contente que perguntes isso, significa que deu certo. Em todo o momento, a trama é sobre os dois irmãos, mas o que está subjacente é a cobiça do amor das mães. Em saber até que ponto é que qualquer um de nós — sejamos homens ou mulheres; sejamos mães, pais, irmãos, filhos — pode potenciar a sua afetividade ao tamanho do amor das mães. Que em certa medida, como se diz no livro, poderá ser apenas comparável ao tamanho do amor de Deus. Então sim, o livro usa dois irmãos para definir o amor das mães.

 

Não é a primeira vez, nem este é o primeiro livro, em que essa ideia está presente.

 

Eu não me chamo Valter Hugo Mãe por qualquer coisa. Vivo obstinado com a desmesura do amor ou com a possibilidade de o amor ser experimentado ao extremo, não no sentido destrutivo, mas no sentido da força. Parece que me estou a lembrar do Saramago a falar de outra coisa...

 

E sim, este livro é para a senhora Luísa, que vejo como uma mãe, e é para a minha mãe. Ainda que ele não tenha nada que ver factualmente com a minha mãe, eu tinha de o dedicar à minha mãe. Exatamente por isso, porque este livro, creio, é onde eu vou definir essa especificidade de o amor ou do afeto não ser inventado para todos da mesma maneira e, por isso, não significar para todos a mesma coisa. E eventualmente haver dimensões pobres do afeto que possam até erradicar numa questão biológica. O facto de nós homens não podermos ser mães talvez nos impeça de experimentar o amor num grau semelhante ao das mulheres que são mães.

 

Por isso há também uma personagem que não pode ser pai?

 

Gosto muito de problematizar as convenções familiares, de mostrar que as famílias são todas estranhas, nenhuma família é normal.

 

E se alguém o disser, deve-se estranhar.

 

Se alguém disser que tem uma família normal, deve estar a querer vender qualquer coisa. Para mim é muito importante a aceitação cabal, incondicional, de que a família assenta em afetos e que cada um define a sua família como puder. E, na verdade, a definição da família é uma espécie de salve-se quem puder.

 

A presença de alguém que não pode ser pai neste livro também tem que ver com isso. E tem que ver com o redobrar da ideia de que é a partir do afeto que nós, na verdade, nos vamos posicionar. Na verdade, através do Felicíssimo, o narrador, o livro parece dizer-nos que nós seremos na família aquilo que precisarmos e que conseguirmos ser. As convenções podem apontar-nos o caminho de sermos filhos, mas podemos desempenhar um papel que não corresponda a um filho. Pode ser o papel de um pai, pode ser o papel de uma mãe, pode ser o papel de um irmão. Isto para mim é muito concreto. No jogo da família, se fosse assim uma espécie de xadrez, por mais que nós possamos estar vestidos de peão, podemos ser o rei ou o bispo, ou então a pessoa que está vestida de bispo pode ser a torre. As famílias devem ser analisadas através dos seus atos e do tipo de amor que praticam.

 

Quantas versões teve este livro?

 

Pouquíssimas, umas seis. Talvez seis.

 

É um recorde? Estou a fazer esta pergunta...

 

Porque normalmente eu enlouqueço a escrever, [escrevo] várias vezes os livros. É verdade. A Desumanização acho que chegou à 18ª versão. Espero que nunca mais me aconteça isso, não o aconselho a ninguém. Este livro creio que teve seis aproximações, algumas de 80 páginas, 100 páginas. Não completas, mas assim umas tentativas substanciais. Esta será a sexta escrita, digamos assim, deste texto.

 

Assinas já há alguns anos uma crónica no Jornal de Notícias, na revista que recentemente passou para um suplemento. Como é que olhas para o que se está a passar no Global Media Group, grupo do qual o JN faz parte?

 

Com profunda tristeza. Espero que o jornal seja defendido a todo o custo, o jornal e os seus trabalhadores, as pessoas que o fazem. Ele representa muito mais do que um órgão de informação, representa o brio duma região, representa a memória de uma região. E eu quero viver num país que tenha mais do que 50km2. Vivo em Vila do Conde, sou do grande Porto, digamos assim, e quero muito que o Porto seja Portugal, que seja emissor, que seja pensador, que opine, que interfira, que exija, que seja chato quando tiver de ser chato.

 

A mim cansa-me muito a passividade do Porto, a facilidade que o Porto tem em perder as suas coisas, e cansa-me que o Porto se fascina com o que é do exterior e não pense que lhe compete a ele próprio muito do que quer ver feito. Por isso, espero que o Porto saiba ter um jornal, que continue a ter um jornal como o JN.

 

Eu venho de um tempo em que as notícias passavam na televisão uma vez, a televisão não se andava para trás, não se gravava. Havia ali uns noticiários e a gente apanhava as notícias um bocadinho à queima-roupa. Depois especulava-se, saía-se à rua, as pessoas espantavam-se com o que ouviram; umas achavam que tinham ouvido assim, outras achavam que tinham ouvido assado. E no dia seguinte, o Jornal de Notícias explicava o que é que tínhamos ouvido. Era o tira-teimas. Era o jornal que nos chegava às mãos como um documento, que vinha testemunhar; efetivamente, era a verdade. Não é exatamente uma nostalgia, mas há na imprensa escrita, desde logo, uma dimensão documental, de prova, que eu continuo a achar que é essencial para nós nos constituirmos como sociedade procedente. As pessoas poderão aceder a todas as coisas online, é cada vez mais confortável consumirmos os conteúdos digitais, mas é fundamental que continuemos a deixar documentos, que continuemos a imprimir, que continuemos a ter em mãos materializado aquilo que é o nosso tempo, o pensamento do nosso tempo, e aquilo que prova o nosso tempo.

 

Estou confiante de que posso fazer esta pergunta: estando a promover um livro, vou assumir que não estás a escrever nada. Por isso, que é que estás a ler neste momento?

 

Tenho estado a ler obsessivamente — a reler e ler o que nunca li — Virgílio Ferreira. Repeti o Manhã Submersa e o Para Sempre, mas tenho estado a ler alguns textos e romances mais antigos, que eu não tinha lido quando era miúdo. Diria que tenho estado assombrado pelo Virgílio Ferreira, mais do que acompanhado. Sai-me Virgílio Ferreira pelos olhos fora porque tenho estado a ler bastante.

 

*A senhora Luísa Reis Abreu, a quem Valter Hugo Mãe dedica Deus na escuridão, faleceu após a data da realização desta conversa. Expressamos os nossos sentimentos à família.

 

Por Rita Sousa Vieira

Produtos associados

ENTREVISTA A VALTER HUGO MÃEENTREVISTA A VALTER HUGO MÃE
Deus na Escuridão- Valter Hugo Mãe
A Máquina de Fazer Espanhóis- Valter Hugo Mãe
O Remorso de Baltazar Serapião- Valter Hugo Mãe
O Filho de Mil Homens- Valter Hugo Mãe
As Doenças do Brasil- Valter Hugo Mãe
A Desumanização- Valter Hugo Mãe
ENTREVISTA A VALTER HUGO MÃE
cultura.fnac.pt desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile