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TERESINHA LANDEIRO EM ENTREVISTA
ENTREVISTA A TERESINHA LANDEIROENTREVISTA A TERESINHA LANDEIRO

“O fado é maioritariamente triste, porque nós, portugueses, também somos”



O que é isto de “ser dos fados”? Teresinha Landeiro tem uma resposta na ponta da língua. A apresentar um novo disco, Para Dançar e para Chorara fadista viajou pela sua carreira nesta conversa com a Cultura FNAC. Da vez primeira que cantou para Ana Moura, tinha então 12 anos, à maturidade da sua voz e escrita: “eu imitei muitos fadistas, copiei muita gente”.

 





Para Dançar e para Chorar, assim se chama o teu novo álbum. Fala-me sobre a escolha deste título.

 

Gostava que as pessoas pegassem neste disco e se revissem nas suas tristezas e alegrias, esse é o objetivo. Como também é mostrar que há fados que podem ser tristes e outros que são alegres, e que o fadista pode ser as duas coisas e pode cantar as duas coisas.

 

O fado tem, muitas vezes, uma carga negativa: de tristeza, solidão, mágoa. É isso que queres contrariar?

 

Sim! O fado é maioritariamente triste, porque nós, portugueses, também somos assim. Gostamos de enaltecer as nossas tristezas. Raramente vamos para a rua gritar: "estou tão feliz, estou tão feliz".

 

No teu último disco, Agora, o tempo era um tema transversal. Também há uma linha condutora nestas novas canções?

 

Sinto que não há bem uma temática no disco, as letras não falam todas do mesmo, não há um assunto que as guia. Há apenas a condição de que têm de ser para dançar ou para chorar.

 

Este é um disco só de fados?

 

Não, está longe de ser um disco só de fados. Aliás, trago outros compositores que não estão por dentro da linguagem do fado. Que me trazem outras canções, com outra roupa que não se encaixa no universo fadista.

 

Foi a primeira vez que convidaste outros compositores para assinar letras. Porquê só agora?

 

A minha escrita e o ter-me desenvolvido enquanto compositora levou à necessidade de cantar as minhas coisas. Mas, ao mesmo tempo, sentia que estava numa ilha musical e que agora era o momento de a partilhar com outras pessoas.

 

Ouvimos temas da MARO, da Milhanas ou do Jorge Cruz...

 

São todos artistas que admiro e, além disso, são meus contemporâneos. Acho que só o Francisco [Guimarães] é que não canta e não toca, todos os outros são compositores e artistas maravilhosos. Tê-los neste disco é uma honra enorme.

 

Como tu, ele começou muito novo na sua área.

 

Sim, exatamente. E apaixonou-se pelo fado.

 

O Francisco, que também escreve, vem do desporto.

 

Sim, e foi nos fados que nos conhecemos, ele é um habitué. Começou a pesquisar muito sobre fado, a ler muitas letras, a fazer muitas perguntas aos fadistas e aos músicos. Interessou-se bastante pelo estilo musical e pelas temáticas. Acho que ele também é uma pessoa com um certo peso e uma certa carga dramática.

 

O sentimento muda consoante cantas uma letra tua ou de outro compositor?

 

Quero acreditar que não, e espero que ninguém sinta isso quando ouvir o disco. Mas claro que é mais simples pegar em coisas que escrevi só pelo simples facto de saber o que elas representam. Quando recebo uma letra de outra pessoa e quero cantá-la, porque se encaixa em mim e no disco, tenho de aprender aquele sentimento ou história. Leva mais tempo, mas não quer dizer que não consiga entregar-me completamente a ela. Aliás, acho que isso é um desafio maravilhoso.

 

Cantarias algum tema com o qual não te identificasses?

 

Não. Tenho muita dificuldade em fazer coisas com as quais não concordo ou que não gosto. É mesmo muito difícil para mim.

 

Então tens facilidade em dizer que não, ou nem por isso?

 

Não tinha, mas fui aprendendo. Acho que a idade também ajuda nessa parte. Quando era mais miúda, um dia disseram-me: "Teresinha, tens de aprender uma coisa. O não e o sim têm exatamente o mesmo número de letras, custa exatamente o mesmo". É muito fácil dizer que sim, porque deixamos toda a gente feliz; quando dizemos que não, há sempre alguém que vai ficar triste com aquela decisão. Ter de dizer que não, não é nada fácil.

 

Começaste a escrever aos 12 anos, é muito cedo. Em algum momento pensaste em desistir?

 

Não, nunca. Acho que mais rapidamente punha essa questão com o cantar. Pelo simples facto de que escrever é uma coisa super natural e mesmo muito pessoal. Faço-o sozinha, na minha intimidade, tranquila. Se deixasse de canta era por algum fator externo, ou porque não gostava do mediatismo, ou porque não... E isso nunca foi uma questão.

 

A escrita vem primeiro do que a música?

 

Não, não vem. Ainda assim, gosto mais de cantar. Mas cantar levanta sempre muito mais questões e muito mais dúvidas do que a escrita. A escrita é muito mais pensada, mais digerida, é o reflexo daquilo que penso e sinto. A música é uma coisa mais imediata, mais carnal.

 

Foi fácil assumires-te como escritora no fado? Uma mulher, jovem...

 

Não foi, mas não foi por isso. Quando comecei, não tinha a certeza se aquilo que escrevia era bom e se poderia cantá-lo. "Fiz isto, será que dá para cantar?" "Sim é giro, acho que podes cantar!". Era mesmo miúda, a primeira vez que cantei uma coisa minha tinha para aí 13 ou 14 anos. Estava com medo de que aquilo não fosse realmente bom — e se calhar não era, vamos lá ver. Se calhar não era assim tão bom, mas para a minha idade servia. Portanto foi difícil nesse sentido, mas não, nunca, por ser mulher, jovem e menos experiente.

 

Há alguma palavra que nunca incluirias numa letra para fado?

 

Não tenho assim nenhuma palavra... Quer dizer, há várias palavras que eu não gosto. Não propriamente porque serem muito modernas ou por aquilo que elas representam. Há palavras que até representam coisas bonitas, mas que são bem feias de dizer e de cantar. Mas não nego [uma palavra] por ser demasiado moderna. Isso não existe. Aliás, acho que essa é a ciência dos fados. Podes cantar coisas muito modernas em melodias que têm 80 anos. Isso é que é modernizar o fado, não é preciso pôr instrumentos novos.

 

Tu assumes ser tradicionalista. Isso dá-te mais liberdade ou limita-te?

 

Eu sou muito tradicionalista quando canto fados, e o que acho que um tradicionalista pode fazer quando não canta fados é dizer: "olha, isto que estou a fazer agora é outra coisa". Quando canto fados, são fados. Na sua essência, construção, formatação mais tradicional. Mas, por vezes, também me apetece cantar outras coisas. Só tenho é que ser sincera e honesta quando o faço.

 

Quando canto fados sou o mais feliz que posso e consigo, mas às vezes também me apetece cantar outras canções. Convidei outros compositores para este disco; se eles são de outros universos musicais, naturalmente que surgem canções que nada têm a ver com os fados. Mas a verdade é que eu ainda não saí das casas de fado e aquilo que faço é, indiscutivelmente, fado. Portanto, sim, acho que sou uma tradicionalista, sempre.

 

Já pensaste em sair ou fazer uma pausa das casas de fado?

 

Se um dia a vida obrigar a que isso aconteça... Mas não olho para isto como: ao fim de "x" tempo ou do disco "x", tenho de sair da casa de fados. Desde os 12 anos que canto em casas de fado e desde os 16 que faço parte do elenco fixo da Mesa de Frades [Alfama]. Claro que há alturas em que questiono a minha inspiração, a minha vontade. Porque faço isto há mesmo muito tempo, sempre nos mesmos moldes, nos mesmos sítios. E, às vezes, falta-nos um bocadinho a coragem e a motivação. Mas sabes quando tu te afastas e depois sentes muita vontade de voltar? "Continua, porque se sentes saudades, é porque tens de estar ali...".

 

Metade da tua vida já foi passada em casas de fado.

 

Se fizermos as contas, é a verdade.

 

Quando te falta a força e a motivação, onde é que as vais buscar?

 

Vou buscar ao meu seio familiar. Sou mesmo muito próxima dos meus pais, do meu irmão e do meu namorado. Sei que são eles as pessoas que me querem sempre bem. É a eles que vou buscar força e a quem faço as perguntas para as quais não tenho resposta — ou às vezes tenho, mas não quero ouvi-las. Então, sei que eles me vão dizer aquilo que eu preciso de ouvir, mas vão dizê-lo com cuidado e com carinho.

 

Aceitas essa resposta?

 

Deles, sempre.

 

Dizias que às vezes tens vontade de cantar outras canções e que não o fazes. Na escrita, tens vontade de escrever outras coisas que não letras?

 

Para dizer a verdade, sim. Não sei se tenho a capacidade para escrever outras coisas que não letras, porque nunca me arrisquei. Na lista de coisas que gostaria de fazer está arriscar-me mais na escrita.

 

Falamos de romance, memórias...

 

Pois, não sei. Tenho uma ideia na minha cabeça, há já algum tempo, que gostava de desenvolver. Mas sempre um bocadinho ligada às canções e às letras. Agora, se consigo dar um passo um bocadinho mais ousado? Teria de analisar com calma.

 

Escreves também para outros artistas, nomeadamente para a Cristina Branco, que aí, no lugar onde tu estás, disse-me: "a Teresinha a escrever é de uma maturidade incrível". Como é que recebes estas palavras, que não são exclusivas da Cristina?

 

Recebo com muito carinho e até fico emocionada. Porque gosto mesmo muito da Cristina, criámos uma relação muito forte. Ela sente que eu é que fui generosa com ela, porque lhe dei as palavras, mas eu olho para ela e acho que ela é que foi generosa porque as cantou. E fico mesmo muito feliz que ela olhe para as minhas composições e que se identifique, que as ache adultas e maduras. Talvez sintam essa maturidade porque comecei a cantar mesmo muito nova, ou porque me relaciono com pessoas muito mais velhas do que eu desde os 12 anos. Ainda por cima, quando começo a cantar e chego às casas de fado, não havia crianças. Na Mesa de Frades não havia ninguém mais novo do que eu. Com 12 anos também seria difícil, não é?

 

Há aquela coisa do "adulto na sala", tu eras a criança.

 

Quando cantava uma letra que não era para a minha idade, alguém se sentava à minha frente e dizia: “Achas que isso é para a tua idade? Pensa lá na letra, analisa lá, tu consegues entender o que é que isso quer dizer?” Começo a escrever para me defender disso. Portanto, é natural que eu também comece a tentar pôr-me em biquinhos de pés na minha escrita, para conseguir cantar coisas um bocadinho mais sérias e dizer que as entendo porque as escrevi. Talvez a maturidade tenha vindo daí.

 

Teres um ar jovem tira-te alguma seriedade?

 

É uma ótima pergunta, até porque sinto mais isso agora. Quando era mais nova, as pessoas achavam que eu era mais velha. Agora, olham para mim e acham que eu sou substancialmente mais nova. Não sei se isso me tira seriedade, porque acredito que aquilo que eu faço é sério.

 

Ou és menos respeitada?

 

Pode acontecer que me tratem como uma miúda. O facto de eu ser Teresinha também não ajuda. Sou Teresinha porque comecei a cantar com 12 anos, e as pessoas diziam “Teresinha para aqui, Teresinha para ali”. Nunca me consegui libertar desse "inha", ficou para sempre. Se tu disseres a Teresa Landeiro as pessoas não associam.

 

Tens receio que esse "inha" te prejudique ao longo da carreira?

 

Vamos tentar contornar essa questão. Eu não vou crescer mais, portanto o "inha" vai sempre bater certo, nem que seja com a minha altura.

 

A tua voz já encontrou o seu espaço, a sua identidade?

 

Acredito que está a começar a encontrar, porque num processo de aprendizagem, como o que eu tive, tu imitas muita gente ao longo do processo. Eu imitei muitos fadistas, copiei muita gente.

 

Quem?

 

Quando comecei a cantar, quando fui ao Bacalhau de Molho [hoje Casa de Linhares] pela primeira vez, imitava a Ana Moura. Igual. Depois saí de lá, conheci a Raquel Tavares, que nunca tinha ouvido, e imitava-a. Quando descobri a Carminho, passei a imitá-la. Eu era um aglomerado de personalidades a cantar. Até que me disseram, "Teresinha, por amor de Deus, às tantas não se percebe quem é que tu és".

 

Era por isso que o Pedro Castro te escondia os discos de vozes femininas?

 

Eu ia lá a casa — ele tem uma coleção de vinis infindável, com tudo o que possas imaginar —, e ele perguntava o que queria ouvir. "Escolhes o que queres ouvir", dizia. Mas só havia homens: o Rodrigo, o João Braga, o Carlos Zel. Se eu dizia que queria muito ouvir um disco que tinha a Maria do Rosário Bettencourt, ele respondia que tinha ali os que podia ouvir. A Sónia, a mulher, dizia-me que os outros estavam todos fechados no escritório para eu não os ver. O Pedro dizia que quanto mais mulheres ouvisse, mais iria copiar. Se ouvisse homens seria diferente, porque o tom e a abordagem é diferente, e iria ter muito mais dificuldade em imitar. A verdade é que isso me ajudou imenso.

 

Qual a importância do Pedro no teu percurso?

 

Toda. O Pedro foi a pessoa... Digo sempre que sou a fadista que o Pedro quis que eu fosse. Quando tu tens um produto, que não é nada ainda e tu consegues lapidá-lo, vais conseguir fazer dele aquilo que tu queres em termos musicais. Claro que agora, mais crescida, as decisões e as escolhas são minhas. Mas no início eu perguntava-lhe muito: "É mais por aqui ou é mais por ali? Isto está bem, devia fazer assim?". Quase que precisava da aprovação dele para continuar. Continuo a precisar da opinião, porque gosto muito dele, mas já é uma dependência completamente diferente. Agora, eu sou um produto do Pedro.

 

Da estreia com Namoro, em 2018, até este disco, Para Dançar e para Chorar, o que é que mais mudou na tua música ou na forma de cantar?

 

Na forma de cantar mudou muita coisa. Sinto que o primeiro disco é um disco de experiência, de malabarismos, de “olhem o que eu consigo fazer”.

 

É o teu meter o pé na porta?

 

Na primeira vez que me disseram que ia gravar um disco pensei fazer tudo aquilo que sabia fazer, cantar tudo aquilo que queria cantar. Acredito que o segundo e este são discos muito mais ponderados, mais maduros. O primeiro disco saiu tinha eu 22 anos, mas foi gravado tinha para aí 20. Agora tenho quase 28, esse tempo faz diferença numa pessoa da minha idade. Muda muita coisa, muda a visão da vida, a escrita e os assuntos sobre os quais falo. O primeiro é um disco indiscutivelmente fadista, não há ali nada que não seja fado, e nestes dois discos já há umas viagens que nasceram desta minha descoberta enquanto artista e não só enquanto fadista.

 

Neste disco viajamos também até Penamacor, à Aldeia das Aranhas, com o tema que o encerra. Fala-me deste Folclore dos Avós.

 

Tenho dois temas muito especiais neste disco. Esse e o Trocavam Cartas de Amor, ambos para os meus avós maternos. Este folclore é muito, muito especial. É a junção de duas melodias da terra do meu avô. Sabes quando ouves uma coisa, emocionas-te, e não sabes bem o porquê? Não me acontecia há uns tempos, acontece agora. Acho que isso é resultado do tempo a passar e da consciência que começas a ganhar do que é a família, das tuas raízes, do que é realmente importante para ti. Oiço aqueles folclores e as melodias emocionam-me. Tanto que nunca me tinha emocionado em estúdio — porque eu odeio ir para estúdio, acho que suga a criatividade das pessoas — e emocionei-me pela primeira vez, [ao ponto] de não conseguir cantar.

 

É um folclore que viaja no tempo, que homenageia um lugar de onde também faço parte, a terra que ensinou o meu avô a cantar. Cada vez que o ouvia, ficava arrepiada dos pés à cabeça e tinha vontade de chorar.

 

Quem são as tuas referências no fado?

 

Amália Rodrigues acho que é uma referência para quase todos nós. Não posso generalizar, porque não posso falar por ninguém, mas para mim é uma grande referência. Por tudo, pela mulher maravilhosa que era, uma força da natureza, uma voz que nunca mais acabava, uma interioridade e uma interpretação que hoje em dia acho que falta um bocadinho. Escrevia maravilhosamente, era a artista completa, perfeita.

 

Na geração mais antiga, tenho também o Carlos Zel, o João Braga, o Rodrigo... O Carlos Zel não conheci, mas o João Braga e o Rodrigo são fadistas com quem eu privo bastante e com quem converso muito. Tenho o prazer de tirar várias dúvidas e partilhar várias histórias.

 

Celeste Rodrigues, que foi uma amiga que tive. Como é possível uma pessoa de 16 ou 17 anos ter uma grande amiga com 90, não é? Mas aconteceu e foi uma pessoa que me marcou muito, muito. Da nova geração, há sempre o Camané, a Carminho, outros nomes que já falei, a Raquel Tavares ou a Ana Moura, que foi quem me abriu a porta dos fados. Eu não fazia ideia do que é que eram fados, foi a ouvir a Ana Moura que descobri.

 

Foi ela que te fez cantar ao vivo pela primeira vez.

 

Fazia 12 anos e a minha mãe levou-me a ouvi-la. Fui pedir um autógrafo e disse: "pois, eu gosto muito de cantar as suas canções em casa". E o Jorge Fernando ouviu aquilo e perguntou-se se queria cantar. "Quero!", respondi. Com a minha mãe a dizer que não, porque nunca tinha cantado. E lá fui eu, cantar.

 

Que tema, recordas-te?

 

Um tema em que ela cantava: "sou do fado, sou do fado, eu sou fadista" [Sou Do Fado, Sou Fadista]

 

Isso é um statement para uma miúda de 12 anos.

 

Mas eu não sabia sequer o que é que estava a dizer. Nem tinha pensado sobre a letra, aquilo soava-me bem e eu cantava. Era muito pouco criteriosa nessa altura, não sabia nada de fados. Aliás, a primeira vez que fui à Mesa [de Frades], o Pedro Castro ouve-me, goza comigo o tempo inteiro, e, no fim, diz-me: “olha, tu tens jeito, pá, tu cantas bem, mas da próxima vez, quando voltares, canta fados". "O que é que ele queria dizer com ‘quando voltares canta fados’?". E a minha mãe e o meu pai encolheram os braços, porque também não eram dos fados. Depois, lá descobri que não tinha cantado nenhum fado tradicional, tinha só cantado coisas musicais, porque os tradicionais têm uma estrutura específica. Mas na altura não percebi nada, chorei um bocado... Houve uma altura em que saía da Mesa e chorava todas as noites. Havia sempre uma coisa qualquer que tinha corrido mal e eu vinha no carro a chorar. Dizia que nunca mais ia cantar.

 

Até à manhã seguinte...


A minha mãe dizia para dormir. "Dorme, dorme, que amanhã estás muito melhor". Os meus pais desvalorizaram sempre essas coisas. Deixaram que o Pedro me desse toda a educação fadista, sem nunca se terem metido, porque eles sentiam que aquilo fazia parte. Aquilo era tudo controlado, eles estavam sempre por perto, e adoravam o método que o Pedro tinha: pouco elogio, muito trabalho.

 

O que é isso de ser dos fados?

 

Definir o que é ser dos fados é mais fácil do que ser da pop. Ser do fado é tu pertenceres ao meio, seres reconhecida pelos pares. Ser do fado também é uma coisa muito interior, é a tua alma fadista. Eu não sei se acredito naquela coisa do “nasce-se fadista”, mas uma coisa é verdade: não tinha ninguém na família que cantasse fados. Porque é que eu me fui interessar por fado? A minha mãe não gostava, o meu pai não ouvia, porque é que eu, com 11 anos, me interessei? Isto explica-se? Não sei, se calhar essa frase não é assim tão mentira — “nasce-se fadista” —, mas quero acreditar que ser do fado é ter reconhecimento dos pares, ter a linguagem, o interesse em saber o que é o fado, o gosto em ir aos fados, precisar de ir aos fados. Acredito que o fado é um modo de vida. Quando te sentes triste ou muito contente, tens necessidade de exaltar a tua tristeza, a tua alegria. Isso é ser fadista.

 

Falavas que o estúdio limita a tua criatividade. Isso quer dizer que o teu lugar é o palco?

 

Sem dúvida, para mim cantar é uma coisa que acontece no momento. Não há registo, aconteceu assim e assim ficou, cristalizou. O saber que se está a gravar, que vai ficar cristalizado daquela maneira, é assustador. Assustador. A verdade é que se pensássemos demasiado nisso, gravávamos e nunca saímos do estúdio, porque íamos estar sempre a corrigir mais um bocadinho e mais uma coisinha. Há uma altura em que temos de desligar o botão e dizer que está bom assim.


Além disso, quando canto numa casa de fados há um ambiente que é criado, aquele ambiente escuro em que as pessoas estão lá, estão a ouvir. No estúdio tu estás a cantar para ninguém, não vês as pessoas, não há uma motivação. Acho que os artistas vivem muito das expressões das pessoas que os ouvem, das palmas ou da expressão facial. Para mim, é mais fácil cantar numa casa de fados do que num palco, porque eu estou habituada a ter as pessoas pertinho e faço uma leitura direta. Há pessoas para quem cantar numa casa de fados é assustador, porque as pessoas estão demasiado perto.

 

Gostavas de ter um registo ao vivo de uma noite na casa de fados?

 

Adorava. Ainda não desisti dessa ideia, porque acho que é aí que eu sou mais real. Houve uma altura em que as pessoas me diziam: "eu gosto do seu disco, mas ouvi-lo ao vivo...". Dava-me vontade de dizer que entendo perfeitamente. Ainda por cima, um fadista vive um bocadinho daquilo que as pessoas entregam e da emoção. É uma coisa muito emocional e muito visceral. No estúdio, não estás a receber nada daquilo, estás a cantar para duas ou três pessoas que estão a trabalhar, não estão a desfrutar.

 

Dizias que os teus pais não ouviam fado. Hoje já gostam?

 

Já gostam muito de fado, consegui trazê-los. O fado passou a ser um modo de vida dos meus pais. Até aos meus 17 anos, iam todos os fins de semana comigo.

 

Essa é uma história que se ouve muitas vezes com os desportistas, por exemplo, cujos pais fizeram grandes sacrifícios.

 

Acredito que nem todos os fins de semana lhes apetecesse ir. Não é que nós fizéssemos grandes sacrifícios, seria injusto [dizê-lo], há pessoas que fazem realmente grandes sacrifícios. Aqui era mais o estarem dispostos e fazerem alguns quilómetros, ou o disponibilizarem uma noite, porque às vezes saíamos de lá às 4 da manhã. "Agora é que está tão bom, agora está mesmo bom". E depois entrava, sei lá, a Maria da Fé pela porta dentro. Tu queres ficar a ouvir o que ela tem para dizer. Depois entrava a Beatriz da Conceição. Não posso ir embora, tenho de ficar lá. É que tive essa sorte, de ter crescido a ouvi-las ao vivo, de ter conversado com elas.

 

Repara, eu com 12 anos tinha vontade de cantar e não tinha vontade nenhuma de ouvir. E a minha mãe dizia-me: "Gostas que te ouçam? Então tens de ouvir os outros. Gostas de fado, tens de aprender o que é que é fado". Isso foi uma coisa que tive de aprender com a idade, porque com 12 anos eu queria era cantar e não queria nada ouvir.

 

Há uma hora certa para se ir a uma casa de fados?

 

Olha, acho que a partir do momento em que começa o fado, é uma boa hora ir. Por exemplo, na Mesa primeiro janta-se e depois ouve-se, o que para mim é uma regra fantástica. Não há ninguém a comer durante os fados, não há barulho de pratos e as pessoas estão concentradas a ouvir.

 

Hoje quem vai a uma casa de fados respeita mais ou menos, em relação ao passado?

 

É uma boa pergunta. Já ouvi dizer que antigamente não se fazia propriamente silêncio. Quem conseguia o silêncio era o próprio artista, o fadista. Se fosse realmente bom, as pessoas faziam silêncio. Já ouvi esta história. Acho que antigamente havia muito menos tolerância para faltas de respeito. Hoje as casas trabalham um bocadinho mais o turista, e o cliente tem sempre razão. Posso estar a dizer uma bacorada, mas antigamente acho que não era tanto assim. 

 

Ainda há portugueses a ir ouvir fado?

 

Ainda há, mas há mais turistas.

 

O que é que está nas tuas playlists, é só fado?

 

Não! Confesso que ouço menos fado agora do que ouvia há um tempo. Porque antes só ia aos fins de semana aos fados, quando os meus pais me levavam. Depois, houve uma altura em que ia todos os dias, e como ouvia ao vivo não precisava depois de ouvir em casa. O que eu ouço em casa são fadistas mais antigos, quando preciso de me inspirar. Quando perco o meu foco e penso porque é que eu canto fado, vou a malta antiga e: "É por isto, está tudo bem. É por isso que canto, exato".

 

[Sobre as playlists] Eu sou uma alma velha em tudo, acho. Gosto muito de ouvir Frank SinatraNat King ColeElla Fitzgerald. Depois também ouço muito música brasileira, como Chico BuarqueCaetano Veloso, Zé Ibarra, Tim Bernardes. Também oiço muita música portuguesa, o Salvador Sobral, a Mimi Froes, a MARO. O Rui Veloso é um artista a quem volto a toda a hora. Sou fanática das composições do Sérgio Godinho e do Jorge Palma. Viajo muito na música portuguesa, através de vários tempos, porque acho que às vezes, lá atrás, encontramos coisas essenciais para se fazer música hoje.

 

O que é que estás a ouvir neste momento?

 

Sei exatamente a última coisa que ouvi, faz parte de um álbum do Hélder Moutinho que se chama O Manual do Coração. Ouvi o single com o mesmo nome. Se fores agora ao meu Spotify era isso que estava a dar.

 

Por Rita Sousa Vieira

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