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TATIANA SALEM LEVY EM ENTREVISTA
ENTREVISTA A TATIANA SALEM LEVYENTREVISTA A TATIANA SALEM LEVY

“Todas as mulheres que conheço sofreram algum tipo de violência”



Em Melhor Não Contar, Tatiana Salem Levy volta ao tema da violência e expõe a sua intimidade, o assédio do padrasto, a solidão e o luto. Um romance visceral que reflete sobre uma história que une tantas mulheres: “Quando alguém diz que é melhor não contar, é porque é melhor para o outro não ouvir”.

 





“Melhor não contar”, disseram-te várias vezes. Quando é que percebeste que tinhas de o fazer?

 

Acho que não houve um momento, e mesmo essa coisa do contar tudo... Melhor Não Contar diz respeito a um segredo em particular, que ficou mantido entre mim e minha mãe, e que não contei enquanto era viva. Tive um intervalo de três anos em que poderia ter contado, mas acabei decidindo não contar. Sobretudo pela doença, ela estava com cancro e não queria causar mais dor, mas também por achar que ela não ia ter tempo de se refazer. E porque não contei, escrevi.

 

Esse livro fala de um passado, de um episódio de assédio e de uma memória de uma menina que se torna mulher sob essa violência, sob esse abuso. Esse tipo de acontecimento traumático, que nos persegue ao longo da vida, que nunca deixa de ser presente, que nunca deixa de existir, não simplesmente como lembrança, mas como algo que nos constitui e que reaparece como presente constantemente, no geral, leva anos para ser elaborado, para ser nomeado, se tornar palavra. Eu acho que é um processo. É um processo muito longo e que eu fui tentando, em outros livros meus, falar disso. Por exemplo, A Chave de Casa, o meu primeiro romance, faz menção a um segredo, que conto para a minha mãe escrevendo uma carta e enterrando. Mas não revelo para o leitor que segredo é esse, ele continua não sendo contado. No Paraíso, o meu terceiro romance, também transformo essa história em ficção, só que passo isso para uma outra personagem, com uma outra história, com outro nome.

 

Quando comecei a escrever Melhor Não Contar, que na verdade surgiu da ideia de escrever um pequeno ensaio autobiográfico a partir dos diários da minha mãe, dos diários de adolescência da minha mãe, que ela me deu quando eu era adolescente, a cena da piscina voltou. Ela foi me cutucando, não fui eu que virei e disse 'agora está na hora de escrever, agora está na hora de contar'. Foi a cena da piscina que se impôs, como se ela me pedisse, 'olha, agora quero ser contada, quero ser mostrada, quero ser lida, quero ser exposta', que é um outro verbo que eu uso muito.

 

“Melhor não contar”, porque durante muito tempo as pessoas não estavam disponíveis para ouvir?

 

O "é melhor não contar" é sempre porque as pessoas não estão dispostas a ouvir. Quando alguém diz que é melhor não contar, é porque é melhor para o outro não ouvir. Porque ouvir desestabiliza, ouvir toca em feridas, ouvir nos faz estar diante de uma verdade que a gente preferia que não fosse uma verdade. Então, é como se não contando, os fatos pudessem não existir. Porque, no fundo, é quando a gente conta alguma coisa que ela ganha um nome, e quando ela ganha um nome ela ganha existência no mundo. Há essa ideia de que ao não contar, aquilo possa não ter existido. Mas a verdade é que existiu, como muitas coisas violentas acontecem no mundo que a gente gostaria que não acontecessem.

 

Esta é uma história que é tua, mas também é coletiva.

 

Com certeza. Ao escrever o livro, eu já sabia que também era uma história coletiva, porque todas as mulheres que conheço sofrerem algum tipo de violência. E, depois de ter escrito, recebi muitas mensagens, muitos comentários e muitas partilhas de outras histórias que não foram contadas. É como se ao encontrar essa história muito particular, muito íntima, cada mulher se deparasse também com a sua própria história. Não só pela questão do assédio, é também pela relação filha-mãe, que é o centro, a espinha dorsal desse romance, mas também pela questão dos diários da infância. Diria que toda a menina teve um, pode não ter usado, mas em algum momento recebeu um.

 

Confirmo.

 

A gente conta para o diário, um ser inanimado, mas que ganha uma certa vida com os nossos segredos. Você escreve 'querido diário' como se estivesse falando, sei lá, 'querida Maria', como se o diário pudesse responder. Só que o diário não responde, o diário não ouve. O diário é uma forma de você contar sem ser ouvida.

 

De que forma os diários da tua mãe foram importantes?

 

Na minha adolescência também ganhei diários, mas era uma escritora fracassada de diários. Sou, até hoje. Nunca consegui manter um. Nessa altura, não sei quantos anos tinha, uns 16, mais ou menos, achava que escrever num diário fosse um primeiro passo para escrever. Foi aí que a minha mãe me deu de presente os diários dela. Quando os li cheguei à conclusão de que aqueles diários tinham sido escritos pelo meu duplo, pelo meu outro eu, que era minha mãe. Eram diários sobre acontecimentos muito diferentes dos meus, porque ela vinha de uma família muito mais conservadora. Tinha aquela coisa de as meninas serem educadas para aprender a tocar piano, estudar francês, escolher bem o marido, e de os homens seguirem para a vida. Isso era o oposto do que se vivia em minha casa, uma casa de gente mais aberta, mais... Tudo o que era íntimo, tudo o que era subjetivo, falava comigo diretamente. Então, voltava a eles sempre que tinha uma crise existencial de adolescente.

 

Só que, pouco depois de minha mãe ter morrido, tinha uns 20 e poucos, mudei de casa algumas vezes, e numa dessas mudanças algumas coisas ficaram perdidas, entre elas os diários. Passei 20 anos com a esperança de voltar a reencontrá-los. Toda a vez que mudava de casa, que resolvia fazer uma faxina, arrumar todos os armários, pensava: 'é hoje que vou encontrar os diários'. Mas nunca encontrava. Até que decidi escrever sobre a falta deles; a falta é sempre um motor para a escrita, a gente vive dessas faltas, desses vazios. Tinha começado a escrever, havia alguns meses, quando a minha irmã mudou de casa e encontrou-os. Foi na véspera de voltar para Portugal e ainda os consegui trazer comigo. Foi engraçado, mas fiquei muito angustiada. Estava a gostar de escrever sobre os diários em falta, ‘agora eles apareceram, não vai ter graça’. Continuei a escrever, mas eles ficaram lá, me chamando, pedindo para serem abertos. Até que tomei a decisão de incorporá-los no romance.

 

Gostava que nos contasses quem foi a tua mãe.

 

A minha mãe chamava-se Helena Salem. Era jornalista e foi a primeira mulher brasileira correspondente de guerra. Ela cobriu a guerra do Yom Kippur, em 1973, e não só foi a primeira correspondente de guerra brasileira, como era a única mulher jornalista a fazer cobertura do conflito — com a particularidade de ser uma judia que ficava do lado dos palestinianos. Chegou mesmo a escrever um livro chamado Entre Árabes e Judeus, que foi publicado aqui pela Cotovia. Ela também foi exilada política durante a Ditadura Militar [1964-1985] e viveu em Lisboa. Eu nasci cá, em 1979.

 

Era impossível que Melhor Não Contar fosse um primeiro livro?

 

Totalmente impossível. Este é um livro de uma mulher que já escreve. O lugar em que me coloco diante da escrita é de alguém que já tem um percurso. Poderia não ter publicado nenhum livro, publicar este primeiro, mas eu acho que era impossível escrever este livro sem ter escrito outros antes. Até pela questão da linguagem, hoje sinto que domino mais a linguagem.

 

E era possível existir sem o Vista Chinesa?

 

Aí eu não sei responder. Olhando para trás, eu digo como o Vista Chinesa foi importante para este livro, mas não sei responder se este livro existiria ou não sem ele. O Vista foi importante por vários motivos. Primeiro, porque tocou nessa violência muito grande contra uma mulher, embora todos os meus livros anteriores tocassem sempre, de alguma forma, a violência contra a mulher. Depois, porque a coragem de Joana [quem conta a história] incitou-me a colocar-me mais neste livro.

 

Vista Chinesa “foi o livro mais difícil que escrevi”, disseste numa entrevista ao PÚBLICO, em 2021. Manténs?


Eu disse isso? Devo ter achado isso de cada livro, mas Vista Chinesa foi difícil porque chegava a um lugar muito horrível da humanidade. Mas cada livro tem as suas dificuldades e a sua força.

 

Numa conversa num podcast, dizias que não escreveste o livro para condenar nem para perdoar ninguém. Qual foi a intenção?

 

Ele mostra e ele pensa. Acho que é um livro que pensa muito, um livro que coloca muitas questões, um livro que quer entender. E muitas vezes a condenação não quer entender, quer apenas encontrar um culpado, uma vítima. O que eu queria não era isso, era entender, colocar questões. Até porque acho que são questões muito profundas na nossa sociedade. São estruturais. A gente fala muito que são questões culturais, mas são questões estruturais. Não ia adiantar nada simplesmente condenar.

 

Só conseguiste escrever este livro porque a tua mãe e o teu padrasto já morreram?

 

Se a minha mãe fosse viva, provavelmente... Provavelmente, não. Não teria mesmo escrito esse livro do jeito que ele é. Porque esse livro passa por toda a doença da minha mãe, pela morte da minha mãe, pelo luto. Ele existe porque não contei para a minha mãe. Se a minha mãe fosse viva, já teria contado para ela há muito tempo, com certeza. Pela relação que tinha com ela e pelas mudanças no mundo... As mulheres começaram a contar mais as suas histórias.

 

O que é que dirias hoje àquela menina de 10 anos à beira da piscina?

 

Não é a primeira vez que me fazem essa pergunta. Eu tenho muita dificuldade de me imaginar falando alguma coisa para aquela menina de 10 anos. Porque aquela menina de 10 anos estava ali sentindo tudo, é isso que aquela cena da piscina mostra. No fundo, ela sabe que tem muitas coisas que estão acontecendo, mudanças que estão acontecendo dentro dela, no corpo dela. E ela sabe que está acontecendo uma violência com ela, só que ela ainda não tem o nome. O nome demorou anos para chegar. Se eu me virasse para ela e dissesse ‘um dia você vai entender' isso ia ser indiferente.

 

Como é que o livro foi recebido no Brasil? Pergunto porque o teu padrasto era uma figura de destaque na área do cinema.

 

Tem sido muito bem recebido. Às vezes falam coisas, como não ter colocado o nome. Não coloquei o nome dele no livro porque, para mim, a questão não era essa.

 

O nome do teu padrasto não é mencionado no livro.

 

Tentei tirar o foco de quem era a pessoa, porque não é isso que importa. O foco é quem conta, quem fala, sou eu.

 

No Goodreads, lê-se num comentário que “o livro faz uma antropologia da vida íntima de duas mulheres brasileiras destes últimos 50 anos”. Concordas?

 

De duas gerações bem específicas; não diria que são representativas do que é o Brasil. Porque o Brasil é tão plural, tão múltiplo, e aqui a gente está falando de duas mulheres de classe média, intelectuais, de esquerda. Diria que o conflito de gerações está muito presente aqui nesse livro, como em outros também. O conflito, tanto quanto a continuidade. Aquilo que continua e aquilo que rompe de uma geração para outra.

 

Nos teus livros, já disseste, as mulheres sofrem sempre algum tipo de violência. Neste caso, a violência do assédio...

 

Nunca me disseram diretamente, mas alguns comentários já chegaram até mim. Comentários, sobretudo de uma geração mais velha como, como ‘ah, mas não foi nada demais, não tentou violar'. Não foi nada demais porque isso era o normal, era comum. Mas isso estrutura, determina vidas. A violência contra a mulher nunca termina em si, ela tem sempre muitas camadas

 

O assédio, o abuso e o aborto são temas que, nos últimos anos, têm recebido a devida atenção na literatura. O Nobel da Literatura para Annie Ernaux foi importante para isso?

 

Acho que sim, em termos de receção. Assim como o Nobel da Svetlana Alexievich também foi importante para uma literatura de não-ficção.


Como é que G reagiu à publicação do livro?

 

O G foi muito importante para a escrita do livro. Ele participou muito desse processo, levou-me a fazer perguntas que eram difíceis para mim, como 'porquê se expor tanto?'. De todos os meus livros, esse, sem dúvida, foi o que foi mais foi difícil para mim, em termos da receção. De facto, é uma exposição que me incomoda, apesar de não estar arrependida. Tanto que, uns meses antes da publicação do livro, naquele intervalo entre o livro estar pronto e sair, tive muitos pesadelos. Essa espera é diferente do momento da escrita; quando escrevemos temos uma força, uma coragem que é muito diferente do dia-a-dia, de ter de lidar com as pessoas.

 

De ter de lidar com certas perguntas?

 

Não são só as perguntas. Quem lê o livro sente que me conhece, mostra uma intimidade que não é real e que me lembra que me expus demais. É bom, é sinal de que a escrita tocou as pessoas; por outro lado, deixa-me mais vulnerável.

 

O que é que estás a ler?

 

Estou a terminar o Toda a Ferida é Uma Beleza, da Djaimilia Pereira de Almeida.

 

Por Rita Sousa Vieira

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