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Fala-me um pouco deste disco, Liberdade.
Para mim, é mais do que um disco. É porta para um futuro meu, com a certeza absoluta para onde quero ir e preparadíssima para o mundo. É o ir ao fundo das minhas raízes, mesmo ao fundo, e descobrir-me por inteiro. Libertar-me das amarras que a vida me vai, e foi dando, ao longo do tempo, e assumir que não tenho qualquer receio ou medo de ser quem sou. É isto que este disco traz de tão especial: a transparência da pessoa que sou.
Uma total liberdade para ser a Sara.
Exatamente, daí ser Liberdade.
O que é para ti a liberdade?
É tudo. Mas é, principalmente, ser eu sem qualquer receio do que dizem. Livre de qualquer crítica, de qualquer coisa. É estar bem comigo mesma. Liberdade também pelas raízes que trago do meu bairro, o ponto mais forte da minha vida. Vir do bairro, do bairro de Chelas, sem medo de ser bairrista e de assumir as minhas origens.
Esse medo vem de onde, quem é que o criou? Foste tu, foi a indústria, o meio do fado?...
De tudo um pouco. Há sempre aquele estigma de dizerem que, como vem do bairro, não vai conseguir chegar a um sítio como os outros. Dizia-se muito quando era mais nova, não assim diretamente, mas eu percebia que era isso que queriam passar-me. Isso só me deu força para batalhar, e é agora o meu pretexto passar para os mais jovens que não existe o vir de algum lado e ser diferente. Nós somos todos iguais e os sítios são todos iguais. Até acho que o bairro nos torna muito mais especiais porque ajudamo-nos uns aos outros: é o bater à porta para pedir alguma coisa, é o socorro, porque temos sempre ouvidos em alerta. Portanto, o bairro traz-nos coisas muito especiais e muito importantes: o saber ser amigo, ser vizinho, ser família para quem está do nosso lado.
Se calhar, a Lisboa de hoje ou a das próximas décadas já não conhece essa ideia de bairro. Existem ainda algumas ilhas e Chelas é uma delas.
Esse é o meu papel, é mostrar que isso não desapareceu. Talvez até possam querer esconder, mas as coisas continuam iguais há vinte, trinta ou quarenta anos para cá.
Mas esse sentido de comunidade tende a desaparecer.
Falo do meu bairro, não posso falar dos outros, mas vejo que quem vem acaba por ser família também. Entra, percebe o bairro, fala e conhece as pessoas. Não sinto ainda que tenha mudado tanto como no centro de Lisboa, por exemplo.
Já li que dizes que este disco é o “início da Sara Correia”.
Digo que é o início porque hoje sinto-me muito mais madura, confiante. Foi um disco onde trabalhei muito ao lado do meu produtor musical, o Diogo Clemente, em que quis estar em todas as frentes e desenhar o disco com todas as cores das minhas raízes.
Este é o teu terceiro disco, mas podia ser o quarto. Antes de Sara Correia e de Do Coração, lançaste um primeiro, que já te ouvi chamar de "um disco adolescente". Não o consideras na tua discografia?
Considero-o, mas considero que não estava preparada para fazer um disco. Fi-lo, e tenho todo o orgulho nele, chama-se Destino. Fiz esse disco porque ganhei a Grande Noite do Fado e esse era o prémio naquela altura, mas sinto que não tinha ainda história para contar, era muito nova.
Tinhas que idade?
13 anos. Não é que não conte, mas não sinto que conte aquilo que eu sou, como estes discos que fiz até agora. [Esse] Foi um disco feito em três dias.
E o Liberdade é um disco com influências pop, de fado ou um disco da Sara?
Um disco da Sara. Com muitas influências do hip-hop, porque cresci com muitas influências musicais... Sinto sempre que o fado é uma música que não deixam partilhar com ninguém, e eu acho que o fado tem tudo para ser mais partilhado com outras músicas [géneros]. Desta vez, sem qualquer receio, pensei não... Este disco tem muita portugalidade, tem muita Sara, tem muito fado — acho que é o meu disco mais fadista —, tem hip-hop, tem pop, tem tudo o que eu sou. Eu não tenho de ser somente uma coisa, sou fadista, mas tenho mais capacidades. E é esse o caminho que tenho vindo a trabalhar até agora, o de descoberta de mim mesma.
Há dois ou três anos dizias que o próximo disco, que se sucederia ao Do Coração, seria gravado fora do país. Liberdade foi gravado em Alcochete, porquê? Houve algum plano que ficou pelo caminho ou ficou guardado para o futuro?
Ficou guardado para o futuro. São coisas que ainda vão acontecer, mas é como tudo na vida, vamos andando, as viagens que fizemos foram abrindo outros caminhos... E chegou o Liberdade.
Chelas já ouviu este disco, a apresentação foi lá, mas Chelas foi também o primeiro single. Porquê escolher um tema com estas características, e com a afirmação que ele traz, para tema de avanço?
Exatamente pelo que dizia antes, porque há sempre um estigma com quem vem do bairro. Ninguém escolhe onde nasce, ninguém escolhe quem é. E, na verdade, também é para mostrar a quem não conhece o bairro ou a quem tem uma ideia menos boa que no bairro existem pessoas muito boas, trabalhadoras, que todos os dias lutam para ter um bocadinho mais, todos os dias lutam pelos seus filhos. E essa é, sem dúvida nenhuma, a mensagem que eu quero passar às pessoas. ‘Do meu bairro vejo prédios de todas as cores, que dizem ao mundo que o pobre há de ser sempre pobre’. Significa que não temos vergonha de ser quem somos. Somos pobres, ok, mas somos ricos noutras coisas mais importantes do que o dinheiro.
A letra também é uma resposta a quem em algum momento te disse para não seres como és ou para não agires como querias?
Quando digo 'dizem Sara', é como se dissesse os nomes todos de quem vive no bairro. Não é só direcionado a mim, é direcionado a todas as pessoas que nascem no bairro. Claro que vou cantá-la em nome próprio, mas quero que toda a gente saiba que podia ser a Joana, a Inês, o João, o Manuel.
Convidaste a Carolina Deslandes para escrever a letra. Porque é que não a escreveste tu?
Porque eu não tenho essa capacidade de poeta como a Carolina tem, e eu respeito muito a língua portuguesa. Acho mesmo que há pessoas que nascem com esse dom e eu não o tenho. Há quem diga que sim, mas eu não acho. Quando as pessoas me conhecem, têm uma amizade comigo e lidam comigo todos os dias, torna-se fácil [escrever para mim], porque não escondo nada, sou muito aberta [em relação] às minhas origens e não tenho qualquer receio. Por isso, acho que foi muito fácil para a Carolina escrevê-lo para mim.
E porque é que não foi o Sam The Kid a escrever?
Porque não calhou, podia ter sido, é verdade. A Carolina mandou-me o Chelas na altura em que fez o Não me importo, portanto, esta letra já a tinha há algum tempo. Mas quem sabe... Está tudo em aberto, eu e o Sam The Kid ainda podemos fazer alguma coisa.
São vizinhos, não é? Ainda vives em Chelas?
Neste momento não, mas há de ser sempre meu vizinho.
O bairro fará sempre parte da tua vida?
Sim... O meu maior medo é deixar de ser a pessoa que sou. E quando digo deixar de ser a pessoa que sou, é algum dia tentar esconder... — nem faria sentido fazer uma coisa dessas. Eu tenho o bairro na cara, não há como fugir.
Chelas poderia ter entrado no disco anterior?
Podia, mas acho que não tinha ainda capacidade para aguentar falar disto abertamente, como tenho hoje. Era como dizia antes, nós viajamos tanto e vemos tantas coisas que chegas a um ponto em que pensas: realmente nós não temos é problemas nenhuns. E pensei: não tenho de dificultar nada, o meu público merece que eu seja o mais sincera possível, sem qualquer medo de alguma coisa. Não tenho vergonha de dizer que sou e venho de Chelas, ponto final. Quero provar isso às pessoas que cresceram comigo. Houve sempre um estigma, não podemos ser hipócritas a esse ponto. Se puder acabar com isso, vou acabar num instantinho.
Para quem não o percebe, onde é que se manifesta esse estigma? É nas pequenas coisas?
É nas pequenas coisas, nas diferentes formas de estar na vida. Sente-se no dia-a-dia, em muitas coisas. Sente-se mais quando saímos do nosso meio para outros meios.
Foi em Chelas que começaste a cantar. No discurso de vitória dos Prémios Play, o ano passado, quando venceste o prémio de Melhor Disco Fado, agradeceste por “nasceres fadista”. Não se é fadista, nasce-se fadista?
Isso não tenho qualquer dúvida. Acho que vamos aperfeiçoando o nosso fado, a nossa forma de cantar, mas ou se tem ou não se tem. Isso é como toda a arte no mundo, eu também gostava muito de pintar um quadro, mas ou se tem o traço para o pintar ou não vale a pena, podemos fazer só uns rabiscos. E em Chelas dei os meus primeiros passos para a minha vida fadista e para o meu desenvolvimento enquanto mulher. Vou contar isto e não tem mal nenhum: os meus pais são separados, eu fiquei com a minha mãe e com o meu irmão, e a nossa vida foi uma luta constante. Como se costuma dizer, nós temos dois caminhos: o bom e o mau. Felizmente tive cabeça e juízo para saber com quem é que tinha de lidar na minha vida, quem eram as pessoas certas para me acompanharem na minha vida, e nunca desisti nem baixei os braços. Acho que isto é importante dizer, gostava muito que esta nova geração tivesse noção que estes dias de hoje são muito mais difíceis, eu não vivi nos outros, mas eu tenho plena consciência que hoje é muito mais difícil de se viver, de se conquistar coisas. Mas que não desistam, que se foquem, que não se distraiam por caminhos que não interessam e que, trabalhando, tudo é possível. Chelas deu-me isso, os meus vizinhos deram-me isso. Deram-me essa força e o braço para seguir sempre sem me estragar.
O Clube Lisboa Amigos do Fado também te deu isso?
Sim, principalmente o senhor Armando Tavares. Hoje já não está entre nós, mas foi um pai para mim. Foi a primeira pessoa que acreditou em mim, foi a primeira pessoa que me levou às casas de fado e que me deu a conhecer o mundo do fado, e foi, sem dúvida, a pessoa mais importante do início da minha carreira. Sinto-me muito privilegiada por um dia o ter conhecido e por o ter na minha vida. Essa foi talvez a pessoa que mais me puxou à terra e que mais me encaminhou.
Tens esse papel também no bairro, de encaminhar ou acompanhar jovens que possam chegar até ti e dizer, como tu disseste aos 9 anos: quero cantar fado?
Na minha altura era muito mais difícil. Hoje o fado está completamente diferente, tem muito mais abertura, já não há o estigma, o fado levou uma roupagem nova e parece que as pessoas tiveram mais interesse em conhecê-lo. Mas sinto que hoje, também muito pelo Chelas, também direciono esta geração mais nova a não desistirem. É lindo. Acabei o concerto [de apresentação do disco] em Chelas com as crianças a dizerem-me isso. Se eu conseguir fazer isso, não preciso de fazer mais nada. Está tudo ótimo. A minha missão é essa mesma.
Neste disco, vários nomes, como a Joana Espadinha, a Mila Doures e o Tiago Bettencourt, escreveram letra e música. A escolha de quem escreve é importante?
Cada vez mais, e sem dúvida nenhuma que os autores têm de me conhecer. Conhecer até às entranhas, como eu costumo dizer. Mais uma vez, o caminho do Liberdade foi muito fácil por isso. O Tiago Bettencourt escreveu o Ser Rebelde; eu sou rebelde, mas também sou uma rebelde muito tímida, uma pessoa muito introvertida, com muitas dificuldades de falar sobre a minha vida, mas também sou uma rebelde quando estou com os meus amigos e faço os meus disparares. Que eu acho que faz falta nós não deixarmos essa criança, independentemente de se ter 30, 40, 50 ou 60 anos. Conversei isso com o Bettencourt, precisava de falar desse lado da minha vida. Portanto, isto foi tudo uma construção de coisas que eu sou, e que eu já vivi. Tanto no amor, como na rebeldia, como na tristeza. Tudo é Sara neste disco.
Musicalmente, há uma diferença entre os temas que escreveram para ti e os que têm por base os fados tradicionais. Não há experimentação ou influências pop ou R&B nesses últimos, porque ainda há um respeitinho muito bonito pelo fado tradicional?
O fado tradicional é o fado tradicional, e não se mexe por nada. Não inventem coisas que não existem. A matriz fadista é viola, guitarra portuguesa e baixo. Isso é sagrado. Nestes fados tradicionais que metemos no disco, quisemos meter muito mais a voz, como se a voz tivesse na cara, estivesse muito mais perto das pessoas. Acho que o fado não tem de ter muitas coisas à volta, a forma como se canta e diz a palavra faz com que o fado venha ao de cima. Mas no resto posso fazer o que eu quiser, um Era o Adeus ou um Madrugou são temas que eu sempre quis ter e fazer, e com a ajuda do Diogo fui ao fundo das minhas raízes. Como eu tenho uma equipa que me conhece desde pequenina, o Diogo conhece-me desde os 3 anos de idade, tenho muita cumplicidade.
Vocês não têm uma diferença de idades muito grande.
Temos 6 anos de diferença, o Diogo ainda chegou a tocar com a minha tia. Nos fados é assim, quanto mais cedo melhor. Foi o que aconteceu comigo. Quanto mais cedo começamos a cantar, mais vamos aperfeiçoando a voz, mais nos vamos conhecendo, mais o nosso fado vai ficando maduro. Na música é igual.
Isso quer dizer que uma fadista ou um fadista não pode começar a cantar aos 30 ou 40 anos?
Pode, o fado não tem idade. Não é a isso que me refiro.
A maturidade no fado alcança-se quando se começa a cantar muito novo, é isso?
Eu sinto isso e vejo-o em todas as pessoas que conheço que também começaram a cantar muito novas. O percurso acaba por ser mais fácil. É como tudo na vida.
Já tinha falado dos Prémios Play, mas Do Coração foi também foi nomeado a um Grammy Latino na categoria Melhor Álbum de Música de Raízes em Língua Portuguesa. A mesma categoria onde a Carminho está agora nomeada, ela que também escreveu um tema para o Liberdade.
E espero que ela ganhe.
Mais do que estar nomeada, tu entregaste um prémio numa das categorias. Como é pisar um palco como o dos Grammys?
Foi horrível, estava muito nervosa. Vou confessar que tenho alguma dislexia, e eram só nomes estranhos. Só quando cheguei a Las Vegas é que soube que tinha de falar. Logo eu! Para mim, falar é pior do que cantar, fico sempre muito, muito nervosa. No final, senti que tinha ganho. Porque chegar ali e levar Portugal aos Grammys Latinos foi top, foi espetacular.
Qual a importância dos prémios para ti?
É só o reconhecimento do nosso trabalho e de todo o esforço que nós temos perante a vida. Se for internacional, é o reconhecimento do nosso país. É muito difícil romper, e mesmo que [o prémio] seja pequeno, torna-se enorme.
Com todos os prémios que espero que ainda ganhes, algum deles será mais importante do que teres vencido a Grande Noite do Fado?
Nenhum vai ser mais importante. Antigamente havia uma tradição lindíssima, que se foi perdendo, e tenho muita pena. Se tivesse meios, acho que voltava a fazer a Grande Noite do Fado no Coliseu dos Recreios. Começava às 9 da manhã e acabava no outro dia às 9 da manhã. Eram momentos únicos, as pessoas levavam lancheiras e ficavam a ouvir fado uma noite inteira. Lembro-me — eu estava lá, tinha 3 anos — de a minha tia cantar às 9 da manhã, e nós já estávamos lá há horas. Era um marco muito importante no fado e era importante voltar a acontecer. Era aí que os fadistas despoletavam para a ribalta. E tenho pena que isso tenha acabado.
Já não existe ou já não existe nos moldes como acontecia?
Já não existe.
Foste tu a última pessoa a vencer?
Eu venci, depois houve mais uma edição, onde já fui como convidada, e terminou.
Venceste em 2007 e, dez anos antes, em 1997, tinha ganho a tua tia.
É destino ou não? Eu acredito que é. Se calhar sou ingénua ao pensar assim, mas acredito mesmo no destino. Se não acreditasse não cantava fado.
Apesar de acreditares no destino, não esperas que as coisas aconteçam só porque sim. Trabalhas para alcançar os teus objetivos.
Trabalha-se muito. Não vivo num mundo cor-de-rosa, tento fazê-lo o mais rosa possível. Trabalhei a minha via inteira.
Sete dias por semana a cantar em casas de fado.
Saí de casa cedo para poder estar perto das casas de fado. Cheguei a fazer cinco ou seis casas de fados por noite, chegava a cantar 40 fados.
Isso não dá cabo da voz?
Dar dá, mas foi o que Deus me deu. Eu precisava, vivia sozinha e tinha de me mexer. Só me deu foi estaleca para aguentar os concertos. Por exemplo, fizemos uma tour na América Latina durante a pandemia. Eu já não tinha nariz de tantos testes Covid-19, para conseguirmos estar em Bogotá [na Colômbia] e no dia a seguir no Chile. Foi uma loucura completa. Acabámos essa tour e fomos para Paris fazer um concerto. Os aviões são o que custa mais, mas esses anos de casas de fado deram-me uma estaleca para aguentar esta vida que, se acham que é fácil, meus amigos, enganam-se. É muito difícil e é preciso mesmo sermos uns atletas de alta competição.
O fado é isso, um desporto de alta competição?
Não só o fado, as artes no geral. É preciso trabalhar muito. Todos os dias. Mesmo estando de férias. Eu estou de férias, mas tenho de cantar como um músico tem de tocar.
Quem é que são as tuas influências, dentro e fora do fado?
Tenho muitas. Dentro do fado tenho várias, milhares. As principais são a Fernanda Maria, a Beatriz da Conceição, e Amália Rodrigues no topo da pirâmide. Dessa geração, essas são as três mulheres que eu mais admiro. Da nova geração, a Carminho, para mim, é a fadista pura e dura, adoro-a. Mas adoro todas, na verdade. Todas elas têm um caminho muito especial dentro do fado. Todas: a Mariza, a Dulce Pontes, a Mísia, a Ana Moura. Tenho respeito por todas elas, tiveram um papel muito importante para a abertura ao fado lá fora.
Lá fora e não só. Foram alvo de muitas críticas, pela forma como cantavam o fado, como se vestiam, pela substituição do xaile por um vestido mais decotado, dos sapatos pelos ténis...
Ainda bem que puxaste esse assunto e gostava de falar sobre isso. Isto não é defender ninguém, é só, na realidade, ver as coisas como elas são. O fado tem muitos anos. Ao longo dos anos... Em 2023 não posso estar aqui sentada com um vestido até aos pés, porque sou de 1993, não vivo há sessenta anos. E isso não tem mal nenhum. Cada pessoa vive no seu tempo, e todos nós temos o direito de sermos quem somos. O fado não está em mim pela roupa que trago hoje, pelos ténis que tenho calçados, ou pelo penteado que trago. O fado é uma coisa que nos é intrínseca, é a nossa pele, é a nossa voz. Está dentro de nós. O fado é um corpo, não é a vestimenta. Às vezes faz-me um pouco confusão que as pessoas digam que isto não é forma de se cantar fado. Deixem-se de coisas, oiçam somente o que é importante de se ouvir e o que é realmente importante dentro do fado. Não é a roupa, não é o que calçamos ou vestidos. Acima de tudo, temos de ser felizes da maneira que somos. Hoje há uma abertura muito grande para se dar opiniões. Liberdade, mas não é preciso tanta. É saber ter noção, respeitarmo-nos uns aos outros, e acima de tudo perceber o outro.
O que é que estás a ouvir?
Neste momento estou a ouvir o meu disco... Estou a brincar! Comprei há pouco tempo um brinquedo novo, um gira-discos, e ando perdida a comprar discos. Acho que vou ficar sem dinheiro rapidamente, estou a adorar esta descoberta. Estou a ir buscar muita coisa antiga, música brasileira, mas ando muito viciada na nossa querida Billie Eilish. Identifico-me muito com a forma dela ser, acho mesmo que ela é a maior revelação desta nova geração. Foi muito sincera desde o início, toda aquela dor que ela trazia... É espetacular, tão nova e com aquilo tudo lá dentro. A forma como ela canta, as letras e como ela escreve, os vídeos, é tudo tão profundo, tão triste e tão verdadeiro que podia ser um fado.
Por Rita Sousa Vieira