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SALVADOR SOBRAL EM ENTREVISTA
ENTREVISTA A SALVADOR SOBRALENTREVISTA A SALVADOR SOBRAL

“Vou fazendo pequeninas cedências, mas sempre sem comprometer a minha arte”



Timbre é o novo trabalho de Salvador Sobral. O disco, que conta com vários convidados, tem uma canção dedicada ao dador do coração transplantado. Para já, o vencedor da Eurovisão em 2017 não sabe se a vai conseguir cantar sem chorar. Nesta conversa, fomos de Paris a Kiev. E da raiva, como reação à fama instantânea, a uma rebeldia filtrada.



 



Quem é que são os culpados por este disco só agora sair, ouvi dizer que era uma tal de Taylor Swift ou um Harry Styles?

 

Tens um bocadinho de razão. Eu depois também romantizo um bocadinho a história. A verdade é que há uma crise brutal de fabricação de vinis no mundo — porque, também, já não havia fábricas de vinis, e agora toda a gente quer fazer vinis, e há muita procura e pouca oferta de fabricação. A par disso, também há o Harry Styles, e a Adele, e a Taylor Swift, que fazem uma quantidade brutal de vinis e, então, os dos artistas mais pequeninos ficam na fila de espera.

 

"Os artistas mais pequeninos", estás a falar de quem?

 

De mim. Não? [risos] Então, eu entreguei o disco em fevereiro. É estranhíssimo, nunca me tinha acontecido entregar um disco em fevereiro para sair em setembro. O que eu fiz foi ouvir o master, o produto final, uma vez, e depois pensei: não o posso ouvir mais, porque senão vou-me fartar das canções antes de as tocar.

 

E, pelo meio, não houve uma vontade de querer mudar alguma coisa?

 

Mudar o sistema?

 

Não o sistema, porque calculo que tenhas, pelo menos uma vez por dia, essa vontade... De mudar algo no alinhamento, nalgum tema, pensares que uma canção já não fazia sentido da forma como foi feita ou produzida?

 

Tive a vontade, passado uns meses, de ter um tema, uma canção assim mesmo balada. Uma balada assim com muito espaço... Mas já não o consigo fazer porque, uma vez que se entrega [o produto final] ele fica na filinha de espera, e eu imagino o disco a sair de uma fila de espera, tipo Chaplin n'Os Tempos Modernos. Fica ali naquela cadeia e, então, já não dá para fazer nada. Mas fiquei com vontade de fazer uma canção que compus — e vou fazê-la ao vivo, não vai estar no disco, vai ser só de live. Uma espécie de bolero, com muito espaço e muita respiração.

 

É um bónus para quem esperou estes meses pelo disco.


Exato.

Porque cantas, Salvador Sobral?

 

Porque canto? Pelas razões todas que se falam nessa canção [do disco]. Para não falar, mas [também] para não me calar. Eu escrevi esta canção para me lembrar, também, porque é que eu canto, sabes? Eu canto por todas estas razões, também porque não sei fazer outra coisa; é a única coisa que eu sei fazer. As pessoas dizem-me: “ah, tu cantas muito bem”... 'Tá bem, mas é a única coisa que eu sei fazer. Às vezes canto para me impressionar, também. Ou para me afirmar. Lembro-me que, durante muito tempo — nos meus tempos de solteiro, louco... — não conseguia falar com uma menina sem cantar antes. Eu tinha essa segurança. Pensava que sou só isto, só sei cantar. Então, não tinha coragem de abordar nenhuma rapariga sem que ela me visse cantar. E isso foi uma coisa que me aconteceu durante anos. Curiosamente, a minha esposa foi a única que não me viu cantar, e que já gostava de mim antes de me ver cantar. E antes da Eurovisão, que também é um dado importante [risos].

 

Mas isto para dizer que eu escrevi esta canção para me lembrar das razões, da essência. Porque é que eu canto? Porque há tantas coisas fora, disto que estamos a falar, da indústria, do stress, de visualizações, de likes, de vender bilhetes para os concertos... Há tanta coisa exterior ao canto que às vezes esquecemo-nos da essência. Porque é que fazemos isto? E, então, escrevi também por ser para mim um mantra. É por isto que eu canto. Nenhuma dessas razões é a indústria. São só razões viscerais. Eu canto porque tenho de cantar e porque é a única coisa que sei fazer.

 

No dia em que cantares pela indústria, o que é que isso quererá dizer?


Talvez que, pronto, cedi. Pode ser. Talvez um dia eu queira fazer reggaeton... Não há mal nenhum nisso, mas se eu fizer reggaeton, que seja um reggaeton da alma. Não me apetecia vender-me como um produto. Mas acho que não [vai acontecer]. Eu sou um homem branco, heterossexual, europeu, já não está para mim. Não vamos fazer mais uma rockstar. Já não dá.

 

Conseguiste chegar aqui sem ter cedido em alguma coisa?


Vou fazendo pequeninas cedências, mas sempre... Ou, pelo menos, digo a mim mesmo que não, que estou a fazer isto sem comprometer a minha arte. Vou dar um exemplo, de um programa de televisão em Espanha. Ligam-me da editora em Espanha, a dizer que um programa da televisão espanhola, da passagem de ano, quer que vá lá cantar. Eu vou a ver o programa e, epá... Não é o meu sítio. E dizem-me que aquilo não terá instrumentos ao vivo, é só cantar. E eu penso: ok, há muita gente que vê este programa, pode também ser bom para mim, em Espanha. Mas, artisticamente, não me vou sentir confortável em ir lá cantar com playback. Não posso! E, então, há uma mini cedência que é ir lá mas, pelo menos, fazer o que eu faço. Como na Eurovisão. Fazer uma coisa em que acredito. Porque, senão, não vai ser verdadeiro, não vai ser honesto. E, para mim, se eu não canto de uma forma honesta e verdadeira, acho que as pessoas também o sentem.

 

Em 2021, numa entrevista, dizias que os discos não podiam acabar porque ainda não tinhas feito um suficientemente bom. Agora já podem?


Não, não. Eu nunca me sinto legítimo nos discos. Principalmente pela minha veia de compositor: eu insisto, eu quero continuar a escrever e a compor canções. Mas não sinto que tenha chegado a um nível de composição de que me possa orgulhar. Porque é um músculo como outro qualquer, eu cantei a minha vida toda. Se eu tivesse composto a minha vida toda, talvez fosse tipo a minha irmã, que faz uma canção em dois minutos, que é só absolutamente sublime. Ou a Deslandes, que no outro dia disse que ia à casa de banho e voltou com uma letra escrita — e foi muito rápido à casa de banho. Eu acho que isso é um músculo, e vai demorar até que eu tenha orgulho. Talvez seja até melhor eu nunca sentir que encontrei o disco, porque depois eu deixo de os fazer. Um dia em que eu fizer um disco de que me orgulhe, deixo de fazer discos. Estou sempre à procura.

Como é que foi o processo de composição deste disco? Foi singular...


Foi com o Leo [Aldrey], outra vez, meu parceiro desde 2010, quando nos conhecemos na escola de jazz. Já vamos aperfeiçoando o nosso método. Vamos sempre para o meio do campo, porque se eu for ter com ele... Ele vive em Barcelona, se eu for ter com a ele a Barcelona há demasiados estímulos, os amigos, o cinema, as sessões de música, e eu fico perdido e não consigo concentrar-me na composição. Então, decidimos que temos de ir sempre para um sítio muito isolado. Como para mim compor é um processo torturante — sou sempre visitado pela frustração, quando estou a compor... —, o Leo arranja formas que são um bocadinho parecidas com as formas que eu arranjo para distrair a minha filha, agora que estou a pensar nisso. Do tipo: "agora vamos fazer um jogo de dados, de acordes!". Atiramos os dados, tocamos dó maior, fá maior... No tema que tenho com o [Jorge] Drexler, o Al Llegar, fizemos um cadáver esquisito: eu escrevia uma frase, ele escrevia a frase seguinte, e assim sucessivamente. Fizemos o mesmo jogo com acordes: eu toquei um acorde, ele tocou o acorde seguinte.

 

E, então, é isso. Vários jogos de distração, para não sentirmos que estamos a trabalhar e a fazer uma coisa pesada, que é a composição. Eu quando penso nestas residências penso num lugar pesado, que é oposto completo do palco, que para mim é a coisa mais leve.

Ainda não fazes este tipo de jogos com a tua filha...


Não, é mais jogos do género: "eu sei que tu queres comer o teu sapato, mas olha aqui esta roca"...


Por falar nela. O tema Se Quando Tu Vieres é sobre o seu nascimento?


É. Mas quem o escreveu foi a minha irmã, imagina tu. O único tema do disco que eu não escrevi, foi a minha irmã quem o fez, e sobre a minha filha. Sobre uma sensação que eu pudesse ter antes de ela vir. "Se quando tu vieres, eu ainda querer viver a minha vida de solteiro, de fazer música pelo mundo"... [risos] É curioso porque ela, às vezes, adivinha os meus sentimentos e põe-nos num papel, e em música, sem eu nunca ter pensado neles, sabes? Até lho disse, "não sinto isso", e depois começo a cantar a canção e digo: "ah, sim, se calhar tenho medo que isto aconteça". Mas acaba lindamente, claro, ela faz aquela punchline no fim, "se quando tu vieres eu tiver medo de me perder, para ser somente teu"... [canta] A última frase diz algo como "se isso acontecer, é bom". A moral da canção [é essa]. Eu toquei-a em casa, gravei só uma maquetazinha em casa, no piano, e mandei para o Leo. Depois, gravámos com duas guitarras, com dois amigos em Barcelona, o Dario e o Sebas, e a versão que eu tinha gravado em casa, que tinha barulhinhos dela, estava tão bonita que nós pusemos na canção original extratos pequeninos de mim a cantar sozinho, no piano.

 

Não sabia que essa canção tinha sido escrita pela tua irmã. Mas ela também entra no disco, noutro tema, assim como outros convidados que já mencionaste: o Jorge Drexler, mas também a Silvana Estrada e a Barbara Pravi. Há quem diga que não se deve conhecer os nossos heróis. Tu dás volta a essa ideia cantando com eles.


Exato. Eu digo sempre que quem diz essa frase é porque nunca conheceu o Caetano [Veloso]. O Caetano é uma pessoa completamente pura, dá-se completamente e é completamente genuíno. Mudei para sempre a minha ideia disso dos heróis quando o conheci.

 

E, pelo meio, foste conhecendo outros.


Sim. Já cantei com todas as minhas referências na música. Percebi isso no outro dia.

Isso quer dizer que já cantaste com o Paul McCartney?


Não... Faltam-me o Paul McCartney e o Stevie Wonder. Era o que te ia dizer. Faltam-me só esses, e posso morrer feliz, sabes? Tim Bernardes, Silvia Perez Cruz, Silvana Estrada, Caetano... Tenho muita, muita sorte de poder cantar com estas pessoas, e deles, de certa forma, me respeitarem. Vi uma vez uma entrevista da Billie Eilish, que também tem estes ídolos, o Paul McCartney, etc.... Já não sei quem é que ela conheceu, um dia, e ela diz que vêm ter com ela e dizem que adoram a música dela, adoram a voz dela. E ela diz que perdeu o respeito por ele... "O quê? Ele gosta da minha música? Não, então se calhar não é assim tão...". E é curioso, isso. Eu digo, "como é que é possível o Drexler admirar, como é que é possível o Caetano admirar a minha voz?". Mas não lhes perdi o respeito.

 

Não tens nenhum herói nacional?


Sim, tenho vários. O B Fachada, adorava compor como ele. Tenho muitos heróis, agora tenho A Garota Não, adorava fazer música de intervenção assim, boa. Acho que estamos num ótimo momento de saúde musical.

 

De composição, ou?...


De tudo. Olha um gajo como o Bruno Pernadas: se não fosse daqui, era famosíssimo no mundo inteiro. Temos imensos casos desses. Se o Pernadas fosse de Nova Iorque, estava nos palcos do mundo inteiro.

A ganhar Grammys.


Sim. A própria Margarida Campelo, o disco dela é muito bom. Felizmente, a nossa cultura tem saúde, o problema é não termos o apoio nem os meios necessários. A velha história do nosso país.


Sentes que, em Portugal, tratamos os artistas como se fossem uma pastilha elástica — mastigamo-los tanto até perder o sabor e, quando chega uma nova gama, descartamo-los e começamos a mastigar um novo?


Talvez sim. Gostei imenso dessa analogia. Mas acho que todos os países são um bocadinho assim, não é? O problema, aqui, que eu acho é que é a estrutura que é muito pequena. E o apoio que falta... Têm vergonha de dizer aos amigos estrangeiros o apoio que o governo dá, ou que não dá, à cultura. De não apoiarmos os nossos artistas - quando tu dizes "nós", eu sinto que o povo poderia [fazê-lo], o problema é que o Estado não responde, sabes? Especialmente nestes anos em que temos vindo a crescer. Também no cinema: vejo tanto talento no cinema português, e sem apoio continuamos a prosperar, a fazer coisas. Eu só gostava que houvesse um pouco mais de apoio para os nossos artistas. Senão, eles vão-se embora, não é?


Tu ainda não foste...


Eu gostava... Eu tenho uma namorada francesa, que tem este estatuto intermitente em França, que é um apoio que se dá aos artistas todos os meses, uma espécie de ordenado baseado nas horas que fazes como artista, que nós fingimos que fizemos; é só areia para os olhos, foi absolutamente terrível, e todas as pessoas que aderiram ao sistema depois saíram. Coisas deste país, não é... E eu vejo o exemplo dela e digo, porque é que não podemos ter um sistema assim? Temos arte tão boa, somos orgulhosos do nosso país, da nossa cultura, não percebo.

 

Como é que achas que serás recordado em Portugal, daqui a 20 ou 30 anos?

 

Como o que ganhou a Eurovisão, isso não há dúvida. Se outro português ganhar a Eurovisão, serei conhecido como o primeiro a ganhar. Sendo que, todos os anos, quando vai lá um português, penso "vai, força", mas espero que ele não ganhe para eu ficar com o troféu sozinho [risos].

 

Por falar em Eurovisão, no Timbre tens um tema com a Barbara Pravi, que representou a França no festival de 2021. Como é que a descobriste, foi por aí?

 

Descobri pela Eurovisão, mas a minha sogra vai ao mesmo cabeleireiro que ela. E foi ela que disse que era sogra de quem representou Portugal.

 

Agora que penso nisso, ela não fez uma versão da Amar pelos Dois?

 

Sim, e ela pediu o meu contacto à minha sogra. Como passo muito tempo lá [em Paris] sozinho — sozinho não, estou a cuidar da bebé —, enquanto a Jenna está a trabalhar, combinei uns cafés com ela e gostei imenso da energia, da voz e da entrega. Eu gosto dessa entrega visceral.

 

Ela foi muito comparada com a Édith Piaf.

 

Quando a convidei [para o disco] até hesitei por causa da questão da Eurovisão, porque seria mais um vínculo.

 

Era o que te ia perguntar, tê-la no disco não abre essa porta? Isto é, não traz o tema da Eurovisão à conversa?

 

Duvidei bastante. Quando fomos gravar fiz uma publicação com ela que, esquece, teve imenso hype. Perguntavam o que é que ia acontecer... Até pensei em nomes de outras cantoras francesas que admiro, mas a voz dela era perfeita para a canção e isso falou mais alto.

 

Voltando ao disco, El Regalo Que Me Hiciste é um tema dedicado ao teu dador. Porquê compô-lo em espanhol?

 

É uma boa pergunta, que também foi feita pela minha manager. Se é uma canção tão pessoal, "porquê?".

 

É mais fácil para ti compor em espanhol sobre um tema que é tão pessoal?

 

Essa foi a leitura que fiz mais tarde. Quando comecei a escrever não pensei nisso, comecei a escrever e depois trabalhei nela com o Leo. "Porque é que escreveste em espanhol se é uma canção tão pessoal?". Acho que é precisamente por isso, se escrevesse em português começava a cantar e começava logo a chorar. Na verdade, já tentei cantá-la duas ou três vezes e comecei logo a chorar. Não sei como é que vou fazer nos concertos. Por isso, se quiser ver-me a chorar, venha ver um concerto [olha diretamente para a câmara]. Eu também estou muito confortável [a escrever] em espanhol...

 

E cria um certo distanciamento por não ser a tua língua materna?

 

Talvez, na composição.

 

Na composição e na interpretação, em ambas.

 

Não sei, não sei como é que vou interpretar aquilo. Repara que demorei três discos a fazer esta canção. No Paris-Lisboa, o primeiro a seguir à operação, nem sequer falei em nada parecido com isso; no BPM falava de algumas coisas que tinha vivido nessa época hospitalar; mas só agora é que me senti preparado para abordá-lo. Muita gente procura-me e escreve-me, pessoas que têm cardiopatias, [e dizem] que só por verem as minhas redes sociais sentem alguma esperança. Se ele fez um transplante e está a jogar futebol, ou pode ir tocar ao Brasil ou vai ao Senegal, é porque há esperança. Gostava de fazer mais trabalho nesse sentido, tenho estado em contacto com algumas associações. Talvez fazer uma tournée de hospitais e falar um bocadinho sobre a minha experiência. A doença, mas também o transplante, parece um monstro enorme, e eu gostava de o desmistificar um bocadinho. Talvez esta canção seja um passo a mais nesse sentido. É uma canção de gratidão à pessoa que teve de morrer para eu sobreviver.

 

És uma pessoa obsessiva?

 

Acho que sim, tenho obsessões momentâneas: tenho de fazer isto ou tenho de ler toda a obra de Shakespeare. Comecei a ler uma série chamada No Fear Shakespeare, que tem a obra num inglês mais shakespeariano e, ao lado, num inglês mais corrente. Comecei a ler e depois nasceu a Aïda. Claro que nunca mais li. Mas também tenho fases em que só oiço um disco.

 

Gastas a música ou consegues voltar a ouvi-la sem problemas?

 

Suponho que, depois, já não tenha o mesmo sabor. Quando saiu o disco do Harry Styles também foi assim, ouvi-o obsessivamente. Agora quando o oiço já não tenho a mesma emoção, mas acho que isso é normal.

 

O que é que o Salvador Sobral de 2017 diria ao de 2023, o que tem um videoclip-karaoke.

 

Diria: Olha, este vendeu-se. Vendeu-se, mas está com saúde.

 

E continua a ter bom humor.

 

Humor e aquele instinto de rebeldia e de querer reivindicar, mas filtrado. Nessa altura, pela doença e pela fama instantânea, que não faz bem a ninguém, estava muito rebelde e com muita raiva acumulada, sabes?

 

Posso ter uma ideia, mas não sei o que é isso. O mais próximo que estive de o perceber foi quando chegaste ao Aeroporto de Lisboa, vindo de Kiev, depois de ganhar a Eurovisão. Estava lá nesse dia.

 

Acho que uma pessoa já fica completamente imune, já não sente nada. O corpo tem um mecanismo que diz: “ok, isto é demasiada emoção, é demasiada coisa para assimilar”, e então cria uma barreira. Já falei com muitos artistas que sentem a mesma coisa. A Silvia Perez Cruz sente muito isso, as pessoas são muito intensas com ela quando a veem. As pessoas agarram-se e ela tem de criar uma capa.

 

Essa capa fazia com dissesses coisas de que, se calhar, hoje te arrependes?

 

Muitas, muitas coisas que disse hoje arrependo-me. Era para afastar as pessoas, era uma espécie de reação... Não, não, não. Não me adorem porque eu não posso ser adorado, eu não sou assim tão bom.

 

Já se esgotou esse fenómeno da Eurovisão. Já sentes que o Salvador Sobral do festival, cá ou nos países onde tens concertos...

 

Não há uma única entrevista que dê que não comece por "o vencedor da Eurovisão de 2017". 

 

Nesta não começámos.

 

Mas isso acontece, especialmente lá fora, e vai estar sempre comigo.

 

Como o Amar pelos Dois vai estar sempre na setlist dos concertos?

 

Sempre.

 

Ou caminhas para uma despedida, a pouco e pouco, do tema ao vivo?

 

Acho que não. Ontem o Caetano Veloso cantou O Leãozinho, o José González canta a Heartbeats, o Damien Rice canta a The Blower's Daughter. Não me quero comparar com esses artistas, mas esse é o meu hit. Até estive um tempo sem o tocar, por altura do BPM. Mas hoje em dia tem de ser, e as pessoas gostam. Não te vou dizer que sinto a canção.

 

Era exatamente o que te ia perguntar. Sentes o mesmo ou sentes agora mais do que naquele período pós vitória na Eurovisão?

 

De vez em quando sinto a canção, mas muitas vezes estou a cantá-la porque as pessoas a querem ouvir.

 

Já a voltaste a cantar na Ucrânia?

 

Antes da guerra. Fomos fazer uma tour que passou por Odessa, Lviv, Kharkiv, Kiev, e eu adorei. Fomos naqueles comboios com beliches... E o público sentia que eu era um bocadinho deles, como ganhei lá a Eurovisão e também cantava umas canções em ucraniano. Senti que eram um povo super orgulhoso por ser ucraniano, como todos os ex-soviéticos, há um orgulho nacional. Não podia prever aquilo... [a guerra]. Vejo fotos de sítios onde tocámos completamente destruídos, é horrível. Tenho pessoas lá...

 

E recebeste alguém em tua casa.

 

Recebi a minha promotora lá, a Katherina. Dizias que não podias compreender o meu fenómeno de fama instantânea. Quando ela diz que tem medo que lhe caia uma bomba na rua, não posso perceber o que seja isso.

 

Participaste em dois concursos televisivos, um deles o Ídolos. Alguma vez te vamos ver num programa como o The Voice?

 

Nem pensar. Ofereceram-me [um lugar] no último. Não quero, não quero. Tenho o dinheiro que preciso para viver. Convidaram-me para um da SIC aqui há uns anos... Mas não, sentir-me-ia super mal com as pessoas que vão lá. Falar mal das canções e depois ouvir desafinar? Não me apetece nada. Quer dizer, vou a um sítio voluntariamente para ouvir desafinar. A vida já é tão curta para toda a música boa que há, porque é que tenho de ouvir uns adolescentes a mudar de voz a desafinar? Não me apetece nada.

 

O que é que estás a ouvir?

 

Deixa-me ver no telemóvel o que estou a ouvir. O último disco da Little Simz, adorava tê-la visto em Paredes de Coura. Djavan, sinto que ele tem uma canção bonita para todos os dias do ano. O Tim Bernardes, sempre. Beatles, obviamente. Acho que é isso.

 

Por: Rita Sousa Vieira

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