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RICARDO RIBEIRO EM ENTREVISTA
ENTREVISTA A RICARDO RIBEIROENTREVISTA A RICARDO RIBEIRO

"Os artistas devem dizer o que pensam e o que os outros não se atrevem a dizer"



“Nas noites mais escuras e estreladas parece que, quando estendemos a mão, conseguimos apanhar o firmamento”. A poesia em Ricardo Ribeiro não está só nos poemas e nos poetas que canta. Basta ouvi-lo, como aqui, a falar do seu Alentejo. O último disco do fadista, Terra que Vale o Céu, foi o pretexto para esta conversa com a Cultura FNAC. Como sempre, não deixou nada por dizer.

 





Quando é que um lisboeta de gema começou a tratar o Alentejo por ‘seu’?

 

Não tenho essa altura na minha mente. É uma coisa tão natural que acaba por ser quase impossível dizer quando é que senti que o Alentejo era meu. O Alentejo é um sítio que me traz uma paz e uma serenidade indescritível. Daí ter adotado esta terra para viver com a minha família. É uma questão interior, não sei muito bem explicar porquê e como.

 

Sentes, de alguma forma, que Lisboa deixou de ser tua?

 

Não, muito pelo contrário. A cidade de Lisboa continua a ser minha e eu continuo a amá-la de uma forma muito particular. Para mim, Lisboa é a cidade mais bonita do mundo. Continua a ser a cidade que mais me inspira. Para viver, neste momento... Sempre tive um espírito muito campónio. E Lisboa, quando eu era pequeno, também ainda tinha esse espírito. Ainda era uma aldeia grande. Entretanto deixou de o ser, passou a ser outra coisa. Não me cabe a mim avaliar ou qualificar se é melhor ou pior, simplesmente fazia todo o sentido vir para o Alentejo. Na fase da vida em que estou, eu e a minha família, foi importante vir para cá. Agora, Lisboa será sempre a minha cidade.

 

Não sentes falta de ter uma casa de fados à distância de uma rua?

 

Não, até porque vou com regularidade a Lisboa e às casas de fado. Eu estou num Alentejo muito próximo, a 80 quilómetros de Lisboa. Nem chega a uma hora de viagem.

 

Por vezes esquecemo-nos de que o nosso país não é assim tão grande.

 

E está a ficar cada vez mais pequeno, com a melhoria nas acessibilidades.

 

Vives em Cabrela, localidade que organizou, em 2023 e pela primeira vez, o Alentejo World Heritage Festival, um evento que juntou o cante alentejano, o fado e o flamenco. Parece um resumo da tua música.

 

São ironias do destino, ou não. Esse festival foi ótimo para Cabrela, trouxe muito público que não conhecia a Vila. Isso é muito importante. Eu não estava cá, mas constou-me que foi um bonito festival.

 

O que têm em comum o cante alentejano, o fado e o flamenco?

 

A melhor resposta é esta: nessas três expressões musicais pulsa o coração da Península Ibérica. Nelas manifestam-se também as três religiões monoteístas, há algo que as liga. Eu também sou isso, e não é de agora. Sempre reuni essas três expressões musicais numa só e na minha pessoa. Sou um iberista. Defendo que nascemos todos do mesmo corpo, com o mesmo coração, e vivemos todos do mesmo pulsar desta Península. É a mesma fúria de viver. O cante, o fado e o flamenco encontram-se na mesma languidez, o seu objetivo é o mesmo: cantar a vida, desde a alegria à tristeza.


De que forma este disco foi influenciado pelo Alentejo?

 

O Alentejo tem nele uma influência muito grande, e por isso mesmo lhe chamei de Terra que Vale o Céu. Não só no sentido literal, mas também no sentido filosófico. O Alentejo tem esta coisa, nas noites mais escuras e estreladas parece que, quando estendemos a mão, conseguimos apanhar o firmamento. Isso transparece na música, nomeadamente em temas como Terras dum Mar Interior, o Vira-Voltas, ou até mesmo o Sodade Meu Bem Sodade. São temas com muito espaço, algo que acontece muito por aqui. A própria maneira de cantar ou a serenidade que marca o disco também são influências do Alentejo. Como aqui o céu é imenso e o vento passa ajoelhado, depois da tempestade vem a bonança.

 

O título do disco é ‘roubado’ a um poema de Nuno Júdice. Como com ele, manténs uma amizade com outros nomes que escreveram para este trabalho. Isso é fundamental?

 

Sou amigo de quase todos. Uns mesmo amigo, outros mais conhecido. Com a Amélia Muge não tinha tanta convivência, o Nuno Júdice está mais próximo e da Carminho sou amigo desde sempre. Este disco também tem muita influência de filósofos portugueses. Quem comprar a edição física, tem lá uns pormenores e algumas frases que o explicam. O disco foi muito influenciado por Álvaro Ribeiro, António Telmo e Leonardo Coimbra, três filósofos de quem eu gosto muito. Os poemas e as cantigas foram aparecendo, de uma forma muito natural, através dos livros destes nomes. Mas não vou dizer como é que me influenciaram. Isso cabe a cada um, quando ouvir, perceber essa influência e porque é que ela lá está.

 

Na apresentação deste novo disco vem sendo repetida a ideia de que ele marca um regresso ao fado. Isto porque o Respeitosa Mente, de 2019, não era assumido como um disco de fado. Até recusaste uma nomeação ao prémio de Melhor Disco de Fado dos Prémios PLAY por considerares que não fazia sentido recebê-la nessa categoria.

É um regresso ou o fado esteve sempre presente?

 

Deixa-me dizer, quase em jeito de desabafo. É triste quando um artista em Portugal, ou em qualquer parte do mundo, mas particularmente cá, porque sou português e porque quero morrer em Portugal... Um tipo se não canta o fado, já não pode cantar mais nada. Na realidade, nós não somos nada, vamos sendo conforme o fluxo da vida. Portanto, é um pouco delicado e até constrangedor para uma pessoa como eu, um indivíduo inquieto e um espírito muito livre e voltado para a criação, ouvir dizer "ah, não canta fado". Ou quando temos a infeliz ideia de observar alguns comentários nas redes sociais que são um bocadinho desagradáveis.

 

O fado nunca deixou de estar em mim, simplesmente assumi um disco que não era de fados. Agora, enfim, se querem dizer que é um regresso ao fado, pois façam o favor. O fado nunca saiu de mim, nem nada que se pareça. Artisticamente falando, tenho todo o direito de fazer aquilo que devo fazer e aquilo que acho que os ouros precisam que eu faça.

 

Não te imaginava como alguém que dá atenção aos comentários nas redes sociais.

 

E não dou. De vez em quando, muito de longe a longe, lá me aparecem. Ou porque alguém manda, ou porque alguém acha graça. Sobretudo comentários a algumas entrevistas que dei ou a coisas que disse. Mas é raro, não perco tempo com isso.

 

Tens o hobby de restaurar mobílias antigas, de dar uma nova vida a um objeto com um passado e uma história. Recuperar um fado também é um trabalho de restauro? É como cantas: “não há cantigas velhas, só cantigas”?

 

Pode não ser um trabalho de restauro, pode ser simplesmente tirar o pó e trazê-lo da sombra para a claridade. A história do fado está repleta disso, e a mim ensinaram-me... Tive a sorte de ter velhos, e eles ensinaram-me que era preciso e era importante criar estilos novos. Quando se pega num fado há que acrescentar-lhe um estilo novo. Dentro das suas características, do seu linguajar, do seu idioma. É isso que eu faço. É como aqueles móveis que temos em casa, a um canto, e não sabemos bem porquê, mas gostamos dele. De repente, tiramo-lo da sombra e damos-lhe mais destaque. O suficiente para alguém reparar quando vem a nossa casa.

 

“Tive a sorte de ter velhos”. Os ‘novos’ não têm?

 

Não, não têm. Não só não têm essa sorte, como também têm um caminho que pode ser, por um lado, mais fácil, e, por outro, muito mais pesado. Mais fácil porque não têm pejo nem nenhum problema em fazer qualquer coisa, já que não têm termo de comparação ou quem lhes diga: "olha, cuidado". Por outro lado, depois não têm uma série de alicerces que são importantes. Quando se constrói uma casa é preciso fazer os caboucos e os alicerces certos para que o edifício se erga sem que tombe. Para erguer essa terra, e daí Terra que Vale o Céu, lá voltamos outra vez ao título, é preciso muitas coisas. Como perceber o que é a terra e como é que se a trabalha. Isso é muito importante neste tipo de canção e expressão musical. É tradição os velhos dizerem aquilo que acham e o que já experienciaram, como um farol. Hoje, os mais novos já não têm isso. O que pode resultar num grandessíssimo problema, o da banalização e da vulgarização desta canção, do fado. O que é uma pena, ele não merece isso. É tão rico e poderoso.


 

Dizias que não há termo de comparação. Acho, pelo contrário, que o fado cai sempre nesse vício da comparação quando aparece alguém novo.

 

Quando me referia ao termo de comparação não era nesse sentido. Era mais da sinalização do que é que está bem ou mal, qual é o caminho.

 

A comparação é própria do ser humano. Está relacionada com o fenómeno do ídolo, dos mitos e com os heróis. Também se pode explicar filosoficamente, ainda que não seja esse o objetivo da nossa conversa. Mas, geralmente, as pessoas que são catalogadas como o segundo — a nova Amália, o novo Fernando Maurício —, não o querem ser. Porque é uma tristeza ser o segundo, apesar de também ele subir ao pódio. O que queremos é ser nós próprios, não é ser o reflexo do outro.

 

Tens dito que a tua voz encontrou um espaço, tem a sua identidade. Quando é que ganhaste consciência disso?

 

Não sei se fui eu que percebi, se foram os outros que perceberam por mim. A maior riqueza que tenho em termos artísticos é essa — da minha vida pessoal e afetiva não falo. Quando me ouves, nesse exato momento, sabes que sou eu. Não é outra pessoa. É o timbre, a maneira de cantar, coisas que os outros não fazem... Não estou aqui a qualificar, dizer se é melhor ou pior, não é nada disso. Ter uma identidade estética e artística é a minha maior riqueza.

 

Não falas da tua vida pessoal nem dos teus filhos, mas cantas e dedicas-lhes uma música. Neste disco, El Kiko de Dina é dedicada ao teu filho mais novo.

 

Já tinha um tema dedicado à minha mãe e outro à minha filha Corolina, que já está na faculdade. Neste disco queria também ter um dedicado ao meu filho Francisco. O lado da mãe, da Diana, tem família em Espanha. Francisco, no sul de Espanha, na Andaluzia, diz-se Paco, mas no norte, em Pamplona, diz-se Patxi. Então ficou El Kiko de Diana. Foi uma cantiga que fiz ainda ele estava para nascer. Um dia, aqui na sala, peguei na guitarra e escrevi uma cantiga de embalar, com esses versos pequeninos, que parece que não dizem nada, mas dizem muito.

 

Ele ainda é pequenino, mas já o percebe?

 

Ainda não dá muita atenção, lá chegará o tempo. Mas ele adora música, gosta muito de mexer na guitarra. É uma criança muito especial... Os filhos nunca cheiram mal aos pais, não é?

 

Nunca entrevista recente à Blitz contavas que ainda chegaste a ter carteira profissional de artista.

 

Ainda tirei a carteira profissional no sindicato das Artes e Espetáculos.

 

Hoje já não existe, mas chegou a ser obrigatória para se poder cantar o fado.

 

Se calhar era importante que continuasse a existir, não haveria gente a cantar e a tocar tão mal. Hoje como estou meio adoentado, digo o que não devo, mas assumo-o. A carteira profissional às vezes faz muita falta, encontramos coisas que são terríveis, mas que ganham dinheiro e fazem sucesso. Não tenho pretensão de ser um educador das massas, está aos olhos de toda a gente.

 

Falas do fado ou da música em geral.

 

Em quase todas as áreas encontram-se coisas muito más. Felizmente, há outras muito boas.

 

Dizias que podes ter dito algo que não deves, mas se há pessoa na música que não tem filtros, essa pessoa és tu.

 

O meu objetivo não é insultar ou ofender. Por vezes, é preciso constatar... Os artistas devem dizer aquilo que pensem, sentem, e também o que os outros não se atrevem a dizer. Dando sempre o corpo às balas e arcando com as consequências.

 

Já falámos de comentários nas redes sociais e esse é um bom exemplo. É comum ler que o artista se deve limitar a cantar, tocar, ou a exercer a sua arte, e não deve exprimir a sua opinião.

 

Isso é uma falácia da lógica. Claro que os artistas devem dar a sua opinião, mas tendo em mente que quando o fazem vão arcar com as consequências. E as consequências não são os comentários nas redes sociais... Os artistas devem alertar, chamar a atenção para coisas que podem ser mudadas ou melhoradas. Afinal, o que é que nós queremos? Não é um mundo melhor? Com mais paz, com mais bondade, harmonia e fraternidade.

 

A última edição dos Grammys Latinos aconteceu bem perto de nós, em Sevilha. Pela primeira vez, os prémios que celebram a música latina, gravada em português e em espanhol, atravessaram o Atlântico. O flamenco esteve em grande destaque, claro. O que é preciso para que o fado tenha o mesmo espaço? Porque é que ainda não ocupa o mesmo palco?

 

O flamenco teve esse espaço porque estavam em Sevilha, e se não o colocassem lá estavam desgraçados. Depois, os espanhóis têm uma maneira de estar perante a sua cultura muito diferente da dos portugueses. Agora vou dar três respostas para essa pergunta.


A primeira é a resposta que o Professor Agostinho da Silva um dia deu: que nunca se deveria entregar um departamento cultural a um departamento económico. Depois, não se esqueçam que a última palavra d’Os Lusíadas é inveja. Na terceira cito um poema de João Dias: "menino, vou-lhe responder com um poema / menino de Espanha às costas, às sete portas do mar / o velho sonho em que apostas, quando o irás alcançar / menino de Espanha às costas, às sete portas do mar".

 

O que é que estás a ouvir?

 

O último disco da Norma Winstone, o álbum Loa, do grupo português Sete Lágrimas, e Leyriath, of music and legends (Cantigas de Alfonso X), um projeto de Ricardo Alves Pereira e Esin Yardimli Alves Pereira (TWB Ensemble).

 

Por Rita Sousa Vieira

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