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RAPHAEL MONTES EM ENTREVISTA
ENTREVISTA A RAPAHEL MONTESENTREVISTA A RAPAHEL MONTES

“Boa literatura é a que consegue entreter sem perder qualidade literária”



Raphael Montes, escritor e argumentista brasileiro, defende que entretenimento e qualidade literária podem e devem andar de mãos dadas. O “príncipe dos horrores”, que editou recentemente Suicidas em Portugal, quer acabar com o preconceito contra a literatura de género e não esconde o sonho de escrever uma novela para televisão em sinal aberto.





A Forbes apelidou-te de “queridinho do streaming” e a GQ de “hitmaker das palavras”, mas também já foste chamado de “príncipe dos horrores”. Quem é afinal Raphael Montes?

 

Diria que nada disso e, ao mesmo tempo, tudo isso. Sempre me vi, antes de qualquer coisa, como um contador de histórias. Enxergo o mundo através delas e é assim que expresso o que me inquieta ou desperta curiosidade. Quando um tema me incomoda ou me interessa, quando sinto que quero discutir algo, crio uma narrativa.

 

Um exemplo disso foi quando comecei a questionar o vegetarianismo. Porque comemos carne? O que nos dá o direito de comer o boi, o frango? Mesmo eu, que como carne, comecei a pensar: será que fazemos isso porque nos achamos melhores do que os animais? A comida, no fundo, está muito ligada ao poder e à experiência. Foi dessa reflexão que nasceu Jantar Secreto. Cada livro meu surge assim: de uma vontade de provocar, de instigar o leitor a refletir sobre temas específicos. Uso a violência, a mente humana e as suas complexidades como ferramentas para contar histórias.

 

Mas lidas bem com estes títulos?

 

Claro que fico feliz com o sucesso dos livros e com rótulos como “hitmaker”, mas brinco que sou uma certa deceção para quem me conhece pessoalmente. As pessoas esperam um escritor sombrio, sério, silencioso, e encontram um bon vivant, otimista, bem-humorado, até meio palhaço. Para alguns, isso chega a ser uma boa surpresa; para outros, talvez um choque. Outro dia, vi um comentário nas redes sociais de alguém que me imaginava como um senhor de noventa anos, de barbas brancas, que descobriu que sou um jovem de trinta. Acho que essa impressão vem dos meus livros, que tratam de assuntos pesados e incómodos — suicídio, canibalismo, machismo, homofobia —, sempre com muitas reviravoltas e tensão.

 

Gosto de escrever sobre temas provocadores, polémicos, que incomodam e fazem pensar. Talvez por isso me vejam como alguém mais sombrio do que realmente sou. A verdade é que levo a literatura muito a sério mas, como pessoa, não me levo tão a sério assim.

 

Ser lido, ou querer ser lido por muitos, ainda é visto com maus olhos. Porquê?

 

Também me faço essa pergunta. Sem dúvida, ainda existe essa ideia de que entretenimento e popularidade não andam juntos com a qualidade literária. É como se, quando um autor começa a ser muito lido, antes mesmo de o lerem, já decidissem que o trabalho não é bom. Na minha opinião, isso é um equívoco — para não dizer uma ideia burra. Existem autores populares que têm grande qualidade literária, assim como há autores excelentes que, infelizmente, não são populares. Uma coisa não exclui a outra.

 

E, para ser sincero, quando começo a escrever uma história, não penso nem um pouco em popularidade ou no alcance que ela pode ter. Eu escrevo as histórias que gostaria de ler. Para mim, isso é essencial: contar histórias que me movem. Escrever um livro é um compromisso longo, levo dois ou três anos para terminar um, então preciso estar completamente envolvido com aquela história. Não dá para escrever pensando nos outros. A primeira pessoa para quem escrevo sou eu mesmo. Claro que fico muito feliz quando, depois de publicado, o livro chega aos leitores — e jamais desvalorizo esse público —, mas são momentos diferentes. Primeiro, escrevo pensando no que eu gostaria de ler; depois de o livro ser lançado, ele deixa de ser meu e passa a ser dos leitores.

 

Ainda assim, especialmente na literatura de género — policial, terror, ficção científica —, existe o preconceito de que, por trabalhar com mecanismos narrativos clássicos e ser visto como entretenimento, é algo menor, de qualidade inferior. Eu discordo completamente. Para mim, boa literatura é a que vai pelo meio do caminho: consegue entreter sem perder qualidade literária.

 

Não dizem isso ao Stephen King, aposto.

 

Diziam, sem dúvida nenhuma. Essa é justamente a questão. A literatura de que eu gosto — e não estou a falar apenas de literatura de género, mas de literatura em geral — é uma literatura que segue pelo meio do caminho. O Stephen King é um exemplo perfeito disso. Ele é um autor de género, claro, e entretém. Mas, ao mesmo tempo, tem qualidade literária. Experimenta narradores diferentes, procura formas diferentes de contar uma história. Usa a ferramenta do trabalho dele, a linguagem, para experimentar. E é isso que, para mim, faz parte da boa literatura.

 

Há outros autores que admiro que também conseguem esse equilíbrio. Ian McEwan, por exemplo, que escreve em inglês e não é considerado autor de género, entretém e tem qualidade literária. No Brasil, temos Rubem Fonseca e Machado de Assis, que é um clássico.

 

No Brasil, por exemplo, ganhei o Prémio Jabuti com Uma mulher no escuro, na categoria de Romance de Entretenimento. E havia outra categoria chamada Romance Literário. Brinquei na altura dizendo que nem sabia de quem tinha mais pena: se de mim, que aparentemente não era considerado literário, ou do outro vencedor, que ganhou o prémio de literatura mas, em teoria, não entretinha ninguém. Deve ser um livro chatíssimo.

 

Quem venceu na categoria de Romance Literário?

 

Itamar Vieira Júnior, com Torto Arado. Que, claro, não é chato, foi só uma piada. Mas brinquei dessa forma para mostrar como essa separação entre entretenimento e literatura não faz muito sentido.

 

O que torna a literatura de suspense e o thriller tão cativantes para os leitores?

 

Eu costumo brincar que o maior elogio que posso receber como escritor é dizerem-me que, ao ler os meus livros, voltaram a gostar de ler. Fico muito feliz por servir de porta de entrada a leitores no universo do suspense e do thriller. O que me fascina — e acredito que fascina todos os que gostam do género — é que a literatura policial e de crime trabalha, essencialmente, com dois elementos: violência e mente humana. E são dois elementos com os quais convivemos todos os dias. Acho que vem daí a curiosidade humana, conhecer esse lado sombrio, sentir a emoção, o arrepio, o frio na barriga, mas sem correr riscos. Você sente toda essa tensão na segurança das páginas de um livro.

 

A mente humana somos nós. E, quando se escreve sobre violência, no fundo está-se a escrever sobre a sociedade. Alberto Mussa, um autor brasileiro de quem gosto muito, diz que um país não se define apenas pela sua linguagem ou pela sua cultura, mas também pelos seus crimes. E eu concordo. Quando se escreve ou se lê literatura policial, acaba-se por visitar os cantos mais obscuros do ser humano — talvez até os seus próprios —, e é bom que se possa fazer isso através da literatura e não na vida real.

 

Dizem que és responsável pelo boom do género no Brasil. Há uma identidade brasileira no que escreves?

 

Quando comecei a escrever literatura policial, por volta de 2010, diziam-me que no Brasil não havia tradição nesse género. Alegavam que o Brasil não combinava com histórias de crime porque, apesar de todos os problemas, é um país conhecido por ser solar, com um povo alegre, para cima — e faltaria aquele clima nublado e sombrio de um nevoeiro londrino, que parece ideal para narrativas policiais.

 

É claro que fui procurar quem já tinha feito literatura policial no Brasil. Encontrei alguns autores, como Rubem Fonseca, Patrícia Melo e até o Jô Soares que, apesar de ser mais conhecido como apresentador, escreveu alguns livros que misturam humor e suspense. Mas, de facto, não havia — e ainda não há — uma tradição forte nesse género. Os meus livros, aqui entre nós, não são romances policiais clássicos. Eu costumo brincar que escrevo “romances policiais sem polícia”. O que faço está muito mais próximo do suspense psicológico, do thriller, do que do policial tradicional.

 

Na altura, diziam-me que não ia resultar, que o público brasileiro não se interessava por histórias de crime ambientadas no Brasil. Mas, como já disse, eu escrevo primeiro para mim. Queria livros passados em Copacabana, no Rio de Janeiro, no meio do Carnaval, com toda a atmosfera brasileira, mas com uma boa história de crime. Então, escrevi o que queria ler. E, felizmente, essas histórias encontraram um público que se encantou justamente com esse toque brasileiro, com o humor ácido, com o olhar crítico, com referências como Caetano Veloso. Os leitores reconheceram a própria cultura nos livros e isso, acredito, fez toda a diferença.

 

Há potencial para uma “escola brasileira” de thriller, com identidade própria?

 

Sem dúvida. Quando os meus livros começaram a chegar a um público maior e a conquistar leitores no Brasil, vários editores me procuraram a perguntar se eu conhecia outros autores que também escrevessem suspense ou literatura policial. E, nesse sentido, fui indicando gente nova — autores e autoras que escreviam, mas ainda não tinham uma grande editora. Agora, se me perguntas se vejo um boom, um movimento organizado surgindo… Honestamente, não sei. O que eu torço para que aconteça é algo mais próximo do que já existe nos Estados Unidos. Lá, a literatura policial tem muita tradição e uma enorme variedade de subgéneros: tens autores de suspense médico, de suspense psicológico, de noir, de terror físico. E, aqui entre nós, tens os muito bons… e os muito ruins. O que é bom, porque só com essa variedade é que se cria um mercado forte e um público leitor fiel.

 

No Brasil, às vezes sinto-me um pouco solitário nesse sentido. Fico feliz que os meus livros de suspense cheguem aos leitores e vendam bem, mas adoraria ter mais colegas a publicar, a criar um diálogo entre contemporâneos do género. Existem outros autores, sim, mas ainda sem grande alcance. Por outro lado, algo mudou muito nos últimos anos e isso, para mim, é até mais importante do que criar uma “escola” de thriller: hoje, nos grandes eventos literários, como a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, as estrelas já não são apenas os autores estrangeiros. Quando comecei, os convidados mais esperados eram sempre norte-americanos, bestsellers. Agora, os grandes nomes são brasileiros contemporâneos.

 

A popularidade do true crime tem criado leitores de thrillers?

 

Não sou um grande fã de true crime, porque o que me interessa numa história de crime ou policial, como já disse antes, é a mente humana e a forma como a violência permite discutir questões da sociedade. A violência real, do true crime, muitas vezes é tragicamente banal, tragicamente boba e aleatória.

 

Quem são as tuas referências literárias?

 

As minhas principais referências vêm dos romances policiais clássicos, autores como Agatha ChristieArthur Conan DoyleRaymond ChandlerDashiell Hammett e Patricia Highsmith, uma escritora norte-americana de quem sou grande admirador.

 

Claro que a literatura que faço não é nada clássica. Não tenho um detetive fixo, não é uma série com o mesmo investigador. Os meus livros têm muitos plot twists e um nível de violência bem diferente dos clássicos.

 

Um bom thriller precisa sempre de plot twists?

 

Os plot twists são um recurso para convidar o leitor a continuar a ler. Mas o que me interessa mesmo não é o plot twist em si, e sim o que está por trás dele: a provocação, as questões que quero debater. Se fosse apenas um livro de reviravoltas, não teria graça para mim.

 

O que procuro é equilibrar duas coisas: os plot twists, que mantêm o leitor preso à narrativa, e, ao mesmo tempo, personagens complexas, dúbias, nada fáceis de gostar. Esse equilíbrio, para mim, é o mais interessante.

 

Temos de falar de Suicidas, o livro que marcou a tua estreia literária e que acaba de ser editado em Portugal. Com o distanciamento que o tempo proporciona, qual é a tua visão sobre ele?

 

Uma vez publicados, não releio os meus livros. O Suicidas é uma exceção, porque tive a chance de reler quando foi reeditado no Brasil. Mas o Rafael que releu o livro queria mexer, corrigir, e ficou envergonhado de ter escrito algumas coisas. Ao mesmo tempo, recordei-me do Rafael de 16, 17, 18 anos que o escreveu, com todas as suas ambições, medos e sonhos. Pensei que esse Rafael não gostaria nada que eu mexesse no livro.

 

Vejo Suicidas como um livro bastante ousado, destemido, pelo qual tenho muito carinho. Hoje já tenho leitores, sei que a imprensa vai ler e, por mais que tente escrever sem pensar em nada, essa sombra está sempre presente. Naquela época, não havia nada disso, eu não tinha nada a perder. Agora, em relação a muitos temas, fico a pensar: “Meu Deus, será que posso escrever sobre isto?”. Mas acabo sempre por escrever.

 

A minha geração cresceu com as novelas brasileiras. Como foi escrever uma?

 

Somos da mesma geração, eu também cresci a ver novelas. Antes de consumir literatura, teatro ou cinema, a primeira narrativa que acompanhei foram as telenovelas. Por isso, quando, através dos meus livros, fui convidado para escrever para audiovisual, cinema e televisão, aceitei logo, pensando que eram trabalhos parecidos. Mas, quando comecei, percebi que fazer literatura e fazer cinema ou televisão são coisas completamente distintas, desafios bem diferentes. Fiz alguns projetos de séries, escrevi Bom Dia, Verónica, uma série da Netflix que também podem ver aqui. Foi então que surgiu o convite para escrever uma novela para a HBO Max — Beleza Fatal. O convite veio porque eu andava a dizer por aí que queria ser autor de novelas.

 

O que torna as novelas brasileiras tão especiais?

 

Eu gosto de novelas. Fui formado pelas novelas. E as novelas no Brasil tinham uma característica muito interessante que, a meu ver, eram junto com a música o produto mais autoral brasileiro.

 

E o que explica o sucesso de Beleza Fatal?

 

Quando me convidaram para escrever Beleza Fatal achei o desafio interessante. Era diferente, porque era uma novela para streaming, toda escrita de antemão. Uma das delícias da novela é escrevê-la enquanto o público assiste, podendo mudar a história conforme o público aceita uma personagem ou quer ver algo mais. Mas esta novela era menor, só 40 capítulos. E, quando comecei, percebi que não havia limites; ninguém me dizia o que podia ou não fazer. Como já devem ter percebido pelos meus livros, gosto de forçar os limites. Quando não há limites, é uma festa.

 

Decidi, então, fazer uma novela absolutamente diferente do que é tradicional no Brasil. Beleza Fatal começa de forma tradicional — os primeiros cinco, dez capítulos são mesmo clássicos. Mas, a partir daí, aprofundo as personagens, viro a trama de uma forma que aproxima mais de uma série contemporânea, tanto nos acontecimentos como na complexidade das personagens.

 

Começo com arquétipos — a vilã, a mocinha, a mãe — mas, com o tempo, vamos percebendo que a mãe tem outros lados, a vilã não é tão má, a mocinha não é tão boa; vou desconstruindo tudo. Acho que foi isso que atraiu um grande público no Brasil, especialmente os jovens.

 

Recebemos relatórios, e algo que me deixa muito feliz é que Beleza Fatal foi a primeira novela de muita gente. Muitos com 15, 16, 17, 18 anos nunca tinham visto novelas antes, e esta foi a primeira que assistiram. Tentei trazer, de algum modo, o que talvez seja a nova forma de fazer novela.

 

Acreditas que a novela ainda tem força para influenciar debates sociais e comportamentos, como fez no passado com temas como racismo, saúde pública, ou os direitos das mulheres?

 

A televisão brasileira vem passando por mudanças, como a televisão no mundo inteiro. O streaming diminuiu o número da audiência mas, a meu ver, o alcance ainda é muito grande. Ou seja, ainda hoje são 30 milhões de brasileiros assistindo um capítulo de novela todos os dias.

 

O que lamento e vejo que se perdeu é a tal autoralidade. E isso foi algo que acabei conseguindo criar pelo meu trabalho fora do meio tradicional de se fazer televisão. Com o Bom Dia, Verónica acabei criando uma certa marca de autor de thriller e suspense e com Beleza Fatal acho que levei isso a um outro lugar. Tem suspense, tem humor, tem histórias de família, tem histórias edificantes, tem romance, tem de tudo.

 

Estás aberto a outros desafios?

 

Teatro é algo que sempre quis fazer, mas nunca fiz. Também tenho vontade de escrever um musical e de dirigir cinema. Tenho muitas vontades. Como contador de histórias, o que me fascina mesmo é perceber até que ponto o lugar onde conto a história muda a própria história.

 

Dou um exemplo: a novela na televisão aberta sempre me intrigou porque tem muitos capítulos, mais de duzentos. O espectador que assiste todos os dias precisa sentir que a trama avança diariamente. O que só vê às segundas e sextas deve entender tudo quando chega à sexta. E até quem decide começar cinco semanas depois precisa de acompanhar sem se perder. É muito interessante essa dinâmica de avançar e travar, avançar e travar. É, de facto, uma verdadeira engenharia narrativa, e isso atrai-me muito. Sou movido por desafios e por essa vontade de experimentar. Nem que, no fim, diga: “Não gostei, não quero fazer mais”.

 

O que estás a ler?

 

Estou a ler um livro — e vou dizer que é um livro inusitado, chamado Perplexing Plots. É um livro teórico, do David Bordwell, um teórico de cinema e dramaturgia. Ele morreu há poucos anos e este foi o último livro que escreveu. Nele, analisa justamente o interesse das pessoas por histórias de crime, não só na literatura, mas também no cinema — especialmente no film noir. É um livro muito interessante, e em alguns capítulos fala de autores que adoro, como a Patricia Highsmith.

 

Há, inclusive, um capítulo inteiro dedicado ao tema de que já falámos: porque, durante muito tempo, a literatura policial e as histórias de crime foram consideradas um género menor? E como o film noir provou que era possível usar a estrutura do policial para fazer cinema — e literatura — com letras maiúsculas.

 

Na ficção, estou a ler um romance que trouxe para Portugal: Como Nascem os Fantasmas, da Verena Cavalcante, uma jovem autora brasileira de terror e suspense. Acabou de sair no Brasil e estou a gostar bastante.

 

Que novos livros levas na bagagem de regresso para o Brasil?

 

Por enquanto não comprei nenhum, mas gosto muito do Afonso Cruz. Quero ver o que há de novo dele e do João Tordo.

 

Por Rita Sousa Vieira

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