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Que portas o Viagens abriu? Não só para ti, enquanto músico, mas também para a música portuguesa?
Eu já era músico na altura. Tinha um percurso que vinha de muito palco, de muita estrada. Era músico de jazz, e quando se é músico de jazz, nunca mais se deixa de ser músico de jazz. É-se para sempre. Vinha da clássica, também — e aí, sim, deixa-se de ser; no jazz não. Dirigia um grupo, o Rhythm and Blues, já a cantar em português, quando edito o Viagens.
O Viagens era um disco em linha com as grandes tendências que cruzavam, nessa altura, uma influência do jazz com a Talking Loud, com o Gilles Peterson e com as estéticas nova-iorquina e londrina, sobretudo. Estamos a falar dos anos 90, e essas músicas, da vanguarda estética, também passavam nas discotecas. Chamava-se a isso de acid jazz. Como músico, já viajado, porque corri o mundo a tocar como contrabaixista, tinha a impressão de que poderia adaptar isso à escrita em português. Sempre fui muito próximo da língua portuguesa: sonho em português, amo em português. Quando dou com o martelo nos dedos, praguejo em português. Portanto, era mais fácil a aproximação, estética, política e sociológica ao meu universo em português, do que fazê-lo, como na altura estava muito na moda em Portugal, em inglês.
E quando falo em acid jazz, também estou a falar daquilo que era a emergência do hip-hop. O hip-hop estava a dar os primeiros passos em Portugal, o rap também. As canções É Preciso Ter Calma e Socorro acabam por ser as primeiras... Eu não queria usar a expressão, porque não quero meter a foice em seara alheia, mas acabam por ser as primeiras canções com uma estrutura e com um flow de hip-hop a passar na rádio e a ter grande sucesso. Isso também ajudou muito àquilo que se pode considerar a grande música negra portuguesa, que estava também na altura a nascer.
É nesse ano, em 1994, que é lançada a compilação Rapública, a primeira compilação de rap português.
Exato, mas há uma distância cronológica bastante grande e, sobretudo, uma consequência política e estética. O Viagens tornou-se um disco viral. Nessa altura, os concertos aconteciam em todo o lado e eu tinha um bar. A discoteca era um local de espetáculos, era mais um palco. Não havia tantos festivais — aliás, não havia quase nenhum — e as discotecas faziam parte do circuito. Músicas como a Não Posso Mais, Socorro e É Preciso Ter Calma passavam incessantemente nas discotecas. Saía-se da discoteca, sintonizava-se o rádio e, nas rádios, em qualquer estação, fosse ela nacional ou regional, voltávamos a ouvir essas músicas. Portanto, essa é a consequência que o Viagens tem. Já existiam grupos de hip-hop em Portugal, underground, que começaram a emergir um bocadinho empurrados pela dinâmica que o Viagens criou.
Se este disco tivesse saído com uma conjuntura político-social diferente, tinha sido recebido da mesma forma? Ou foi o disco que serviu de combustível?
O artista é sempre um fruto do seu tempo. Se não é um fruto do seu tempo, a palavra “artista” não está lá. É outra coisa. É um entertainer, é um revivalista, é o que se quiser, mas o artista é um fruto do seu tempo. Para já, admitamos esta premissa: o Viagens reflete o seu tempo. E reflete o seu tempo mais através de uma canção que eu não incluí no disco de propósito. Uma canção que teve muitíssimo impacto e que comecei a tocá-la em 1992, ao vivo, na estrada.
Falo da Talvez Foder, onde a palavra foder é a menor das obscenidades. Porquê? Porque a canção retratava, já na altura, a obscenidade que é lançar bombas em cima de inocentes, nomeadamente o conflito israelo-palestiniano. "Há mortes na Palestina / Há feridos em Israel / Conversações que não saem do papel / E eu e tu o que é que temos que fazer?". O que queria fazer, no fundo, era uma espécie de mea culpa. E, afinal, o que é que nós andamos aqui a fazer? Ora, essa canção, infelizmente, em algumas partes ainda está atual. O caso do conflito israelo-palestiniano é evidente, mas há outra frase que diz: "Há fascistas em Berlim e em Moscovo / É o discurso que de velho se faz novo / E eu e tu o que é que temos que fazer?". Às vezes é preciso palavras destas para se combaterem coisas piores.
O Viagens é um disco reflexivo do seu próprio tempo, o que não quer dizer que não haja canções que continuem atuais. Mas o disco tem uma certa raiva de lutas que já tinham acontecido antes, do mesmo Governo, do mesmo primeiro-ministro — que depois foi Presidente da República, infelizmente —, que foi uma famosa carga policial numa fábrica na Marinha Grande. E essa carga policial, uma carga violentíssima, que fazia lembrar os tempos do Estado Novo, resultou em inúmeros feridos. Se hoje isso acontecesse, o Governo caía. Eu achava, e pelos vistos acharam os portugueses logo a seguir, nas eleições, que esse tipo de atitude tinha de acabar, e foi disso que comecei a falar. E as pessoas começaram a dizer: afinal, se calhar, aquele careca tem alguma razão, isto não se pode admitir. Não se pode bater nas pessoas, nem mandar atirar sobre elas. Tiros sobre as pessoas. Estamos a falar do professor Cavaco Silva e do ministro da Administração Interna, Dias Loureiro. E é bom que essas coisas tenham nome. Os últimos tiros disparados sobre manifestantes têm o nome do Dias Loureiro, e é bom que ele fique associado a isso antes que se comecem a inaugurar ruas, praças e estátuas com o seu nome.
Enquanto músico, achei que se calhar não era mau nós acabarmos com isso, e é por isso que a estética e a ética são irmãs. O disco teve um papel forte, felizmente, nas mudanças que aconteceram.
Hoje um disco teria essa mesma capacidade, com a rapidez e com a quantidade de música que é lançada?
Porque é que há a rapidez na quantidade das músicas que são lançadas? Uma das razões é a democratização dos meios. Mas outra razão é também a pouca empatia que as músicas geram, porque se elas gerassem uma grande empatia não era necessário estar sempre a lançar música. A empatia emocional, digamos assim. Algumas fazem-no. Mas continua a ser — e isto é uma análise meramente pessoal — necessária uma profundidade lírica. Que alguns têm, admito. Mas essa profundidade lírica tem de ser alicerçada também numa profundidade harmónica, e consequentemente numa espécie de estrutura que a canção tem desde a Antiguidade Clássica. Estou a referir-me, naturalmente, à Grécia Antiga. Estou a referir-me aos trovadores. Os trovadores cantavam histórias de amor ou de injustiça, de decapitação do bobo ou de enaltecimento das virtudes de uma dama.
Até hoje, até na canção-pop. Não é despiciente pensar que os sucessos da Olivia Rodrigo ou da Taylor Swift têm a ver exatamente com isso. É que, quer uma quer outra, para além da técnica dos beats, trabalham a canção. E é por isso que as canções delas são menos necessárias de substituir com rapidez. Quando a música se alicerça só num padrão técnico, aquilo que hoje se chama beats, a tal democratização dos meios, é mais difícil construir essa empatia. O beat não é tão empático. Funcionam muito bem encadeados uns com os outros, as músicas funcionam bem encadeadas umas com as outras, mas cada uma por si só não cria a comoção de uma Purple Rain, de uma I Hope the Russians Love Their Children Too [Russians], por exemplo. E há muitas outras. O rock aqui tinha um papel fundamental. Incrível como grupos como os Smashing Pumpkins se tenham deixado avassalar também por este princípio da tecnologia, mas, por outro lado, temos grupos como os Fontaines D.C. que, maravilhosamente, estão a recuperar esse formato. E com grande sucesso.
Uma vez mais, somos filhos do nosso tempo. Precisamos ver agora que discos têm impacto para nós percebermos que tempo é que vivemos.
Quais eram as tuas ambições artísticas nessa altura?
Eu tinha 31 anos quando comecei a fazer o Viagens. Já não era um miúdo. E tinha muita tarimba, muita estrada, mesmo muita estrada, muitos palcos. O sucesso chega e ninguém fica igual, é como a morte. Mas nunca foi um objetivo, e muito menos a fama, essa busca pelo imediato. A fama é uma consequência de algo que se produz, não deve ser nunca um objetivo. Eu sempre me dei muito mal com esses fatores, e continuo a dar-me. Os óculos escuros, aliás, são isso. Portanto, as minhas expectativas eram só musicais. Trabalhava com um fantástico músico, o Mário Magalhães, e com o Kiko Serrano. O nosso objetivo era fazer um disco maravilhoso, musical e literário; com letras, com poemas. A expectativa era essa, tudo o resto era uma mais-valia.
Já agora, e porque estamos na FNAC a falar de discos... Quando o disco sai, a editora acreditava tanto nele que mandou vir dois mil exemplares, que esgotaram no mesmo dia. A editora acreditava tanto no disco que mandou vir mais dois mil exemplares. Mandar vir significava mandar fabricar, vir de camião e colocar nas lojas. A terceira vez que a editora fez nova remessa, pediu mais dois mil discos. Foram três meses de tortura. Tortura! De incapacidade de a editora perceber que havia um país que estava a mudar e que estava a abraçar aquela música como a música do tempo. A editora estava tão preparada para isso como eu, só que eu fui mais rápido a perceber.
Numa entrevista de 1994, ao saudoso Made in Portugal, assumias que “viemos preencher um espaço no panorama musical português, não viemos preencher o lugar de ninguém”. Já tinhas consciência de que o disco, mesmo tendo sido recusado por todas as editoras, tinha uma sonoridade diferente.
Atenção, exatamente porque o disco foi recusado por todas as editoras é que eu tinha noção de que aquilo era diferente. As próprias editoras diziam: What? Porque andavam todas à procura de uma repetição do que estava para trás. Seja lá o que for que estava a dar na altura, era isso que elas queriam.
Na altura consideravas-te mais intérprete ou escritor de canções? E hoje?
Na altura considerava-me intérprete porque me havia forçado a assumir... Porque é que eu dizia que era intérprete? Porque não arranjava ninguém para interpretar aquilo. As minhas músicas têm um lado sujo, sujo no sentido de não serem perfeitas. A minha voz está cheia de reminiscências das minhas viagens pelo mundo, das latas de sardinha que comia porque estava com fome. Aliás, o disco chama-se Viagens por causa disso. A minha música não é perfeita, a minha voz não é perfeita. Reparo nisso nas interpretações que fazem das minhas músicas. As músicas ficam estéreis, estão muito bem cantadas, mas há qualquer coisa ali que falta.
Num trabalho feito há uns anos pelo Observador, a propósito dos 25 anos do Viagens, o Mário Barreiros partilhou que a PolyGram propôs editar o disco, mas com a condição de que teria de ser cantado por outro intérprete. Quando é que soubeste disso?
Só soube muito recentemente, mas acho isso genial, é de um executivo. Um executivo qualquer de gravata a dizer assim: 'ah estas canções são muito boas, as letras são muito boas, mas a voz...'. E claro que percebo o ponto de vista dele, mas é por isso que ele é um executivo. Era como se eu chegasse lá e dissesse como gerir a editora. Se calhar até tinha mais jeito para gerir, nomeadamente no que diz respeito a mandar vir remessas — e aumentava os ordenados dos trabalhadores.
O disco atraiu várias gerações, mesmo as mais novas. Conseguiste repetir esta consensualidade na tua carreira?
Logo a seguir, com o Se Eu Fosse Um Dia O Teu Olhar. Muitas músicas conseguiram-no. Por exemplo, a Para os Braços da Minha Mãe, ou a recente Que O Amor Te Salve Nesta Noite Escura. Há um certo barómetro. Não são visualizações no YouTube, mas a quantidade de vezes que meninos, crianças, as interpretam nos programas de televisão.
Apesar disso, esse é um período que não se repete. E viver com os olhos no passado é um bocadinho doentio. Eu estou a revisitar [esse período] nesta entrevista e com muito gosto, mas é um período onde eu não queria estar. Outro dia eu li uma frase do Prince, esse grande, grande, grande músico, que eu subscrevo. Ele que dizia que, quando as pessoas lhe pediam para soar como soava lá atrás, “isso diz mais sobre as pessoas do que sobre mim”. O artista está sempre à frente, o público é sempre um bocadinho mais reacionário. E porquê é que as pessoas gostam que nós soemos à antiga, como soávamos antigamente? Porque antigamente tinham menos 30 anos. O artista não quer lá voltar, o artista gosta de envelhecer e de amadurecer.
Não resisto aqui a usar este termo, mas não estás amarrado ao passado.
Não estou amarrado ao passado, se estou amarrado a alguma coisa é ao futuro. Aquilo que ainda não fiz, é o que me dá ambição de continuar. De que é que adianta acordar de manhã com essa sensação de que eu fiz tudo? Ou de que tive muitos sucessos? O risco de falhar faz parte da essência artística do indivíduo. Quando se tem medo do risco ou do ridículo, é sinal que se está na profissão errada. Há outras profissões mais interessantes: contabilista, notário... Aí é mais difícil errar, porque as coisas todas têm procedimentos próprios. Nesta área, errar é muito fácil, e ainda bem.
Já passaram 30 anos, eu sei. Várias entrevistas, documentários, especiais. Ainda há alguma história deste período que ainda não tenhas contado ou que guardes com carinho?
A melhor pessoa para responder a isso é o meu diretor musical, o Cláudio Souto, fundador d’Os Bandemónio. As histórias que eles tinham de estrada eram muito engraçadas. Bom, eu tenho uma também muito engraçada, passada em Bragança, numa Queima das Fitas. Eu fiz assim um sinal [faz gesto] e os óculos saltaram. Saltaram mesmo. Foram parar ao meio do público, uma multidão que se esmagava. E eu comecei a rir. Na altura não havia ainda telemóveis, claro. Não havia ainda essa praga. Passado um minuto, os óculos passaram de mão em mão pelo público, chegaram à linha da frente das baias de segurança e vieram ter às minhas mãos.
O que é que podemos esperar destes concertos, Viagens 3.0, na MEO Arena, em Lisboa, e da Super Bock Arena? Vais tocar o disco na íntegra?
Vamos tocar o disco. Não sei é se eventualmente fica apenas uma canção de fora. Aliás, ao longo destes anos, temos feito várias versões daquilo que estava no disco. É difícil fazer um concerto e não tocar a Não Posso Mais, a Socorro, a Tudo O Que Eu Te Dou. E porquê é que se chama 3.0? Porque não é o Viagens, é o Viagens 3.0. É sobretudo um olhar para o futuro. Eu compreendo que as pessoas querem ouvir as coisas parecidas com o disco, nós vamos ali num compromisso de arranjos novos, sonoridades novas e também uma homenagem aos momentos iconográficos do disco. Infelizmente, o Maceo Parker está com alguma idade e não o conseguimos ter. É uma das minhas maiores mágoas, porque também foi dos momentos mais bonitos, musicalmente e pessoalmente, pelos quais eu passei.
No final do programa Vejam Bem, da RTP, dedicado a ti — É Preciso Ter Calma —terminas a dizer: “tenho a certeza de que ainda não fiz o disco que quero”. É o próximo disco, ou esse ideal é o motor da criatividade?
Estou a fazer dois discos neste momento. Um já está pronto, mas não faz sentido sair agora. Depois dos espetáculos, talvez. Mas já estou a trabalhar num outro, na sequência desse.
O disco ideal... Já ouvi muita gente dizer que nunca está contente com a sua própria obra. Eu estou sempre contente com a música que faço, até certo ponto. Depois ela tem de ser transposta para a matéria física, ou para o streaming, ou para o disco. Portanto, já não posso intervir nela. Aí tem de haver um sentimento de libertação. Mas há sempre o sentimento de frustração, de que não é bem isto. E esse sentimento de frustração, de incompletude, também é o motor para a próxima música.
É curioso ver a ligação das pessoas, e eu aqui quando digo das pessoas, digo do povo português. É por isso que a canção é cega, não olha a género, não olha à raça, não olha ao clube de futebol, não olha à idade, a canção vai a todo lado. E a relação do povo português com as minhas letras emociona-me. Porque se a minha música fosse só música, eu certamente fazia um disco de três em três meses, mas a minha música é sobretudo palavra, e é por isso que eu demoro muito tempo, é como escrever um livro. A relação que as pessoas têm com as minhas letras, com canções obscuras, que nunca foram singles...
O que é que estás a ouvir?
Assim de coisas muito recentes, estou a ouvir Travis Scott, Slow J, Profjam, T-Rex. Estou a ouvir um sujeito de que gosto muito, que é o Jack Antonoff, que produz a Lana Del Rey... Atenção, estou a ouvir Lana Del Rey ad eternum. E, sobretudo, ouço muita música clássica. Para especificar, oiço muito Maria João Pires e música antiga, que vai do século III até o século XIV.
E o que é que estavas a ouvir em 1994?
Estava a ouvir Right Said Fred — I'm Too Sexy For My Love, Too Sexy For My Shirt —, Stereo MCs —To The Left, To The Right, Step It Up, Step It Up, It's Alright —, PJ Harvey, Smashing Pumpkins, Massive Attack, Depeche Mode, música clássica e jazz, muito jazz. Mas um músico que só ouve música, não é músico. O músico deve ouvir música lendo. Ler, viajar, ler, e sobretudo ser humilde consigo próprio.
Por Rita Sousa Vieira
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