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Clarice Lispector tem um séquito de admiradores, como destaca À Procura da Própria Coisa, biografia escrita por Teresa Montero e recentemente editada em Portugal pela editora Narrativa. Quando percebeu que era filho de uma escritora de culto?
Foi uma situação curiosa. Por volta de 1962-1963, quando eu tinha entre 9 e 10 anos, alguns escritores e jornalistas russos foram à nossa casa. Fiquei encarregado de levar a bandeja com os cafezinhos, mas, ansioso com a ocasião, tropecei e derrubei tudo no chão. Naquele momento, percebi que algo de maior estava acontecendo — minha mãe não era apenas minha mãe, mas alguém que despertava interesse e admiração.
Como era Clarice Lispector, a mãe?
Sempre esteve atenta às nossas necessidades, não apenas as básicas, mas também ao que sentíamos e pensávamos. Se preocupava genuinamente com nosso crescimento e desenvolvimento.
O que partilha com ela?
Acredito que herdei um pouco da sensibilidade e da capacidade de observar os outros com interesse genuíno.
Sente-se responsável por preservar e divulgar o legado literário da sua mãe? Essa é a sua missão?
Minha trajetória profissional é na economia, área em que publiquei cinco livros, além de ter escrito dois romances históricos e três infantis. Ou seja, gosto de escrever, mas minha ligação com a literatura é diferente da dela. Ainda assim, acompanho de perto todas as publicações relacionadas com a obra de Clarice, supervisionando novas edições e fazendo sugestões sempre que necessário.
Como vê o papel das novas edições e traduções na difusão da obra de Clarice Lispector?
O interesse internacional por sua obra tem crescido bastante. Além das traduções para os idiomas mais comuns — inglês, francês, espanhol e italiano —, há edições sendo lançadas na Grécia, no Leste Europeu, no Oriente Médio e na Ásia.
Em Portugal, a Companhia das Letras está a publicar a sua obra completa. O que achou das novas edições?
Fiquei muito impressionado com a proposta. O projeto gráfico é inovador, mas mantém uma apresentação sóbria e elegante. Espero que os leitores portugueses apreciem essa nova forma de reencontrar Clarice.
Que impacto espera deste relançamento no espaço lusófono?
Acredito que ele ajudará a difundir ainda mais a obra de Clarice, especialmente pelo olhar generoso e original dos estudiosos portugueses que participaram das edições, escrevendo posfácios e comentários. Fiquei muito feliz com essa receção.
O que faz da obra de Clarice Lispector tão intemporal e capaz de atrair leitores de diferentes gerações?
Um especialista em Clarice disse algo que me marcou: a impressão de que seus textos foram escritos na noite anterior à leitura. Essa atualidade, essa capacidade de refletir sentimentos profundos e universais, faz com que novos leitores se identifiquem com sua literatura.
O que diria a um jovem que a está a descobrir pela primeira vez?
Que leia sem a pressão de entender tudo de imediato. A obra de Clarice é uma experiência que se sedimenta aos poucos. Cada leitor constrói sua própria relação com seus textos.
O que podemos ver na exposição, com a sua curadoria, patente na FNAC Chiado?
Uma seleção de fotografias que percorrem diversas épocas da vida de Clarice, com legendas extraídas da Clarice Fotobiografia, um trabalho magnífico da professora Nádia Battella Gotlib.
Nota de Paulo Gurgel Valente
“A propósito das edições em Portugal, gostaria de destacar o seguinte trecho de A descoberta do mundo, livro de crónicas publicadas originalmente no Jornal do Brasil.”
11 DE MAIO 1968
Declaração de amor
Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo. Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope. Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida. Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega. Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.
Lispector, Clarice.
A descoberta do mundo
Por Rita Sousa Vieira