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A “hora azul” é um momento entre o dia e a noite, cheio de mistério. Como é que este simbolismo se inscreve no romance?
Sim, é o período depois do pôr-do-sol ou antes do nascer do sol. É uma altura em que ainda há luz no céu, mas é fácil confundir uma coisa com outra. É fácil ver algo e acreditar que se está a ver outra coisa. As falsas perceções e os equívocos são dois grandes temas no romance. Depois, há também vários eventos-chave que que ocorrem por volta dessa hora.
Como é que a personagem da Vanessa reflete essa ideia de um espaço liminar?
Acho que a Vanessa está dividida. Tem o desejo de se libertar das restrições da sociedade, do seu casamento, de todas essas coisas. E, no entanto, também sente falta da comunidade. Embora seja bom para o seu trabalho estar num lugar de solidão, na verdade não é bom para ela pessoalmente. E ela não tenciona ficar nesse espaço para sempre. É algo a que ela recorre e ao qual depois se sente presa. Por isso, acho que quanto mais tempo ela fica na ilha, quanto mais tempo fica isolada, mais dificuldade tem em ver as coisas com clareza.
A ilha também é uma personagem?
A ilha foi, na verdade, a primeira coisa em que pensei quando estava a escrever o romance. Tinha estado de férias em França e vi algumas ilhas de maré [uma ilha ligada ao continente de forma natural ou mediante estradas elevadas durante a maré baixa, e que estão submersas na maré alta]. Uma delas tinha apenas uma casa. E senti-me atraída pela ideia de escrever um romance num lugar como esse, bonito e remoto, mas onde também se pode ficar preso. E, além disso, fiquei intrigada com a ideia do tipo de pessoa que escolheria viver num lugar assim. De certa forma, a personagem da Vanessa foi determinada pela ilha; e a ilha molda o seu carácter ao longo do romance. E acaba por moldar também a personagem da Grace, devido à pessoa em que ela se torna ao viver lá. Além disso, a ilha também é importante em certos pontos-chave do enredo, devido à sua natureza.
A paisagem é determinante na tua escrita?
Sim, e definitivamente em A Hora Azul. A paisagem é sempre muito importante para mim, mas acho que foi mais importante neste romance do que nos outros. Acho importante conseguir ancorar o leitor num lugar, mesmo que não seja um lugar real. Mas queres que acreditem no lugar em que estão para que entendam o mundo em que estão.
A Rapariga no Comboio foi comparado ao Em Parte Incerta, de Gillian Flynn, e A Hora Azul ao Rebecca, de Daphne du Maurier. Sentes o peso destas comparações?
Eu percebo essas comparações, que são bastante elogiosas. Consigo ver alguns elementos em comum: no Rebecca há uma personagem que paira sobre toda a história, apesar de já ter morrido, e neste livro acontece algo semelhante com a Vanessa, que é importante para a história, mesmo não realmente presente. Sem dúvida, pensei um pouco em Daphne du Maurier. Não só no Rebecca, mas também em alguns dos seus contos. Na atmosfera desses contos, e na maneira como ela pressagia o que está por vir.
Que temas quiseste explorar neste livro?
Bem, A Hora Azul é um livro sobre obsessão, sobre amizade — sobre amizade obsessiva, nomeadamente —, mas também sobre desejo. Depois, há temas a que volto repetidamente. Sobre como as pessoas são percebidas e julgadas pelos outros, particularmente as mulheres que não se encaixam na sociedade, não fazem aquilo que supostamente deveriam fazer, ou sobre o desejo de pertencer a algo, a uma comunidade — neste caso, à comunidade artística —, mas sendo livre de todas as exigências.
A arte parece desempenhar um papel importante em A Hora Azul. Como é que escrever se compara a criar uma obra de arte?
Não pinto, não esculpo, nem faço nenhuma dessas coisas. Por isso, só posso imaginar. Foi interessante pensar nas comparações, entre o que é escrever um livro e o que deve ser pintar um quadro. E acho que há muitas semelhanças entre a forma como os escritores e os artistas trabalham. No que diz respeito a como pensam, como planeiam a sua obra e como se relacionam com ela enquanto está a ser criada e depois de criada. Há semelhanças, mas também coisas onde é tudo completamente diferente. Posso estar errada, mas acredito que os artistas não são chamados a explicar a sua obra tanto quanto os escritores são. As suas obras ficam penduradas numa parede e falam por si, ou deveriam falar, enquanto os escritores são frequentemente questionados sobre o seu trabalho. É claro que todos os escritores e todos os artistas são diferentes, mas, definitivamente, há entre eles muitas semelhanças.
Falaste com alguns pintores, escultores ou fotógrafos para escrever o livro?
Não... Quer dizer, li bastante. Li várias biografias e memórias de artistas. Também li vários livros sobre arte, sobre como as pessoas trabalham e sobre como falam sobre o seu trabalho, e visitei alguns estúdios. Bem, alguns estúdios de pessoas que fazem cerâmica. Falei com elas e observei o que estavam a fazer, esse tipo de coisas. Por isso, fiz um pouco de pesquisa. E depois, uma parte é apenas imaginação.
Enfrentaste algum desafio enquanto o escrevias?
Gostei mesmo muito de o escrever. Acho que, de todos os que já escrevi, foi o que mais gostei. Gostei mesmo muito. Adorei o cenário, adorei escrever sobre arte. Todas as galerias, as leituras. Foi mesmo divertido. Claro que há sempre dificuldades. Por exemplo, acho que os finais deste tipo de romances são sempre muito complicados. Tentar criar um final que seja surpreendente, mas também satisfatório. E que reúna todos os elementos que estabeleceste mais cedo, no livro. Também foi, para mim, um final horrível de escrever. Fiquei triste, mas achei que era assim que a história devia terminar.
E como é que equilibraste o suspense com o desenvolvimento das personagens?
Para mim, a coisa mais importante é sempre o desenvolvimento das personagens. E o suspense, acho eu, deve surgir quase que de forma natural enquanto escreves o romance. Enquanto contas a história, deves determinar em que momentos é importante que o leitor saiba certas coisas, em que momentos é importante reter informação, e em que momentos é importante mostrar-lhe algo diferente. Eu não planeio tudo isso com antecedência. Por isso, tenho que de o sentir enquanto escrevo.
Acho que, ao leres muitos livros e ao fazeres isto várias vezes, aprendes a sentir quando é o momento essencial para dizer algo a alguém. Para fazê-lo pensar numa personagem. Porque acho que é isso que estás constantemente a tentar fazer o leitor questionar: se deve duvidar de ti, se deve suspeitar. E isso surge de forma orgânica. As personagens estão na minha cabeça muito tempo antes de começar a escrever. Tenho de as conhecer bem antes de começar a escrever, por isso estão sempre em primeiro lugar.
Há algum aspeto da natureza humana que achas mais fascinante de explorar?
Não é necessariamente um aspeto específico da natureza humana, mas há algumas coisas... Interessa-me a história, as jornadas que pessoas fazem até chegarem onde estão quando as encontramos, e como é que as pessoas chegam a esse ponto. E suponho que, se quisermos falar de um aspeto da natureza humana, seria a forma como contamos histórias sobre nós mesmos, de forma a fazer com que toda a nossa vida faça sentido. Isso é algo a que continuo a voltar. Para conseguir lidar com a vida, todos nós temos uma forma de narrar a nossa verdade, que acaba por se tornar a verdade, mesmo que não o seja. Torna-se a nossa própria verdade. Ou seja, pensar sobre todas as diferentes formas em que isso acontece, em todo o tipo de circunstâncias. E como racionalizamos e justificamos as coisas que fizemos.
É mais desafiante escrever sobre personagens moralmente ambíguas, como as de A Hora Azul?
Somos todos um pouco moralmente ambíguos. Portanto, não acredito que haja... Bem, pode haver pessoas muito, muito boas, e pessoas muito, muito más. Mas a maior parte vive algures no meio. E sim, é certamente muito mais interessante para mim pensar a ambiguidade moral. Porque é aí que estão todas as questões realmente interessantes e difíceis. O que é que fariam, naquela situação? O que teriam feito de diferente? O que deveriam ter feito? Podem certas ações terríveis ser perdoadas? O que é que justificariam? Portanto, acho que é sempre muito mais interessante. Se alguém for muito, muito bom ou muito, muito mau, então as respostas são fáceis. Mas é muito mais interessante olhar para aquelas pessoas que estão no meio, e que podem estar a tentar fazer a coisa certa em certos momentos, mas falharem, do que alguém que seja sempre bom.
A Hora Azul oferece aos leitores muito espaço para interpretação. Que tipo de reação esperas que o livro provoque nos leitores?
Acho sempre isso um pouco difícil. Porque não acho que procure reações específicas. Queremos que o leitor esteja envolvido e que se sinta atraído pela história. E queremos que termine o livro e fique a pensar nele durante muito tempo, ou que volte a ele e o leia novamente, procurando coisas diferentes. É isso que eu procuro, porque é isso que adoro quando me envolvo verdadeiramente com um livro. Ler e depois pensar: "Oh, quero lê-lo novamente, porque não tenho a certeza de o ter entendido da primeira vez”. Ou talvez porque tenha sido surpreendida por algo e quero olhar para isso de um ângulo diferente. Portanto, acho que queremos criar algo que recompense olhar para ele várias vezes, a partir de ângulos diferentes.
Já deves ter ouvido esta pergunta milhões de vezes, mas tenho de a fazer. Sentes a pressão de repetir um sucesso?
Não me sinto obrigada a replicar o sucesso. Nunca venderei tantas cópias de um livro como fiz com A Rapariga no Comboio. Foi extraordinário. Estaria a mentir se dissesse que não sinto alguma pressão para escrever um livro que vá vender bem, porque as pessoas têm certas expectativas. Mas não tenho a certeza de que isso seja completamente controlável. Tudo o que posso fazer é escrever a história que quero escrever, criar as melhores personagens que consiga, e depois entregá-las ao mundo. Se as pessoas se envolverem com isso, ótimo. Se por algum motivo não vender, não tenho a certeza de que seja algo sobre o qual tenha controlo. Acho que o gosto muda e a forma como a indústria editorial funciona também. Se olhares para o que é bestseller agora, é muito diferente do que era bestseller quando A Rapariga no Comboio foi publicado. Portanto, não vou passar a escrever cosy mysteries porque é isso que as pessoas querem. Temos de seguir o que nos interessa e o que adoramos fazer.
Qual é a tua relação com o termo "bestseller"?
Se já estiveste em algum dos dez primeiros lugares na Amazon, podes chamar-te a ti mesma de bestseller. Acho que, até certo ponto, não tem qualquer significado.
O que é mais importante? Vender milhões de cópias ou receber uma ótima crítica de um leitor?
Não acho que possa escolher entre os dois. Obviamente, vender um enorme número de cópias é muito importante para a carreira de alguém. Esse tipo de coisa perdura de uma maneira que uma crítica de um leitor não perdura. Portanto, se estás a pensar na tua carreira e na longevidade dela, ou na tua capacidade de negociar outro contrato com uma editora que te permita escrever, então vender muitas cópias é muito mais importante. Mas, a nível pessoal, receber uma resposta realmente boa de um leitor, ou de um crítico, ou de qualquer pessoa, é recompensador de uma forma completamente diferente.
Na capa da edição portuguesa vem uma citação de Lee Child, que diz que este é o teu “melhor livro até à data”.
Isso é ótimo. Foi muito simpático da parte do Lee Child. Obrigada, Lee. É muito bom ouvir isso. Já mais pessoas disseram que acharam que este é o meu melhor livro até agora, o que é ótimo. Talvez seja, mas também acho sempre que o último livro é o melhor livro. Queremos sempre melhorar, não é?
O que vem depois de A Hora Azul? Já estás a trabalhar em algo novo que possas partilhar com os leitores portugueses?
Estou a tentar trabalhar em algo, mas ainda não avancei o suficiente para poder realmente contar-vos sobre isso, porque ainda estou a tentar perceber algumas coisas neste momento.
Consideras escrever livros noutros géneros?
Não, acho que, neste momento, não. Talvez um dia tente fazer algo diferente. Que talvez não seja um thriller ou sem um homicídio. Mas, para ser sincera, ter uma morte funciona porque dá-te uma espécie de drama instantâneo.
O que estás a ler neste momento?
Estou terminar um livro chamado The Mighty Red, de Louise Erdrich, uma autora nativa-americana. É maravilhoso, um livro realmente bonito. Recomendo muito. Passa-se no Dakota do Norte. É uma história de amor, mas também fala sobre as mudanças climáticas e o nosso impacto na terra, e esse tipo de coisas. É realmente brilhante.
Por Rita Sousa Vieira