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Começo pela mesma pergunta com que Isabel Lucas abriu a entrevista a Maria Teresa Horta publicada no Público, por ocasião do 34º aniversário do jornal. Quando pensas na palavra mulher, no que é que pensas?
Bem, nos últimos anos tenho pensado na Maria Teresa. Quando penso na palavra mulher, no que é que penso? Penso muito na minha bisavó, na minha avó, na minha mãe. Nas mulheres da minha vida...
A quem dedicas o livro.
Sim, a quem dedico o livro. [Penso] Na Maria Manuel Viana, que já cá não está e que era uma grande escritora e uma grande amiga, uma pessoa que me incentivou muito no processo de escrita, a par da Inês Pedrosa, que é também outra grande mulher. [Elas] Seguraram-me no início deste projeto, é um privilégio poder ter mulheres fortes à nossa volta.
[Penso também] Noutras que fazem parte da minha vida, como a Maria do Céu Ramos, a Maria João Leite, a Paula Cosme Pinto, mulheres que nos sustentam, que nos acrescentam. Depois, como boa feminista, obviamente que a palavra mulher faz com que eu te consiga debitar algumas estatísticas sobre como ser mulher hoje em dia ainda é difícil e como ser feminista — ser homem ou mulher feminista — faz todo sentido, porque a paridade e a igualdade faz-se caminhando. Estamos melhor, mas não estamos lá ainda.
Este livro é uma homenagem à Maria Teresa? Teresinha, como tu lhe chamas.
Eu trato-a por Teresinha, sim. É uma merecidíssima homenagem à Maria Teresa. Ela é uma mulher muito importante para nós, mulheres jornalistas. Como é a Maria Antónia Palla e outras mulheres que foram pioneiras nas redações, antes do 25 de Abril. [A Maria Teresa] é uma grande poetisa, uma grande ficcionista, e é uma grande feminista. É uma mulher ativa, engajada politicamente, por quem tenho uma enorme admiração e um respeito imenso.
Embora homenagem me soe um bocadinho a "só estão aqui as coisas boas da Teresa". Não é bem verdade, uma biografia não pode ser só isso. Não vamos aqui fazer uma coisa laudatória, tão-somente da figura. Portanto, dir-te-ia que o equilíbrio entre o trabalho de homenagem, o trabalho jornalístico e o trabalho afetivo, enquanto amiga, exigiu um equilíbrio muito difícil de manter estável. Reconheço isso, sem qualquer problema.
As homenagens como esta devem ser feitas enquanto o biografado está vivo?
Na minha opinião, sim. Nós fizemos uma edição especial da revista Egoísta, da qual sou editora, com a Agustina Bessa-Luís. Ela ainda cá estava e ficou contente por isso existir, por essa homenagem existir.
Como é que a vida da Maria Teresa Horta se resume em 400 páginas?
Não se resume a 400 páginas, claro que não. Porventura, a biografia podia ter o dobro ou triplo, tivesse eu esmiuçado a vida dela. Ano a ano, passo a passo. A vida dela é muito rica, muito atribulada. Parece, a determinada altura, quase um romance. Mas tive de fazer opções, porque escolher também é excluir, não é verdade? E aqui está aquilo que, para mim, é o essencial. E o essencial é a infância, a adolescência e o princípio da idade adulta. Explicam toda a obra da Maria Teresa, tudo aquilo que é fundador, dela e da sua personalidade. Esse é o meu entendimento pessoal, não tem de ser o entendimento de mais ninguém.
Porque esse é também um capítulo mais desconhecido da sua vida. Feliz ou infelizmente, pelas melhores ou piores razões, a vida da Maria Teresa Horta esteve muitas vezes em primeira página.
Ter o privilégio de conversar com a Teresa, horas infinitas...
Quantas foram?
Foram muitas.
Foi tudo presencial?
Quase tudo presencial, mas com muitas chamadas também. Foi um misto. Nós apanhámos a pandemia. 2020 foi um ano muito difícil para todos nós e também o foi para a Teresa. Nenhum de nós sabia exatamente o que ia acontecer, agora olhamos para trás e até parece uma coisa um bocadinho de ficção científica, todos aqueles cuidados. Enfim, e a vida continuou.
Esse privilégio de aceder à Teresa e de ela ter o à-vontade, a generosidade e a confiança de relatar aquilo que é fundador dela na infância... É um privilégio, claro, mas também é uma grande responsabilidade.
Um livro como este só se faz com alguém muito generoso?
Seria muito difícil alguém fazer esta biografia sem ter uma relação afetiva com a Teresa. Essa geografia afetiva que nos une facilitou muito o processo de recolha de informação.
Essa amizade tem mais de 20 anos. Contas que a conheceste no Correntes D'Escritas. O que gostava de saber é: qual foi o teu primeiro contacto com o nome Maria Teresa Horta?
Boa pergunta. Para ser mesmo muito sincera, não tenho uma memória exata. Mas, quando comecei nos jornais, em 1988, que é como quem diz no século passado, a Maria Teresa já era a Maria Teresa. Lia a revista Mulheres, onde ela foi chefe de redação durante 14 anos.
A Maria Teresa foi-me apresentada pela Inês Pedrosa, no Correntes D'Escritas, e foi uma ligação imediata. Sabem aquelas pessoas que não precisam de tempo, parece que existiram sempre na nossa vida? Pois assim foi, comigo e com a Teresa. Claro, a Teresa nasceu em 1937 e eu nasci em 1970. São gerações diferentes, mas há muitas coisas em que nos tocamos, que nos unem.
Com por exemplo?
Ambas defendemos, ativamente, a interrupção voluntária da gravidez. Ambas acreditamos que tu és jornalista, não estás jornalista, porque ser jornalista é uma forma de olhar o mundo. Ambas acreditamos que ser feminista é uma causa para homens e para mulheres, e não é contra os homens — aliás, é só burro pensar que é contra os homens. Há muitas coisas que nos unem, como o gosto por alguma literatura específica nas áreas da poesia e da ficção, algumas autoras que acarinhamos as duas. Algumas são bastante fáceis de entender: a Virgínia Woolf, para começar, mas também a Marguerite Duras. Mas também,... Sempre houve esta partilha de coisas da nossa vida pessoal, coisas da literatura, coisas do jornalismo, da atualidade, da vida política. É incrível poder construir uma relação de amizade com alguém que também é um pedaço da História, porque a Teresa é um pedaço da História.
Encontras semelhanças da relação com o teu avô com a que ela tinha com a avó Camila?
Sim, o meu amor pelos livros começa com o meu tio-avô. Felizmente, tive a felicidade de ter o meu tio-avô bastantes mais anos do que ela teve a avó Camila.
O meu tio-avô e a avó Camila tiveram esse papel fundador de abrir a porta e dizer: "Vejam os livros, é um bilhete de viagem. Apaixonem-se pelos livros!".
Porque é que escolheste o título A Desobediente? Só podia ser este?
Porque é quem ela é. Nunca tive outro título.
Ela revê-se nele?
Ela adorou o título, porque tem uma prática de desobediência permanente desde miúda. Nunca se encaixou, nunca seguiu o padrão. Não é uma formiga no carreirinho, nunca foi, e nunca será. A nenhum nível, nem na sua vida literária. Costumo dizer que a Teresa é pioneira de uma determinada linguagem. Olha, melhor, a Isabel do Carmo diz com muita graça que até à Teresa as mulheres só existiam até à cintura; da cintura para baixo não havia nada. A Teresa faz uma revolução imensa: "Ah, vocês não estão prontos para uma mulher que possa dizer pénis ou vagina, ou que possa reclamar um prazer sexual paritário? Eh pá, pois então é isso que eu vos vou dar!". Isto é um exemplo de desobediência, mas tens outros, mesmo dentro do Partido Comunista: como militante nunca se calou. Ela diz uma coisa muito engraçada: "eu não consigo estar calada, por isso sou uma chata". Ainda bem. Não é fácil para uma mulher em Portugal, para pegar na tua pergunta inicial, não estar calada.
Ainda hoje.
Não é fácil para uma mulher em Portugal ter uma opinião, ter memória. É chato, é aborrecido, não dá jeito, é incómodo, e a Teresa nunca fez concessões. Por muito que lhe tenham dito "não faças isto, não digas aquilo, não faças aqueloutro, olha lá a tua carreira, a Academia, os críticos", ela esteve-se nas tintas. Ela tem um sentido de liberdade que deriva desta desobediência. Portanto, não havia outro título.
A Maria Teresa foi a primeira pessoa a ler a biografia?
Ela foi lendo pedaços, mas não foi a primeira pessoa a ler.
Posso perguntar quem é que foi?
A primeiríssima pessoa a ler foi o meu filho mais novo, o Henrique. Porque me ajudou na transcrição de muitas conversas, com muitos dos entrevistados, e com a própria Teresa. Tinha para cima de 700 horas de gravações e, como podes imaginar, transcrever é um trabalho muito duro. E o meu filho Henrique ajudou-me muito, e foi um grande incentivador do trabalho, porque isto teve fases. Teve fases em que parei, porque não conseguia, tivemos uma fase em que a Teresa disse que se calhar era melhor não fazermos isto. Teve fases...
A par da Inês Pedrosa e do Henrique, também tenho de dizer que a pessoa que me permitiu não desistir, em nenhum momento, foi o meu marido. Houve momentos de grande desalento, é preciso dizer isto. O Rui Couceiro, o meu editor, também foi extraordinário. Mesmo. Foi incansável, acho que ele me ligou todas as semanas durante estes anos. Só para saber se estava bem, se precisava de alguma coisa, se podia ajudar; perguntava como é que estava a correr, se tinha novidades ou histórias para lhe contar.
Perceber o interesse das pessoas, perceber, no caso do Henrique, o interesse de uma geração muitíssimo mais nova, que a Teresa e a obra da Teresa estão vivas...
Qual a importância do trabalho que a Contraponto está a fazer com a publicação destes trabalhos biográficos de Grandes Figuras da Cultura Portuguesa?
O género da biografia nunca foi muito acarinhado pelo mercado editorial, nem pelos leitores portugueses. A Contraponto, pela mão do Rui Couceiro, mudou isso. A ideia de uma coleção de biografias faz todo sentido, porque nós temos figuras ímpares na História de Portugal.
Só ainda não falámos como é que começa esta empreitada. Como é que tu partes para a biografia da Maria Teresa?
Parto para a biografia da Maria Teresa depois de um almoço com o Rui Couceiro, de ovas grelhadas. Ele perguntou-me: "então e que biografia é que tu gostavas de escrever?". Eu tinha acabado de fazer uma Dissertação de Mestrado sobre a obra da Teresa, no âmbito da Ciência das Religiões — eu sei que não é evidente para muita gente, mas a verdade é que a obra de Teresa está impregnada das narrativas bíblicas, de uma maneira desobediente. Até porque a Teresa não teve os prémios, as homenagens, a validação tão cedo quanto deveria ter tido.
Essa validação ocorreu sobretudo nos últimos 20 anos.
Sim, até lá ela era só uma chata de uma feminista. Agora é uma grande escritora. Ela sempre foi uma grande escritora, sempre, e tem mais de 60 anos de obra literária. O primeiro grande prémio que ganha nem sequer é um prémio para a poesia, é um prémio para As Luzes de Leonor, que é uma obra-prima, um romance imenso, que ela levou mais de 14 anos a escrever. Ganhou o Prémio D. Dinis [2011] e lá vem a desobediente dizer que não o recebe das mãos do primeiro-ministro à época, Pedro Passos Coelho.
Como o fez depois com o Prémio Oceanos.
Recusou o Prémio Oceanos [2017], porque viver em ex aequo com uma outra obra não lhe pareceu justo.
A Maria Teresa devia ser ensinada nas escolas? Em que disciplina: Português, História...
Devia ser ensinada nas escolas, com certeza. Português, História, Filosofia, quais é que temos mais? Mas, como a Maria Teresa, há outras mulheres escritoras que fizeram um caminho ímpar e foram revolucionárias. A Natália Nunes foi revolucionária. A Maria Judite de Carvalho foi revolucionária. E não falamos destas mulheres, ou pouco falamos. A Teresa sempre teve uma outra visibilidade, precisamente por ser desobediente.
Esta não é a primeira biografia que fazes a quatro mãos...
Não, mas é a última.
Antes escreveste a da Simone de Oliveira (Força de Viver) e a da Maria Antónia Palla (Viver pela Liberdade).
Todas desobedientes, todas com sentido de liberdade incrível. Eu tenho este íman para atrair estas mulheres.
É mais fácil ou mais difícil fazê-lo com a colaboração das biografadas?
É um privilégio fazer com a colaboração das biografadas, atenção. É uma coisa única. Claro que depois fica impregnado dessa relação, e se calhar o fundamentalista da biografia dirá que não deveria ser assim. Mas é impossível ser imparcial quando se desenvolve uma relação ao longo de muito tempo. Não é um processo de escrita rápido. De facto, são três mulheres ímpares, completamente diferentes umas das outras, mas com coisas muito parecidas. Na desobediência, no sentido de liberdade, no sentido político das suas ações, da emancipação do corpo, da ideia de sexualidade.
O que te surpreendeu nestas conversas com a Maria Teresa?
Havia muita coisa que eu não sabia e muita que passou a fazer outro sentido na obra dela. E a vida da Maria Teresa está toda na obra dela.
A melhor biografia é a obra dela?
Claro que sim. Espero que esta biografia permita que as pessoas tenham curiosidade em ir ler a obra dela, porque manter a obra viva é que é fundamental. Mas surpresas tive várias, havia muita coisa que eu não sabia, e ainda bem.
Porque é que dizes que esta é a tua última biografia?
Porque é um trabalho insano, e que do ponto de vista financeiro tem muito pouca compensação. São muitas horas, são muitos dias, muitos meses, anos. É uma coisa da qual tu não te consegues desligar. Depois, é preciso ter a capacidade de conversar com as pessoas, que eu acho que tenho, mas não podes apressar estas conversas. Quando a biografada está viva, há muita coisa que sabes que não vais sacar, vá, digamos assim. Por respeito, por não querer melindrar... É um trabalho difícil e, aos 53 anos, se calhar é melhor ir fazer outras coisas. Voltar ao romance...
Espero que te arrependas dessa ideia.
Quer dizer, se for para fazer a do Cristiano Ronaldo... Tudo bem, odeio futebol, mas eu faço. Mas aí tens um propósito mercantilista.
O livro é publicado nos 50 anos do 25 de Abril, o que coincide com outra data. A do julgamento do processo que envolvia as Três Marias pela publicação das Novas Cartas Portuguesas. A liberdade destas três mulheres coincidiu com a liberdade do país?
De alguma forma, sim. As Novas Cartas Portuguesas passa de obra pornográfica e atentado aos costumes a obra-prima.
O que é que a Maria Teresa ajudou a conquistar para as mulheres?
Tanta coisa. Muito antes do 25 de Abril, devolveu às mulheres um sentido do seu próprio corpo e do que é a sua sexualidade. Como jornalista, durante anos a fio, nunca deixou de escrever sobre as desigualdades sociais, nunca deixou de perceber a realidade das outras mulheres. Pós 25 de Abril, com o Movimento de Libertação das Mulheres, que ela constitui com a Isabel Barreno e mais uma série de outras mulheres, publicou um conjunto de trabalhos incríveis.
A vida das mulheres depois do 25 de Abril não foi um mar de rosas. A liberdade era muito mais masculina do que feminina. E ela sempre fez oposição a esta ideia de que as mulheres eram menos, não podiam participar, não tinham voz e o mesmo valor. Portanto, diria que nós, mulheres, lhe devemos muito. Tanto no percurso feminista, como no de escritora ou jornalista. Ela foi pioneira nestas três frentes, em absoluto.
Por falar no pós 25 de Abril, ela foi bem tratada durante esse período?
Não, claro que não foi bem tratada, porque era incómoda. Como ela diz, "sou uma chata, não estou calada". Claro que teres uma mulher forte, reivindicativa e singular — porque a Teresa nunca foi uma mulher que se vestia como era suposto, assim que conseguiu meteu uma minissaia... — não era muito português. Então, e os bons costumes?
Porque é que se tem tanto medo de uma mulher livre?
Porque faz mossa. Uma mulher livre pode denunciar muitas coisas que contrariam o sistema, e contrariar o sistema, como se sabe, é uma chatice. Mas uma mulher livre e com memória, que consiga ter um discurso articulado, argumentar com factos e desmontar as ideias feitas, é uma mulher perigosa. Não é só neste país, é em todo o lado. Por isso, a luta continua.
A luta continua e, recentemente, França tornou-se no primeiro país a ter o direito ao aborto consagrado na Constituição. Ao mesmo tempo...
Que em Portugal fala-se de fazer um novo referendo. Sim, assim vai o mundo. Falar desses temas é subjugar as mulheres, é tudo uma questão de poder.
Saímos de uma campanha eleitoral onde os direitos das mulheres foram utilizados como arma e argumento político.
Lá está, muito embora estejamos melhores, e muito embora tenhamos muito mais mulheres com papel ativo na sociedade, a verdade é que continuamos a querer pisar as mulheres que ousam dizer "eu posso, eu quero, eu faço, eu digo" sem ter de pedir autorização seja lá a quem for.
Ao mesmo tempo que surgem novos desafios. Há um estudo que diz que 80% dos empregos das mulheres estão em risco devido à Inteligência Artificial. Há direitos que não ainda foram totalmente conquistados e a estes somam-se mais desafios.
Há direitos que não ainda foram totalmente conquistados e continuamos a ter direitos adquiridos que são questionados. Mas vamos ter muitos obstáculos com a Inteligência Artificial, não vão ser só as mulheres. Vamos todos, em termos de sociedade, ter muitos obstáculos. Eu não sei o que é que aí vem, parece um livro de ficção científica, mas na verdade, a ficção científica é apenas o espelho da Humanidade.
A verdade é que as mulheres ganham menos. As mulheres trabalham por ano uma média de 45 dias à borla, relativamente aos homens; as mulheres não têm progressões de carreira rápidas; trabalham mais em casa do que os homens; são mais cuidadoras dos mais novos e dos mais velhos. Isto é uma realidade, não há nada a fazer. As mulheres são mortas e agredidas às mãos dos pais, dos namorados, dos maridos, com uma maior frequência. Embora exista, obviamente, violência sobre os homens e violência sobre os rapazes – não podemos desprezar esta realidade –, os números mostram que, no caso específico das mulheres, é muito superior. A pandemia não veio ajudar e essa era uma das grandes preocupações da Teresa. Ela ligava-me a dizer: "O que é que acontece com estas mulheres que estão em casa fechadas 24 horas? O que é que acontece quando tens um perfil de agressor em casa e estás ali confinada 24 horas?". O que acontece é um desastre.
De que é que falavam quando não regressavam ao passado?
Falávamos sobre política, sobre os meus filhos, o filho dela, os netos dela. Eu acho que tu podes falar sobre qualquer coisa. Não há julgamento, não há preconceito, não há crítica, ela está disponível. Pelo menos para pensar naquilo que tu vais dizer, e isso é incrível. Nem toda a gente é assim. Aliás, se pensares bem, a maioria das pessoas hoje em dia prefere ouvir falar a escutar, e a maioria o que quer é que a outra concorde com a sua opinião.
Com quem é que ainda gostavas de falar no teu podcast Um Género de Conversa, com a Paula Cosme Pinto?
[No início] Começámos a fazer listas de nomes de mulheres que podiam falar sobre coisas tão diferentes quanto a maternidade ou a sexualidade, mas também de progressão na carreira e dos recursos humanos dentro do mundo corporate. E os nomes de mulheres nunca mais acaba, há mulheres interessantíssimas em Portugal. Quando se diz que não há mulheres para falar sobre não sei o quê, e se fazem painéis de conferências em que os intervenientes são apenas homens, ou fazem-se balanços do ano em que os protagonistas são apenas homens... O que o podcast prova é que nós temos muitas mulheres e com boa conversa, com experiência, com vontade, com ideias, com capacidade de comunicação.
A Maria Teresa alguma vez esteve nessa lista?
A Maria Teresa esteve sempre nessa lista.
Porque é que nunca se concretizou?
Fomos adiando por diferentes razões. A coisa foi-se arrastando.
No momento em que falamos, debate-se a arte da biografia numa conferência em Lisboa.
Com dois biógrafos portugueses e o resto tudo estrangeiros. Lá está, escolher é excluir.
Há regras, há boas práticas, o que é que se deve e não deve fazer numa biografia?
Vou ser completamente sincera, posso? Não faço a mais pequena ideia. Se existem regras, eu não recebi o livro.
Quais são as tuas?
É uma questão de ética, de princípios deontológicos, de honestidade e de seriedade, ponto. Diria que a regra básica da biografia é a mesma regra básica do jornalismo: não mentir. Não mentir, não manipular, não distorcer.
O que é que faz de uma biografia uma boa biografia?
Sabes porque é que eu gostei da biografia da Agustina Bessa-Luís [O Poço e a Estrada], escrita pela Isabel Rio Novo? É que se lê como um romance, porque a vida da Agustina é um romance — e a da Maria Teresa também.
Uma biografia deve acrescentar, fazer com que penses na tua própria existência, no teu lugar no mundo e no teu contexto temporal. A Maria Teresa nasceu em 1937, a história dela também é a história dos costumes, da cultura, da política, da economia portuguesa e do mundo. Esse legado, essa memória, é importante para nós percebermos de onde viemos, quem somos e o que queremos ser. Nesta altura do campeonato, isso se calhar é mais importante do que seria há três anos.
Na entrevista por onde comecei a conversa, a Maria Teresa dizia à Isabel Lucas: "sou jornalista". Tu também és. Quase 40 anos depois, os jornalistas fizeram greve. Como é que olhas para o cenário que o setor enfrenta e que leva os jornalistas a parar?
Quando tu és jornalista, não deixas de ser pai, mãe, marido, mulher, filho, filha. Não deixas de ter um empréstimo ao banco para pagar a casa, a conta da farmácia, da mercearia ou do supermercado. És uma pessoa, tens encargos, e o jornalismo sempre foi feito numa base de grande carolice. Quando tens regras no mundo corporativo que dizem que a partir das sete da tarde não se pode mandar mensagens nem interpelar o empregado, isto para um jornalista é impensável. Um jornalista não tem hora, não tem dia, está no mundo e está para o mundo. Ora, o mundo deveria devolver ao jornalista pelo menos a dignidade de ter uma vida estável do ponto de vista financeiro. O que acontece é que os jornalistas não a têm, não beneficiam de uma vida estável; os grandes grupos de comunicação social são grupos empresariais, o fito é o dinheiro, o objetivo é o dinheiro, e muitas vezes, para não dizer a maioria das vezes, os jornalistas são prejudicados. Não há democracia sem jornalismo. Precisamos de um jornalismo isento, assente num código deontológico e que seja praticado de uma forma digna e plural. Caso contrário, o nosso trabalho enquanto jornalistas é prejudicado, e o leitor é prejudicado e desinformado.
O que é que estás a ler?
A Filipa Leal faz anos hoje [14 de março]. Portanto, ontem à noite fui buscar o Vem À Quinta-Feira, um livro de poemas. Não gosto muito dele, gosto muitíssimo.
Depois, tenho à minha espera o novo livro do Gabriel García Márquez [Vemo-nos em Agosto]. De dois em dois anos releio O Amor em Tempos de Cólera, é um livro maravilhoso, aprende-se muito.
Voltei recentemente ao A Boneca Despida do Paula M. Moraes, que já tinha lido. O Paulo é um escritor incrível.
Em cima da minha mesa de cabeceira tenho ainda o novo livro da Aurora Venturi [A família Caserta], uma escritora latino-americana e autora de As Primas.
Por Rita Sousa Vieira
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