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O que te levou a participar nos Novos Talentos FNAC?
Na verdade, o que me levou a participar foi o meu irmão mais novo não parar de me chatear para eu participar. Fez parecer que se não o fizesse me punha de castigo.
Qual foi a reação quando anunciaram que tinhas vencido uma menção honrosa?
Senti aquela boa dose e meia de ansiedade por ter de subir ao palco à frente daquela gente toda e ainda ter de falar.
Do que fala Cultura das Trevas?
Cultura das Trevas fala de um problema que, infelizmente, ainda está hoje muito presente. O acesso à cultura continua muito ligado ao poder económico. Na era medieval quem tinha acesso à cultura eram os grupos mais favorecidos, como o Clero e a Nobreza. Tinham o privilégio de aprender a ler, escrever, conhecer mais e melhor do mundo, enquanto o povo era deixado na miséria e na ignorância.
Nos dias de hoje, a cultura e o lucro dela continua nas mãos dos mais privilegiados, daqueles que podem investir o tempo e dinheiro, daqueles que educaram o olhar e a sensibilidades, daqueles que ainda conseguem lucrar com ela, enquanto os mais desfavorecidos continuam com o acesso limitado. Por falta de tempo, dinheiro, sensibilidade, confiança e paz de espírito, pois todo o tempo da vida é empregue no trabalho e o pensamento está mais focado na sobrevivência do que em aprender, desenhar, pintar, ver filmes, ler, etc.
Estas ilustrações são uma crítica ao facto de ainda estarmos “presos” à era medieval (das trevas), onde a cultura é um luxo ao qual nem todos temos direito.
Por isso escolhi um grafismo que remete às iluminuras medievais, com simbolismos religiosos a serem destruídos / mortos, porque para muitos a cultura continua a não ser acessível, continua a estar nas mãos do privilégio. É tempo de sair da era medieval, quebrar o ciclo e mostrar que a cultura deve ser de todos e para todos.

Quando é que começaste a trabalhar neste projeto?
Este foi um projeto no qual simplesmente fui trabalhando, não tinha um plano concreto, ia tendo ideias para ilustrações, ou tendo a necessidade de criar algumas ilustrações para cartazes de concertos, ou t-shirts. Quando dei por mim tinha umas quantas ilustrações com o mesmo tipo de grafismo, que se complementam umas às outras e que, na minha opinião, têm algo importante a dizer.
Que materiais utilizaste?
Eu ainda sou daqueles que desenha em papel. Lápis, tinta-da-china, pincel e aparo. Depois passo para o digital para colorir, adicionar lettering se for preciso e dar uns toques finais com texturas.
Como é que descreverias o teu processo criativo?
Para este projeto o processo criativo foi de muita pesquisa visual de iluminuras medievais, tal como certas influências de xilogravura japonesa, juntando a essa pesquisa muita música e café. E a partir daí é esboçar, estudos de mancha, cor e deixar a cena acontecer.
Qual a relação do teu trabalho com a música?
Tal como a música que faço com a minha banda, gosto do meu trabalho sujo e expressivo, com um feeling pessimista e sarcástico.
A música que tocamos está principalmente ligada à cena do hardcore punk, mas gosto de juntar influências dos vários géneros ligados à cena underground. Com a ilustração tento fazer o mesmo, tentar criar algo um pouco mais interessante, em que quando olhamos possamos ver influências medievais, japonesas, influências da tatuagem, de banda desenhada, cartoons, etc. Basicamente, meter tudo num pote e tentar “cozinhar” algo interessante e coeso com todos esses ingredientes
O que é que gostas de ouvir quando estás a desenhar?
O que eu ouço enquanto desenho vai variando muito com a minha disposição, muitas vezes ouço podcasts sobre bd, outras vezes música do poço, outras hip-hop principalmente dos anos 90, entre outras coisas. Depende de como acordo naquele dia.
Também és tatuador, certo?
Talvez seja demasiado cedo para dizer que sou tatuador. Eu sou aprendiz de um tatuador que está aqui em Leiria — @mesquita_tattooer, vejam o trabalho dele para uma boa dose de clássicos — há 6 meses. Acho que ainda há um grande percurso a percorrer até poder considerar-me tatuador, mas estou a trabalhar para isso e é algo que me está a dar muito prazer em fazer e aprender.
Já mencionaste a tua banda, fala-nos agora um pouco mais sobre ela.
A minha banda chama-se Manferior, tocamos uma mistura de crust punk, powerviolence, com muitas influências à mistura, desde black metal, death metal, sludge e por aí fora. Já temos alguns lançamentos, três tours europeias feitas e sempre a trabalhar para que o lançamento seguinte seja melhor que o anterior.
Quais são as tuas referências?
Posso dizer que a maioria das minhas referências vem da banda desenhada, sempre foi das minhas maiores paixões e aquilo que me levou desde criança a querer desenhar, e algo a que me dedico já há muitos anos, Al Columbia, Mike Mignola, Eduardo Risso, Christophe Chabouté, tudo artistas com um trabalho rico em alto contraste, e há uns anos para cá comecei também a interessar-me mais pelas iluminuras medievais e xilogravuras japonesas. E claro que toda a estética ligada à cena do hardcore punk, mais zines independentes, sujidade da fotocópia, também acaba por entrar nas coisas que eu produzo.
És o fundador de uma zine, já publicaste de forma independente. Qual o papel do circuito independente de ilustração em Portugal?
Certo, a zine chama-se INVASÃO e foi criada por mim, pela Miky Morgado e pela Sofia Silva — espreitem o trabalho delas, vale muito a pena: @mikzzart e behance.net/sofiadsilva. É uma zine com o objetivo de ajudar a promover e dar a conhecer alguns artistas que achamos que muitas vezes não tem o reconhecimento que merecem. E acho que o papel do circuito independente de ilustração em Portugal é esse mesmo, tentar dar mais exposição e mais reconhecimento a artistas que não estão a ter esse devido reconhecimento, mostrar que há muito trabalho bom e diferente, experimental, obscuro por descobrir em Portugal.
Como é o mundo da ilustração em Portugal? Sentes que o ilustrador tem o reconhecimento merecido?
Como é o mundo da ilustração… é um mundo ingrato, desvalorizado e com pouca oportunidade de fazer algum tipo de vida com este trabalho.
Que outros projetos tens em mãos?
Neste momento não tenho nada em concreto, só ideias. Quero continuar a evoluir na tatuagem e voltar à carga na banda desenhada.
Conta-nos uma coisa que mais ninguém saiba.
Dido é a melhor artista pop de sempre.
Onde podemos seguir o teu trabalho?
Podem seguir no Instagram (@marcodelvoid) e no Behance (marcodelvoid) para coisas mais finalizadas.
Vê AQUI o trabalho vencedor e as duas menções honrosas na categoria de Ilustração dos Novos Talentos FNAC 2023.