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O que é visitado e quem é o visitante neste disco?
É uma boa pergunta, porque eu acho que é as duas coisas ao mesmo tempo. Eu, como o autor do disco, acho que sou tanto o visitante quanto o visitado. Sou o visitante porque estou visitando o meu próprio percurso: este é um disco que vai buscar músicas que eu já escrevi há muitos anos, a música mais antiga tem uns 12 anos e a mais recente é do ano passado. Por outro lado, também sou visitado porque o disco tem a participação da Pri Azevedo, que é um dos pilares deste trabalho. Convidei-a não só para tocar no álbum, mas também para fazer todos os arranjos para piano das músicas.
Eu entreguei as coisas na mão dela e disse, 'olha, faz o que você quiser, carta branca', e ela assim o fez. Apropriou-se do repertório, reinventou as músicas, algumas passaram de um género para outro; outras eram um pouco mais agitadas, ficaram mais calmas, e vice-versa. Foi bem interessante rever e reouvir essas músicas a partir da sensibilidade da Pri.
A escolha destas músicas é só tua ou ela também teve um papel nesse processo?
Não, eu já entreguei o repertório pronto para ela.
Como é que foi fazer essa seleção destes temas?
Essa escolha não teve um só critério; sinto que escolhi cada música por uma razão diferente. Tem músicas que são muito representativas de álbuns anteriores, principalmente do Bandeira (2017) e do Conversa de Fila (2017), como a Anos de Doze e a Acanalhado. Elas nunca saíram do meu repertório desde que as lancei e mereciam ganhar um novo arranjo, ganhar uma nova roupagem. Depois, tem outras que eu não tocava há muito tempo e que queria incluir; essas são mais antigas e de um projeto que é como se fosse o meu álbum número zero, o Livro de Reclamações, que foi editado junto com um livro. Entre os temas mais recentes está o Lampedusa, do meu último álbum, o Sabina, um tema que comecei a ter vontade de ouvi-lo de outra forma, com o piano. Enfim, cada música tem a sua própria história.
Por história, qual é a tua com a Pri Azevedo?
A minha história com a Pri é muito curiosa, porque eu estudei com a irmã mais nova dela. A gente estudou junto durante sete anos na mesma escola e na mesma sala. Lembro-me de ter crescido ouvindo essa minha amiga, a Bianca, a falar da irmã. Enquanto vivia no Brasil, nunca tive muita proximidade com a Pri, salvo através dessa minha amiga da escola. Aí corta para 20 anos depois, em Portugal; eu já vivia no Porto há alguns anos e, de repente, a Pri também veio viver para cá. A minha amiga me avisou, me mandou uma mensagem, falou: 'Luca, a minha irmã tá indo viver no Porto, vocês podiam se encontrar, fazer alguma coisa juntos'. Assim foi, a gente começou a conviver e eu a chamei para fazer parte da minha banda. Ela toca comigo desde 2021.
Eu já escrevi músicas para a Pri, ela já me ajudou muito no processo de gravação do Sabina... E já há algum tempo que tinha muita vontade de fazer um projeto em que ela pudesse desenvolver a linguagem dela ao máximo, usar todo o potencial que eu sei que ela tem para oferecer.
Quando lhe propuseste este disco, como é que ela reagiu?
Ela adorou, achou um desafio ótimo, nem por um momento titubeou, e foi um processo rápido, bem gostoso. Ela já conhecia várias dessas músicas, porque a gente já tocava em concerto, ela só precisou retrabalhar os arranjos, que com banda são um pouco diferentes.
Parte desse processo é mostrado numa websérie que já tem alguns episódios disponíveis no YouTube. O que é que querias mostrar nestes vídeos?
Eu tive essa ideia porque cada música desse álbum tem uma história, e é muito complicado na edição do álbum dar a conhecer todas. Quando a gente entrou em estúdio eu já tinha essa ideia, por isso que eu fiz questão de gravar todas as nossas sessões de gravação do álbum em vídeo, para eu poder depois montar esse material e falar sobre as músicas. São dez músicas e separei duas por episódio, tentado casar as que tinham alguma coisa em comum. Os episódios não falam só das músicas, falam também sobre a minha relação com a Pri, da minha relação com outros compositores, como o Aldir Blanc, do que me motivou a escrever certas letras. Enfim, tem um universo que ultrapassa a própria canção, e que eu gosto de mostrar para as pessoas que me acompanham, porque é uma ligação mais profunda que se estabelece com o público. Eu gosto de nutrir essa relação que vai além da música.
Essa frase resume o teu trabalho, porque os teus concertos também vão além das canções.
Sim, isso é importante para mim. Eu enxergo a música como um veículo para falar, para conversar, levantar discussões e contar histórias. Para cantar uma música preciso de me convencer de que é importante ela ser cantada. Eu sei que às vezes, nos concertos, até exagero um pouco, falo muito, gosto de contar detalhes sobre as músicas. Mas é isso, a música significa muito mais do que som e palavras. Ela tem uma mensagem, tem um potencial muito grande para sensibilizar as pessoas.
Por falar em concertos, como é que vai ser transpor o Visita para o palco? Serás só tu e a Pri?
À partida sim, serei só eu e a Pri. Pelo menos nesses concertos de apresentação que já temos marcados — no Salão Ático – Coliseu Porto Ageas, no dia 3 de novembro, e, dias depois, a 7 de novembro, no Auditório Nova Cultura UNL (Pólo de Campolide), em Lisboa. No ano passado, a gente experimentou fazer alguns concertos em formato de trio, eu, a Pri e o Carlos, que é o baterista da banda, e funcionou muito bem. Dependendo do sítio do concerto, eu acho que a gente vai, com certeza, acabar voltando para esse formato de trio, porque a bateria já abre um outro horizonte de repertório, imprime um pouco mais de pressão rítmica, de animação para as músicas, que para certos espaços eu acho que funciona bem; para outros, a versão mais intimista, só de voz e piano, talvez funcione melhor.
O Visita pode ser encarado como um disco mais pessoal, deixando em segundo plano um certo lado mais interventivo a que já nos habituaste noutros trabalhos?
Talvez ele seja mais pessoal, mas não acho que ele seja menos interventivo. A grande diferença, para além dessa coisa óbvia de não ser um disco de inéditos, é que ele é um disco de porta de entrada para pessoas que não me conhecem ainda. Não é preciso ter ouvido absolutamente nada meu antes para perceber que espaço ele ocupa. Uma pessoa que ouça e goste do Lampedusa tem o disco Sabina para ouvir, ou que gosta do Anos Doze, tem o Conversa de Fila para ouvir.
O Visita é uma espécie de respiro. Chegamos até aqui, agora vamos olhar para trás, vamos abrir as portas para quem está chegando aqui e não acompanhou esse percurso desde o início. Senti essa necessidade de fazer um balanço.
E sentiste essa necessidade por alguma razão?
Não foi nada que tenha vindo de fora, não senti isso como uma demanda externa; senti a necessidade de respirar e de abrandar um pouco o ritmo de criação, que é um pouco frenético. Tenho uma certa ansiedade de produzir, de colocar coisas novas no mundo, e comecei a sentir no final do ano passado, início desse ano, que as coisas iam ficando para trás muito rápido. A gente pensa num álbum como o Conversa de Fila, que é de 2019, e ele tem cinco anos, mas parece muito mais. Lembro-me do concerto de lançamento do Conversa de Fila e aquilo parece que já foi outra vida, de tamanha quantidade de coisas que aconteceram nos últimos cinco anos. Teve inclusive uma pandemia no meio... E eu comecei a sentir falta de desfrutar do que eu já fiz. Existe também uma pressão muito própria do nosso tempo, dessa sede por novidades atrás de novidades, e a gente conclui uma coisa e não se permite desfrutar dela antes de começar outra. Eu comecei a sentir-me muito dentro dessa roda-viva, o que tira um pouco o valor das nossas conquistas, n'é? A gente quase que não tem tempo para desfrutar do que já fez e já estabeleceu. Se tem um gatilho que me motivou a fazer esse projeto específico, foi uma necessidade interna de abrandar e desfrutar. Desfrutar do que já está feito, das músicas que já estão escritas, e de dar mais vida para elas.
A foto de capa é do fotógrafo Bernardino Pires (1901-1977), um retratista da cidade do Porto. Como é que o descobriste?
Descobri o Bernardino porque fui convidado pela editora para participar num dos volumes - para já, estão apenas disponíveis dois - de fotos dele. A edição desses livros tem fotos e textos de autores convidados que têm alguma ligação com a cidade do Porto. Eu fui um desses autores convidados para escolher uma foto e escrever um texto. E foi assim que eu conheci a obra do Bernardino. Até nisso há uma ligação com o título do disco, porque esse projeto significou visitar o Porto, onde já não vivo há quase três anos. Por mais que sejam fotos muito antigas, dá para reconhecer certas ruas do centro do Porto, certos edifícios que ainda existem. É uma espécie de passeio, de visita pela cidade, por uma cidade que é muito importante na minha vida, onde eu vivi dez anos, onde produzi a maioria das coisas que já fiz em música e de poesia.
Agora, a foto que eu escolhi para participar, para escrever no volume, não é essa que eu escolhi para a capa. Só que eu, quando vi a foto desse gato de quatro olhos, fiquei muito impactado, achei aquilo visualmente muito interessante. Ainda não tinha o Visita imaginado como um projeto de álbum, mas eu fiquei com aquela imagem meio que gravada na cabeça. Quando fechei o alinhamento do Visita, reparei que tinha três músicas que falavam de gatos. Uma delas, inclusive, é falada do ponto de vista de um gato; o gato é que é o eu lírico da canção. Quando percebi isso, lembrei-me imediatamente da foto do Bernardino e ficou decidido ali na hora. Tinha de ser essa foto.
Tens uma newsletter. O que é que podemos receber quando a subscrevemos?
Depende muito do mês. Às vezes recebe só uma crónica, pensamentos que eu desenvolvo num texto. Eu acho que a newsletter deste agosto foi uma defesa minha, apaixonada, dos autocarros, em detrimento dos comboios. Eu prefiro andar de autocarro a andar de comboio. Mas, além dessas coisas, eu gosto muito de falar sobre o que estou fazendo no momento, de contar a história de uma música ou de um álbum. No ano passado, falei sobre Sabina, de onde surgiu, quais são as histórias por trás de algumas músicas, de algumas inspirações. Na newsletter deste mês [novembro] vou falar especificamente sobre o Visita.
Eu valorizo muito essa plataforma, porque o contacto direto com o público é uma coisa que só se consegue nos próprios concertos, ou então pelas redes sociais. Mas as redes sociais têm um problema muito grande...
Numa publicação recente, o cantor britânico James Blake queixou-se que o Instagram estava a limitar o alcance das suas publicações. É cada vez mais importante os artistas criarem as suas bases de dados?
É exatamente isso que eu ia falar, exatamente isso. Eu não vi esse post do James Blake, mas é até um pouco reconfortante saber que até ele tem esse tipo de problema. Qualquer pessoa que trabalha com público tem esse sentimento de que as redes sociais não entregam o nosso conteúdo da forma que a gente gostaria. Mesmo tendo todos os cuidados de tentar fazer uma coisa que agrade ao algoritmo, a gente está sujeita a ter o alcance muito limitado e as pessoas simplesmente não ficarem sabendo de um concerto ou de um lançamento. Não é nem uma questão de injustiça com o artista, é de injustiça com o próprio público, que acompanha, que segue a página, mas que abre a sua rede social e não aparece, simplesmente não aparece no feed dela aquilo que ela gostaria de ver. E aí a newsletter é um veículo que supre muito essa necessidade. É claro que eu não tenho nem 1% de assinantes na newsletter como eu tenho seguidores nas redes sociais, mas eu tenho certeza de que eu tenho uma percentagem de leitores da minha newsletter que é muito superior à de pessoas que veem as minhas publicações. É um público que eu consigo alcançar e acarinhar de uma forma muito mais próxima do que nas redes sociais. E isso é ótimo, isso motiva-me a produzir mais.
Qual é, neste momento, a relação entre a poesia e a tua música?
Infelizmente, nos últimos anos tenho escrito muito pouca poesia, poesia para o papel, poesia para o livro. Eu também não enxergo a música, a canção, como algo muito distante da poesia. Pelo contrário, a canção é só uma outra forma de poesia, é um outro suporte para a poesia. Mas, curiosamente, eu tenho estado mais próximo de poetas através da música. Estou a pensar, por exemplo, no meu projeto com a Ana Deus, que é todo feito em cima da poesia do Fernando Pessoa. Lançámos este ano um segundo audiolivro com poemas do Fernando Pessoa musicados por nós [Canções para beber com Pessoa].
Já estás em Portugal há 12 anos. A distância dá-te outros olhos ou ouvidos? Tens descoberto coisas que, estando no Brasil, nunca terias tido por elas o mesmo interesse?
Isso é uma boa pergunta. Eu procuro estar sempre muito atento ao que se passa no Brasil. Não consigo acompanhar o tanto quanto eu gostaria, porque a distância atrapalha, mas online dá conta de muita coisa. O que eu acho que, certamente, acabei descobrindo por estar longe do Brasil, não tem tanto a ver com produtos culturais, mas tem a ver com a própria compreensão e leitura do Brasil como país. Porque quando as coisas estão muito próximas, a gente tem mais dificuldade de enxergar e de valorizar, inclusive. Tem muitas coisas da cultura brasileira que eu consigo dar muito mais valor hoje, porque eu estou distante.
O que estás a ouvir?
Ouvi recentemente um álbum de que gostei bastante. É o novo do Zé Manuel, um compositor brasileiro, chamado Coral.
Por Rita Sousa Vieira