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JOJO MOYES EM ENTREVISTA
ENTREVISTA A JOJO MOYES ENTREVISTA A JOJO MOYES

“Aprendo muito com as minhas personagens”



Jojo Moyes esteve na Feira do Livro de Lisboa para apresentar o seu mais recente romance, O Amor Mora Aqui. Um livro sobre uma família imperfeita, que também é sobre amor e perdão. A autora bestseller, que esteve à conversa com a Cultura FNAC, deseja que o livro possa inspirar os seus leitores. “Espero que, ao lerem, passem a olhar para as pessoas à volta de forma diferente. Se a Lila conseguiu perdoar, talvez todos consigamos”.

 





Qual foi o ponto de partida de O Amor Mora Aqui?

 

Se já leram os meus livros anteriores, sabem que costumo escrever obras de grande envergadura, desde romances históricos a projetos que envolveram muita investigação. Mas, durante algum tempo, senti vontade de contar uma história diferente: uma história mais pequena, mais íntima, centrada numa família. Venho de uma família pouco convencional, com vários meios-irmãos e irmãos por afinidade, e queria mostrar exatamente isso: uma família que não segue o modelo tradicional, mas onde o amor é o que realmente importa. Foi assim que esta história nasceu.

 

Mas algum acontecimento serviu de faísca para a história?

 

Sendo honesta, o meu divórcio teve alguma influência. Mas foi um processo tão amigável que a nossa advogada nos escreveu, mais tarde, a dizer que gostava que todos os casais fossem assim. A minha relação com o meu ex-marido foi, por isso, muito diferente da que acontece com a Lila. Ele achou imensa piada ao facto de eu estar a escrever este livro. Continuamos amigos e falamos com frequência.

 

Foi desafiante manter a distância entre ti e a personagem da Lila, sendo ambas escritoras?

 

Nem por isso, porque a Lila escreve não-ficção e eu nunca explorei esse registo. O que não previ foi que, ao começar a promover o livro — por exemplo, quando fui à Alemanha — toda a gente assumisse que a personagem era inspirada em mim. Passei imenso tempo a explicar que não era o caso. Percebi, então, que foi uma falha minha: devia ter antecipado que, ao escrever sobre uma escritora que se divorcia, muita gente iria presumir que estava a falar de mim. Mas a minha vida não tem nada a ver com a dela. E, tal como a personagem, também não consigo escrever sobre coisas pessoais — assusta-me imenso. Nunca escreveria não-ficção.

 

Porque é que é importante mostrar mulheres na sua complexidade, ou “gloriosa confusão”, como referiste noutra entrevista?

 

Porque é isso que é a vida. Não conheço nenhuma mulher com uma vida perfeitamente organizada. E, sendo honesta, fico sempre um pouco desconfiada das que dizem que está tudo impecável. Normalmente são essas que acabam por... enfim. Gosto de pessoas imperfeitas. Fiz muita terapia ao longo da vida e percebo bem o quão confusos, e humanos, somos todos. Achei que, com a idade, ia saber tudo e ter todas as respostas, mas percebi que não sei nada. E está tudo bem. Faz parte do processo.

 

A descoberta da força interior é o que mais te inspira nas mulheres que escreves?

 

Há uma expressão americana que ouvi uma vez e que me ficou na cabeça: “You can’t be it if you can’t see it”. Não podes ser algo se não tiveres exemplos disso. Desde que a minha filha entrou na adolescência, tornei-me muito mais consciente das personagens femininas que crio. Não me interessa escrever sobre mulheres obcecadas com o que vestem, com roupas ou malas de marca, ou para quem o amor é a única coisa que importa.

 

Quero mostrar, especialmente às leitoras mais novas, mas também a algumas mais velhas, que estamos sempre em transformação, que podemos mudar e crescer. E, sim, gosto dessa ideia de que as personagens descobrem a sua força — sinto que também estou sempre a descobrir a minha. Aprendo com as personagens, aprendo com a terapia, e tento todos os dias ser uma pessoa melhor. Acho que é bonito mostrar isso. Pode inspirar outras pessoas a pensar: “se esta personagem conseguiu, talvez eu também consiga”.

 

O que é que as tuas personagens te ensinam?

 

Em todos os livros, aprendo algo com as personagens. Neste, por exemplo, aprendi sobre o perdão. Há uma personagem que diz à Lila para largar o peso da amargura e da raiva, e isso fez-me pensar: o que é que eu devia largar? Refleti sobre ressentimentos antigos que ainda carregava. A verdade é que, ao manter esse peso, a única pessoa que saía magoada era eu. Em Viver Depois de Ti aprendi a viajar outra vez. Tinha medo de voar, e ao pensar no Will, que queria tanto conhecer o mundo mas não podia, encontrei coragem. Sim, aprendo muito com as minhas personagens.

 

A história destaca a importância do perdão. Acreditas que a maior parte das famílias está preparada para abraçar uma segunda oportunidade?

 

Os meus pais são boas pessoas e fizeram o melhor que sabiam, mas muito do que tento fazer enquanto mãe passa por evitar os erros que acho que eles cometeram. Provavelmente, os meus filhos também vão tentar evitar os erros que eu cometi. Somos humanos e vamos sempre falhar em alguma coisa. O importante é assumirmos esses erros, termos consciência deles.

 

A geração dos meus pais não estava habituada a pedir desculpa. Eu, pelo contrário, esforço-me muito para fazer isso com os meus filhos: reconhecer quando não lidei bem com algo, pedir desculpa, ou simplesmente dizer-lhes que estou triste.

 

A literatura contemporânea evoluiu na forma como retrata as mulheres?

 

Sim, acho que sim. Quando comecei, falava-se muito em 'chick lit' — não sei se o termo é o mesmo em Portugal —, mas parecia sempre algo redutor. Havia a ideia de que as mulheres só se interessavam por histórias ligeiras, com capas cor-de-rosa e sapatos de salto alto. Hoje, vejo autoras como a Liane Moriarty, a Lisa Jewell ou a Marian Keyes a escreverem sobre mulheres complexas, na casa dos trinta ou quarenta, que não são caricaturas. São mulheres reais: profissionais, complicadas, humanas. E acho que isso também está a chegar ao ecrã, especialmente com a adaptação das obras da Liane. Estamos finalmente a ver mulheres mais velhas, com vidas complexas, representadas de forma autêntica.

 

A "casa" é central no romance. O que é “casa”?

 

"Casa" é onde estão as nossas pessoas. E, no meu caso, os meus animais também. Percebi isso durante a pandemia. Tinha uma casa linda no campo, com muito terreno. Pensava que ia ficar ali para sempre. Mas, em confinamento, sem poder ver ninguém, percebi que o que mais me fazia falta era a ligação humana. Queria estar perto dos meus filhos, da família, dos amigos. Mudei-me para Londres. Agora, a minha filha vive a duas ruas de mim, a minha melhor amiga de infância vive a quatro. Passeamos os cães juntas quase todas as manhãs. Isso deixa-me imensamente feliz. Percebi que não importa a casa em si, mas sim quem temos por perto.

 

A narrativa explora várias perspetivas, várias vozes — de Lila, das filhas, do padrasto, do pai biológico. Como é que conseguiste manter o equilíbrio entre elas sem se perder o fio condutor?

 

É um risco, porque muita gente não gosta de narrativas com várias vozes em primeira pessoa. Mas achei muito importante para a história mostrar a vida da Lila por fora e, ao mesmo tempo, a da Celie por dentro. Quando conhecemos a Celie, ela pode parecer um estereótipo — aquela adolescente mal-humorada e difícil —, mas tem muito mais para além disso. Acho que este é um dos temas que quis transmitir: todos pensamos que sabemos o que se passa na vida dos outros. Isso acontece com todas as personagens. Pensamos que o Gene é egoísta e um idiota, mas depois descobrimos que as coisas não são assim. Pensamos que a Celie é só uma adolescente mal-humorada, mas não é. Todas estas personagens são como pessoas reais, com outras coisas a acontecer nas suas vidas; nós só vemos cerca de 10% e não sabemos o que se passa nos restantes 90%.

 

Como referiste no início da conversa, o romance desafia a ideia de "família tradicional". Que mensagem quiseste passar?

 

Acho que, por muito que algumas pessoas queiram que voltemos ao tradicional — mãe, pai, dois filhos, seja o que for —, o mundo já não funciona assim. Os pais podem ser homossexuais, de outra cor ou nacionalidade, há famílias de muitas formas e tamanhos. No fim, o que realmente importa é o amor.

 

Fico triste com quem quer impor uma estrutura, porque nem toda a gente se encaixa nela. E se o teu pai morreu? E se a tua mãe está doente e és tu quem tem de cuidar dela? Há tantas formas diferentes de ser família, que não têm a ver com escolha de vida, mas sim com o que aconteceu na vida de cada um. Por isso, não devemos envergonhar as pessoas, devemos é ser gentis.

 

Quanto tempo demorou O Amor Mora Aqui a ser escrito, desde a ideia inicial até ao manuscrito final?

 

Este foi o livro mais rápido que alguma vez escrevi. A certa altura, achei que isso era um mau sinal e perdi confiança. Dei-o a amigos próximos a perguntar: "Isto está fraco?". Mas eles disseram-me que não, que estava ótimo.

 

E percebi que, pela primeira vez, tinha tempo e espaço para escrever. Na casa antiga, havia sempre problemas: muito terreno, animais, obras, a minha mãe estava doente... Tinha sempre 90 coisas a acontecer. Agora, vivo numa casa mais pequena, num bairro tranquilo de Londres, os meus filhos são adultos e o meu jardim é do tamanho de uma mesa de café. Isso tornou a escrita muito mais fácil. E diverti-me tanto, só queria continuar a escrever.

 

Como sabes que uma história está fechada e pronta para ser partilhada com os leitores?

 

Se fosse por mim, passava anos a mexer no texto. Mas tenho prazos e, como venho do jornalismo, sou muito disciplinada e adoro o processo da revisão. Acho que o livro se constrói verdadeiramente na edição. Não podemos ficar agarrados às palavras. Edita-se, reescreve-se, melhora-se. Isso ficou do tempo de jornalista: aprendemos que as palavras podem sempre ser reescritas, por nós ou por outros.

 

O que esperas que os leitores retirem deste livro?

 

Espero que, ao lerem, passem a olhar para as pessoas à volta de forma diferente. Se a Lila conseguiu perdoar, talvez todos consigamos.

 

No final agradeces “a três pessoas que apoiaram generosamente duas instituições de caridade em troca de ver os seus nomes inscritos neste livro”. Fala-nos sobre o que está em causa.

 

Sou muitas vezes contactada por instituições que pedem um livro autografado ou outra contribuição. Nem sempre posso oferecer o nome de uma personagem, porque já me aconteceu dar o nome e a única personagem disponível era uma prostituta ou alguém com um papel muito negativo... Mas neste livro, como era diferente, percebi que podia incluir alguns nomes. E fiz isso com muito gosto.

 

Há planos para uma adaptação para cinema ou televisão?

 

Estou em conversações com uma produtora com quem adorava trabalhar. Já tivemos uma reunião. Mas, no mundo da televisão e do cinema, tudo é muito incerto neste momento. Estou em paz com isso: se acontecer, ótimo. Se não acontecer, está tudo bem. Ficará nas mãos dos deuses.

 

Que novidades podemos esperar, outro livro?

 

Um outro livro contemporâneo e uma nova versão de uma história antiga. É tudo o que posso dizer por agora.

 

Há alguma história que gostasses de escrever, mas que ainda não tiveste oportunidade?

 

Sim, uma história sobre um massacre que ocorreu no Congo, nos anos 60. Fiquei obcecada com esse episódio trágico, mas acho que nenhum dos meus editores quer que o escreva. Talvez com um pseudónimo...

 

Por alguma razão?

 

Como parte da minha pesquisa, gosto de consultar revistas antigas. Uma vez, encontrei o arquivo da revista Life online. Li várias edições que falavam sobre um massacre de missionários no Congo, e consequências políticas que teve. As fotografias eram tão explícitas que hoje nunca as mostrariam. Uma história dramática que se tornou quase uma obsessão.

 

O que significam as Feiras do Livro, qual a sua importância para um autor?

 

Significa encontrar os leitores. Um escritor passa 90% do tempo sozinho e é fácil esquecer que há pessoas do outro lado. Sinto-me muito afortunada pelos meus leitores. Tenho amigos que escrevem policiais e encontram leitores mais introvertidos. Eu encontro mulheres a sorrir, 90% das vezes. Elas sentem-se vistas pelos meus livros e partilham as suas histórias comigo. Como escrevo personagens tão pessoais, talvez sintam que me conhecem — e, de certo modo, talvez conheçam. Durante quase dez anos, quase não tive leitores. Hoje é um privilégio poder estar com eles.

 

O que estás a ler?

 

O novo livro do John NivenThe Fathers. Conta a história de dois pais completamente diferentes que se conhecem numa sala de parto. Ao longo do livro, as atitudes deles chegam a ser inacreditáveis, mas é precisamente isso que torna a leitura tão cativante. Faz lembrar o estilo do Martin Amis.

 

Por Rita Sousa Vieira 

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