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JEFERSON TENÓRIO EM ENTREVISTA
ENTREVISTA A JEFERSON TENÓRIO ENTREVISTA A JEFERSON TENÓRIO


“Tornar-me leitor foi o ato mais transgressor da minha vida”



De premiado a censurado, Jeferson Tenório coloca o dedo numa das maiores feridas abertas do Brasil. Ao escrever os livros que gostava de ter lido, o escritor quer formar novos leitores e combater os estereótipos raciais na literatura. O autor de Estela sem Deus e de O Avesso da Pele esteve em Portugal e falou com a Cultura FNAC.





 

Dizes que te tornaste escritor por acidente. Como é que aconteceu?

 

Escrevi os livros que gostava de ter lido quando não era leitor. Tornar-me leitor foi o ato mais transgressor da minha vida, por isso é que o meu projeto literário também é de formação de leitores. Os meus livros têm uma linguagem fluente, fácil, não têm palavras difíceis. Quero chegar ao leitor que nunca leu um livro inteiro.

 

E quando é que isso aconteceu?

 

Já aos 24 anos.

 

Já numa fase tardia.

 

Tenho 47 anos, já faz vinte e poucos anos.

 

Que autores foram responsáveis por isso?

 

Foi a partir do Rubem Fonseca, um escritor de romances policiais. Depois vieram outros, como a Clarice Lispector ou o Fernando Pessoa.

 

A música também teve importância na construção do escritor, nomeadamente o rap. De que forma?

 

O rap teve algumas funções, mostrou-me uma consciência crítica, política e racial. O meu letramento poético dá-se com as letras de rap. Era eu que escrevia as letras do meu grupo [os Magma Rap], e foi aí que tive a noção de ritmo, de metáforas, de ironia, de musicalidade, de como lidar com as palavras.

 

Há algum nome que tenha sido uma influência?

 

Os Racionais MC’s. Nós queríamos ser como eles.

 

A música dos Racionais MC’s foi muito importante, nomeadamente para as pessoas negras e periféricas.

 

Eles foram responsáveis por formar uma geração de pessoas negras politizadas. Tinham letras que empoderavam as pessoas negras, ao abordar questões sociais e a violência. Eu sentia-me muito empoderado depois de escutar as letras dos Racionais. Ainda não consegui encontrar-me com o Mano Brown, mas um dia ainda gostava de lhe dizer o quão foi importante na minha formação intelectual.

 

O rap continua a ser o género que dá palco aos problemas sociais no Brasil?

 

Acho que sim, embora tenha perdido terreno para o mundo da pop e para o funk. Talvez de uma outra forma, mas o funk também tem um lado político.

 

Foste professor durante vários anos. Qual o estado do ensino público brasileiro?

 

Precário, como sempre esteve. Pouco mudou, apesar de ter havido alguns avanços. Com a chegada do governo Lula foram recuperados projetos, mas ainda é uma estrutura muito precária. Os professores ainda ganham pouco, muitas escolas não têm estrutura física, o índice de aprendizagens e de leitores ainda é muito baixo. Ainda não temos grandes avanços, mas alguma coisa melhorou de há uns tempos para cá.

 

Davas aulas a alunos de que idades?

 

Dos 10 anos até à vida adulta. Ao ensino fundamental — 5º e 6º ano —, ao ensino médio — os adolescentes — e, depois, ao Ensino de Jovens Adultos, a pessoas adultas que pararam de estudar há muito tempo e que depois voltaram.

 

Que marcas dos anos como professor encontramos na tua escrita?

 

Só me tornei escritor porque dei aulas, os alunos foram fundamentais para que me entendesse como escritor. As histórias que ouvia deles, as trocas que tínhamos na sala de aula... A resolução de problemas dentro da sala de aula também dá uma noção mais próxima dos conflitos.

 

É por isso que as tuas personagens centrais são sempre jovens?

 

Está relacionado com isso, mas também com o meu interesse de representar jovens nesse momento de aprendizagem. Quando ainda não têm mecanismos internos para lidar com as adversidades da vida, mas mesmo assim demonstram coragem. Às vezes preciso de me lembrar desses anos, porque à medida que o tempo passa, mais medos vamos tendo, vamos tomando consciência dos horrores na vida. Na juventude, não. Os meus personagens recordam-me essa coragem, de que tenho saudades.

 

Sentes saudades de dar aulas?

 

Muita. Sinto saudades de dar aulas, não da escola. De formar, de conversar, de estimular os alunos. A última experiência que tive em sala de aula já foi na Universidade, quando fui professor convidado na Brown [EUA].

 

Ao longo da escolaridade obrigatória em Portugal, os alunos têm de ler várias obras da literatura portuguesa. Essas obras e autores fazem parte de um programa definido pelo Ministério da Educação para a disciplina de Português. Acontece o mesmo no Brasil?

 

Cada escola é que define, não é o Governo. Temos um programa, a Lei de Diretrizes e Bases, que é quase como um currículo base que todas as escolas devem respeitar, mas a lista de autores é definida por cada escola. Na verdade, é por cada professor.

 

Perguntava porque há quem defenda uma revisão desse programa com o argumento de que é antiquado ou está desatualizado. Queria saber se havia algum ponto de comparação e se também se debatia uma atualização dos autores de leitura obrigatória.

 

Acredito que as pessoas em Portugal tenham maior poder de aquisição e de acesso a livros em bibliotecas ou em livrarias. A cidade de Lisboa, por exemplo, tem muitos recursos culturais, e isso também cria leitores. Então, retirar essa componente obrigatória seria mais fácil.

 

No Brasil, não temos essa possibilidade, porque não há todos esses estímulos para a criação do leitor. É preciso criar uma lista de leitura obrigatória e a ideia de que é obrigatório ler. Eu também acredito que a escola tem a obrigação de mostrar que os clássicos existem, que Camões e Pessoa são importantes, mas não deve esquecer que existe a literatura contemporânea e talvez ela seja mais interessante para os jovens que ainda não têm contacto com os livros.

 

Que conselhos dás aos jovens que dizem que não gostam de ler?

 

Eu fui esse jovem, não é? Quando descobri a leitura, fiquei com raiva do mundo. Porque é que ninguém me disse que era tão bom? Aos jovens que não gostam de ler... Cada leitor tem o seu tempo, por mais que digamos a um jovem que ler é bom ou que a leitura vai acrescentar à sua vida, isso não é suficiente. Se houver um ambiente familiar que o propicie, isso já vai ser mais fácil. Nenhum jovem vai ler porque o professor diz que ele tem de o fazer; ele vai começar a ler se o influencer do TikTok disser que está a ler.

 

O Avesso da Pele, o teu terceiro romance e o primeiro editado em Portugal, é uma declaração de amor à literatura?

 

É uma declaração de amor aos livros, ao conhecimento, aos professores. Eu tenho muito cuidado ao colocar referências literárias nos meus livros porque não gosto de humilhar o leitor.

 

Não gostas que o leitor seja esmagado ou desmotivado pelo desconhecimento das referências?

 

Isso, porque afasta o leitor. Nomeadamente, o leitor que eu quero. O cuidado com as referências que coloco é sinal de respeito muito mais pelo leitor do que com as próprias referências.

 

E que quem é o leitor que procuras? No Brasil, os mais jovens estão entre os teus grandes leitores.

 

Talvez por não ter tido a intenção de escrever para os mais jovens — os meus três livros são para um leitor adulto —, isso os aproxime. Há uma empatia entre os mais jovens com as minhas personagens.

 

Ainda há pouca diversidade de narrativas, geografias ou personagens na literatura brasileira? Quais são as consequências disso?

 

Acaba afastando o possível leitor por não se conseguir identificar. Claro que a literatura não precisa trazer essa identificação por simpatia ou por empatia, mas pode trazer outras formas de relação. A falta de representatividade de personagens, ou a existência de personagens estereotipadas, que já estamos cansados de ver, como personagens de negros pobres, bandidos, assassinos, já deu. Por isso é que quis trazer personagens que tivessem acesso aos livros, que fossem leitores. Esse é o tipo de personagens com que tento quebrar essa hegemonia de um só tipo.

 

Podemos falar na emergência de uma literatura periférica ou de uma literatura negra contemporânea?

 

A literatura periférica já vem desde a década de 90. A revista Caros Amigos, que acho que já não existe, inaugura essa expressão, a da literatura periférica brasileira, trazendo nomes que vêm da periferia. A literatura negra, como a conhecemos hoje, é muito recente. De há uns dez anos para cá, temos o que tenho chamado de Primavera Literária Negra, com a emergência de autoras e autores negros. Na história da literatura brasileira ainda é pouco. Talvez hoje em evidência consigamos contar dez escritores negros no Brasil. Se formos contar os escritores homens brancos, são centenas. Escritores reconhecidos, publicados, traduzidos.

 

Nesses dez, quantas autoras existem?

 

Fazendo o recorte de género fica ainda mais difícil.

 

Quem são eles, podes dizer alguns nomes?

 

Conceição EvaristoItamar Vieira JuniorAna Maria GonçalvesEliana Alves CruzCidinha da SilvaPaulo ScottPaulo Lins...

 

A que deve o sucesso destes autores na última década? Vem de uma validação do público ou do próprio mercado editorial?

 

É uma valorização tardia do mercado editorial brasileiro. O mercado editorial norte-americano, por exemplo, já sabia que os autores negros têm uma demanda. O Brasil chega tardiamente, mas também graças a uma mudança de público, de leitores. Ela está relacionada com as políticas públicas de entrada de pessoas negras nas Universidades.

 

As quotas raciais.

 

A entrada desses alunos fez com que houvesse uma mudança na validação do que é a literatura, levando para dentro da Universidade os autores negros contemporâneos. Isso foi modificando o que chega no mercado, porque sabemos que a Universidade é um lugar de marcação do que deve ser lido ou não. A mudança de públicos acaba por influenciar o mercado editorial.

 

O mercado, os prémios, a composição da Academia Brasileira de Letras...

 

Tudo isso muda. Há umas semanas dei uma palestra na Academia Brasileira de Letras sobre Machado de Assis ser um autor negro. Machado de Assis não era visto como um autor negro e com o passar dos anos é que assim se entendeu. Isso tudo é uma mudança muito lenta de mentalidades, e vem da entrada de pessoas negras na Universidade.

 

É errado catalogar a literatura negra como uma literatura que trata apenas de questões meramente identitárias?

 

A questão identitária é muito curiosa. Não se faz literatura sem um sujeito, um corpo, que vem de determinado lugar. Esse lugar enunciativo está marcado por uma identidade e ela vai refletir-se no texto. Toda a literatura é identitária.

 

O Avesso da Pele foi censurado pelos estados do Paraná, Mato Grosso do Sul e Goiás, que pediram para recolher o livro das escolas públicas alegando que a obra apresenta "expressões impróprias" para alunos do ensino médio. Como reages como professor, escritor e cidadão?

 

Como cidadão, vejo como uma cooptação de um discurso político conservador para conseguir um capital político. Desde o Bolsonaro que se tenta achar elementos para odiar.

 

Como professor, vejo como um grande desserviço. A diretora que fez a denúncia não podia estar a ocupar o lugar que ocupa sem saber como um livro chega nas escolas. Ela não sabia, de todo, o processo que um livro tem de passar para chegar até às mãos dos alunos. Ele passa por um processo bem rigoroso, por vários especialistas, até chegar às escolas.

 

Como escritor, vejo que fiz um bom trabalho. Se incomodou pessoas conservadoras a esse ponto, é porque o caminho é esse. Acho que consegui trazer mais leitores para O Avesso da Pele em função da polémica.

 

Há um debate, que não é exclusivo do Brasil, sobre passagens racistas em obras de grandes autores. Que contributo dás para essa discussão, o que deve ser feito?

 

Acho que é a mesma discussão que se tem com os monumentos de colonizadores. O que se faz com eles? Derrubamos? Metemos uma plaquinha? Na literatura, acho que cada caso é um caso, não dá para generalizar. No caso do Montero Lobato, que talvez seja o mais evidente, o meu posicionamento é este. Não retiraria o livro de maneira nenhuma, porque estaria a censurar, algo que condeno. Enquanto professor, sentia-me mais seguro com uma edição que viesse com uma introdução, com algum texto de apoio que explicasse porque é que aquele texto foi escrito daquela forma, contextualizando a coisa. Só não colocaria na capa, como se tem dito, gatilhos ou 'contém cenas racistas', que acho desnecessário.

 

Numa das tuas crónicas para o UOL escreveste assim: “sim, o presidente português tem razão: pedir desculpa é a parte fácil”. O escritor angolano José Eduardo Agualusa considerou também legítimas eventuais “reparações históricas” sobre a responsabilidade de Portugal por crimes cometidos durante a era colonial. Qual deve ser essa reparação?

 

A declaração do Presidente Marcelo foi muito importante e impactante enquanto ato simbólico, e as reparações começam com os atos simbólicos. Mas antes de haver uma reparação mais objetiva, até em termos materiais ou económicos... Não vamos ter reparações enquanto não houver uma mudança de mentalidade da população portuguesa.

 

A população portuguesa, na minha opinião, ainda não entendeu o que significou a colonização para as ex-colónias. Ainda se tem a ideia de que foi uma boa colonização, de que o Brasil é fruto de Portugal. É preciso que haja uma mudança de mentalidade em relação à sua história. Se não houver, acho muito difícil que haja uma reparação efetiva.

 

Digo mais, acho que essa mudança de mentalidade não virá pelos portugueses, mas sim pelos emigrantes, que trazem uma outra perspetiva. Os portugueses ainda olham para os emigrantes como um invasor, porque também não se entendem como um invasor. Portugal foi esse invasor. Olhar para esse emigrante é também olhar para o passado.

 

Escreveste O Avesso da Pele quando pensavas que já não irias escrever um novo livro. Quando sai o próximo?

 

Estamos no processo de edição do próximo romance. Deve sair em outubro ou novembro no Brasil. Só no ano que vem é que chega aqui.

 

Depois de Estela sem Deusrecentemente editado em Portugal, também teremos O Beijo na Parede, o teu primeiro romance, a chegar às livrarias portuguesas?

 

Ainda não sei. Ele pertence a uma editora pequena e ainda tem trâmites jurídicos e burocráticos. Deve demorar um pouco ainda, mas também deve vir para cá.

 

Como é a tua relação com os leitores portugueses?

 

Tenho tido experiências muito boas com os leitores portugueses. São muito gentis e demonstram uma surpresa, não imaginam o Brasil desta forma. O racismo, a violência policial, do jeito que escrevo. Tem sido uma troca muito boa.

 

A surpresa pode vir de uma visão uniforme do Brasil, que esbarra nos contrastes de Porto Alegre e do estado do Rio Grande do Sul?

 

Sinto que estranham o tipo de racismo que o livro [O Avesso da Pele] mostra. Mais subtil, que está no olhar, nos gestos, num tipo de piada. Esse racismo que não vemos na grande média, por exemplo, quando um jogador é chamado de macaco.

 

O que é que estás a ler?

 

Estou a terminar um livro de um autor de que gosto muito, o Alejandro Zambra. Publicou agora um livro muito bonito, muito delicado, chamado Literatura Infantil, sobre paternidade.

 

Por Rita Sousa Vieira

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