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Qual a importância da primeira pergunta numa entrevista, ela dita a conversa?
Essa é que é uma boa pergunta. Sim, porque a partir da primeira pergunta percebes se a pessoa está à vontade, ou não. E se está com vontade em partilhar aquela conversa ou se vai ser só mais uma na história da sua vida.
Na de quem faz a pergunta ou na de quem a responde?
Para ambos os lados, curiosamente. A quem é feita a pergunta e para quem a faz. Percebe-se de parte a parte que jogo se quer jogar. Quem vai, vai com expectativas; quem recebe, também tem as suas expectativas naturais. Portanto, logo ali na primeira pergunta o jogo mostra-se. Não quer dizer que as coisas, depois, não possam evoluir para um lado ou para o outro, mas a primeira pergunta... Como sabes, eu aposto tudo na introdução, e a introdução já deixa o convidado ou a convidada mais ou menos a perceber ao que vai. Acho isso importante.
E uma pergunta em falso mata a entrevista?
Esse vazio constrangedor raramente aconteceu, normalmente as pessoas sabem ao que vão e eu não estou ali para ter a caixa, a notícia. Aliás, tenho imenso cuidado em nunca encostar as pessoas à parede, porque não estou ali para extrair nada. Estou ali para que as pessoas se sintam à vontade e confessem alguma coisa, se for para confessar; e que se emocionem, se assim se proporcionar; ou que seja uma conversa banal, como temos com os amigos ou familiares.
Este livro, Máquina de Escrever Sentimentos, era para ter tido outro título. Em algumas partilhas no Instagram era por outro nome que deixavas antever este lançamento. A que se deveu a alteração?
Essa mudança aconteceu a meio do processo. Tudo indicava que o título seria Livro das Reclamações das Saudades, pelas saudades que tinha, e tenho, da minha mãe. Mas a morte dela, e as saudades que dela sinto, também foram abrindo caminho para outras saudades. Livro das Reclamações dava um tom um bocadinho pesado e deixava de fora outras coisas que queria dizer — eu queria falar da amizade, do amor, de mim enquanto mulher. Livro das Reclamações das Saudades poderia levar ao engano e era um bocadinho redutor. Ainda que o livro tenha muito esse tom saudosista, com memórias da minha mãe, da adolescência, dos cheiros das cassetes, de muita coisa.
Começaste a escrever o livro ainda a tua mãe estava viva?
Este livro acompanha o período em que a minha mãe já estava doente e continuou depois da sua morte, já com a minha perspetiva da vida sem ela.
Como é que o Máquina de Escrever Sentimentos é para ser lido?
O livro é um diário sem cronologia, são pequenos fragmentos — ou são, como lhes chamo, (des)apontamentos —, que fazem sentido em qualquer dia. Há quem se vá identificar ao ler, no acordar ou ao deitar, “reclamo das saudades dos queques quentinhos que a minha mãe fazia ao domingo e eu comia sem esperar pelas cinco da tarde". Há no livro imensas memórias afetivas com as quais acho que as pessoas se vão identificar e que fazem sentido em qualquer altura.
Este livro tem três gerações. Nele está a tua mãe, através da memória, tu, pela escrita, e a tua filha, a Maria Inês, que assina as ilustrações. Como é que essas três vozes comunicam entre elas?
De facto, há uma ligação, uma espécie de manto que nos cobre, e que não tendo sido concertado nos conserta. Há uma espécie de linguagem, que foi urdida de uma forma invisível e muda, onde estamos as três, três mulheres que contam cada uma a sua história.
Estas ilustrações foram feitas exclusivamente para o livro?
Algumas já existiam e outras foram feitas propositadamente para o livro.
Quem te segue no Instagram já conhecia a da capa.
Foi feita uma serigrafia e ilustra uma máquina de escrever que está em casa.
Essa máquina conta alguma história?
Gosto muito dela, mas a história está no que se lê na ilustração. O que lá está vem de um bilhete que me foi deixado há quase trinta anos, não está completo, mas dizia: “O tempo que passo contigo não chega para matar as saudades que tenho de ti”. Como esse bilhete todo não cabia na máquina, pensámos colocá-lo em modo telegrama. O que era um bilhete de amor, de quando tinha vinte e tal anos, tornou-se uma espécie de telegrama de amor para a minha mãe.
A escrita do livro foi terapêutica?
Muito. Ao ponto de perceber que já não podia escrever mais sobre a morte da minha mãe ou sobre as saudades, porque era muito pesado. Depois daquela dor que precisava de resolver, comecei a perceber que estava mais disponível para ver outras coisas em volta. Acho que a escrita nos resolve sempre, é como ir à terapia. Escrevo e fico com o pensamento alinhado; acho que a escrita me dá uma capacidade que a oralidade não me permite.
A escrita dá tempo?
Sim. A escrita permite que as palavras fiquem no sítio. Na oralidade, por vezes, perdemo-nos com distrações, com palavras que não vieram no tempo certo. Não fomos ao encontro delas ou elas não vieram ao nosso encontro.
Durante muito tempo, boa parte das pessoas conhecia-te apenas pela voz. Qual foi o momento em que percebeste que querias alimentar o lado da escrita?
Quando estava na TSF, o João Paulo Baltazar, uma figura fundamental na história da rádio — depois foi diretor da Antena 1 e agora está na Antena 2 —, tinha um programa ao fim de semana chamado o Som dos Pedais. Ele convidou-me para fazer uma rubrica, o que eu quisesse. Escrevi uma série de crónicas, que a que chama “Enquanto Ela Dorme”, onde contava um sonho ficcionado como se ele tivesse existido. Era muito engraçado, ilustrava esses textos com sons e com pedaços de canções. Foi uma experiência muito interessante e foi aí, também, que percebi que tinha capacidade para escrever e que o podia desenvolver. Depois veio a Cidália [as crónicas “O Sexo e a Cidália”], que me deu água pela barba, e durante 13 anos contei uma aventura Cidalesca. Aí também alimentei o lado da escrita, ainda que as pessoas me continuem a ver como radialista — e podem ver como quiserem, menos benfiquista.
...
A literatura é o meio mais preconceituoso que conheço, de longe. Se o da música já é complicado, na literatura dizem-te taxativamente: "tu não és escritora, tu não podes ser escritora". Há uma espécie de superioridade. Bom, eu rio-me perante isso porque cada um pode ser o que quiser, felizmente, mas é o meio mais preconceituoso que conheço.
Sentes isso?
Sinto muito isso, claro. Até porque eu ainda tenho uma desvantagem, que vejo como vantagem. Sou conhecida como radialista, logo não posso ser outra coisa. Somos uma coisa ou somos outra, se há alguém que se atreve a ser outra... Acontece muito, quem não quer dizer bem do livro, elogia as ilustrações da minha filha. Vivo perfeitamente bem com isso, já o resolvi dentro de mim. O meio literário é o mais preconceituoso, há sempre alguém te que julga, que se acha superior e te aponta o dedo, se és mulher pior. Toleravam-me como radialista, mas não me toleram como escritora.
O que é para ti a página em branco?
Não tenho muito isso. Acho que só vou ter quando começar, por fim, a escrever o romance. Acho que esse é que vai ser o ato de coragem.
Ainda não começaste?
Já tenho a ideia.
Já tens título?
Já tenho um título, mas acho que vai mudar. Tenho também o desenho do que vou escrever, e o desenho é importante para o que se vai passar. Para escrever um romance vou ter de escrever todos os dias, que é algo que não faço. Enfim, quase que escrevo todos os dias, porque num dia escrevo o “O Coração Ainda Bate” [crónica no Público], noutro o “Fala com Ela” [podcast agora Antena 1] ou o “Um Chão Comum” [podcast do CCB]. A página em branco só acho que vai surgir quando tiver de me sentar todos os dias — e tenho de me obrigar a isso —, e pensar no que vou escrever. Devo dizer que sou muito rápida a escrever uma crónica, porque estou a falar de mim ou de uma situação que acabou por espoletar aquilo que está ali desenvolvido. Quando começar o romance vou ter a angústia da escritora na hora do penálti.
O romance vem sendo adiado por essa indisciplina?
Vem sendo adiado pela preguiça, porque troco tudo por prazeres vários. Seja receber amigos, abrir uma garrafa de vinho, meter um disco a tocar no gira-discos, ver um filme ou ler um livro. Troco o "ai que prazer não cumprir um dever" por "ai que prazer ter um livro para escrever e não o fazer".
Não são esses prazeres a tua maior inspiração?
É verdade. Conheço escritores, bons escritores, grandes escritores, que fazem disso a sua vida, e há nisso uma austeridade na qual não me reconheço. Se calhar adio o romance porque toda a vida fugi dessa austeridade. O meu pai era muito austero e havia muita rigidez na forma como fui educada. Acho que, a dada altura, fugi para sempre dessa austeridade... Agora estou a fazer um exercício de terapia, nunca tinha pensado nisso. Acho que fujo sempre da austeridade do meu pai, curioso. Ter obrigações, ter horários... Claro que nunca falho nos meus compromissos, mas não tenho a cabeça no cepo para escrever o romance, não sou obrigada a isso. Portanto, vou fugindo, arranjando sempre motivos maiores que, na verdade, são menores.
Por horários, a caminho desta conversa lembrei-me que nunca marcas nada para uma hora exata, e foi o exatamente o que fizemos.
Isso é uma graça que ainda uso, que vem do Rui Pedro Tendinha. Ele diz "então às 15h47 em tua casa". Apanhei esse vício, que é contagioso e já toda a gente o pratica aqui em casa. Porque é que tem de ser sempre à hora certa? Porque é que uma mulher diz que já não veste de vermelho com determinada idade? Porquê? Qual é o livro da vida que temos mesmo de seguir. Interessante esse tema, vou escrever sobre ele.
Voltando às ilustrações de Máquina de Escrever Sentimentos, como é ter a Maria Inês a assinar essa parte do livro?
É um motivo de orgulho, muito orgulho, não querendo nunca que ela sinta pressão ou o peso da responsabilidade. As ilustrações foram feitas com 14 e 15 anos, mas há muito tempo que começou a desenhar. No Lux, na apresentação do livro, perguntei-lhe se queria fazer parte do painel. Ela disse que não, e respeito isso. Quando começou a fazer as ilustrações para a crónica do Público, chegou um momento em que disse que não queria mais. Porque aquilo tinha sido um acordo entre nós no verão, para ela ganhar uns trocos. Quando lhe perguntei se queria fazer as ilustrações deste livro, ela aceitou e disse exatamente quantas faria.
Nunca pensaste em Falar com Ela?
Nunca. Só todos os dias, dentro de casa e à mesa, onde acontecem as melhores conversas. Quando saí da rádio Radar fiz uma “Hora do Bolo” [programa onde convidados e ouvistes escolhiam uma playlist] com ela, foi muito engraçado.
E com a tua mãe?
Falei as vezes que pude. Ela adoeceu há alguns anos, mas quando apareceu um novo cancro as coisas tornaram-se mais difíceis, era mais difícil falar sobre o que quer que fosse, era mais difícil alimentar a esperança. Gostava de ter ido mais fundo, mas não queria chorar. Consegui nunca chorar à frente dela, mas sabia que se entrasse por determinados territórios podia trair-me.
O que estás a ler?
Estou a ler o Tudo é o Rio, da Carla Madeira. É bastante forte em termos de linguagem e erotismo. Li umas quarenta páginas de seguida, depois parei. Acho que ela é bastante boa em analogias e em imagens que te assaltam, mas tenho de perceber se vai além disso. A verdade é que nunca li mais nenhum livro tão apaixonante como A Única História, do Julian Barnes. Preciso de um livro que me apaixone outra vez como esse.
Por Rita Sousa Vieira
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