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És um filho de Abril?
Sou um filho de Abril no sentido em que já nasci depois do 25 de Abril. Costumo dizer na brincadeira que ganhei a lotaria cósmica, que é ter nascido e crescido não só em democracia, mas num período de prosperidade do país. No entanto, como digo no livro, ainda que tenhamos tendência a convencionar que a ditadura acabou no 25 de Abril e o PREC acabou no 25 de Novembro, a verdade é que nem a revolução nem a ditadura são estanques. Todos os traumas, todos os medos que se herdam, são questões transgeracionais e vão muito além dessas datas.
Como é que o 25 de Abril de 1974 era contado em tua casa?
A minha família era muito pouco politizada. Sabia que o meu pai tinha estado em França, mas só há poucos anos soube esta história. Ele estava a trabalhar e quando chegou ao escritório disseram-lhe: "olha, há uma revolução no teu país". Ele não acreditou, achava muito pouco provável, conhecendo o país, que isso acontecesse. Recentemente tive uma conversa com Sérgio Godinho, ele estava no Canadá nessa data, e acho que ele me disse a mesma coisa, que quando ouviu as notícias não acreditou logo. Achei engraçada essa ideia de [uma revolução] ser tão implausível para algumas pessoas.
O teu pai partiu para França por alguma razão?
Como muitos portugueses, foi à procura de outra coisa. Foi à procura de uma vida melhor.
Não foi para França para fugir à guerra ou por questões políticas?
Não, não. O meu pai já tinha cumprido o serviço militar obrigatório nos anos 60, tinha estado em Angola, e não foi por questões políticas. Nesses anos, de 1965 a 1975, emigraram mais de um milhão de portugueses. O meu pai estava entre eles.
Ainda que fosses criança, tens memórias do final dos anos 70?
Acho que a minha primeira memória é de 1980, se não estou enganado, o ano em que morreu o Sá Carneiro. Lembro-me de a minha família estar a ver o funeral. Não tenho memórias claras do final dos anos 70. Como para este livro a pesquisa foi tão longa, tão intensa e beneficiou de muitas imagens dos anos 70, a determinada altura já não sei o que é facto e o que é a imaginação.
O novo Acordo Ortográfico faz com que se escreva 25 de abril com “a” minúsculo. Concordas?
É-me completamente indiferente, eu escrevo “deus” com letra minúscula. No Acordo Ortográfico há duas ou três coisas que não fazem muito sentido — “para”, sem acento, faz-me confusão —, mas não estou nem aí. Se as pessoas entendem as ideias e as emoções que quero passar, não me interessa se é maiúscula ou minúscula. Há uns tempos houve uma senhora que comentou nas redes sociais: "Se este livro está escrito com o Novo Acordo, então não vou ler". Eu não tenho o hábito inconsequente de comentar comentários nas redes sociais, mas apeteceu-me dizer: "A senhora sabe que quando está a ler Eça de Queiroz ou Fernando Pessoa não está a ler com a grafia original?".
Sempre que alguém menciona o "para" lembro-me de uma conversa entre o Gregório Duvivier e o Ricardo Araújo Pereira sobre a língua portuguesa, onde o RAP diz que lhe faz muita confusão o "ninguém para o Benfica".
Essa é boa. Eu escrevo com o Acordo Ortográfico porque trabalhei no Brasil enquanto editor. Trabalhava numa editora de livros exclusivamente de expressão lusófona e fazíamos vendas para o Governo, e se não estiverem de acordo [com o AO], eles não compram. Então, habituei-me. Os meus primeiros livros eram sem, mas os novos já são com [o AO]. Já não penso sequer nisso, mas há sempre um ato de subversão. Todos os livros que escrevo com acordo, o pára tem acento no "a".
Revolução é editado na véspera das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. É uma feliz coincidência ou foi propositado?
É uma coincidência. Já tinha a ideia para um livro sobre o Processo Revolucionário em Curso há algum tempo, mas queria escrever primeiro o Deus Pátria Família, um livro que se passa nos anos 40 e se dedica essencialmente aos anos gloriosos, entre aspas, da ditadura. Na altura nem sequer sabia que ia começar nos últimos anos da ditadura e que ia até aos primeiros anos da democracia, que é o tempo que abarca o Revolução.
Este é um livro sobre o 25 de Abril ou sobre o Processo Revolucionário em Curso (PREC)?
É um livro sobre a família Storm. A família como o microcosmo mais definitivo na formação do nosso caráter, dos nossos traumas, dos nossos afetos, dos nossos medos. Queria muito escrever sobre uma família que, aliás, é um assunto universal e intemporal de muitos escritores. Há uma frase do Philip Roth de que gosto muito, ele diz: "Estar vivo é compreender mal os outros. Depois de cautelosa reconsideração, voltar a compreendê-los mal". Essa ideia da incompreensão entre os seres humanos, que é muito comum entre famílias — os desentendimentos, as vontades que chocam, mas também as nesgas de ternura e de reencontro — era algo que eu queria explorar.
Revolução também é um livro sobre as dores de crescimento, de uma família e de um país; é um retrato dessa metamorfose, com todas as dores de crescimento que implica essa mudança. De um país que vem de uma ditadura de quase 50 anos e que, de repente, passa por uma libertação intensa, violenta, rocambolesca, super passional, que tem o seu cúmulo no PREC, e que desagua nos primeiros anos da democracia.
Este livro é uma continuação de Deus Pátria Família ou são de leitura independente?
São de leitura completamente independente. No Deus Pátria Família as personagens não têm nada a ver com estas, é um livro que tem como premissa uma realidade alternativa; o Revolução não, é um retrato, um fresco da época.
Alguém outro dia me dizia: "pensava que ias fazer o mesmo que fizeste no Deus Pátria Família, onde havia uma história alternativa". Por mais tentador que isso fosse, desconfio sempre da repetição de fórmulas, a ideia da repetição é o contrário daquilo que está na génese da criação artística. Da mesma maneira que quando escrevi o Filho da Mãe, um livro biográfico sobre o luto, um livro muito pessoal, a seguir tive de fazer um livro completamente diferente. Então, o que é que este livro tem em comum com o Deus Pátria Família? Retratam uma época histórica de Portugal com características dramáticas muito intensas. O Deus Pátria Família durante a Segunda Guerra Mundial, com chegada de todos os refugiados que estão em fuga da Europa em guerra; o Revolução na transição de um país amordaçado durante 50 anos, onde não só havia liberdade.
Podemos esperar a continuação desse retrato de uma época num novo livro?
Toda a gente me pergunta isso. Tinha dois livros na calha para escrever depois do Revolução, um deles poderia enquadrar-se nesta espécie de fase lusitana, mas não o quis escrever já. Posso dizer, é um livro sobre a Guerra Colonial e o fim do Império. Ou seja, se o Revolução é um livro sobre o fim da ditadura e a transição para a democracia, esse livro seria quase o epílogo de 500 anos de colonialismo.
A ditadura e a transição para a democracia é um tema pouco explorado na literatura portuguesa. Com algumas exceções, como o movimento neorrealista, de Soeiro Pereira Gomes ou de Manuel da Fonseca, com características e num período próprio. Ou, depois, a obra de Manuel Tiago, pseudónimo literário adotado por Álvaro Cunhal, ou alguns livros de José Saramago, como o Levantado do Chão.
É uma questão que se tem levantado e à qual não sei responder. Sei que procurei muito, encontrei alguns livros de alguns escritos logo ali imediatamente a seguir...
Escritos a quente.
Muito contaminados pelo viés ideológico e muito a quente. Há muita historiografia, os diários da Natália Correia, onde me inspirei, os artigos de jornais, aos quais também recorri, mas de ficção não há. Surpreende-me, porque é um manancial tremendo para romance, para cinema, para tudo o que seja. Era uma época dramaticamente interessante, de polarização, de extremos, de grandes paixões, de grandes convicções, de episódios rocambolescos. Espero ter conseguido retratar no Revolução esse ambiente de tragicomédia, que muitas vezes era de comédia pura e dura.
A figura do Pinheiro de Azevedo resume bem isso.
Aliás, conto essa história. Quando o Governo decide fazer greve porque não tinha condições para governar e depois de um sequestro de dois dias no Palácio de São Bento, ele vira-se para as televisões e diz: "epa, não gosto de ser sequestrado, já fui sequestrado duas vezes e não gosto". Depois perguntam-lhe o que ia fazer, ao que responde: "agora vou almoçar". Isso é apenas um episódio, entre milhares muito menos conhecidos, que eu tentei de alguma forma reproduzir no livro. Outra coisa que tentei reproduzir, porque estavam por todo o lado, eram uma espécie dos memes da altura, foi as frases nas paredes. Muitas das frases tinham muita graça; havia muitas dogmáticas, de partidos, com um grande teor ideológico, mas havia outras como "luta pelo filet mignon" ou "abaixo os telhados, a chuva é do povo". Havia um grande sentido de humor no meio daquela confusão que foi o PREC.
Voltado ainda atrás, não é só a literatura que não explorou o tema, o cinema também. Novamente com algumas exceções nos anos 1990 (A Vã Glória de Mandar, Cinco Dias, Cinco Noites, Capitães de Abril) e alguma produção nos últimos anos (Cartas da Guerra, A Herdade, Glória, Salgueiro Maia - O Implicado). Li outro dia que terminou a rodagem de um filme sobre o Mário Soares e está em curso outro sobre o Álvaro Cunhal.
Há um filme do António Pedro Vasconcelos, o Oxalá, do final dos anos 80, que cito uma frase de uma das personagens. O António Pedro, quando soube que estava a escrever o livro, teve a cortesia de me mandar para ver. Mas não há, que eu me lembre...
Obviamente que tenho o luxo da distância de não ter passado por aquilo, de não estar contaminado, como outras pessoas que passaram e que viveram esse período com grande paixão e em lados diferentes da barricada. Não tenho nenhum cavalo na corrida. Claro que, enquanto cresci, ouvi ambos os lados; ouvi a demonização do outro lado. Palavras como comuna, facho, muitas vezes ditas a pessoas que não eram comunistas ou fascistas, mas estes eram epítetos que eram lançados se estavam um pouco mais à esquerda ou mais à direita de alguém. Tive o contacto, fui conhecendo, como acho que qualquer pessoa que cresceu nos anos 70 e 80, revolucionários e contrarrevolucionários.
Nos anos 70 e 80, e não só.
Mesmo agora ainda se ouve. Acho muito curioso que o presidente da Câmara de Lisboa e os partidos de direita queiram comemorar o 25 de Novembro. Acho ótimo que se comemorem todas as datas, mas é curioso porque quem fez o 25 de Novembro foram os moderados, não foi a direita nem a esquerda. Quem deteve a chamada deriva esquerdista e comunista foi o Melo Antunes, o Ramalho Eanes, Vasco Lourenço, considerados o Grupo dos 9. Engraçado como as datas agora são apropriadas, tal como o 25 de Abril a determinada altura foi apropriado por um setor ideológico mais à esquerda. Para mim, [o 25 de Abril] é um golpe que derruba uma ditadura e que procura acabar com a Guerra Colonial e instaurar um regime democrático; já o 25 de Novembro foi um golpe e contragolpe para caminharmos para a democracia.
Neste livro há motivações ideológicas?
Há, as das personagens. Tenho esse luxo, o de poder olhar para o que aconteceu, com uma certa distância. Alguém me perguntava se era possível escrever este livro em 1985, dez anos depois do PREC. Acho que não. Se eu tivesse 47 ano em 1985, a idade que tenho agora, não conseguia escrever este livro porque não tinha essa distância.
A única coisa que me preocupava era o que é que era verosímil para as personagens, o que é que que cada uma delas acredita, como é que cada uma delas reagiria a esta frase na parede, a um discurso do Vasco Gonçalves. Era só isso que me interessava, não me interessa fazer historiografia, não me interessava fazer a versão definitiva do PREC, interessam-me as personagens, que elas sejam tridimensionais, e que as pessoas ao lerem, mesmo que estejam nos antípodas ideológicos delas, em algum momento sintam empatia e se reconheçam nelas.
Já te ouvi dizer, não a propósito deste livro, mas do anterior, que também não tens motivações didáticas ou de ensinar a História.
Não, não tenho. Para isso existem pessoas que o fazem melhor do que eu, que escrevem bons livros de história, aos quais recorro para escrever os meus. Sempre que pego num livro cujo tema não é contemporâneo e que sinto que o autor me está a querer passar todo o conhecimento que tem sobre a época, meto o livro de lado. O que quero é contar uma história, uma ficção, que agarre o leitor pelos colarinhos e que, obviamente sendo fiel ao espírito da época — se estiver a escrever sobre o século XVIII não vou dizer que um senhor aterrou de avião — e que seja o máximo fiel, não gosto de cometer imprecisões. O que me interessa é a história das personagens, o meu enredo.
Às vezes há a tentação de falar "disto" porque é importante. Mas cabe na mundividência, na experiência da personagem? Não cabe. Então não falo. Por exemplo, não falo do 1º. de Maio, uma data importantíssima; não falo de alguns políticos que foram determinantes na construção da democracia. Simplesmente porque na história destas personagens não tinha cabimento que eles aparecessem. Quero, de certa maneira, coser as personagens no pano de fundo da história sem que se percebam as costuras. Sem que as pessoas achem que há ali alguma coisa forçada ou que a história com H grande se está sobrepor à história das minhas personagens.
Alguma dessas personagens é inspirada numa história real ou numa história que te tenha sido contada?
Todas elas têm histórias que pessoas me contaram, mas nenhuma é baseada em alguém.
O que é que as pessoas de esquerda vão dizer deste livro? E as de direita?
Não faço a mínima ideia. Como não escrevi para pessoas de direita ou de esquerda... Até agora, nas apresentações que fiz, a reação das pessoas tem sido ótima. Ainda não tive ninguém que me dissesse: "olha, não foi assim". Até porque o livro é uma espécie de caleidoscópio que mostra diferentes visões dos mesmos acontecimentos por pessoas que têm convicções diferentes. Percebo a tua pergunta, até porque estamos numa altura um pouco polarizada e que tem reminiscências do PREC. Apesar de no PREC haver causas reais para essa polarização, como uma ditadura de muito tempo, uma sociedade radicalizada por causa da guerra e um país que tinha, de alguma forma, falhado o comboio dos movimentos de libertação dos anos 60. Os direitos civis e o Verão do Amor, nos EUA; o Maio de 68, em França; a questão dos costumes, os swinging sixties, em Inglaterra; ou música, drogas e correntes literárias. Tudo isso desagua, de certa forma, no final dos anos 70 com um certo atraso e com uma vontade tremenda. Ou seja, havia fatores reais para essa polarização. A polarização de hoje acho que é mais virtual, entre pequenos grupos que não têm expressão na sociedade, mas o ruído que eles causam é hiperbolizado.
Há uma outra diferença, é que no PREC às vezes dava mesmo em porrada, foi uma época muito mais violenta do que as pessoas imaginam. Temos a tendência de dizer que a revolução foi pacífica — e o dia do 25 de Abril foi, tirando as cinco mortes —, mas o PREC não foi, foi violento. Hoje, felizmente e por enquanto, a violência passa pela falta de chá e pela reação imediata do nosso cérebro reptiliano a um comentário que alguém deixou sobre um clube de futebol, sobre o soundbyte de um político.
Vamos a eleições no dia 10 de março. Em quem votaria hoje Maria Luísa e Diogo Bravo Montalvão, duas personagens que estão em lados opostos?
Boa pergunta. Eu sei em quem é que eles votariam, mas num dos casos não vou dar tempo de antena ao partido.
E a Maria Luísa?
Tu assumes que o partido em que votaria o Diogo Bravo Montalvão é o que não quero dar tempo de antena? Acho que ela, com o tempo, estaria mais moderada, votaria numa solução da Geringonça. Ou então é possível que não votasse porque não se reconhecia num modelo da democracia parlamentar, contra o qual ela lutou durante alguns anos.
Além de um país em revolução, há várias revoluções pessoais. Com conquistas, como é o caso da Pureza, e perdas, como é o caso de Frederico.
O estudo das personagens é para mim das coisas mais desafiantes num livro. Há pouco já falei nas dores de crescimento... Cada uma delas, à sua maneira, está à procura da liberdade. Ou está, pelo menos, a idealizar um tipo de liberdade, um tipo de vida pós-ditadura. A Maria Luísa através da sua atividade política e revolucionária, que se vai estremando. O Frederico é a clássica história do coming of age; é um miúdo que não quer ir à guerra e de repente tem de se fazer homem. A Pureza, que é uma personagem que me deu muito gozo escrever, se calhar ser a menos óbvia no espaço da revolução, tem um caminho superficialmente distinto do da irmã, mas no fundo ambas estão a emancipar-se.
Podemos ouvir todas as referências musicais, que fazem parte da história do Frederico, com um QR Code no final do livro a redirecionar para o Spotify.
Essa foi uma ideia que tive quase no fim do livro. Fui construindo uma playlist para o Frederico Storm com as músicas que aparecem... Queria que a banda sonora tivesse sentido, porque todos nós temos bandas sonoras da nossa vida. Algumas mais secretas, outras que partilhamos. "Ouvi esta música em certa altura, esta música marcou esta relação". Então queria que a música, sendo ele um melómano, fosse uma espécie de coro grego, de consciência, que os títulos das músicas fossem marcando o percurso dele. Às vezes até de uma forma irónica em justaposição com o que está a acontecer. Fui guardando essas músicas e a determinada altura pensei porque é que no fim não coloco um código QRCode para as pessoas ouvirem. Algumas das músicas dessa playlist nem sequer estão no livro, mas acho que ele as teria ouvido.
A que se deveu essa escolha, são músicas de que gostas?
A esmagadora maioria são músicas de que gosto. A determinada altura num livro, e num livro desta dimensão que leva tanto tempo a escrever, é como se abrisses uma porta e entrasses para outra dimensão. Nas primeiras 20 páginas, ou até às 50, ainda não conheces bem as personagens, mas a partir do meio, aquelas pessoas já te são bastante familiares. Quando as colocas perante uma decisão ética, sabes o que é que elas iriam fazer. No caso dele, as músicas surgiam naturalmente.
Fechado o capítulo do Revolução e entrando noutra revolução, o entretimento e ficção em Portugal nos últimos anos. És um dos autores da primeira série portuguesa adquirida pela Netflix, Até que a vida nos separe, e és coautor de Rabo de Peixe, a série portuguesa que fez história no streaming, chegando ao top 10 das séries mais vistas em língua não-inglesa. Gostavas de ser o primeiro autor com um livro adaptado por uma produção de uma plataforma? E que livro seria?
Gostava, não por ser o primeiro. Não tenho nenhum impulso de ser o Fernão Magalhães do audiovisual, mas gostava muito. Gostava de ver O Coração dos Homens ou o Deus Pátria Família adaptado, mas neste momento acho difícil, porque são coisas que envolveriam produções com algum dinheiro e nós ainda não estamos nesse patamar. Do Revolução era difícil fazer um filme ou mesmo uma série, pelo tempo, mas podia-se, por exemplo, pegar só na história da Maria Luísa. Há um romance do John Irving, The Door in the Floor, que deu um filme com o Jeff Bridges. Vi primeiro o filme e depois li o romance e percebi que a história do filme é apenas um capítulo. Houve uma revolução, como já referiste, e investiu-se mais no audiovisual nos últimos cinco anos do que nos últimos 30 anteriores, mas acho que ainda estamos longe de uma Espanha, em que o livro do Fernando Aramburu, o Pátria, foi adaptado a série, e foi um sucesso.
Como é que recebeste o sucesso de Rabo de Peixe? Recordando, a série foi escrita por ti e pelo João Tordo.
E pelo Augusto Fraga, o realizador. Como é que recebi? Primeiro, com surpresa. Nunca pensámos que a série alcançasse [esse sucesso]. Pelas circunstâncias, por ser uma série portuguesa, por ser falada em português, porque é difícil chegar lá fora, porque não temos o selo que tem uma série espanhola ou coreana. É um bocadinho como o vinho francês ou italiano, já têm fama. As pessoas, quando vão a uma loja de vinho, entre um vinho búlgaro e um francês, preferem o francês, mesmo que búlgaro até seja melhor. Nós tínhamos a esperança de que, pelo menos em Portugal, houvesse uma adesão grande à série. Tínhamos noção de que havia características da série que podiam despertar esse interesse, mas não fazíamos ideia do interesse internacional. Falaste que entrou no top 10 das séries de língua não-inglesa, mas entrou também no top 10 em países que são potências do audiovisual e que veem muita da sua ficção, como a Espanha ou o Brasil, onde chegou ao 5º lugar. A Netflix não liberta números, mas sabemos que a série foi vista por milhões de pessoas. Não houve nada que fizesse até hoje, e provavelmente não vai haver mais nada, especialmente livros, que tenha esse tipo de alcance. Sei que os números, só por si, os milhões, não querem dizer que um produto é bom, mas acho que foi importante.
Quando estou a escrever uma série não estou a pensar se os portugueses vão sentir orgulho da série, não é isso que nos move. O número de espetadores em Espanha, França e Itália, que vão ver cinema na sua própria língua, feito no seu próprio país, é brutal, mas cá as pessoas estão completamente divorciadas do audiovisual, com exceção talvez das novelas. Se houver alguma coisa que mude isso, que comece a trazer as pessoas de volta para a nossa ficção e que se faça mais ficção para haver esse casamento, ótimo, é um bónus.
Não escrevem com uma camisola da seleção vestida...
Não... Talvez com uma camisola do Santa Clara.
Podes revelar alguma coisa da segunda temporada?
Posso, mas depois levo com um processo da Netflix. A única coisa que posso dizer é que tal como nos divertimos muito a escrever a primeira, também nos estamos a divertir muito a trabalhar nesta. Então espero que o resultado seja semelhante.
Não sei se podemos esperar a segunda temporada em 2024, não te vou fazer dizer, mas está confirmado que vai estrear um musical escrito por ti numa parceria com a Bárbara Tinoco e com a Carolina Deslandes. Essa é uma primeira experiência nesse mundo?
Primeiríssima. Isso aconteceu porque a Bárbara leu o Filho da Mãe e contactou-me. Não sou um espectador de musicais, há um ou dois filmes que gosto, como o La La Land ou o Chicago, com excelentes interpretações. Quando ela me disse que queria que escrevesse um musical... Quis que ficasse claro que não teria nada a ver com a questão musical, para a qual não tenho a mínima competência, e que fosse apenas a dramaturgia. Gostei muito de conhecer a Bárbara, porque só conheci a Carolina depois, achei-a muito madura para a sua idade, muito séria em relação aquilo que faz, uma excelente letrista, e isso deu-me vontade de trabalhar com ela. Percebi que ela queria fazer uma coisa sólida, que estava aberta a ouvir-me. Ela, dando-me ideias, deu-me total liberdade para escrever. Fui eu que lhe propus a ideia do 25 de Abril.
Não sabia que seria esse o tema.
Chama-se que A Madrugada que eu Esperava, por causa do verso da Sophia de Mello Breyner. Eles vão começar os ensaios muito em breve.
O que é que estás a ler?
Estou a fazer pesquisa para o próximo livro, e quando assim é leio mais do que um livro; quanto estou a ler só por prazer, não. Estou a ler o No Outono, do Karl Ove Knausgård, e o Dá-me a Tua Mão e Leva-me, do Daniel Sampaio. Só por gozo estou a ler um livro do John D. Macdonald, que descobri recentemente na lista de preferidos do George Pelecanos, um escritor norte-americano que gosto muito e que também escreve para televisão (The Wire ou The Deuce). O livro, um policial, chama-se The Deep Blue Good-by, tem uma prosa magistral e prova uma coisa. O Jorge Luís Borges gostava muito de romances policiais, e dizia que o problema dos policiais é que não beneficiam do prestígio do aborrecimento. Ele queria dizer que havia o preconceito de uma certa literatura em relação aos romances policiais quando — e eu concordo com ele — há romances policiais que são melhores, mais literários, mais empolgantes do que muitos livros ditos literários. Há pessoas que escrevem exclusivamente romances policiais, mas que são escritores fabulosos, como o Raymond Chandler, o Manuel Vázquez Montalbán ou o Leonardo Padura.
Por Rita Sousa Vieira