Escolhe a tua loja FNAC

Todas as Lojas

FNAC Alameda
FNAC Alfragide
FNAC AlgarveShopping
FNAC Almada
FNAC Amoreiras
FNAC Av Roma
FNAC Aveiro
FNAC Braga
FNAC CAMPO PEQUENO
FNAC Cascais
FNAC Castelo Branco
FNAC Chiado
FNAC Coimbra
FNAC Colombo
FNAC Évora
FNAC Faro
FNAC Gaia
FNAC Guimarães
FNAC IST
FNAC Leiria
FNAC Loulé
FNAC Madeira
FNAC Mar Shopping
FNAC Montijo
FNAC NorteShopping
FNAC NOVA SBE
FNAC Oeiras
FNAC Penafiel
FNAC Setúbal
FNAC Sintra
FNAC Torres Novas
FNAC UBBO
FNAC Vasco da Gama
FNAC Viana do Castelo
FNAC Vila Real
FNAC Viseu
HELENA MAGALHÃES EM ENTREVISTA
ENTREVISTA A HELENA MAGALHÃESENTREVISTA A HELENA MAGALHÃES

"Em Portugal, infelizmente, ainda há um preconceito em relação aos novos autores"



Editou recentemente A Devastação, um livro que espera colocar leitoras e leitores a refletir. Em entrevista à FNAC, a bookganger Helena Magalhães fala sobre o preconceito enraizado com novos autores, o papel das redes sociais, o fenómeno dos audiolivros, e ainda nos diz o que tem na sua mesa de cabeceira. Uma conversa que pensa a literatura e deixa muitas sugestões de leitura.

 





Tenho de começar desta forma. Para preparar esta conversa fui ler outras entrevistas tuas. Não encontrei muitas, sobretudo nos meios mais tradicionais. Sentes algum tipo de preconceito? 


Acho que em Portugal, infelizmente, ainda há um preconceito muito grande em relação aos novos autores. Os meios mais tradicionais têm um preconceito ainda muito enraizado, preconceito que também é difundido e defendido por todos os meios do circuito literário. Ainda há uns tempos estava a ler uma entrevista de uma diretora e a chamada de capa era "não há bons novos autores em Portugal". Continua a defender-se que a última geração de bons autores nasceu nos anos 70. 70! É muito difícil quebrar esta barreira, onde as oportunidades para os autores contemporâneos são muito limitadas. Continuamos a pensar que livros populares, livros que vendem, não são bons. Lá fora isso já não acontece. Temos livros populares, que vendem muito, a ganhar prémios, os Bookers, os Women's Prize for Fiction. Cá ainda estamos muito agarrados a um tradicionalismo, à literatura de nicho. Apesar de tudo, já noto algumas mudanças. A pouco e pouco isso está a mudar, está a ser quebrado.

 

E quem é que está a fazer força para o quebrar, são os leitores ou as editoras? 


Está, acima de tudo, a ser quebrado pelos leitores. Se pensarmos, são eles que têm o poder. "Não é escritor quem quer", esta é uma frase que um dia li escrita por um jornalista. Ele dizia que não é escritor quem quer, é quem pode, quem tem leitores. É verdade. A partir do momento que há uma grande procura por novos autores, as livrarias começam a dar-lhes mais espaço.


Há uns cinco, seis, sete anos, as editoras estavam muito reticentes em publicar novos autores, literatura mais contemporânea, continuavam a ter a publicação segura, para o público seguro, para o leitor seguro, na faixa dos 50 anos, quem mais consumia livros em Portugal. De repente, acordámos para esta literatura mais jovem, que está a criar leitores, os leitores do futuro. Não os podemos excluir! As redes sociais ajudaram bastante, também...

 

E, entre as redes sociais, o TikTok teve uma grande importância, com o fenómeno dos booktokers. Por falar nela, o New York Times noticiou recentemente que a empresa detentora da rede, a ByteDance, quer criar a sua própria editora. Como olhas para isso? 


Não sabia disso, mas espero que não venha a acontecer, porque acho que não se pode misturar as águas. A partir do momento em que o TikTok controle os livros que aparecem na plataforma, perde-se a liberdade. A liberdade dos leitores em divulgar livros que se tornam virais. E tanto são livros novos, livros populares, mais light, como são os clássicos que se tornam virais. Era como se a FNAC também lançasse uma editora.

 

Perde-se o objetivo, um pouco como aconteceu com o Goodreads depois de ter sido comprado pela Amazon? 


Exatamente, o Goodreads está parado no tempo... E tornou-se numa máquina destruidora. Por acaso até costumo falar sobre isso com colegas, o Goodreads é incrível para criar sucessos, mas também há uma leviandade na forma como se critica obras e livros. Se pensarmos que é tudo subjetivo, um livro que eu odeio, que não me diz nada, outra pessoa ama e esse livro mudou a sua vida. Acho que não há esse poder da crítica noutras artes. 

 

Tendo a discordar, acontece o mesmo com a música e com o cinema.


Não há um espaço onde estejam todas as músicas de um cantor e onde as pessoas podem ir escrever "não gostei", "odiei", "não comprem" ou "não oiçam". Eu gosto muito destes temas, porque se pensarmos até há muito pouco tempo, até há dez ou quinze anos, toda a arte era dominada por uma elite, o consumidor não tinha uma palavra. Isso fazia com que consumíssemos uma arte e uma cultura muito limitada, estandardizada e escolhida por quem tomava decisões: homens brancos de 50 anos. O consumidor hoje tem um poder, graças às redes sociais, que não tinha. A Internet veio democratizar o acesso à cultura e dar aos consumidores uma palavra, esse é o lado bom. Mas há um mau, porque temos muitos bons livros atacados. O que aconteceu agora com a Elizabeth Gilbert é absurdo; o livro ainda nem saiu, mas foi de tal forma atacado no Goodreads que já não vai ser publicado. 

 

A oferta hoje também é completamente diferente, é muito maior. O que faz com que o papel do curador tenha cada vez mais importância. Não é o algoritmo, é alguém que saiba o que está a recomendar com base nas pessoas para quem está a falar. Aqui entra o Book Gang, o que te fez criar este Clube de Leitura? 


Quando entrava nas livrarias, olhava para os destaques e não me identificava com nada. Pensava: "nada disto são livros interessantes". Estamos a falar de 2018, já foi há uns aninhos. E comecei a pensar que muita gente não lê porque não sabe o que ler, entram numa livraria, compram um livro porque está destacado ou está no top, e depois não gostam. Se calhar, depois, estão dois anos sem voltar a pegar num livro. Algumas amigas diziam que tinham lido tal livro e o tinham odiado; claro, porque esse livro não tinha nada a ver com elas. 


Percebi que faltavam meios para se comunicar livros. As únicas pessoas que comunicavam livros eram as livrarias. Então e aquelas pessoas que nem sequer entram numa livraria? Como é que lhe vamos dizer que determinado livro é mesmo bom, que é super cativante? Foi muito nesse sentido que surgiu o Book Gang. Queria encontrar leitores, ler em conjunto, fazer as pessoas descobrir livros. Quando soube que o Grande Solidão iria ser editado em Portugal percebi que era o momento certo para o lançar o Clube.


Começou a haver o passa-a-palavra, e só tive noção que o Book Gang fazia mesmo sentido na Feira do Livro desse ano. De repente, as editoras começaram a contactar-me. As editoras ficaram: "quem é esta Helena?”. Foi engraçado perceber que na Feira as pessoas procuravam os livros que eu tinha sugerido entre janeiro e junho. Nessa altura o Book Gang não era tão centrado em novidades, ia buscar livros que já tinha lido no passado, que tinha gostado muito e que achava que as pessoas também iam gostar. Depois é que começou a ser mais centrado nas novidades que iam saindo.

 

E como é hoje?


Na minha visão — e também com base naquilo que vou falando com as editoras e com os livreiros —, o Book Gang não é de todo um concorrente das livrarias, é um potenciador. Dá-me imenso gozo ir à FNAC e ver livros sugeridos por mim todos juntos. Acho que o Book Gang veio criar a oportunidade de os livros permanecerem mais tempo em destaque nas livrarias.

 

Podes dar um exemplo do “efeito Book Gang” na procura por livros? 


Sociedade Literária da Tarte da Casca de Batata era um livro que me tinha tocado muito, que já tinha lido há uns anos. Queria trazê-lo para o Book Gang, mas o livro já não estava à venda. Na altura a editora disse que ainda tinha alguns no armazém. De um momento para o outro, começou a haver uma procura tão grande que as livrarias começaram a fazer encomendas. Lembro-me de a editora dizer que não queria uma nova edição, mas que dada a procura tinham de a fazer. Lembro-me até de ter ido à FNAC do Colombo e o livro estar nos destaques. É inacreditável, um livro fora do circuito que voltou a ter espaço.

 

Quantos subscritores já tem? E qual a faixa etária com mais? 


O Book Gang vende cerca de 350/400 boxes por mês, fora quem compra só os livros. Mas continua a ser uma coisa de nicho. A faixa etária é mais alta, dos 30 para cima, porque é quem tem poder de compra. Fui percebendo que muita gente jovem comprava só um livro porque não conseguia comprar a box. Então, no final do ano passado, criei as boxes mensais só com um livro e um preço também mais acessível.

 

Primeiro o Book Gang, depois a Aurora. Quando é que percebeste que o passo seguinte era uma editora que publicasse só autoras femininas?


O Book Gang já era 98% centrado no incentivo à literatura escrita por mulheres. Às vezes as pessoas perguntam se não leio escritores homens. Claro que leio, mas só divulgo aquilo que quero e o que faz sentido para a voz que quero ter, e eu quero incentivar à leitura de mulheres. Portugal é um país com uma cultura muito masculina e a nossa história foi pavimentada por autores homens. As livrarias têm muito mais autores homens nas prateleiras do que mulheres. Sempre quis ter uma voz que incentivasse à leitura de livros escritos por mulheres. Quando começámos a falar nesta ideia de fazer a curadoria de uma chancela, fez-me todo o sentido que publicasse apenas literatura contemporânea e livros escritos por mulheres. 


Com a Aurora posso também abrir portas a autoras portuguesas, contemporâneas, novas vozes, e trazer livros que sinto que são importantes, que nos enriquecem, que fazem ver o mundo com outros olhos. Estou muito orgulhosa desse trabalho, acho que temos trazido livros incríveis. Em julho saiu o Destransição, Baby, um livro que andávamos há imenso tempo a tentar. É um livro muito importante para Portugal, porque somos um país ainda com muitos tabus, com uma cultura transfóbica muito implementada; e um livro destes, com muito sentido de humor, com personagens como nós, pode abrir mentalidades.

 

Que livro te orgulhas mais de ter publicado? E que autora ainda está na lista de desejos?


Orgulho-me muito por ter conseguido publicar e fazer penetrar a Susana Amaro Velho e a Valentina Ferreira, autoras anónimas, que estavam à espera de uma oportunidade, cujos livros continuam nas estantes das livrarias. Para mim, a melhor meta de sucesso é conseguir ter livros nas livrarias um ano após a sua publicação.


Na lista de espera está o Outlawed, da escritora norte-americana Anna North. Um livro tão fora da caixa, tão interessante, que aborda temas que refletem os dias de hoje. É muito inspirado no A História de Uma Serva, uma distopia, com um núcleo de mulheres westerns fora da lei. Estava a ler, muito envolvida na história, e a pensar que tinha de chegar a Portugal. Às vezes também é bom ler livros diferentes, que nos fazem ficar a pensar.

 

A Devastação, o teu novo livrotambém é um desses que nos faz ficar a pensar?


Eu espero que seja. A Devastação, que comecei a escrever em 2019, começou por ser um livro inspirado na história da minha mãe, que cresceu num lar da Igreja até aos 18 anos. Ao longo da vida cresci a ouvir as histórias que ela contava, toda a parte má, obviamente, as privações e os abusos físicos, emocionais e a solidão, mas ao mesmo tempo dos laços que criou com aquelas raparigas com quem cresceu. Eu queria muito, muito escrever um livro sobre isso, sobre o poder de nos reinventarmos independentemente das devastações que a vida nos dá. Por outro lado, queria muito, também, falar sobre a questão do patriarcado português, algo que está muito ligado à nossa história. Na Penguin optámos por não colocar na sinopse, nem em qualquer material de comunicação, sobre o que trata o livro, para que experiência de leitura seja mais intensa dessa forma. Quero que este seja um livro que faça as pessoas refletir e a tirar as suas próprias conclusões. Por isso é que não coloco o narrador a fazer qualquer tipo de julgamento ou a tecer qualquer opinião. De nada, nem de homens, nem de mulheres. Quero que o leitor entenda que todos nós somos fruto da nossa educação e, sobretudo, de uma educação muito patriarcal que predomina ainda em Portugal. Se pensarmos que só saímos da ditadura há 50 anos... Ainda temos uma cultura patriarcal e machista muito predominante, e os homens também são vítimas da sua educação patriarcal. Acho que consegui transmitir com empatia e com respeito estes temas, e o feedback tem sido bom. As pessoas dizem-me que se têm emocionado, o que me deixa muito feliz. 

 

Quando anunciaste o seu lançamento escreveste, numa publicação no Instagram, que este tinha sido um livro “difícil”. Porquê? 


Foi difícil, foi. O livro deixou-me esgotada, às vezes acabava um capítulo e ficava um mês inteiro sem energia para voltar à escrita. Acho que o escritor também tem de se colocar emocionalmente e mentalmente no espaço do livro. Demorei muito tempo a escrever, porque foi desgastante estar a martelar emoções. O livro inicialmente estava escrito na primeira pessoa, depois optei por meter um narrador, achei que ele se conseguiria distanciar muito mais da carga dramática. 

 

Nele regressa a Marisa, ou Mar, a antagonista em Raparigas como Nós. Por alguma razão? 


À medida que o Raparigas Como Nós foi penetrando, os leitores foram dando muito feedback, sobretudo da personagem da Marisa, por quem desenvolveram um certo carinho. Uma personagem nada empática, secundária, com uma pequena redenção no final. Apesar de não querer voltar ao universo daquele livro, pensei que fazia sentido ir buscá-la para A Devastação.  


Eu gosto muito, enquanto leitora, que quem escreve deixe detalhes subentendidos, que não são ditos, dando liberdade ao leitor para interpretar como quiser. Há muitas coisas que deixei de forma subliminar neste livro, n’ A Devastação, e que acho engraçado quando alguma leitora o identifica. No outro dia uma disse-me algo muito giro, que espero que mais gente repare. Ela disse-me que quando leu na sinopse que o livro era passado num lar de raparigas, que pensou automaticamente numa personagem má, que faz bullying às restantes. Ao ler ficou surpreendida por a história não ir por aí. Está tão enraizada a ideia de que é difícil a convivência entre muitas mulheres que queria debruçar-me sobre o oposto disso. Gostei muito quando essa leitora partilhou comigo que percebeu qual o ângulo que tinha explorado e como coloquei essa irmandade em foco.

           

É preciso ter lido o Raparigas como Nós para ler este A Devastação? 


Não. Acho que quem leu o Raparigas vai ter outra perceção de A Devastação, porque partilham personagens. Quem não leu, tem logo no início um apanhado do Raparigas pela visão da Marisa. 


Algumas leitoras já me disseram que foram ler o Raparigas pela primeira vez depois de terem terminado A Devastação, e de o terem feito com uma outra visão, já atentas a detalhes mais subliminares. Por outro lado, outras disseram que tiveram alguma dificuldade em fazer a transição de um livro para o outro, porque a forma como a personagem da Marisa é exporta ao leitor no Raparigas que dificulta a leitura de A Devastação, onde ela é desconstruída. Isso é muito interessante, porque os seres humanos são multidimensionais, somos boas ou más, somos heroínas para algumas pessoas e vilãs na vida de alguém. O leitor ter a possibilidade de perceber o que é que tornou uma personagem o que ela é, fria e seca, é interessante e faz refletir.

 

Gostavas de editar as tuas obras em formato de audiolivro?


Sim, gostava muito. O audiolivro já está a chegar em Portugal em grande força e acho que vai ter um boom enorme no futuro. Depois do fenómeno dos podcasts, vamos ter o dos audiolivros. Quando estou no escritório estou sempre a ouvir podcasts, agora imaginem estar a ouvir um livro.

 

E de os narrar, de seres a voz dos teus livros?


Não... Não tenho jeito nenhum, seria terrível. Um audiolivro, para ter impacto no leitor-ouvinte, tem de ter uma boa narração, com os tempos certos, com os diálogos com a entoação certa. Ainda esta semana falei com uma rapariga que ouve muitos audiolivros em inglês, ela diz que chega a ouvir livros por saber que foi aquele narrador, que ela já gosta, a dar voz: "estou aqui a ver que a narração é da mesma pessoa que fez este, este e aquele livro; então também o quero ouvir". Isto é muito interessante. Também acontece nas traduções, o tradutor pode ter um peso muito grande na escolha de um livro.

 

O que estás a ler?


Querida Dolly, o novo livro da Dolly Alderton. Também gosto de trazer não-ficção para o Book Gang, e este é um livro com as crónicas da autora no Sunday Times, onde responde às questões dos leitores. Por um lado, temos as histórias de vida, muito interessantes, partilhadas pelos leitores, sobre tudo e mais alguma coisa; por outro, lemos as respostas dela, sempre com muito humor. Acho que é um livro que se vai ler muito bem no verão.  


Também estou a ler o Viradas do Avesso, da Joana Kabuki, o Writers & Lovers, da Lily King, que vamos publicar no final do ano na Aurora, e estou a meio do Mr. Lovermanda Bernardine Evaristo


O último que comprei, por acaso até foi na FNAC, foi O Grande Círculo, da Maggie Shipstead. Quero ler agora nas férias. 

Estes são os livros que estão na minha mesa de cabeceira, mas também leio muita coisa que compro no Kobo. Mas ninguém me tira o papel, se gostei de um livro, compro em papel. Eu compro muitos livros e dou muitos livros, muitos, sobretudo a uma associação que tem várias casas de jovens. Porque quando descubro uma autora nova, que acho que vou gostar, tendo a ter um comportamento um pouco tóxico: compro tudo, todos os títulos já publicados. 

 

Por Rita Sousa Vieira

Produtos associados

ENTREVISTA A HELENA MAGALHÃESENTREVISTA A HELENA MAGALHÃES
A Devastação- Helena Magalhães
Raparigas Como Nós- Helena Magalhães
ENTREVISTA A HELENA MAGALHÃES
cultura.fnac.pt desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile