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HÉCTOR ABAD FACIOLINCE EM ENTREVISTA
ENTREVISTA A HÉCTOR ABAD FACIOLINCE ENTREVISTA A HÉCTOR ABAD FACIOLINCE

“A bondade é mais misteriosa que a maldade”



Ter um grande coração é poético, mas também pode trazer grandes problemas. É o que conta Héctor Abad Faciolince no seu novo livro Salvo o Meu Coração, Tudo Está BemO escritor colombiano esteve em Lisboa e falou com a Cultura FNAC.





 

Sobre o que fala este livro?

 

Fala de um coração. O órgão, a víscera, o coração físico, não o coração metafórico. Um coração doente, que tem de ser transplantado e que pertence a um sacerdote. Fala também de uma família e de uma casa, onde vivem duas mulheres e três crianças.

 

O coração é a víscera mais literária?

 

É uma víscera muito literária, mas literatura abusa dela. Talvez já se tenha escrito demasiado sobre o coração metafórico, simbólico. Neste livro quero falar do coração real, o que bate. O metafórico, o que representa os sentimentos ou o amor, vai aparecendo aos poucos, mas de uma maneira muito pouco simbólica e muito mais corporal.

 

Sem contar com a publicação dos diários, estiveste vários anos sem editar um romance. Porque é que isso aconteceu?

 

Porque é muito difícil escrever romances. Na verdade, os diários [Lo que fue presente. Diarios (1985-2006)] deviam ter sido publicados apenas postumamente, mas poupei esse trabalho aos meus filhos, para que não tivessem de os ler. E porquê? Bem, porque veio a pandemia. Estava a escrever outro livro...

 

Sobre Pablo Escobar?

 

Sim, sobre a perseguição de Pablo Escobar ao jornalismo, ao meu jornal, o El Espectador. Mas na pandemia isso deixou de me interessar e comecei a escrever sobre uma vida ameaçada pela morte, sobre a doença.

 

Somos o Esquecimento que Seremos recorda o teu pai. Salvo o Meu Coração, Tudo Está Bem foi escrito em homenagem à tua mãe?

 

É verdade. Embora a minha mãe também seja uma personagem importante em Somos o Esquecimento que Seremos, sempre pensei que tinha uma dívida para com ela. E como escrevi sempre de um ponto de vista muito anticlerical, muito ateísta, muito crítico da Igreja, quando chegou a pandemia, e ela já estava muito doente, pensei que era hora de escrever um livro sobre sacerdotes bons, porque ela, que cresceu órfã, foi criada por dois padres.

 

O romance inspira-se na vida e obra de um padre, Luis Alberto Álvarez. Quem foi ele e como é que se conheceram?

 

O Luis Alberto Álvarez foi um sacerdote muito peculiar, que nunca dizia que o era, que se vestia normalmente, à civil, e que nos ensinou, às pessoas da minha geração, em Medellín, a ver bom cinema, o melhor cinema do mundo, e a ouvir com atenção música clássica. Só depois de algum tempo é que percebemos que era também sacerdote, mas ele nunca dava sermões, nunca nos acusava de sermos pecadores.

 

Aconteceu o mesmo com Teresa, uma das personagens.

 

Exatamente, sim. Tal como a Teresa, quando o conheci, eu também não sabia que ele era padre. Vim a saber depois. Luis Alberto Álvarez era um grande crítico de cinema. Guiávamo-nos pelo que escrevia...

 

De uma forma geral, em Medellín, os padres eram pessoas muito conservadoras, insuportáveis, fanáticas. Mas ele gostava dos filmes mais livres e ousados que podia haver. Foi alguém que, mesmo pertencendo à Igreja, nos abriu a mente. Talvez por isso, sempre me pareceu uma personagem que devia ser resgatada, contada, porque ele foi muito importante para a cultura de uma cidade violenta e que parecia não ter futuro.

 

No livro, Luis Alberto Álvarez é “o gordo”. Foi notícia há uns meses uma editora britânica ter retirado termos como “gordo” ou “louco” dos livros de Roald Dahl, por considerá-los ofensivos. Não te preocupa que o mesmo possa vir acontecer com o teu? Como é que vês esta revisão das obras por parte dos chamados “leitores sensíveis”?

 

Parece-me horrível. Vai chegar o momento em que nos romances não se poderá comer carne ou peixe para não ofender os vegetarianos. Isto é puritanismo e a negação da realidade. A minha tradutora para inglês, que está agora a traduzir este livro, não é puritana. No entanto, disse-me: “Não sei como traduzir ‘o gordo’.” Acho que, na cultura anglo-saxónica, por influência, talvez, da religião protestante, mais puritana, têm muito medo de mencionar qualquer coisa que tenha a ver com o corpo. Para mim, ser gordo, ser negro, ser homossexual, não é um insulto. É o que é, ponto. Não vejo porque não se possam usar as palavras que sempre usámos. Eu sempre usei “cego”, agora querem que diga “invisual”? Eu sou meio surdo, não o posso dizer? Tenho de dizer “pessoa com deficiência auditiva”? Parece-me que este uso hipócrita da linguagem é nefasto para a sociedade e para a literatura. É a morte.

 

Porque é que deste às personagens o nome de pessoas reais, que existiram, mas não o fizeste com o do padre Luis Alberto Álvarez?

 

Porque esta é a história dele. Da sua doença cardíaca, do facto de ter sido crítico de cinema, padre, professor de música. Tudo é real. No entanto, quando passa a viver naquela casa, com duas mulheres e três crianças, não sei o que acontecia quando a porta se fechava. Foi por isso que lhe mudei o nome a ele e não a outras personagens, de quem tenho dados concretos, históricos, verificados.

 

O que acontece dentro daquelas paredes é uma parte importante do livro. Não é real, mas também não é mentira. É simplesmente uma criação minha e as criações não são mentiras, são criações. Por isso é que se dá o nome de romance e não de biografia.

 

És ateu, já o disseste.

 

Sou ateu, sim.

 

Escrever este romance mudou a tua perceção da fé?

 

Como cresci numa família em que o meu pai era agnóstico e a minha mãe muito católica, nunca pude, apesar de ser ateu, desprezar os crentes, porque isso seria desprezar a minha mãe. Não tenho qualquer problema no facto de a minha mãe crer no Espírito Santo. Um escritor é um espectador do mundo, e como tal escreve sobre as pessoas tal como elas são e no o que acreditam.

 

Foste operado ao coração depois de terminado o livro. Qual foi o papel da doença na escrita?

 

Não fui operado no dia a seguinte a ter terminado o livro. Como sabia que ia ser operado, e sabia que podia morrer durante a operação, apressei-me a terminar um primeiro rascunho e fui editando o livro até à véspera da cirurgia. Enviei o livro ao meu agente nessa madrugada e disse-lhe: “Se morrer, é o livro que tenho. Se não morrer”...

 

Como foi escrever com a noção de que podias morrer na operação?

 

A morte sempre foi algo que me fascinou. Quando me faziam o questionário Proust, respondia sempre à pergunta "como queres morrer?", com "quero morrer a perceber que estou a morrer, sendo essa a última experiência da minha vida". Quando percebi que podia ser vítima do meu coração, dediquei-me a estudá-lo, ao órgão, para saber como iria morrer e porque iria morrer. Fiquei obcecado. Percebi que o facto de ter um grande coração, que simbolicamente é muito positivo, fisiologicamente é o pior que te pode acontecer. Não se deve ter um grande coração.

 

Como estás agora, como está o teu coração?

 

Estou bem, colocaram-me uma prótese valvular aórtica feita com pericárdio bovino.

 

O mal e a maldade são territórios que inspiram muitos romances, mas neste a bondade é um dos temas principais. Porquê?

 

Porque a bondade é mais misteriosa que a maldade. A toda a gente ocorrem ideias más, pensamentos maus; passa-nos pela cabeça vingarmo-nos, fazer mal aos outros, falar mal dos outros. Em contrapartida, há pessoas que não são assim. Acho muito interessante quem é misteriosamente bom. Até porque é muito mais raro.

 

Nos agradecimentos, dizes que o escritor Juan Gabriel Vázquez te fez várias perguntas-chave para escrever o romance. Quais foram?

 

O Juan Gabriel tem refletido muito sobre as técnicas do romance e eu considero-o um grande escritor. As perguntas dele foram puramente técnicas, como quem era o narrador do romance. No início, o narrador era o próprio protagonista, depois eu e, por fim, decidi que fosse outro padre. E ele disse-me: "Ah, boa, muito boa decisão". As perguntas que fazia ajudaram-me a consolidar as minhas decisões, a pensar enquanto escrevia. "Ah, talvez não esteja errado porque o Juan Gabriel acha bem..."

 

Foi incorporado um código QR nas páginas para que o leitor pudesse aceder às peças de ópera mencionadas no livro. Como surgiu esta ideia?

 

Esta ideia surgiu de um vício meu como leitor. Quando estou a ler e mencionam um prato de bacalhau ou limonada, fico com logo com vontade de comer bacalhau ou beber limonada. Quando mencionam uma música num livro, vou logo procurá-la e meto a tocar, porque gosto de ter essa experiência sensorial. Então, quis facilitar o trabalho aos leitores que são como eu.

 

Escreveste parte do livro na Casa Estudio Cien, no México, onde Gabriel García Márquez escreveu Cem Anos de Solidão. Como foi essa experiência?

 

Foi muito difícil, claro. Quando vais para um espaço onde te dizem: "Aqui, nesta sala, García Márquez escreveu Cem Anos de Solidão. Vamos dar-te esta oportunidade...”. Quando começava a escrever, o único som que ouvia era o do ladrar, sem parar, de um cão vizinho. E embora racionais, somos supersticiosos. Pensava: "É o espírito de García Márquez reencarnado no cão, que está a protestar por eu estar a escrever aqui."

 

No início do livro há uma frase de Fernando Pessoa. Que outros autores portugueses tens na tua estante?

 

Dos clássicos, alguns sonetos de Luís de Camões, os sermões do Padre António Vieira,

Eça de QueirósFernando Pessoa... Adoro o Alberto Caeiro! Também gosto muito do Valter Hugo MãeJosé Luís Peixoto... Estou a esquecer-me de outros, tenho a certeza.

 

O que é que estás a ler?

 

Estou a ler um livro da Marguerite Duras, chamado A Dor. É um livro que resulta de uns cadernos antigos, uma série de diários que tinham ficado perdidos. Nele, ela conta que está à espera do seu companheiro [Robert L], que tinha sido levado para um campo de concentração pelos nazis e não se sabia se estava vivo ou morto. Mas sobreviveu, foi salvo por François Mitterrand [que viria a ser presidente da França, de 1981 até 1995]. Interessam-me os relatos e a experiência extrema da dor e da guerra, até porque estou a escrever sobre a Ucrânia.

 

Será o próximo livro?

 

Sim, conta o que vivi quando estava na Ucrânia para apresentar a edição ucraniana de Somos o Esquecimento que Seremos. Por uma série de razões, fui-me aproximando da linha da frente de guerra, e quase nos matam... Mataram mesmo. Morreu, à minha frente, a escritora ucraniana Victoria Amelina.

 

Por Rita Sousa Vieira

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