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CRISTINA BRANCO EM ENTREVISTA
ENTREVISTA A CRISTINA BRANCOENTREVISTA A CRISTINA BRANCO

“O fado não pode ser um género fechado, senão não evolui”



Mãe marca o regresso de Cristina Branco ao fado tradicional e chega a 22 de setembro. O 18.º álbum de originais da cantora olha para a música como um porto seguro e nada tem a ver com a maternidade. Nesta conversa antecipamos o novo disco e vamos de Lisboa a Amesterdão, para falar sobre a nova geração do fado, o paradeiro de Eva Haussman e o nervosismo que ainda sente quando sobe a palco.

 





Que disco é este, o Mãe?

 

É um disco de fado. E, ao contrário do que as pessoas possam pensar, o Mãe não tem a ver com a maternidade, mas sim com o facto de olhar para a música como um porto seguro, como qualquer coisa que me acolhe. Por isso é que digo tantas vezes que a música salva... Neste caso, só podia passar pelo fado, porque é aí que começo, é daí que venho, sempre com um pé dentro e outro fora. 26 anos depois, faz sentido voltar ao fado, e ao fado tradicional. Acho que hoje percebo mais o fado do que percebia há 26 anos.

 

Porque é que dizes “voltar ao fado”?

 

Considero os últimos três discos uma trilogia que nada tem a ver com fado [Menina (2016), Branco (2018) e Eva (2020)], nem era pretendido que tivessem. Sempre fiz coisas diferentes, sempre senti essa liberdade. Só que nesses discos fomos mesmo para fora de pé, fomos à procura de novas raízes para a nossa música. Quando digo nossa, digo minha, do Bernardo Couto [guitarrista], do Bernardo Moreira [contrabaixista] e do Luís Figueiredo [pianista]. Fizemos uma trilogia completamente fora e longe do fado, foi intencional. 

 

O Mãe é uma homenagem ao fado tradicional?

 

Não diria que é uma homenagem, isso significaria que não lhe pertenço. É a minha forma de olhar para o fado tradicional. O disco vai ter cinco temas tradicionais e quatro músicas inéditas, uma de cada um de nós. Fiz uma música pela primeira vez na minha vida!


Depois de no Eva assinares a Contas de Multiplicar, neste não há nenhum tema escrito por ti. 

 

Não há, não. Fui eu que adaptei o poema da Lídia Jorge [Senhora do Mar Redondo], que já estava na gaveta há muitos anos, e o poema que a Teresinha Landeiro escreveu para a minha música [Passos Certos], que até era para um fado tradicional. Mas não são poemas meus, são adaptações feitas por mim.

 

Ao contrário de outros, este é um álbum de poemas maioritariamente escritos por mulheres: Aldina Duarte, Natália Correia, Manuela de Freitas, e as já referidas Lídia Jorge e Teresinha Landeiro. Foi intencional?


Acho muito curiosa essa pergunta, porque é muito insistente. De cada vez que faço um disco, essa pergunta surge. Se os poemas que gosto são todos de homens, não tenho problema nenhum com [tê-los num disco]. Para mim, feminismo é exatamente isso: sermos iguais. Se me identifiquei mais com determinados poemas de homens, porque não? Desta vez acontece serem mais mulheres do que homens, perfeito... Mas não é de todo intencional.

 

Posso estar enganada, mas esta é a primeira vez que vejo a Teresinha Landeiro a escrever para outra pessoa cantar...

 

Não, acho que já aconteceu. Não sei dizer quem, mas acho que ela já escreveu para outras pessoas.

 

Trazer uma nova geração do fado, novas visões, mesmo estando a falar do fado tradicional, é algo que te desafia?

 

Acho super importante, aprende-se sempre alguma coisa, galga-se um degrau. Mesmo que às vezes nos fiquemos a perguntar: será que vai resultar? É óbvio que resulta. As novas gerações já têm uma visão diferente da minha, a Teresinha a escrever é de uma maturidade incrível, escreve maravilhosamente. Estou completamente embevecida com ela, confesso. Ela é muito completa. O Liberdade, um tema que assina para o Fado Estoril, é absolutamente genial. É o ponto de vista de uma mulher da idade dela, desta nova geração, a olhar para a liberdade. É tudo tão mais simples, mais leve, do que a minha geração pintou. E é magnífico cantar esse poema. 

 

Esta nova geração tem mais liberdade do que a que tiveste?

 

É uma boa pergunta, mas acho que sim. Sendo que eu tenho uma experiência um pouco diferente, porque não sou de Lisboa, venho do interior, começo a cantar muito tarde e nunca pertenci propriamente ao fado. Costumo dizer que sou uma espécie de filha adotiva, comecei logo a fazer concertos e nunca passei pelas casas de fado. Sempre fui bem recebida, mas quando comecei a cantar as pessoas olhavam-me com uma certa desconfiança, e até que as coisas se instalassem demorou algum tempo. Criou-se um respeito e uma identificação, a minha música era sempre uma coisa que caminhava lado a lado, mas não era de dentro do fado. Hoje vemos muitas pessoas jovens, que são do fado, a fazer coisas diferentes, e isso é tido como algo absolutamente normal. Para mim, é absolutamente normal. As coisas só passam a ser um problema quando olhamos para elas sem essa naturalidade. É claro que o fado é um género que se deve manter, mas não é uma coisa hermética. Não pode ser nunca um género fechado, senão não evolui. E esta geração vem dizer isso mesmo, que podemos fazer o que bem entendermos que nunca deixaremos de ser do fado. 

 

No teu último álbum, o Eva... Dizer isto desta forma está errado, e acho que não serei a única a cometer essa falha. O Eva, na verdade, não é o teu último. Em 2022 editaste o Amoras numa Tarde de Outono, mas a minha sensação é que passou um pouco despercebido do público.

 

Amoras numa Tarde de Outono é um documento, no fundo. Onde eu e o João Paulo Esteves da Silva, um enormíssimo pianista...

 

Que já te acompanha há muitos anos.

 

O João Paulo assina músicas para mim desde o meu segundo disco. O Amoras numa Tarde de Outono é um documento onde juntámos todas as músicas e poemas, porque ele também escreve, que fez para mim. Estou naquela fase da minha vida em que começo a arrumar a casa. Virão outros, pelo menos assim espero, e este foi o primeiro dos documentos. Tens razão quando dizes que o meu último disco foi o Eva, o Amoras é um documento. 

 

Eva nasceu de duas residências artísticas, uma em Loulé e outra na Dinamarca. O Mãe passou por algum processo semelhante?

 

Este disco foi bastante diferente. Fizemos uma pequena residência em Coimbra, só de dois dias, muito para os quatro juntarmos as ideias do que queríamos fazer. Passou por várias fases; sabia que queria fazer um disco de fado, sabia exatamente o que é que lhe queria chamar, mas houve algumas mudanças pelo meio. Houve muita gente a escrever, muitos textos ficaram pendurados. Pedi a várias pessoas que escrevessem para fados tradicionais, disse exatamente o que é que queria. No fundo, fiz um exercício muito semelhante ao Eva, que passou por fazer uma espécie de diário. Faço sempre assim uma maluqueira qualquer, acho que a malta até fica assustada. Mas tive gente muito nova a escrever, que depois resultou de uma maneira que não era exatamente a que queria. Porque a verdade é que cheguei à conclusão de que quando temos fados tradicionais, são precisos monumentos na escrita. Há uma certa solenidade no fado tradicional, se não escreveres daquela determinada forma há qualquer coisa que se perde.

 

Foi complicado escolher os fados tradicionais deste alinhamento?

 

Não, esses estavam escolhidos. 

 

Porque é que escolheste estes e não outros?

 

São os meus favoritos. Não o devia dizer, mas estão aqui cinco dos meus fados preferidos. 

 

Algum deles foi dos primeiros que cantaste?

 

Deixa-me pensar. O Fado Estoril, claro. Quando nos juntámos e fizemos essa mini residência artística, chegámos à conclusão que tínhamos de ir buscar a nossa linguagem. Volto a falar do Bernardo Couto, do Bernardo Moreira e do Luís Figueiredo. Adoro o resultado, os fados não deixaram de ser fados, mas também não deixaram de ser a nossa música. Isso é a parte difícil, sabes? Conseguir somatizar qualquer coisa. Mas acho que fomos felizes no resultado. 

 

Corpo Iluminado, o teu terceiro disco, foi uma carta de apresentação ao público nacional, tendo também sido muito bem recebido pela imprensa. Mas mais de 20 anos depois, continua a ser o público europeu, sobretudo o nórdico, quem tem um fascínio pela tua voz. Como é que explicas isso?

 

Não sei explicar. Logo após o Corpo Iluminado fiz um disco com textos de um poeta holandês traduzidos para português, o Jan Jacob Slauerhoff, que foi um megassucesso na Holanda. Foi dupla platina, o que nessa altura, se bem me recordo, significava 150 mil cópias. Foram muitos discos vendidos, toda a gente tinha, portugueses que nunca tinham ouvido falar de mim diziam-me que o conheceram porque um amigo holandês ou belga o tinha. De repente, esse disco tornou-se numa coisa enorme. Não havia redes sociais, este era o caminho que se fazia e as coisas foram sendo sedimentadas. Esse é o meu público. Se isso tem uma explicação, não sei. 

 

Um concerto em Lisboa é diferente de um em Amesterdão?

É muito diferente. Custa-me muito, fico muito mais nervosa num concerto em Lisboa ou no Porto.

 

Sentes que ainda há algo por provar?

 

Sim, talvez. É como chegares a casa dos teus pais. Sendo que, é importante dizer, nervosa fico sempre, seja onde for. 

 

Ainda hoje?

 

Muito nervosa, mesmo. E quando digo que aqui fico mais nervosa, é porque ainda consigo ficar pior. Fico tensa, meio pateta, sem saber o que dizer. É isso, é chegar a casa. 

 

Neste novo disco, há algum tema que te seja mais especial?

 

É difícil dizer, acho que gosto muito de todos. Talvez o que me comova mais seja o do Fado Carriche no texto da Natália Correia [Rio de Nuvens]. Ou não, não sei. Todos eles são muito especiais. Sempre fui muito apaixonada pelos textos do David Mourão-Ferreira, quando tenho dúvidas do que quero cantar é sempre lá que vou. É a pessoa de quem me sinto mais próxima na escrita. Depois há a Senhora do Mar Redondo, da Lídia Jorge, que também é um textão incrível, ou os da Teresinha. Já falei no Liberdade e, se calhar, esse gostava de ter sido eu a escrever. E foi uma menina que escreveu para mim. 

 

Não podia deixar de perguntar, como é que está a Eva Haussman?

 

Está ótima, anda pela Dinamarca a fotografar como uma maluca.

 

Para quem não sabe, a Eva Haussman é o teu alter-ego. É fotógrafa, filha de mãe da Martinica e de pai francês. O que é feito dela?

 

Ela está contente. Pergunta-se muitas vezes porque é que continuo a insistir e a fazer demasiadas coisas. Acho que ela já passou a ser a Cristina, também. Esse alter-ego é o meu escape, é o sítio para onde vou quando preciso de sentir mais liberdade. E ela há de estar sempre a fazer coisas diferentes das que faço. 

 

Eva tinha como personagem a Eva Haussman, mas noutros discos, como no Alegria, já tinhas sido muitas vozes. E no Mãe, ouvimos só a Cristina Branco?

 

Boa pergunta. Quando comecei a pensar neste disco achei que viesse a ser uma coisa muito biográfica, mas talvez ficasse demasiado denso e a mensagem que queria passar não era bem essa. Houve alterações, fui redesenhando para ficar uma coisa mais leve. Não sei se era bom ir assim tão fundo. Ficou ligeiramente diferente, não é tão biográfico, mas é óbvio que fala de mim. Na mensagem que passei às pessoas a quem pedi para escrever (e foram mesmo muitas, talvez um universo de umas vinte pessoas), estava a explicação do porquê do Mãe. Se essa mensagem vai passar direitinha, espero que sim. Porque a música tem esse papel. Quando o texto serve uma música, ele até pode não falar do teu mais íntimo, mas a música vai falar. 

 

Essa música vai falar agora em tour, nacional e internacional. Por cá, vai passar por Lisboa...

Coimbra, Braga, Porto, Leiria.  

 

Algum desses concertos é no dia 28 de dezembro?

 

Não, adoraria. 

 

Essa é a tua data de aniversário e sei que há uma vontade de o festejar em palco a cantar. 

 

Ainda não aconteceu. Fiz 50 anos o ano passado e resolvi celebrar a cantar, mas não foi um concerto, foi uma festa entre amigos. 

 

Como é que se resumem 26 anos de carreira?

 

Não se resumem, continua-se. Se houver um resumo será no fim de tudo. Acho que é muito cedo, ainda há muitas coisas para dizer. Agora estou a arrumar a casa, porque gosto de meter tudo nas prateleirinhas certas. Há coisas que agora são urgentes fazer, mas é óbvio que umas coisas levam a outras. Tenho a certeza de que o Mãe me trará alguma coisa para uma próxima ideia. 

 

O que é que estás a ouvir?

 

Estou sempre a ouvir música. Ainda hoje ouvi a Livros do Caetano Veloso, foi a última música que ouvi. De coisas mais recentes, estou sempre a ser martelada pela música que os meus filhos ouvem, sendo que até têm bom gosto musical.

 

Por falar neles, os teus filhos ouvem os teus discos?

 

Costumam ouvir, sim. Mas este último ainda não, não senti necessidade de lhes mostrar. A Margarida, a mais nova, canta os meus outros na íntegra. É muito curioso. 

 

Por Rita Sousa Vieira

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