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Ninar Menino Grande e Olhos d’Água chegaram às livrarias nacionais em outubro de 2024. Ser editada em Portugal era um desejo seu?
Sem dúvida. Tenho um grande afeto e admiração pelo escritor Valter Hugo Mãe, com quem mantenho uma troca literária muito especial. Escrevi o prefácio de um dos seus livros [As Doenças do Brasil] e, quem sabe, um dia possamos escrever algo juntos. Mas, antes de Valter Hugo Mãe, houve outra escritora que sempre respeitei: Maria Teresa Horta. Conheci-a no Brasil, num seminário de literatura – talvez há uns 20 anos –, e lembro-me bem de quando ela leu Ponciá Vicêncio. Gostou muito e chegou a sugerir que tentássemos publicá-lo em Portugal. Agora, com estas duas edições, surge finalmente a oportunidade de estabelecer um vínculo mais próximo com o público português e também com os leitores das ex-colónias africanas. Sei que grande parte da literatura africana de língua portuguesa passa por Portugal, e muitos dos seus escritores vivem aí ou têm acesso à produção literária portuguesa. Ser publicada em Portugal é conhecer outros espaços da mesma casa.
O que gostaria que os leitores portugueses compreendessem sobre o Brasil através das suas obras?
Gostava que o público português percebesse a diversidade da literatura brasileira. Se o discurso que melhor expressa a identidade de uma nação é o literário, então é preciso descobrir a diversidade da literatura brasileira para entender realmente o que é o Brasil. No entanto, a que tem sido mais reconhecida em Portugal é, sobretudo, uma literatura escrita por homens, na sua maioria brancos. As mulheres também começam a chegar, mas com um atraso em relação aos homens. Já a literatura de autoria negra, sobretudo a escrita por mulheres negras, enfrenta uma disparidade ainda maior.
Os leitores portugueses vão ter oportunidade de conhecer primeiro a minha obra, depois a minha biografia. Claro que a minha biografia marca a minha obra. O meu lugar de pertença está presente na minha ficção, desde a escolha da linguagem até a escolha do conteúdo. Essa consciência de que estou a trabalhar com a arte da palavra subjaz no meu texto. Por isso, é muito importante para mim que as pessoas leiam e não se esqueçam de que por trás da escrita está uma mulher negra. Sou uma escritora negra, brasileira, das classes populares. Tudo isso marca a minha literatura, de forma consciente e inconsciente.
É aí que entra o conceito de Escrevivência, que criou. Já é mais do que um estilo de escrita, tem uma dimensão histórica e social?
Usei pela primeira vez esse termo em 1994, na minha dissertação de mestrado, e ganhou uma dimensão gigante. O conceito extrapolou a literatura, virou suporte teórico para vários campos do saber. Tem sido uma chave de escrita e leitura, uma metodologia, um estilo de escrita tanto para trabalhos académicos quanto para obras literárias. Quando criei esse conceito, jamais imaginaria que ele tomaria tamanha proporção.
A primeira vez que o abordei foi no Seminário de Literatura, em Viena, onde defendi a literatura escrita por mulheres negras. Eu disse: “A nossa escrita, a nossa Escrevivência, não é para os adolescentes da casa grande, mas para acordá-los dos seus sonhos injustos”. E, ao longo do tempo, tenho visto esse conceito se expandir. Muitas pessoas têm se apropriado da ideia, o que é bom, porque significa que a ideia cresce, mas também pode ser diminuída em alguns aspetos.
De que forma?
Por exemplo, a Escrevivência não pode ser pensada apenas como escrever a vivência. Podemos pensar nisso numa aula de ficção ou na escrita de si mas, para entender a Escrevivência, é preciso compreender seu fundamento histórico. O conceito é sustentado pela história das mulheres negras — e a imagem da Mãe-Preta vem à mente.
A Mãe-Preta, que eu também venho discutindo bastante, era a mulher escravizada dentro da Casa-Grande, cujo corpo estava marcado pelas economias do prazer, da educação e da produtividade. Na economia do prazer, ela era uma mulher que, quando o senhor desejasse, podia ser tomada. Na economia da educação, ela cuidava das crianças, da prole e da própria casa grande. E, na economia da produtividade, ela também produzia: além de tomar conta das crianças, lavava suas roupas, preparava sua comida, estando sempre a serviço da Casa-Grande. O que tenho refletido, e insisto nessa presença histórica, é que essa mulher escravizada não só vivia sob essas condições, mas também carregava consigo uma linguagem escravizada. Ela não contava as histórias por prazer, nem porque achava bonitinho. A sua dicção, o seu modo de contar histórias, era uma função imposta pela escravidão. A Escrevivência retoma essa fala como um símbolo de libertação.
Eu escrevo o que quero escrever, inclusive para contestar essa palavra que cumpriu o papel da opressão. Não se trata de dizer que outros grupos sociais, ou outras escritoras, não possam falar sobre a escravidão. Contudo, não têm essa filiação histórica, essa ligação com o imaginário, nem o simbolismo que envolve o rompimento com o silêncio ou com a palavra escravizada. Isso é algo que fundamenta o processo de reflexão sobre a Escrevivência.
Alguém pode perguntar: "A Escrevivência pode ser vista como uma escrita de si?" Eu digo: pode, pode sim. Ela pode ser pensada como autoficção? Pode, mas até à quinta página. Depois, a narrativa muda de direção. Porque tanto a autoficção quanto a escrita de si, assim como a autobiografia, se esgotam no sujeito individual. Elas se limitam ao sujeito criador ou ficcional, mas não vão além disso. A Escrevivência, por outro lado, visa abranger um sujeito coletivo. Quando Carolina Maria de Jesus escreve o Quarto de Despejo, ela não narra apenas sua experiência pessoal. Ela traz à tona um sujeito coletivo, no qual muitas mulheres negras e famílias se reconhecem. Quando li o livro de Carolina aos 19 ou 20 anos, o que ela descrevia em São Paulo era o mesmo que a minha família e outras viviam em Belo Horizonte. A narrativa se tornava parte de nossa própria história. Da mesma forma, quando Eliana Alves Cruz escreve A Solitária, ela narra as experiências de várias mulheres negras. Por mais que esses textos sejam escritos em primeira pessoa, essa "primeira pessoa" não se resolve de maneira isolada.
Que outras obras a marcaram?
A Cor da Ternura, de Geni Guimarães, O Olho Mais Azul, de Toni Morrison, Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola, de Maya Angelou, e Cartas para a Minha Mãe, de Teresa Cárdenas. São histórias individualizadas, mas que dialogam com o coletivo, com a condição das mulheres negras e, antes de tudo, com uma condição diaspórica. É fascinante ver como esses textos dialogam entre si. Vale ler também Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, e Maréia, de Miriam Alves. Todos esses textos são criados a partir da mesma experiência histórica.
As suas obras contribuíram para abrir caminho a uma nova literatura negra no Brasil?
Sinto [que sim], sem modéstia alguma. Sinto, porque têm uma autoria que se refere muito aos meus textos. Às vezes, pego num texto de uma escritora mais jovem, leio e percebo essa possibilidade de diálogo. Acho que abri caminho, tanto para a criação de novos textos, como para pensar a forma de escrever.
As escritoras negras continuam a enfrentar mais barreiras na publicação do que os escritores negros? Ou o cenário está a mudar?
Hoje não posso reclamar. Tenho várias opções e posso escolher com que editora quero trabalhar, seja das pequenas, médias ou grandes. Continuo a publicar com editoras negras, pois isso representa um compromisso ideológico para mim. No entanto, sei que a qualquer momento posso trabalhar com uma grande editora e tenho plena confiança de que tudo correrá bem. Contudo, considero-me uma exceção. São poucas as escritoras negras — e há muitas autoras incríveis, que representam essa literatura — que têm a visibilidade que eu tenho no Brasil. Ainda assim, para os homens, o caminho é de facto mais fácil.
A oralidade é uma marca forte na sua escrita. Como é que decide que histórias merecem ser escritas e as que devem permanecer no campo da oralidade?
Todas as histórias merecem ser escritas. Todas. Às vezes escuto algumas histórias e logo pergunto: “Você já escreveu isso?” Normalmente, a resposta é não. Então, eu falo: “Pelo amor de Deus, escreve, senão eu vou escrever.” Porquê? Porque a oralidade tem uma potência enorme. A minha criação literária deve muito à oralidade, mas o texto escrito também tem grande força, é muito bonito. E talvez ele seja tão potente, tão bonito, porque precisa conquistar a força da oralidade.
Eu sou apaixonada pela oralidade. A oralidade tem um corpo, tem gesto, tem olhar. Ela tem a pausa que a vírgula não consegue dar conta, que a reticência não consegue. Tem a lágrima, a dor. Se eu pudesse, eu escreveria todas as histórias como um tributo à oralidade, mas também com a consciência de que o texto escrito não consegue captar tudo. Acho que o texto é uma angústia para tentar se fazer, enquanto a oralidade simplesmente se faz.
Olhos d’Água, uma das obras agora editada em Portugal, venceu o importante prémio Jabuti, no Brasil, em 2015. Há um antes e depois dessa distinção?
Sem sombra de dúvida. Eu diria que houve alguns marcos fundamentais na minha carreira literária. A Festa Literária Internacional de Paraty [FLIP, de 2017] foi muito importante, especialmente depois das discussões sobre a ausência de escritoras negras. A Ocupação Conceição Evaristo no Itaú Cultural, em 2017, foi outro momento marcante. Antes disso, já era reconhecida no movimento negro, no movimento feminista, no meio académico, mas esses três eventos foram decisivos.
Além do reconhecimento, já foi homenageada de várias formas — até pela Escola de Samba Beija-Flor. O que é que ainda gostava de conquistar?
Acho que não vou falar, vou manter em segredo.
Um lugar na Academia Brasileira de Letras está cada vez mais perto ou ainda é algo distante?
Eu não sei, sinceramente. Não sei. Para a minha carreira literária, sem dúvida, estar na Academia seria... Fazer parte da Academia tem um peso, eu sei. Eu já fui eleita para a Academia Mineira de Letras. Quando uma mulher negra finalmente chegar à Academia Brasileira de Letras, isso será uma conquista histórica para a própria instituição. E a Academia, sem dúvida, só tem a ganhar com isso.
Agora, o que sempre digo é que o mais importante não é ser a primeira. O crucial é abrir espaço para novas perspetivas. Sei que minha candidatura fez a Academia refletir, e isso tem grande valor para mim. Não foi uma candidatura em vão. Eu acredito profundamente que, um dia, uma mulher negra fará parte da Academia Brasileira de Letras. Se eu lá chegar, será pela minha obra, e vou ficar toda metida, vou dar festa, vou ficar contente com o reconhecimento, porque, sem modéstia alguma, me julgo merecedora. Mas, mais importante do que ser a primeira, é saber que a minha candidatura já abriu caminho para outras. O essencial é a possibilidade de novas candidaturas no futuro. Agora, se eu for a primeira, vou ficar metidíssima.
No início, começou por dizer que o leitor português vai conhecer primeiro a sua obra do que a sua biografia. A escritora e jornalista Yasmin Santos publicou recentemente Conceição Evaristo: voz insubmissa, a primeira biografia que lhe é dedicada. Como é que a recebeu?
Encantou-me, fiquei muito feliz. Acho que ela teve um grande sentido de observação. Captou exatamente o que precisava estar ali no texto. Ela abre caminho, inclusive, para outras biografias. Quem for escrever sobre mim, agora, vai ter de se reportar ao texto dela. É um livro fundamental para quem quer me conhecer, além da minha obra.
Como imagina o impacto das suas obras na vida de quem as lê?
É sempre um impacto bom, desconcertante. Como sei isso? Porque é impressionante o número de pessoas que se aproximam de mim — e não falo só de mulheres negras, mas também de mulheres brancas, homens brancos, jovens, crianças, brasileiros e estrangeiros. As pessoas chegam e se emocionam. Por me verem, mas, principalmente, pelo que o texto desperta nelas. Não é só na cabeça, é no coração, na vida delas. Quantas vezes já me disseram: “Mudei minha vida depois de ler a sua obra”, especialmente Olhos d’Água. Esse livro mexe profundamente com as pessoas. E, às vezes, a emoção delas é tão forte que me toca, me desconcerta também.
O que está a ler?
Retomei Eu, Tituba: Bruxa negra de Salem, um romance de Maryse Condé, que está a ser adaptado para teatro. Também estou a ler A Dívida Impagável, de Denise Ferreira da Silva, um livro que aborda a dívida histórica que a colonização tem com os países africanos e com a América Latina.
Por Rita Sousa Vieira