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Pegando no título do teu álbum de estreia, porque é que queres ficar neste quadrado?
Vou Ficar Neste Quadrado é o nome de uma música. Na realidade, foi a partir dela que dei o nome ao álbum. Inspirei-me numa teoria situacionista que diz que cada um de nós tem a sua forma geométrica na cidade. Por exemplo: se uma pessoa vai à faculdade, depois a um café perto da faculdade e, no fim, dorme em casa, a sua forma geométrica acaba por ser um triângulo, mesmo que faça pequenos desvios. Portanto, o quadrado aqui simboliza a rotina que cada um de nós segue na nossa vida. E a música pensa um bocadinho sobre como sair dela, como olhar para além desse quadrado.
E qual foi a rotina que te fez chegar a este álbum? O que é que o diferencia dos dois primeiros EPs (Cheguei Tarde a Ontem e Se Dançar É Só Depois)?
Este álbum foi uma evolução natural dos EPs anteriores, no sentido em que sinto que mantém a mesma estética, mas com características um bocado diferentes. Se calhar é um álbum mais dançável, com menos melodias e mais ritmo. Apesar de estar na mesma linha dos anteriores, está um bocadinho mais à frente. Não é melhor ou pior, mas é um bocado diferente.
Quão diferente?
Como estou tão dentro dos trabalhos e trabalhei neles durante tanto tempo, para mim é mais difícil ser realista sobre aquilo que mudou, mas a principal diferença está em termos rítmicos. Sinto que nos anteriores havia mais melodias — aqui também existem —, e o ritmo aqui é algo mais predominante. Existem muitas camadas, as músicas são mais dançáveis, apesar dos temas, muitas vezes, não serem propriamente felizes.
Se não fosse a pandemia e o período de isolamento, seria mais difícil ouvir-te num projeto a solo?
Tive muitas bandas e alguns projetos, uns só com guitarrista, outros com banda completa, e sempre gostei de compor. Talvez por vir de uma escola de jazz, nunca pensei que poderia ter um projeto sem banda, digamos assim, e tal aconteceu por causa da pandemia. De repente deixámos de poder tocar juntos durante muito tempo e a minha necessidade de compor manteve-se, e se calhar até se intensificou. Foi um período difícil, portanto compor até era uma forma de lidar com o isolamento. Depois acabei por perceber que conseguia tocar sozinha, que gostava de tocar sozinha, e comecei a descobrir a produção. Como não podia, precisamente, pedir a pessoas para tocarem coisas diferentes, tinha de ser eu a gravar. Então, descobri coisas, que se calhar eram muito óbvias, mas que para mim, que já compunha em partituras, eram novidade. A gravação abriu-me um mundo diferente.
Como é que nascem as tuas canções?
As minhas canções normalmente nascem de não conseguir dormir, de estar à espera de alguma coisa. Muitas vezes nascem de um tempo de espera, um tempo em que aparentemente não está a acontecer nada. Também é possível chegar a estúdio e tentar compor, mas sinto que é mais forçado e prefiro o lado mais espontâneo.
Lidas bem com o silêncio?
O total silêncio não existe por completo, mesmo à noite. No outro dia, estava a andar e, de repente, comecei a ouvir um som vindo de uma caixa de eletricidade, um som que nunca tinha ouvido, e fui logo gravar. Quando falo em silêncio pode ser também não ter nada que fazer. É bom não ter nada que fazer, sentir o aborrecimento. Antigamente, como não havia tanta facilidade de estar sempre a ouvir qualquer coisa, havia muitos espaços em branco e muitos espaços em que dava para pensar. É importante ouvir, ler, mas também é importante não estar a fazer nada. Pelo menos para mim, quando não estou a fazer nada, ou quando me esqueço de tudo - 'não tenho nada a fazer e tenho aqui uma hora' -, de repente começo a criar melodias.
Parece que hoje já não há tempos mortos, o scroll no telemóvel é inimigo do tédio.
E eu acho que o tédio é essencial. Claro que nasci no meio dos telemóveis, mas apesar de tudo fui acompanhando essa evolução. Não era tão fácil mandar mensagens, não havia Internet em todo o lado. O que nos levava a brincar com aquilo que estava à nossa disposição, a inventar e a ser criativo. Somos mais criativos quando estamos entediados. E como hoje é difícil, é importante procurar esse tédio.
Usas os sons do quotidiano como instrumentos e neste disco há vários momentos em que se ouvem sons gravados na rua. Tens sempre o gravador contigo?
Nem sempre. Às vezes é difícil e é o telemóvel, que acaba por ter a mesma qualidade, o que tenho mais à mão.
Por falar em instrumentos, usas vários tradicionais. Algum deles tem uma história particular associada?
Neste momento tenho um que é muito especial. São duas pedras do rio do Paúl (Covilhã), que adquiri há muito pouco tempo, quando fiz uma residência com umas adufeiras do Paúl. Duas pedras achatadas que se tocam quase como uma castanhola, com três dedos. Aprendi a tocar com as adufeiras e foram elas que as apanharam do rio. Na música tradicional, há a tradição de se usar os instrumentos que se tem à disposição.
Música tradicional portuguesa, mistura entre tradição e eletrónica, de inspiração nos cantautores. Como lidas com estes rótulos que te colam?
Acho que a música, a forma como nós fazemos música, é um reflexo daquilo que gostamos de ouvir, e eu gosto de ouvir muitas coisas diferentes. Sempre ouvi muitos cantautores relacionados com Abril, como o Fausto, o Sérgio Godinho, o José Mário Branco, Zeca Afonso. Quando era mais nova, como não percebia tão bem o inglês, a música portuguesa fascinava-me mais, e tentava compreender as letras. Mais tarde redescobri Björk ou Portishead, já com ouvidos mais atentos e curiosos por perceber que havia outros tipos de músicas, e outras formas de pensar e fazer música.
Não podemos falar antes numa sonoridade única, uma sonoridade Ana Lua Caiano?
Pois, não sei. Como estou tão dentro da minha música, não sei dizer. Produzi, compus e foram muitos, muitos meses, quase um ano, a ouvir as minhas músicas quase diariamente. Não estou a ouvir de fora, portanto precisaria de me distanciar das canções e, depois, voltar a ouvi-las para saber responder. Essa é uma pergunta para quem ouve as minhas canções.
A fusão entre diversos géneros musicais com elementos tradicionais portugueses ou influências mais contemporâneas não é nova. Algum projeto é uma inspiração?
Sinto que há alguns projetos... Madredeus foi bastante inovador, a Amélia Muge explorava a música tradicional de uma forma bastante diferente, o Zeca Afonso misturava a música tradicional com ritmos brasileiros, o Fausto inspirou-se muito nas músicas tradicionais, mas depois adicionou um toque de inovação que era muito próprio dele, A Naifa... Esta mistura faz parte da música, porque não existem estilos puros.
Com essas referências todas, sentes-te uma alma velha?
Acho que não, por acaso. Foi tão natural, fez parte da minha infância de forma tão natural... Até porque depois também ouvia Nirvana e outras coisas mesmo diferentes. Acho que não sou caso único, acho que é normal ouvirem-se esses autores em muitas famílias, até pelo peso de terem ficado ligados à Revolução.
Este teu disco foi editado pela alemã Glitterbeat. Porquê é que que escolheste uma editora internacional para a estreia?
No final do ano passado, comecei a tocar mais lá fora, a fazer os showcase festivals [em festivais e feiras de música], e numa dessas datas eles assistiram a um concerto. Para mim, fazia sentido ter uma editora que tivesse alguma preponderância lá fora e gostei da proposta deles em termos musicais. E está a correr muito bem.
Foste destacada em algumas das principais revistas internacionais da especialidade, já atuaste na Coreia do Sul e na Dinamarca. A internacionalização estava nos planos tão cedo?
Contando tudo desde o início: antes de outubro de 2022 não tinha nenhuma agência, era a Chinfrim Discos, uma editora pequenina, que me ajudava na marcação de concertos. Nesse ano, a Womex [conferência e feira, considerada uma das principais montras da world music] acontecia em Portugal e, mesmo não tendo real noção da dimensão e do impacto da feira, acabei por me candidatar. Fui selecionada quando ainda só tinha um EP lançado há menos de um mês, e foi aí que fiz muitos contactos. Foi através da presença na Womex que fui à Coreia do Sul, por exemplo. Agora já tenho uma agência e agentes lá fora que me ajudam muito.
Isto foi sorte ou trabalho?
É uma mistura dos dois, mesmo. Eu sempre fui muito trabalhadora e candidatei-me a muitas, muitas coisas. Já tinha a experiência das bandas anteriores, em que era eu que fazia o agenciamento; sabia que era mandar 300 e-mails e só receber duas respostas.
Foste apontada como um dos grandes nomes da nova música portuguesa. Já sentes a pressão do segundo álbum?
Eu gosto muito de compor, por isso já tenho uma ideia do que é que poderá ser o próximo álbum. Se calhar vai ser um pouco diferente, porque eu também estou a mudar e estou a ouvir coisas diferentes... Claro que é importante, e bom, saber que estamos a ser ouvidos ou a ser reconhecidos, mas o principal é gostar-se do que se faz e, gostando do que se faz, mais facilmente as pessoas vão gostar — e se não gostarem, eu gosto.
Os teus concertos são feitos no formato de one-woman-band. Equacionas alguma colaboração com outro artista? Quem está na lista de desejos?
Neste segundo álbum gostava de ter mais colaborações gravadas — só tenho uma, com a Rossana [Lobo Louco], logo o primeiro tema que saiu. Já tenho algumas ideias; devagarinho e as coisas vão chegar.
A parte visual destaca-se na tua música. Como é que ela entra no processo criativo?
Mais uma coisa que sinto estar muito ligada à pandemia. Quem faz os meus vídeos é a minha irmã Joana Caiano, que é realizadora e que, neste momento, vive e trabalha em Inglaterra. No Covid juntámo-nos na mesma casa, e acabou por ser uma forma de nos entretermos. Eu fazia a música, ela fazia um vídeo, fazíamos muitas experiências visuais. E isso fez com que, desde muito cedo, a componente visual fizesse parte da componente musical.
Estiveste nomeada para os prémios PLAY na categoria de Artista Revelação e para os Music Moves Europe Awards (os prémios da União Europeia que celebram artistas emergentes, que representam o som europeu de hoje e do futuro, reconhecendo o seu sucesso nacional e internacional). Agora estás indicada para dois Globos de Ouro – Melhor Intérprete e Melhor Atuação. Qual a importância destas nomeações?
Fico mesmo muito feliz com todas as nomeações, não estava à espera de nenhuma porque o projeto ainda é muito recente, apesar de já ter lançado dois EPs e um álbum. Fico mesmo super espantada, porque a música começa de uma forma muito solitária, com a minha necessidade de estar sozinha. É estranho quando me apercebo que há pessoas a ouvir e que sou reconhecida. Ser nomeada juntamente com artistas incríveis, que eu admiro há imensos anos, é incrível.
O que é que estás a ouvir?
Ando a ouvir as Cocanha, são incríveis. Elas são francesas, mas cantam num dialeto [o Occitano, a língua oficial da Catalunha Francesa]. Atuaram no Musicbox [Lisboa] há uns meses, mas dei um concerto nesse dia e não consegui ir.
Por Rita Sousa Vieira
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