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ÁLVARO COVÕES EM ENTREVISTA
ENTREVISTA A ÁLVARO COVÕESENTREVISTA A ÁLVARO COVÕES

"Em Chico Buarque sentei-me na plateia, tive de assistir ao concerto"



A poucos dias do NOS Alive, Álvaro Covões deixa um conselho: “olhem bem para os horários, para o mapa do recinto, façam bem o roteiro” do que querem ver. Nesta conversa com o diretor da promotora Everything Is New, que organiza o festival, falamos também sobre a exposição Urban(R)Evolution, dos hábitos culturais em Portugal, do preço dos bilhetes e de como é ser um espectador nos eventos que organiza.


Urban(R)Evolution é uma exposição inédita em Portugal, que celebra a arte de rua, do graffiti à arte urbana, com obras criadas por 18 artistas portugueses e estrangeiros. Shepard Fairey, Lee Quiñones, Vhils, Felipe Pantone, Jason Revok, Add Fuel, Wasted Rita, Tamara Alves e Nuno Viegas são alguns dos nomes da exposição patente na Cordoaria Nacional, em Lisboa, até 3 de dezembro, e que tem como 'espinha dorsal' o trabalho da fotógrafa norte-americana Martha Cooper.

 

Costuma dizer que todos os nomes são cabeças de cartaz no NOS Alive. Podemos dizer o mesmo da Urban(R)Evolution, que conta com os maiores nomes da arte urbana da atualidade? O que faz desta uma exposição única?  


Esse é quase um statement nosso. Nesta exposição, posso dizer, estão 18 dos 30 artistas mais importantes do mundo de arte urbana. Esta talvez seja a primeira exposição coletiva em que os artistas trabalharam nas suas instalações no próprio local. Obviamente que quando vêm fazer este tipo de trabalho ele já está todo planeado, mas acredito que possam ter recebido algum tipo de influência uns dos outros, o que torna estas obras ainda mais especiais. É uma exposição efémera, porque as obras foram feitas aqui, para esta exposição, e não vão voltar a ser vistas quando terminar.

 

Qual é a sua ligação com a arte urbana?


A minha ligação é com a Cultura, com o setor cultural no seu todo. A rua é o local mais democrático do mundo. É como nas manifestações, é na rua que as pessoas se exprimem mais livremente, sem condicionamentos. Quando era jovem gostava muito, sempre que ia a Londres, de ir ao Speaker's Corner, no Hyde Park. Era um local onde cada um se podia exprimir livremente e dizer o que pensava, sem qualquer filtro. Isso é muito saudável e muito importante para manter uma sociedade mais desenvolvida e mais livre. 

 

As imagens da lendária fotógrafa norte-americana Martha Cooper são o fio condutor desta exposição. Ela começou a documentar, logo na década de 1970, em Nova Iorque, os primórdios da arte urbana. Na visita de imprensa ouvimos como estas fotografias, primeiro disseminadas pela imprensa, depois pela Internet, influenciaram o trabalho de alguns dos que aqui expõem também as suas obras. 


É um privilégio, ela é uma lenda viva, felizmente ainda no ativo, com uma energia absolutamente extraordinária. Ela viveu todo este movimento. Aliás, foi ela que deu a conhecer ao mundo esta nova expressão de arte. Ela teve e tem muita importância. Até publiquei no meu Instagram uma foto do Lee [Quiñones] junto a uma, que está aqui exposta, que ela lhe tinha tirado há quarenta anos. 

 

Como é que nasceu a ideia para esta exposição? Partiu da Everything is New ou da Underdogs?


Nós entrámos neste mundo das exposições há uns anos, e estamos sempre numa procura constante de novos projetos que sejam marcantes. Não só para os artistas, mas acima de tudo para o público. Encaramos isso como uma obrigação e ao mesmo tempo como uma oportunidade. Portugal tem os hábitos culturais mais baixos da Europa, somos os últimos a ir a museus, a exposições, ao teatro, nos hábitos de leitura, a ir a concertos e a festivais. Somos os últimos! Por muito que se diga que somos o país dos festivais, não bem é assim. Tenho muita pena que os políticos não consigam perceber isto, mas, de facto, há uma correlação direta entre a criação de riqueza e os hábitos culturais. Significa isto que temos a obrigação de aumentar esses hábitos culturais. 

 

Voltando à pergunta, nesta procura de novos projetos, o desafio é grande. Quando fizemos a exposição da Joana Vasconcelos, no Palácio da Ajuda, tivemos 240 mil pessoas em cinco meses, num espaço que tem 40 mil visitantes por ano. Quando os grandes players no mercado, como o Tate Modern (Londres), o MoMA (Museum of Modern Art, em Nova Iorque) ou o Thyssen (Madrid) estavam com receio para programar porque a Covid-19 ainda não tinha terminado, avançámos com a maior exposição do mundo do Ai Weiwei. Fruto de conversas com o Vhils, nasceu esta ideia fabulosa de começar a pensar numa coletânea importante, de referência mundial, de arte urbana. Lá está, um festival que junta todos os grandes cabeças de cartaz. E chegámos aqui. 

 

Como a do Ai Weiwei, esta exposição tem novamente casa na Cordoaria Nacional. Faltam espaços, equipamentos culturais com estas dimensões?


Não há uma estratégia ou política cultural com um fio condutor, por isso é natural que faltem espaços. A última galeria que o Estado construiu foi há 26 anos, o CCB; mais recentemente surgiu o MAT, um projeto da Fundação EDP, mas que está muito fechado na sua própria programação.

 

Em jeito de provocação, todas estas exposições — a da Joana Vasconcelos, a do Harry Potter ou a já referida do Ai Weiwei —  aconteceram em Lisboa. Programaram recentemente quatro espetáculos dos Coldplay em Coimbra, que provou que a descentralização de grandes eventos funciona. Sabendo que não dá para comparar os Coldplay com uma exposição como esta, ainda assim planeiam organizar este tipo de iniciativas noutras cidades?


Este ainda é um mercado onde temos de trabalhar muito para chamar público. Lisboa ainda é o maior mercado; e sendo o maior, é o local mais importante. Não só estamos a trabalhar para os portugueses, mas também estamos a contribuir para a valorização do destino. Quem visita Portugal e passa por Lisboa vai ter até ao dia 3 de dezembro uma exposição de nível mundial. Esta exposição podia estar nas capitais mais importantes do mundo. Acho que temos a qualidade mais do que suficiente para sermos uma referência daquilo que se está a fazer este ano no mundo das exposições. Isso valoriza muito o destino. 

 

Para fechar este capítulo sobre a exposição, antes de passarmos ao NOS Alive... 


Acredito muito nisto. Faço parte da Associação de Turismo de Lisboa e há muitos anos que digo que Lisboa, e o Porto, que também padece do mesmo problema, está a cometer um erro estratégico muito grande. Não é só dar licenças para hotéis e restaurantes. É preciso também criar equipamentos. Para chamar a atenção até digo: se se licenciam três hotéis, temos de licenciar uma galeria de exposições temporárias; mais três hotéis e há que licenciar um teatro; mais três hotéis e há que licenciar um museu. Não pode ser hotéis, hotéis, hotéis, e não há mais nada... Se queremos consolidar o turismo, há que criar atrações. Nas exposições que tivemos na Cordoaria [a do Bansky, em 2019, e do Ai Weiwei, em 2021], tivemos uma média de 120-140 mil pessoas a visitar...

 

Quantas é que esperam ter nesta?


Temos uma expectativa; gostava de chegar aos 200 mil visitantes, o que não é muito. Mas... Nunca ninguém se interrogou porque é que quando vamos a Madrid andamos nas ruas e vemos publicidade em todo o lado a conteúdos culturais? Em Berlim igual, Londres igual... Porque é que não o vemos cá? Porque não há uma política cultural. Não há circuitos, não há organização, não há critério. Não é tudo, mas é quase tudo 'não, não, não'. 

 

O que podemos esperar da edição deste ano do NOS Alive, há mudanças no recinto?


As grandes alterações são sempre no cartaz, porque todos os anos há um cartaz novo. O NOS Alive é um festival consolidado, sem espaço para crescer — a nível de recinto —, o que tentamos é facilitar a vida a quem habitualmente nos visita. Quem conhece o festival já sabe o lugar dos palcos, onde fica o palco Comédia, o Fado Café, o palco NOS... Isto é como nos supermercados, é bom manter as coisas nos mesmos sítios para quem vai às compras regularmente. Mesmo para os que vão pela primeira vez, se perguntarem a um amigo onde é que fica o quê, ele já sabe. Isso para nós é um tema muito importante. 

 

No ano passado a grande novidade no recinto foi a localização e o número de casas de banho.


Conseguimos arranjar mais um bocadinho na área do recinto para fazer essa mudança. 

 

Este ano há alguma modificação ou melhoria deste género?


Não com esse impacto. Talvez o elemento mais diferenciador parta de um trabalho que estamos a fazer com a Câmara de Oeiras para encontrar um programa — que ainda não tínhamos — de reaproveitamento de lixo orgânico. Já temos um programa de reciclagem com o apoio da Sociedade Ponto Verde, temos mobiliário urbano feito com materiais reciclados de lixo produzido no festival, agora teremos, já nesta edição, mais essa iniciativa. Hoje toda a gente fala de sustentabilidade, mas em 2007 não nos ligavam quando dizíamos que éramos o único festival onde os brindes têm de ser úteis e reutilizáveis.

 

São esperadas quantas pessoas por dia?


Temos dois dias esgotados. O terceiro está a caminho disso...

 

Já têm dados relativamente ao público estrangeiro?


Sei que temos mais de 70 nacionalidades… O festival é, obviamente, um festival português para portugueses. Os estrangeiros ajudam a garantir que esgotamos. Os hotéis também não enchem apenas com portugueses, enchem com portugueses e com turistas. 

 

Os festivais já recuperaram totalmente da pandemia ou ainda se sentem as sequelas?


As sequelas no setor cultural vão durar muitos anos. O impacto nas estruturas das empresas foi... Dependeu de dois grandes vetores: da estabilidade financeira da própria empresa, a capacidade sobreviver; e do investimento já feito, que foi todo para o lixo. As empresas ainda têm diversas sequelas. Dois anos parados, com prejuízos acumulados geram sequelas que duram anos a remediar. Ainda hoje sentimos os efeitos da pandemia. É como ver uma bola a rolar, a bola rola com uma velocidade, de repente alguém pára a bola, ela vai travando, travando; quando queremos que ela volte a rolar, ela demora a ganhar a mesma velocidade. Tive o privilégio de estudar etologia na faculdade, a ciência que estuda a motivação do comportamento animal, uma cadeira muito interessante. Há animais que são preguiçosos, o homem é um animal preguiçoso. Depois de dois anos paradas, as pessoas ganharam vícios.

 

O público tem reclamado do aumento do preço dos bilhetes dos espetáculos. O que é que responde a essas queixas?


Há um aumento generalizado dos custos de produção e as tours digladiam-se para conseguir alugar equipamentos. Os custos subiram muito, para não falar do aumento da inflação. De 2019 para 2022, a inflação subiu 10%. Se olharmos para os preços do NOS Alive, estes não subiram 10%. É sempre uma luta...

 

O que mais quer ver no NOS Alive?


Estou com muita curiosidade para ver os Rüfüs Du Sol, a Rina Sawayama e o Lil Nas X. Os Black Keys têm uma energia muito grande, Sam Smith é sempre brutal, é performer, com uma voz… Quero ver o concerto do Machine Gun Kelly, como a crítica diz mal... Também quero ver o espetáculo que o Branko está a preparar. E ainda Red Hot Chili Peppers, Idles… Ui, e há tantas coisas que seguramente não me estou a lembrar agora e que são brutais. Tenho pena de não me conseguir sentar no palco Comédia e rir-me um bocadinho.

 

Gostava de usufruir do festival como espectador?


Ando sempre a circular pelo recinto. Faço-o como organizador, mas para sentir o festival como o público. Entro no Fado Café e estou a ouvir fado; saio dali, atravesso a zona da alimentação, entro no palco Comédia, e estou a ouvir stand-up; vou ao Coreto e oiço um songwriter fantástico. Dá vontade de ver tudo... Sempre disse nas conferências de imprensa e volto a dizer: é bom que as pessoas se organizem porque não vão conseguir ver tudo. Olhem bem para os horários, olhem para o mapa do recinto, façam bem o roteiro. Têm de ir preparados ou ainda vão ver menos.

 

Ainda consegue ir a um concerto sem vestir o ‘fato’ do organizador, sem pensar em questões técnicas, desfrutando apenas do que está a ouvir ou a ver?


Se for nosso [da Everything is New], mais dificilmente. Porque há sempre questões, estamos sempre a pensar se vai correr bem... Mas em Chico Buarque sentei-me na plateia, tive de assistir ao concerto. Agora, se for fora, sim, consigo. Tenho ido todos os anos a Salzburgo ver Ópera. Porque sou um privilegiado... Os preços são caríssimos, ainda falam aqui no preço dos bilhetes.

 

Como é que se atualiza, como é que procura a novidade? Claro que deve ter uma equipa a trabalhar consigo, que lhe dá umas pistas...


É um misto. Ou recebemos dos agentes as coisas novas, ou vou pela opinião de um conjunto de pessoas que sabe o que está a passar na rádio ou o que o público está a pedir muito. Pode ser porque tem muitos ouvintes no Spotify ou porque está a ter um sucesso muito grande noutros países, mas isto não é uma ciência exata. Há artistas que podem ter milhares de audições no Spotify e milhares de visualizações no YouTube, mas que não vendem bilhetes, ou ao contrário. 

 

Os seus filhos já são adultos, mas em algum momento lhe disseram: 'pai, tem de ouvir esta banda!"?


Sim, sim. Às vezes até me dizem: 'eu já te tinha falado disto há dois anos'. Mas o que dá gosto é isto: projetos como a exposição Urban(R)Evolution e como o NOS Alive. É um privilégio trabalhar e fazer aquilo que se gosta, e ter a loucura suficiente para avançar nestas maluquices. No sentido financeiro, como é óbvio. 

 

O que anda a ouvir?


Um DJ, meio chillout Ibiza-Fermentera, chamado Satori. E continuo a ouvir os fantásticos The Teskey Brothers, tivemos um concerto deles em abril no Centro Cultural de Belém.

 

Por Rita Sousa Vieira

ENTREVISTA A ÁLVARO COVÕES
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