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Fotografias de David Tiago
A nordeste de Marrocos, a cerca de 40 quilómetros da fronteira com a Argélia, ergue-se Jerada, uma cidade cuja identidade foi moldada pela extração de carvão. Durante décadas, foi o único centro industrial de exploração carbonífera do país. Esse futuro, porém, colapsou no final da década de 1990, quando o encerramento das minas pelo governo deixou a cidade suspensa no vazio. Cerca de nove mil trabalhadores perderam o emprego e Jerada ficou entregue à incerteza.
As minas ilegais que hoje marcam o território nasceram mais da necessidade do que da escolha. São o reflexo de uma comunidade abandonada, forçada a descer diariamente às entranhas da terra para sobreviver. A extração improvisada, clandestina e sem condições de segurança garante um rendimento escasso, enquanto expõe os mineiros a riscos constantes, à doença e, em muitos casos, à morte.
A esta realidade somam-se empresas estrangeiras, maioritariamente europeias e asiáticas, atraídas pela mão de obra barata e por recursos ainda exploráveis. A riqueza gerada pelo carvão flui para fora da cidade, deixando para trás um território esgotado, marcado pela precariedade e pela promessa sempre adiada de prosperidade.
Jerada é hoje uma das cidades mais pobres de Marrocos que sobrevive através da
exploração ilegal de carvão e onde a vulnerável população carrega problemas de sílica ao peito e centenas de vidas perdidas no coração.
David Tiago Barbosa
(Braga, 1995)
David Tiago é um fotógrafo independente cujo trabalho se desenvolve a partir de uma relação profunda com o território, a vida e a experiência humana. A sua linguagem fotográfica nasce do encontro com histórias reais, muitas vezes invisíveis, onde a resiliência, a injustiça social e os direitos humanos se tornam matéria visual e narrativa.
Formado no Instituto Português de Fotografia, iniciou em 2021 o seu percurso no
fotojornalismo como fotógrafo freelancer na Global Imagens. Paralelamente ao trabalho editorial, desenvolve projetos autorais de longo prazo, onde a imagem funciona como ferramenta de memória, denúncia e reflexão.
O seu primeiro projeto, Invictus, distinguido com o Prémio Estação Imagem Coimbra
(2022), marca o início de um caminho centrado na força humana perante a adversidade. O projeto Jerada: The Valley of Resilience recebeu uma Menção Honrosa nos International Photography Awards (IPA) e alcançou projeção internacional, com publicações em meios como a SBS News, entre outros órgãos de comunicação social e revistas.
Atualmente, David Tiago continua a explorar a fotografia como um espaço de reflexão e resistência, procurando dar voz a realidades que existem à margem do olhar dominante.