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Fotografia2009
Vencedor

Mimesis
Miguel Godinho

"Mimesis é a arte de reproduzir, de imitar, de tomar por modelo, de assemelhar, de falsificar. O meu trabalho parte da relação entre o Homem e a natureza, da necessidade que o Homem sente em criar espaços e objectos numa tentativa de copiar a própria natureza através de reproduções artificiais.

 

Assim como Stephen Shore e Martin Parr, dois dos meus autores de referência, conhecidos por terem um olhar crítico sobre a sociedade moderna, especialmente sobre o consumismo, os costumes e hábitos quotidianos, a minha intenção foi a de documentar e caracterizar o consumismo crescente de objectos que reproduzem fielmente a natureza por acção do Homem. Esta necessidade de reprodução e imitação deve-se ao facto de o Homem ter a necessidade de interagir com a natureza, pois é parte integrante da mesma."

 

Miguel Godinho

BIOGRAFIA

Miguel Godinho vive e trabalha em Lisboa, onde nasceu em 1984.

Em 2003, inicia o curso de Arte e Tecnologias de Comunicação Audiovisual, na Escola Secundária Artística António Arroio.

Enquanto aluno da mesma escola, em 2005, conclui o Módulo de Formação de curta duração no Domínio: Fotografia Digital.

Decide frequentar o curso de fotografia no Ar.Co. – Centro de Arte & Comunicação Visual (Lisboa), a partir de 2007.

Ainda em 2007, participa no Workshop Organização e Disponibilização de informação em Arquivos Fotográficos - Relato da Experiência Do CPF - Centro Português de Fotografia.

Em 2008 termina o curso regular de fotografia no Ar.Co.

De 2008 a 2009, trabalha na Kameraphoto na parte de digitalização de imagens dos fotógrafos do colectivo kameraphoto.

Expõe desde 2006, com destaque para a exposição individual Nature (Kgaleria, Lisboa, 2008) e as colectivas, concurso Jovem Aposta em ti – Prémio de Fotografia, (Recreios da Amadora, Amadora, 2006), Finalistas do Curso Regular de Fotografia do Ar.Co, (no Centro de Arte & Comunicação Visual, Lisboa, 2008) e Identidade e simulacro Junho das Artes (Galeria casa do Pelourinho, Óbidos, 2009).

 

TEXTO DO JÚRI

Mimesis – a Natureza em nós

A captura fiel da natureza em parcelas facilmente transportáveis foi um dos principais desígnios que levou à descoberta da imagem fotográfica. Pode dizer-se que é da natureza da fotografia o propósito de registo do mundo vivo e da paisagem natural que nos rodeia. Ao espanto pueril que emana da largueza de vistas dos primeiros tempos, sucederam-se as missões fotográficas, as utópicas aspirações de classificação e registo e os românticos conjuntos que distinguiam socialmente o viajante regressado de lugares exóticos. Veio desse tempo Oitocentista uma imagem da natureza plácida, majestosa, terna, cândida e macia. Uma natureza adocicada por tons canela e sépia, escondida por brumas imensas de gosto academista.

A natureza sempre habitou a fotografia - está em si. Paradoxalmente, a escolha da natureza como tema referencial, como discurso narrativo ou exercício conceptual, não acompanhou essa omnipresença.

O desprezo pela natureza enquanto matéria de reflexão crítica ou enquanto alicerce fundamental de movimentos estilísticos na fotografia manteve-se por largas décadas do século XX. Talvez porque a desordem e a magnitude do que pode ser revelado a partir da natureza colidam com outro dos fundamentos da fotografia, o da ordem.

Que critérios usar para apreender tão grande objecto? Que abordagem deve ser privilegiada? A empírica? A sensorial-contemplativa? A documental? A conceptual? Porque é múltipla, perene e dinâmica, a natureza é terreno fértil para a dispersão, para o desfoque interpretativo.

As práticas fotográficas que, na década de 70, reinterpretaram a abordagem paisagística vinda da tradição de Oitocentos e o “estilo documental” de autores como Walker Evans e Ansel Adams formam uma resposta a essa volatilidade. Com elas surgem novas formas de cartografar e descrever os processos e as idiossincrasias da paisagem e uma crítica à exploração e destruição de espaços naturais. São as novas topografias baseadas na assunção e procura da imagem fotográfica como documento puro.

O projecto Mimesis de Miguel Godinho percorre um destes caminhos de metodologia rigorosa por onde a fotografia se reencontra com a natureza para aí ser protagonista e alvo de reflexão visual. É um trabalho que problematiza o relacionamento com os símbolos, as formas, os espaços e a vida que o ambiente natural nos oferece. Fundado numa aproximação que renuncia aos efeitos (mas que procura os artifícios), Mimesis (imitação, representação) encontra familiaridade nesse ideário estético dos anos 70 que originou múltiplas abordagens documentais topográficas e marcou o regresso à natureza como tema e problema (ecológico, social…) do discurso fotográfico.

A necessidade humana de estar ao lado da natureza, de se enquadrar nela e de a tomar como modelo é-nos dada ora por representações contemplativas e melancólicas, ora por paisagens íntimas, cruas e de pendor vernacular. As imagens de Mimesis não fogem à fealdade. Aceitam-na, incorporam-na como discurso. Porque o quotidiano que partilhamos com a Natureza nem sempre é deslumbrante e belo. A representação de cenas banais e objectos ordinários elevada por Stephen Shore (Nova Iorque, EUA, 1947), ainda num tempo de pioneirismo na utilização da cor, é uma referência assumida.

De maneira despretensiosa (mas eficaz), as fotografias de Miguel Godinho lembram, e de certa forma desmascaram, uma necessidade visual absoluta de assimilar e reproduzir os modelos da natureza, seja nas mais ínfimas manifestações do quotidiano, seja nas mais anacrónicas (ou esplendorosas) intervenções na paisagem. Os vazios urbanos (os baldios, os lugares sem qualidades) e a relação entre arquitectura e poder problematizados por John R. Gossage (Staten Island, EUA, 1946), bem como as periferias documentadas por Paulo Catrica (Lisboa, 1965), constituem referenciais importantes no trabalho de Miguel Godinho.

O campo da natureza como programa criativo tem sido muito explorado nas últimas décadas. A paisagem, por exemplo, deixou de ser há muito um tema antiquado para se tornar numa das mais férteis matérias de reflexão, uma corrente de trabalho impulsionada por novos problemas colocados por disciplinas como a arquitectura, a economia, o urbanismo ou a ecologia. Apesar da multiplicidade de propostas (e da sensação de que tudo já foi visualmente explorado), permanecerão vias alternativas de questionamento, como esta que Miguel Godinho encontrou. A presença da natureza no Homem, quase um enamoramento, e a interacção atabalhoada com o espaço vivo que dão forma a Mimesis enquadram-se nos mais pertinentes projectos criativos da actualidade e constituem terrenos não muito experimentados no contemporâneo panorama fotográfico português.

Júri do prémio NTFF 2009